{"id":556,"date":"2016-07-06T16:51:44","date_gmt":"2016-07-06T18:51:44","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=556"},"modified":"2018-08-06T14:42:27","modified_gmt":"2018-08-06T16:42:27","slug":"quando-duas-artes-se-encontram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/quando-duas-artes-se-encontram\/","title":{"rendered":"Quando duas artes se encontram"},"content":{"rendered":"<h4><strong><em>Pesquisador do IPUSP estuda as intersec\u00e7\u00f5es e correspond\u00eancias que nascem do encontro entre literatura e cinema em &#8220;Lavoura Arcaica&#8221;, de Raduan Nassar<\/em><br \/>\n<\/strong><\/h4>\n<p>Foi em uma mesa de bar que nasceu o projeto de estudo de Renato Cury Tardivo, doutor pelo IPUSP, terapeuta e professor universit\u00e1rio. Em um dos muitos encontros com os colegas, durante a gradua\u00e7\u00e3o em psicologia, o ent\u00e3o aluno falava sobre seus planos de uma inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica quando ouviu a providencial pergunta\u00a0de Jos\u00e9 Gomide Mochel, conhecido por \u201cMaranh\u00e3o\u201d: \u201cCara, voc\u00ea j\u00e1 viu\u00a0<em>Lavoura arcaica<\/em>?\u201d. Tardivo n\u00e3o havia visto. \u201cAinda\u201d, brinca ele.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/lavoura-arcaica2.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-563 size-full\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/lavoura-arcaica2.jpg\" alt=\"\" width=\"4724\" height=\"1254\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/lavoura-arcaica2.jpg 4724w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/lavoura-arcaica2-300x80.jpg 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/lavoura-arcaica2-768x204.jpg 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/lavoura-arcaica2-1024x272.jpg 1024w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/lavoura-arcaica2-400x106.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 4724px) 100vw, 4724px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Da leitura de\u00a0<em>Freud e seu duplo: investiga\u00e7\u00f5es entre a psican\u00e1lise e a arte<\/em>, de Noemi M. Kon, a \u201csugest\u00e3o\u201d de Maranh\u00e3o se estruturou. No livro, a psican\u00e1lise \u00e9 explorada em uma rela\u00e7\u00e3o com a est\u00e9tica das artes, em especial com as veredas liter\u00e1rias, o que inspirou Tardivo a estudar a correspond\u00eancia entre\u00a0<em>Lavoura arcaica<\/em>\u00a0(1975), de Raduan Nassar, e a obra cinematogr\u00e1fica hom\u00f4nima, de Luiz Fernando Carvalho (2001), em busca do substrato desse encontro: uma nova arte, um novo olhar. O pesquisador intentou elencar as possibilidades de sentidos que despontam do encontro entre a literatura e o cinema \u2013 ou, antes,entre o livro, com suas palavras e sentidos velados, e o filme, cuja c\u00e2mera \u00e9 \u201co olho que narra\u201d. Os estudos de Tardivo resultaram em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado,\u00a0que mais tarde seria publicada em livro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/11_AC.png\" alt=\"11 AC\" width=\"176\" height=\"221\" \/>Como consequ\u00eancia natural de um bem-aventurado projeto, seguiu-se sua tese de doutorado, que trabalha, al\u00e9m de\u00a0<em>Lavoura arcaica<\/em>, a correspond\u00eancia entre outras obras, como\u00a0<em>Abril despeda\u00e7ado\u00a0<\/em>e\u00a0<em>Budapeste<\/em>. Tardivo deu continuidade ao seu projeto, explorando agora, al\u00e9m da conformidade, os conflitos que surgem do embate entre duas artes, da leitura \u201cpo\u00e9tica-cr\u00edtica\u201d \u2013 assim chamada por ele \u2013 que se faz delas.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0\u00a0<strong>psico.<\/strong>usp, Tardivo conta um pouco mais sobre seus trabalhos e o modo como o olhar de duas artes cria um novo olhar, uma nova linguagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/15_AC.png\" alt=\"15 AC\" width=\"306\" height=\"339\" \/>psico.<\/strong>usp<strong>:\u00a0<\/strong><strong>Por que analisar cinema e literatura pela \u00f3tica da psicologia? Como se d\u00e1 essa aproxima\u00e7\u00e3o com as artes? E como surgiu a ideia de tratar essa tem\u00e1tica, com\u00a0<em>Lavoura arcaica<\/em>, em seu mestrado?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Renato Tardivo<\/strong>: Quando comecei a faculdade de psicologia, no IPUSP, j\u00e1 me interessava por psican\u00e1lise e literatura. Logo percebi que gostaria de pesquisar essa rela\u00e7\u00e3o. Durante a gradua\u00e7\u00e3o, tomei contato com o trabalho do prof. Jo\u00e3o A. Frayze-Pereira e com o Laborat\u00f3rio de Estudos em Psicologia da Arte, o LAPA, que ele coordenava na \u00e9poca. Ent\u00e3o, realizei uma inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica trabalhando com o romance\u00a0<em>Lavoura arcaica<\/em>, de Raduan Nassar. Nessa \u00e9poca, passei a me aproximar da linguagem do cinema e, assim, o projeto de mestrado, que trataria da correspond\u00eancia entre o\u00a0<em>Lavoura arcaica<\/em>(livro) e o filme hom\u00f4nimo, dirigido por Luiz Fernando Carvalho, foi tomando corpo no meu \u00faltimo ano de gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o entre a psicologia e as artes, o campo da Psicologia da Arte delineado pelo prof. Frayze \u00e9 eminentemente interdisciplinar. Nesse sentido, n\u00e3o se trata propriamente de analisar obras de arte pela \u00f3tica da psicologia de modo a reduzi-las a teorias ou conceitos psicol\u00f3gicos. De outro modo, a proposta encampada pelo prof. Frayze implica que o pesquisador empreenda um mergulho na obra, respeitando-a em sua singularidade e considerando-a em sua legalidade interna. Para isso, precisamos estudar hist\u00f3ria da arte, est\u00e9tica, cr\u00edtica de arte, filosofia&#8230; Nesse campo t\u00e3o amplo, movido por afinidades pessoais e est\u00e9ticas, tenho trabalhado com as linguagens da literatura e do cinema.<\/p>\n<p><strong>Em seus trabalhos voc\u00ea apresenta Merleau-Ponty como uma de suas orienta\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e metodol\u00f3gicas. De que forma os estudos desse fil\u00f3sofo aparecem aplicados ao seu projeto?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Maurice Merleau-Ponty foi um fil\u00f3sofo franc\u00eas, disc\u00edpulo de Husserl, respons\u00e1vel por importantes contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 Fenomenologia.\u00a0Dif\u00edcil falar de sua obra, que \u00e9 t\u00e3o complexa, em poucas palavras. Mas o aspecto que pode valer a pena ressaltar \u00e9 a perspectiva relacional apresentada por ele. Merleau-Ponty critica a postura assumida pelas vertentes do subjetivismo filos\u00f3fico, segundo o qual a consci\u00eancia cria mundo (distanciada dele), bem como critica o objetivismo cient\u00edfico.\u00a0A prop\u00f3sito, \u201cA ci\u00eancia manipula as coisas e renuncia habit\u00e1-las\u201d, ele afirma ao abrir o ensaio \u201cO olho e o esp\u00edrito\u201d. Assim, Merleau-Ponty prop\u00f5e que o conhecimento retorne ao seu ponto de partida, que \u00e9 o mergulho no sens\u00edvel. A consci\u00eancia, para ele, se conjuga com um corpo sens\u00edvel. Nessa medida, o fil\u00f3sofo busca ultrapassar a dicotomia dentro\/fora, sujeito\/objeto, e a chave para encaminhar a discuss\u00e3o \u00e9 a forma com a qual ele compreende o corpo: zona de fronteira entre mundo interno e mundo externo, pois est\u00e1 dentro e fora, \u00e9 sujeito e objeto \u2013 se v\u00ea, vendo; se toca, tocando etc. Merleau-Ponty faz, ainda, in\u00fameras refer\u00eancias \u00e0 arte, pois toma o trabalho do artista e a rela\u00e7\u00e3o da obra com o espectador como emblemas da constru\u00e7\u00e3o do conhecimento.\u00a0Trata-se de uma de minhas principais refer\u00eancias, pois \u00e9 o que buscamos ao aproximar\u00a0psicologia e est\u00e9tica: ultrapassar a redu\u00e7\u00e3o de uma \u00e0 outra e tom\u00e1-las em sua comunica\u00e7\u00e3o rec\u00edproca.<\/p>\n<p><strong>Al\u00e9m da fenomenologia de Merleau-Ponty, voc\u00ea diz em seu trabalho que suas orienta\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e metodol\u00f3gicas se desenvolveram, tamb\u00e9m, em cima do conceito de \u201cleitura implicada\u201d de seu orientador, Jo\u00e3o Frayze-Pereira. O que significa o conceito e de que forma ele se relaciona aos sentidos que uma obra acrescenta \u00e0 outra?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Em in\u00fameros artigos e no livro\u00a0<em>Arte, dor \u2013 inquietudes entre est\u00e9tica e psican\u00e1lise<\/em>, Jo\u00e3o A. Frayze-Pereira vem utilizando e desenvolvendo a express\u00e3o psican\u00e1lise implicada. Em linhas gerais, a psican\u00e1lise implicada \u00e9 aquela imbricada, engastada \u00e0quilo de que pretende falar (seja uma pessoa, uma obra de arte, um fen\u00f4meno da cultura). Contrap\u00f5e-se, assim, \u00e0 psican\u00e1lise aplicada (express\u00e3o cunhada pelo pr\u00f3prio Freud) porque n\u00e3o visa \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o de conceitos previamente constru\u00eddos. Esse uso, o da aplica\u00e7\u00e3o, \u00e9 extremamente perigoso porque pode ter por resultado a mera reprodu\u00e7\u00e3o daquilo que j\u00e1 se sabe. Por exemplo, se um analista winnicottiano aplica apressadamente no\u00e7\u00f5es dessa psican\u00e1lise em um primeiro contato com o seu cliente, s\u00e3o altas as chances de se distanciar desse outro (se \u00e9 que chegou a se abrir) e utiliz\u00e1-las como recept\u00e1culo para as no\u00e7\u00f5es da psican\u00e1lise em que ele acredita.\u00a0Trata-se de um uso tautol\u00f3gico, ideol\u00f3gico, portanto. Em dire\u00e7\u00e3o oposta, fundamentada por uma s\u00e9rie de autores \u2013 Merleau-Ponty entre eles \u2013, a no\u00e7\u00e3o de psican\u00e1lise implicada difundida pelo prof. Frayze assume a perspectiva relacional que se constr\u00f3i no encontro do pesquisador (terapeuta) com a obra (cliente). A leitura que decorre do encontro com uma singularidade \u00e9 tamb\u00e9m ela singular e solicita os conceitos que sirvam \u00e0quela obra (cliente) porque ela assim se fez comunicar.<br \/>\n<strong>Dessa comunica\u00e7\u00e3o rec\u00edproca entre duas linguagens, dois tipos de narrativas, nasce a terceira a que voc\u00ea se refere em sua disserta\u00e7\u00e3o? Como se d\u00e1 o processo para se chegar \u00e0 essa terceira narrativa e como ela se apresenta? Essa narrativa como resultado do embate de duas outras estaria relacionada \u00e0 sua fala ao dizer que \u201cH\u00e1 sempre um olhar direcionado \u00e0quilo que est\u00e1 ocorrendo; olhar que, ao fundar perspectiva, renova as demais leituras \u2013 um \u2018codevaneio\u2019\u201d?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Se, como falamos anteriormente, a leitura decorrente do encontro com um outro \u2013 ou no caso da minha pesquisa, com outra(s) obra(s) \u2013 \u00e9 singular, a terceira narrativa a que me refiro \u00e9 emblema dessa singularidade. Como eu trabalhei com duas obras (o romance e o filme) e com a correspond\u00eancia entre elas, foi-se me delineado, \u00e0 medida que redigia a disserta\u00e7\u00e3o, que toda narrativa \u00e9 marcada pela constru\u00e7\u00e3o de um olhar. E, mesmo que se tratasse de um trabalho acad\u00eamico (e, aqui, o fato de eu tamb\u00e9m escrever fic\u00e7\u00e3o certamente me ajudou), o texto que escrevi \u2013 publicado em seguida no livro\u00a0<em>Porvir que vem antes de tudo \u2013 literatura e cinema em Lavoura arcaica<\/em>\u00a0\u2013 n\u00e3o tinha a pretens\u00e3o de, por meio de academicismos, chegar \u00e0 verdade absoluta das obras, mas era, tamb\u00e9m ele, marcado por ambiguidades e met\u00e1foras sens\u00edveis. Em suma, toda resposta a uma narrativa \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o e, se sintonizada \u00e0 legalidade das obras, uma interpreta\u00e7\u00e3o que as continua, ou, como diz o italiano Luigi Pareyson, devolve-lhes a vida de que s\u00e3o feitas. Algo que se vive junto, um sonho que se sonha junto. Da\u00ed minha men\u00e7\u00e3o \u00e0 express\u00e3o \u201ccodevaneio\u201d, do fil\u00f3sofo franc\u00eas Mikel Dufrenne.<\/p>\n<p><strong>Quando se adapta a literatura para o cinema, algumas mudan\u00e7as, normalmente, se fazem necess\u00e1rias. H\u00e1 alguma falta significativa do livro na obra cinematogr\u00e1fica?<\/strong><\/p>\n<p>Como digo no trabalho, as diferentes linguagens, ainda que se correspondam, se abrem para especificidades. Logo, como apontado em sua pergunta, h\u00e1 \u201cadapta\u00e7\u00f5es que precisam ser feitas\u201d, escolhas a ser tomadas: por mais que o filme parta do livro, \u00e9 uma obra nova que nasce. Conquanto meus objetivos n\u00e3o fossem analisar a fidelidade do filme em rela\u00e7\u00e3o ao livro, eu n\u00e3o falaria em \u201cfalta significativa\u201d.<\/p>\n<p>Creio que h\u00e1 escolhas no filme marcadas pela preocupa\u00e7\u00e3o em ser fiel ao livro, nas minhas palavras, \u201cinst\u00e2ncia superegoica\u201d para o cineasta Luiz Fernando Carvalho e sua equipe. Como a obra\u00a0<em>Lavoura arcaica<\/em>\u00a0aborda as possibilidades e impossibilidades de di\u00e1logo entre pai e filho, velho e novo, parto da\u00ed para fazer uma analogia entre o di\u00e1logo do filme (novo) com o livro (velho). Do meu ponto de vista, esta \u00e9 uma das<br \/>\nprincipais diferen\u00e7as entre as duas obras: no romance, o retorno ao pai jamais se consuma; j\u00e1 no filme, ele se consuma no desfecho. Isso faz com que a temporalidade do romance seja espiralada e a do filme, circular.<\/p>\n<h6>Explorando os sentidos em\u00a0 &#8220;Lavoura arcaica&#8221;<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/13a_AC.png\" alt=\"13a AC\" width=\"293\" height=\"901\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/13b_AC.png\" alt=\"13b AC\" width=\"275\" height=\"900\" \/><\/h6>\n<h3><\/h3>\n<p><strong>Embrenhando-se j\u00e1 no universo de<em>\u00a0Lavoura arcaica<\/em>, como pode ser visto psicanaliticamente o que voc\u00ea se refere como \u201cevento mais significativo para a trama\u201d, um incesto que se estabelece entre os irm\u00e3os Andr\u00e9 e Ana? E j\u00e1 aproveitando o gancho das rela\u00e7\u00f5es\u00a0<\/strong><strong>familiares do protagonista, o que se pode ressaltar do v\u00ednculo dele com a m\u00e3e?<\/strong><\/p>\n<p>Andr\u00e9 era sufocado pelo excesso de afeto da m\u00e3e e pela rigidez da lei do pai. E ele explode no incesto com Ana, a irm\u00e3. \u00c9 um dos eventos mais significativos porque marca a fuga de Andr\u00e9 da casa e \u00e9 determinante para o desfecho tr\u00e1gico da trama. Em vez de considerar o incesto como uma quest\u00e3o apenas ed\u00edpica, qual seja, o modo de Andr\u00e9 consumar, por meio do corpo da irm\u00e3, a rela\u00e7\u00e3o sexual com a m\u00e3e, busco problematizar a quest\u00e3o.\u00a0E proponho que o incesto marca tanto a contesta\u00e7\u00e3o de Andr\u00e9 \u2013 porque se trata de um ato proibido \u2013 como a conserva\u00e7\u00e3o \u2013 porque \u00e9 uma forma de retorno radical \u00e0 estrutura familiar, e este retorno est\u00e1 contido no discurso endog\u00e2mico do pai.\u00a0O incesto, ainda, nos oferece elementos interessantes para pensar \u00a0a quest\u00e3o da ressignifica\u00e7\u00e3o das origens, quest\u00e3o cara a Andr\u00e9 em sua rela\u00e7\u00e3o com a fam\u00edlia e quest\u00e3o cara, tamb\u00e9m, \u00e0 correspond\u00eancia entre o romance e o filme. Por exemplo, quando Luiz Fernando Carvalho afirma que n\u00e3o h\u00e1 nada em seu filme que n\u00e3o esteja no livro, eu digo que esse discurso se reveste de tonalidades incestuosas. Por outro lado, \u00e9 justamente ao realizar uma obra que se corresponde com a obra de<br \/>\norigem e n\u00e3o a repete \u2013 como vimos h\u00e1 diferen\u00e7as significativas entre elas \u2013 que o filme se liberta das amarras do incesto.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nA sua tese de doutorado parece ser um fruto natural do sucesso do seu mestrado, que inclusive foi publicado em livro. Mas como surgiu esse \u201caprofundamento\u201d para um novo trabalho? O que vem al\u00e9m do \u201cPorvir que vem antes de tudo\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>Fazendo uma brincadeira com os t\u00edtulos dos trabalhos, diria que depois do\u00a0<em>Porvir que vem antes de tudo\u00a0<\/em>vieram as\u00a0<em>Cenas em jogo\u00a0<\/em>(t\u00edtulo do doutorado). E talvez seja isso mesmo. Al\u00e9m ou aqu\u00e9m do \u201cporvir que vem antes de tudo\u201d, resta a vida. No mestrado eu descobri uma forma de ler\/analisar obras, mas, por mais que tenha explicitado essa descoberta, n\u00e3o me debrucei propriamente sobre isso: meu interesse era a correspond\u00eancia do livro com o filme. Ent\u00e3o, no doutorado, a proposta foi, a partir do meu encontro com outras obras, outras cenas (optamos por incluir a correspond\u00eancia em\u00a0<em>Lavoura arcaica<\/em>\u00a0como primeiro cap\u00edtulo, justamente pelo car\u00e1ter de continuidade da pesquisa), poder pensar e fundamentar essa forma de leitura \u2013 que eu denominei \u201cpo\u00e9tica-cr\u00edtica\u201d. Das leituras das obras (livros e filmes), emergiram os seguintes temas: liberdade e opress\u00e3o; ressignifica\u00e7\u00e3o da lei e pervers\u00e3o; realidade e fic\u00e7\u00e3o; reflex\u00e3o sobre os mecanismos de constru\u00e7\u00e3o da verdade. Essa resposta (po\u00e9tica) \u00e0s obras que as continua, que se vale de ambiguidades etc. \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de cr\u00edtica porque se movimenta a partir de conflitos, embates, traz o novo, ultrapassa o institu\u00eddo.<\/p>\n<p><strong><br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/14_AC.png\" alt=\"14 AC\" \/>Em seu \u00faltimo projeto, voc\u00ea diz trabalhar certos \u201cmecanismos de constru\u00e7\u00e3o da verdade\u201d. Qual a rela\u00e7\u00e3o desses mecanismos com seu processo metodol\u00f3gico?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Eduardo Coutinho, um dos mais inventivos documentaristas brasileiros, dirigiu uma das obras que analisei no doutorado:\u00a0<em>Jogo de cena<\/em>. Considero o cap\u00edtulo dedicado a esse filme a espinha dorsal da pesquisa, justamente pela quest\u00e3o dos \u201cmecanismos de constru\u00e7\u00e3o da verdade\u201d. Coutinho subverteu a linguagem documental ao evidenciar o quanto h\u00e1 de fic\u00e7\u00e3o nela, e vice-versa. Uma das marcas de seu cinema documental \u2013 que talvez tenha atingido o ponto m\u00e1ximo em<em>\u00a0Jogo de cena\u00a0<\/em>\u2013 n\u00e3o \u00e9 filmar a verdade, como apressadamente pensamos sobre document\u00e1rios, mas filmar os mecanismos de constru\u00e7\u00e3o da verdade. Isso faz toda a diferen\u00e7a, porque n\u00e3o considera que exista uma (\u00fanica) realidade a ser filmada e, mais ainda, evidencia-se que as personagens (reais) se constroem na rela\u00e7\u00e3o com o documentarista e o aparato. Mant\u00e9m-se a ambiguidade. Isso vale tamb\u00e9m para o meu percurso metodol\u00f3gico: refletir no cap\u00edtulo final os mecanismos de constru\u00e7\u00e3o das leituras \u00e9 explicitar os mecanismos de constru\u00e7\u00e3o da verdade da pr\u00f3pria tese. Como escrevo no fim do trabalho: \u201cA ambiguidade, vivenciada dessa perspectiva, tende \u00e0 multiplicidade, isto \u00e9, em vez de falsamente se resolver, ela se potencializa. Ora, se toda forma de apreens\u00e3o e registro da realidade se d\u00e1 pela via da fic\u00e7\u00e3o, toda fic\u00e7\u00e3o assenta-se \u00e0 realidade. De resto, qualquer tentativa de apreens\u00e3o definitiva da realidade fracassa. A pr\u00f3pria fotografia n\u00e3o foi capaz de faz\u00ea-lo: para a foto existir, \u00e9 necess\u00e1rio um quantum de luz em um per\u00edodo de tempo. Apreens\u00e3o infinita: instantes que, de t\u00e3o reais, d\u00e3o a volta toda. Viram fic\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Por Aryanna Oliveira<br \/>\nEdi\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o por Islaine Maciel e Maria Isabel da Silva Leme<\/p>\n<p>Clique nas imagens para folhear as revistas\u00a0<strong>psico.<\/strong>usp<\/p>\n<div id=\"attachment_935\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 152px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\"><a href=\"https:\/\/issuu.com\/psicologia_usp\/docs\/revista_psico.usp_n1_2015\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-935 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png\" alt=\"\" width=\"142\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png 307w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2-226x300.png 226w\" sizes=\"(max-width: 142px) 100vw, 142px\" \/><\/a>Alfabetiza\u00e7\u00e3o \u2013 2015, n. 1<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"attachment_933\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 150px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\"><a href=\"https:\/\/issuu.com\/psicologia_usp\/docs\/revista_psico.usp_n._2-3_2016\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-933 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png\" alt=\"\" width=\"140\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png 305w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1-224x300.png 224w\" sizes=\"(max-width: 140px) 100vw, 140px\" \/><\/a>\u00c9 hora de falar sobre G\u00eanero \u2013 2016, n.2\/3<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisador do IPUSP estuda as intersec\u00e7\u00f5es e correspond\u00eancias que nascem do encontro entre literatura e cinema em &#8220;Lavoura Arcaica&#8221;, de&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":565,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[3],"tags":[143,137,150,152,17,151,22],"class_list":["post-556","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arte-e-cultura","tag-arte","tag-cinema","tag-lavoura-arcaica","tag-literatura","tag-psicologia","tag-raduan-nassar","tag-usp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/556","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=556"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/556\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2087,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/556\/revisions\/2087"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/565"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=556"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=556"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=556"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}