{"id":616,"date":"2016-07-06T17:07:53","date_gmt":"2016-07-06T19:07:53","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=616"},"modified":"2018-08-06T14:47:30","modified_gmt":"2018-08-06T16:47:30","slug":"616-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/616-2\/","title":{"rendered":"Circo: reelabora\u00e7\u00e3o de uma cultura"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Falta\u00a0de terrenos\u00a0e retirada dos animais do\u00a0picadeiro\u00a0fazem parte das ang\u00fastias do circense no Brasil<\/strong><\/em><\/p>\n<table border=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td valign=\"top\">\n<div style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/FOTO_2_L.E_TB.png\" alt=\"FOTO 2 L.E TB\" width=\"640\" height=\"361\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Foto: L.E.<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: left;\">As particularidades do estilo de vida circense e as dificuldades que o circo v\u00eam enfrentando no Brasil s\u00e3o quest\u00f5es trazidas pela psic\u00f3loga Suara Bastos em seu mestrado, realizado no Instituto de Psicologia da USP. Embora o circo fa\u00e7a parte do imagin\u00e1rio coletivo, este \u00e9 um universo ainda pouco pesquisado no Brasil e com escassos dados oficiais. Dos 26 estados brasileiros mais o distrito federal, apenas Bahia e Pernambuco apresentam projetos de mapeamento sociodemogr\u00e1fico do circo, ambos ainda em andamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A pesquisadora, que j\u00e1 foi artista de circo, realizou entrevistas com seis circenses e pediu a eles que tirassem fotos de lugares do circo que lhes fossem significativos. \u201cAs fotos complementaram a an\u00e1lise das narrativas e dos di\u00e1logos\u201d, explica Suara. Foram retratados desde o picadeiro at\u00e9 uma discreta parte externa da lona, e mesmo a resid\u00eancia de um dos participantes, um \u201c\u00f4nibus-trailer\u201d decorado, limpo e organizado \u2014 orgulho de\u00a0seus moradores, de acordo com sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Com base no\u00a0<em>Construtivismo Semi\u00f3tico Cultural<\/em>, Suara parte do princ\u00edpio de que o espa\u00e7o cultural \u2014 neste caso, o circo, no qual um indiv\u00edduo se desenvolve \u00e9 fundamental para o modo como ele construir\u00e1 os significados ao longo de sua vida. Este espa\u00e7o cultural, que n\u00e3o se limita ao ambiente f\u00edsico, \u00e9 constitu\u00eddo pelas nossas rela\u00e7\u00f5es com o outro, e \u201cesse \u2018outro\u2019 n\u00e3o \u00e9 necessariamente outra pessoa, pode ser o pr\u00f3prio indiv\u00edduo ou um objeto\u201d, afirma Suara.<\/p>\n<h6><strong>Andantes mas n\u00e3o errantes<\/strong><\/h6>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas mais pr\u00f3prias da cultura do circo \u00e9 a itiner\u00e2ncia. Diferentemente de comunidades n\u00f4mades, como os ciganos, com os quais \u00e0s vezes s\u00e3o confundidos, os circenses possuem itiner\u00e1rio predeterminado pelo lugar do pr\u00f3ximo espet\u00e1culo. E este local, muitas vezes, s\u00f3 fica sendo conhecido no dia da mudan\u00e7a, isso porque deve-se\u00a0 antes resolver quest\u00f5es como a escolha do terreno e o\u00a0respeito \u00e0s normas de cada cidade, podendo sempre dar algo errado na \u00faltima hora e ser preciso sair \u00e0 procura de outro lugar. A falta de terrenos bem localizados foi uma das dificuldades apontadas pelos entrevistados. Na Bahia, 34% dos circenses mapeados reclamam da car\u00eancia de terrenos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/Palha%C3%A7o.png\" alt=\"Palha\u00e7o\" width=\"250\" height=\"333\" \/>A itiner\u00e2ncia acaba por estabelecer muitas das peculiaridades do estilo de vida no circo. \u00c9 justamente devido aos constantes deslocamentos que o circense leva consigo seus pertences, sua moradia e sua fam\u00edlia, sendo comum que todos os membros trabalhem juntos no circo, transmitindo esta cultura de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. \u201cEles est\u00e3o sempre com a esposa, com os pais, com os filhos\u201d, afirma a psic\u00f3loga, que ainda acrescenta: \u201cEles v\u00eaem os filhos crescerem\u201d. Suara tamb\u00e9m comenta que os circenses gostam de viajar e viver dessa maneira, sendo frequentes os relatos de que quando ficam muito tempo em um lugar, sentem falta da estrada.<\/p>\n<p>Contudo, o viver itinerante tamb\u00e9m traz dificuldades, como na educa\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo em que crian\u00e7as circenses aprendem habilidades e n\u00fameros art\u00edsticos, elas tamb\u00e9m frequentam a escola convencional, direito garantido por lei desde 1978. Segundo Suara, os participantes da pesquisa que t\u00eam filhos ou netos valorizam o ensino formal e dizem ser importante que seus descendentes tenham uma outra profiss\u00e3o, para o caso de n\u00e3o quererem seguir carreira no circo. A pesquisadora sugere estudos que avaliem se o ensino regular \u00e9 \u201cum bom modelo de educa\u00e7\u00e3o\u201d para \u201cuma popula\u00e7\u00e3o t\u00e3o espec\u00edfica quanto a circense\u201d, j\u00e1 que a frequente mudan\u00e7a de escola possivelmente dificulte o aprendizado. Ela ainda acrescenta que, se for o caso, tais pesquisas poderiam \u201cpropor e testar outras poss\u00edveis metodologias de ensino\u201d\u00a0para essas crian\u00e7as.<\/p>\n<h6><strong>Os \u00e2nimos sem animais<\/strong><\/h6>\n<p style=\"text-align: left;\">Lidar com a progressiva retirada dos animais dos picadeiros brasileiros vai al\u00e9m da cria\u00e7\u00e3o de n\u00fameros sem animais. Justamente por se tratar de uma cultura tradicional que desde sua origem teve os animais presentes, sua proibi\u00e7\u00e3o nos espet\u00e1culos envolve mudar a pr\u00f3pria identidade do circo. Um participante\u00a0coloca que qualquer coisa que seja sobre circo, como uma m\u00fasica ou uma poesia, fala necessariamente dos bichos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Embora o Brasil ainda n\u00e3o tenha uma lei federal (h\u00e1 um projeto de lei em tramita\u00e7\u00e3o) que pro\u00edba a presen\u00e7a de animais nos espet\u00e1culos circenses, dez estados (SP, RJ, MG, ES, PR,, RS, AL, PE, PB, MS),\u00a0j\u00e1 n\u00e3o\u00a0o permitem em seus territ\u00f3rios. Se considerarmos que estas dez unidades federativas juntas, segundo estimativa do IBGE,\u00a0 concentram 70,3% dos circenses, percebe-se que, na pr\u00e1tica, a maioria dos circos j\u00e1 est\u00e1 tendo que se adaptar a essa nova condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Todos os participantes da pesquisa trabalham em um circo que n\u00e3o mais se utiliza de animais. Para eles, al\u00e9m da queda na bilheteria, as crian\u00e7as tamb\u00e9m perderam, pois podiam conhecer e\u00a0 manter contato com v\u00e1rias esp\u00e9cies. Houve tamb\u00e9m cr\u00edticas a respeito da forma como as leis proibitivas v\u00eam sendo impostas ao circo sem qualquer debate que possibilite alternativas. Suara informa que enquanto pa\u00edses como Bol\u00edvia, China, Gr\u00e9cia e Peru pro\u00edbem o uso de animais, Alemanha, Chile, Estados Unidos, Fran\u00e7a e M\u00e9xico \u201cpermitem a apresenta\u00e7\u00e3o dos animais no picadeiro desde que sigam regras alimentares, de acomoda\u00e7\u00e3o e de cuidados com sa\u00fade.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Para a pesquisadora, a intensidade dos relatos em rela\u00e7\u00e3o a este assunto\u00a0 mostra o impacto que a retirada dos animais tem causado, sendo necess\u00e1rio que p\u00fablico e circenses \u201cencontrem\u00a0 formas de lidar com essa inesperada ruptura\u201d, adequando-se \u00e0 nova realidade que traz ainda outros provlemas, presentes nas falas dos entrevistados: falta de apoio pol\u00edtico, concorr\u00eancia com circos estrangeiros e com outras formas de entretenimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Todas as dificuldades apresentadas podem levar o leitor a pensar que o sorriso do palha\u00e7o desaparece no momento em que o artista tira a maquiagem, ao menos para os seis circenses entrevistados no estudo. Entretanto, a pesquisadora relata que em diversos momentos, por meio das entrevistas e das fotografias, se percebe o encantamento que os participantes t\u00eam pelo circo.\u00a0 Falas como \u201co circo \u00e9 uma poesia\u201d, \u201co picadeiro \u00e9 sagrado\u201d, \u201cviver no circo \u00e9 gostoso\u201d e \u201co picadeiro \u00e9 um sorrir completo\u201d mostram que o fasc\u00ednio n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 do respeit\u00e1vel p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/www.teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/47\/47132\/tde-20082013-100303\/pt-br.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pesquisa de Suara Bastos\u00a0\u2013\u00a0clique\u00a0<strong>aqui<\/strong>.<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Por Tatiana Iwata e Fernanda Maranha<br \/>\nEdi\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o por Islaine Maciel<\/p>\n<p>Clique nas imagens para folhear as revistas\u00a0<strong>psico.<\/strong>usp<\/p>\n<div id=\"attachment_935\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 152px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\"><a href=\"https:\/\/issuu.com\/psicologia_usp\/docs\/revista_psico.usp_n1_2015\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-935 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png\" alt=\"\" width=\"142\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png 307w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2-226x300.png 226w\" sizes=\"(max-width: 142px) 100vw, 142px\" \/><\/a>Alfabetiza\u00e7\u00e3o \u2013 2015, n. 1<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"attachment_933\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 150px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\"><a href=\"https:\/\/issuu.com\/psicologia_usp\/docs\/revista_psico.usp_n._2-3_2016\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-933 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png\" alt=\"\" width=\"140\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png 305w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1-224x300.png 224w\" sizes=\"(max-width: 140px) 100vw, 140px\" \/><\/a>\u00c9 hora de falar sobre G\u00eanero \u2013 2016, n.2\/3<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falta\u00a0de terrenos\u00a0e retirada dos animais do\u00a0picadeiro\u00a0fazem parte das ang\u00fastias do circense no Brasil As particularidades do estilo de vida circense&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":617,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[3],"tags":[161,162,164,84,17,163,22],"class_list":["post-616","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arte-e-cultura","tag-circo","tag-construtivismo","tag-cultural","tag-memoria","tag-psicologia","tag-semiotico","tag-usp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/616","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=616"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/616\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2093,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/616\/revisions\/2093"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/617"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=616"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=616"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=616"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}