{"id":6012,"date":"2024-06-06T19:01:21","date_gmt":"2024-06-06T21:01:21","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=6012"},"modified":"2024-06-07T13:11:46","modified_gmt":"2024-06-07T15:11:46","slug":"sobre-suicidio-e-violencia-autodirigida-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/sobre-suicidio-e-violencia-autodirigida-no-brasil\/","title":{"rendered":"Sobre suic\u00eddio e viol\u00eancia autodirigida no Brasil"},"content":{"rendered":"<div class=\"entry-content clr\">\n<div id=\"attachment_6016\" style=\"width: 605px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2024\/06\/indigena-suicidio.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6016\" class=\"size-full wp-image-6016\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2024\/06\/indigena-suicidio.png\" alt=\"\" width=\"595\" height=\"363\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2024\/06\/indigena-suicidio.png 595w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2024\/06\/indigena-suicidio-300x183.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2024\/06\/indigena-suicidio-400x244.png 400w\" sizes=\"(max-width: 595px) 100vw, 595px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6016\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Leonardo Prado\/Funai<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um\u00a0<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.lana.2024.100691\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">estudo da Fiocruz<\/a>\u00a0publicado no in\u00edcio do ano aponta que na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo 21, no mundo, houve uma redu\u00e7\u00e3o significativa de suic\u00eddios. Contudo, nas Am\u00e9ricas a taxa cresceu muito e, s\u00f3 no Brasil, o n\u00famero de casos subiu 46% entre 2000 e 2019. Quando observadas as categorias ra\u00e7a e etnia, entretanto, notadamente pessoas ind\u00edgenas apresentam as maiores taxas de suic\u00eddio e de viol\u00eancia autodirigida, seguido de pessoas pardas, no ano de 2022.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 relevante refletir sobre esses dados para a compreens\u00e3o dos impactos rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais no Brasil sobre processos psicol\u00f3gicos. N\u00e3o \u00e9 por acaso que pessoas ind\u00edgenas, seguidas das pardas, apresentam os maiores \u00edndices.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cabe ressaltar que o termo pardo foi utilizado em Pindorama \u2014 um dos termos ind\u00edgenas que identificam a terra das palmeiras, muito antes de ser rebatizada pelos novos colonizadores para a terra do pau-brasil \u2014 pela primeira vez, para descrever o corpo de pessoas ind\u00edgenas. O processo de coloniza\u00e7\u00e3o realizou in\u00fameros esfor\u00e7os para apagamento das identidades ind\u00edgenas, quando n\u00e3o efetivada a elimina\u00e7\u00e3o da vida de pessoas e comunidades inteiras. Ind\u00edgenas foram massivamente classificados como negros da terra, caboclos ou mesti\u00e7os. Tiveram seus costumes e pr\u00e1ticas proibidos\u2014ainda vemos no notici\u00e1rio ser frequente a queimada violenta de casas tradicionais ind\u00edgenas. As pr\u00f3prias l\u00ednguas ind\u00edgenas foram exclu\u00eddas do repert\u00f3rio comunicativo por for\u00e7a de imposi\u00e7\u00f5es sociais ex\u00f3ticas, ou sejam, vindas do estrangeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das raz\u00f5es para pardo ser a categoria no quesito ra\u00e7a-cor do censo demogr\u00e1fico com maior n\u00famero de indiv\u00edduos, se relaciona com o apagamento da mem\u00f3ria hist\u00f3rica de viola\u00e7\u00f5es sofridas por pessoas e comunidades que hoje, muitas vezes, desconhecem sua pr\u00f3pria origem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 meados do s\u00e9culo 20, foram patrocinadas, no Brasil, diversas experi\u00eancias sociais que tiveram a mesti\u00e7agem no centro de uma concep\u00e7\u00e3o eugenista segundo a qual o aprimoramento do indiv\u00edduo estaria baseado no fen\u00f3tipo, com destaque para tra\u00e7os f\u00edsicos. Tal concep\u00e7\u00e3o sup\u00f5e que o indiv\u00edduo poderia prescindir de refer\u00eancias quanto ao processo de consci\u00eancia hist\u00f3rica da pr\u00f3pria identidade. Tratava-se de diluir as diferen\u00e7as e esquecer as pervers\u00f5es das gest\u00f5es passadas, que promoveram o assassinato e a escravid\u00e3o de milh\u00f5es de pessoas, em propor\u00e7\u00f5es nunca antes nem depois vistas na hist\u00f3ria da humanidade. Para a suposta constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade idealmente fraterna entre indiv\u00edduos equivalentes, que n\u00e3o mais se saberiam ind\u00edgenas ou negros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, em psicologia, sabemos que a produ\u00e7\u00e3o do esquecimento n\u00e3o contribui para o cuidado com aquilo que faz sofrer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Discuss\u00f5es antropol\u00f3gicas e da \u00e1rea t\u00e9cnica de sa\u00fade mental e medicinas tradicionais ind\u00edgenas, vinculada ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, enfatizam a import\u00e2ncia de n\u00e3o se naturalizar os dados epidemiol\u00f3gicos como uma condi\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca de pessoas identificadas em uma ou outra categoria \u00e9tnico-racial ou de pertencimento cultural. Em um document\u00e1rio da TV Brasil, na s\u00e9rie\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=7QnqOgLwwMk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Caminhos da Reportagem<\/a>, \u00e9 poss\u00edvel encontrar, de forma acess\u00edvel, argumentos na dire\u00e7\u00e3o de que os conflitos sociais que se desdobram das persistentes viola\u00e7\u00f5es de direitos ind\u00edgenas produzem intenso sofrimento e impactam de maneira inequ\u00edvoca, os \u00edndices de suic\u00eddio e viol\u00eancia autodirigida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos argumentos apresentados por especialistas ind\u00edgenas consultados no document\u00e1rio, para compreens\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o alarmante de agravos em sa\u00fade em que nos encontramos, articula o impacto exercido por viola\u00e7\u00f5es de direitos de pessoas e comunidades que inviabilizam ou dificultam seus modos de vida. Dificultar, inviabilizar ou confundir o pertencimento das pessoas \u00e0s suas ra\u00edzes socioculturais e \u00e9tnico-raciais t\u00eam, como um dos efeitos, o sofrimento psicol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, por sua vez, sup\u00f5e esfor\u00e7os para a recupera\u00e7\u00e3o de direitos e a afirma\u00e7\u00e3o da identidade por meio das pr\u00e1ticas coletivas e pessoais de cuidado com o territ\u00f3rio e com os corpos-territ\u00f3rios das pessoas e demais seres com os quais convivem. A no\u00e7\u00e3o de sa\u00fade deve incluir as rela\u00e7\u00f5es socioambientais como parte de um processo din\u00e2mico. A sa\u00fade n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o individual ou um resultado atingido como aquisi\u00e7\u00e3o pontual, nem ponto de chegada. Diferente disso, sa\u00fade tem a ver com a formas de percorrer o caminho da vida, de estabelecer rela\u00e7\u00f5es segundo processos de cuidado, que s\u00e3o pessoais e coletivos, entre comunidades de seres diversos que coexistem e se implicam mutuamente num dado lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, \u00e9 importante reconhecer e tornar vis\u00edvel, no debate sobre pol\u00edticas p\u00fablicas, a\u00e7\u00f5es afirmativas de inclus\u00e3o e pertencimento, que a luta por direitos territoriais e a afirma\u00e7\u00e3o da identidade por meios de pr\u00e1ticas ancestrais s\u00e3o, tamb\u00e9m, caminhos ind\u00edgenas de promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00a0<a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/editorias\/articulistas\/danilo-silva-guimaraes\/\">Danilo Silva Guimar\u00e3es<\/a>, professor do Instituto de Psicologia da USP<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_______________<br \/>\n<em>(As opini\u00f5es expressas pelos articulistas do\u00a0<strong>Jornal da USP<\/strong>\u00a0s\u00e3o de inteira responsabilidade de seus autores e n\u00e3o refletem opini\u00f5es do ve\u00edculo nem posi\u00e7\u00f5es institucionais da Universidade de S\u00e3o Paulo. Acesse aqui nossos\u00a0<a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/noticias\/parametros-editoriais-para-artigos-de-opiniao-no-jornal-da-usp\/\">par\u00e2metros editoriais para artigos de opini\u00e3o<\/a>.)<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um\u00a0estudo da Fiocruz\u00a0publicado no in\u00edcio do ano aponta que na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo 21, no mundo, houve uma redu\u00e7\u00e3o&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":6016,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[3,1],"tags":[88],"class_list":["post-6012","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arte-e-cultura","category-sociedade","tag-indios"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6012","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6012"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6012\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6017,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6012\/revisions\/6017"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6016"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6012"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6012"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6012"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}