{"id":6397,"date":"2025-01-14T17:17:33","date_gmt":"2025-01-14T19:17:33","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=6397"},"modified":"2025-02-28T12:04:20","modified_gmt":"2025-02-28T14:04:20","slug":"6397-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/6397-2\/","title":{"rendered":"Identidades fixas n\u00e3o descrevem as experi\u00eancias de muitas pessoas e produzem apagamentos hist\u00f3ricos"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_6398\" style=\"width: 784px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2025\/01\/Foto-Shutterstock-Joao-Bidu.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6398\" class=\"size-full wp-image-6398\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2025\/01\/Foto-Shutterstock-Joao-Bidu.png\" alt=\"\" width=\"774\" height=\"432\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2025\/01\/Foto-Shutterstock-Joao-Bidu.png 774w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2025\/01\/Foto-Shutterstock-Joao-Bidu-300x167.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2025\/01\/Foto-Shutterstock-Joao-Bidu-768x429.png 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2025\/01\/Foto-Shutterstock-Joao-Bidu-310x174.png 310w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2025\/01\/Foto-Shutterstock-Joao-Bidu-400x223.png 400w\" sizes=\"(max-width: 774px) 100vw, 774px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6398\" class=\"wp-caption-text\">Foto Shutterstock Jo\u00e3o Bidu<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 quem considere que, para alguma coisa ser verdadeira, ela n\u00e3o pode ser amb\u00edgua ou ambivalente, de modo que a verdade eliminaria as contradi\u00e7\u00f5es, apenas aparentemente experimentadas no mundo. Debates atuais sobre identidade enfrentam estes pressupostos, produzindo separa\u00e7\u00f5es e exclus\u00f5es na hist\u00f3ria do conhecimento e das rela\u00e7\u00f5es sociais. Por exemplo, se uma pessoa \u00e9 parda, ent\u00e3o n\u00e3o seria ind\u00edgena, se algo \u00e9 branco, n\u00e3o pode ser preto. Mas diversas experi\u00eancias que acontecem ao longo da hist\u00f3ria nos mostram algo diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Pero Vaz de Caminha, em 1500, registrou suas impress\u00f5es sobre a terra no primeiro documento escrito na hist\u00f3ria do que veio a ser posteriormente chamado Brasil, ele afirma ter encontrado pessoas pardas, um tanto avermelhadas. De modo que a primeira vez que o termo pardo foi utilizado aqui foi, ent\u00e3o, para descrever pessoas ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos s\u00e9culos depois o termo \u201cpardo\u201d passou a ser utilizado como categoria \u00e9tnico-racial no Brasil. No Censo de 1940 a categoria \u201cpardo\u201d passou a ser utilizada para definir a combina\u00e7\u00e3o de heran\u00e7as africanas e ind\u00edgenas na ancestralidade das fam\u00edlias das pessoas brasileiras. Designada como mesti\u00e7agem, que n\u00e3o \u00e9 reduzida a cor ou tra\u00e7os fenot\u00edpicos f\u00edsicos, mas tamb\u00e9m remete \u00e0 consci\u00eancia hist\u00f3rica, ou seja, mem\u00f3ria representada de experi\u00eancias de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As respostas ao Censo passaram a exigir uma tomada de posi\u00e7\u00e3o das pessoas entrevistadas, escolhendo por uma ou outra classifica\u00e7\u00e3o para os fins de produ\u00e7\u00e3o de dados populacionais. Com isso, promoveu-se tamb\u00e9m um apagamento da hist\u00f3ria, dado que ao responder simplesmente \u201cpardo\u201d, n\u00e3o s\u00e3o explicitados os nomes das comunidades de pertencimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cria\u00e7\u00e3o da categoria pardo se deu num per\u00edodo em que concep\u00e7\u00f5es eugenistas estavam em alta na ci\u00eancia. Ou seja, a tese de que haveria diferentes ra\u00e7as humanas e que umas seriam superiores \u00e0s outras. A ci\u00eancia teria o papel de contribuir para a evolu\u00e7\u00e3o racial, que significava a elimina\u00e7\u00e3o ativa daqueles ou daquilo que era identificado como inferior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas concep\u00e7\u00f5es predominaram por d\u00e9cadas at\u00e9 serem derrubadas enquanto propostas cientificamente v\u00e1lidas. Isto s\u00f3 foi poss\u00edvel porque a boa ci\u00eancia \u00e9 aquela que tem disponibilidade para rever suas concep\u00e7\u00f5es quando diante de dados e argumentos pertinentes. \u00c9 preciso abrir espa\u00e7o para que tais dados e argumentos sejam produzidos em vez de eliminar e excluir os interlocutores que s\u00e3o seus porta-vozes. \u00c9 relevante criar oportunidades de debate e dialogar sempre que poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As categorias socialmente difundidas participam da cria\u00e7\u00e3o da realidade social de que as pessoas fazem parte, embora grande parte das pessoas permane\u00e7a em zonas fronteiri\u00e7as, nas quais uma ou outra categoria n\u00e3o se adequa bem. Por isso se diz que a linguagem, em grande medida, cria o mundo. Ela fraciona o real e promove a percep\u00e7\u00e3o das pessoas e das coisas. Ao mesmo tempo, as experi\u00eancias ambivalentes e amb\u00edguas demandam a elabora\u00e7\u00e3o de categorias de an\u00e1lise, necess\u00e1rias \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o dos sentimentos, pensamentos e das a\u00e7\u00f5es dirigidas para os fins de interesse pessoal e social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a\u00ed que as concep\u00e7\u00f5es de verdade duras, excludentes das ambiguidades e ambival\u00eancias, perigam dar saltos desastrosos e violentos ao serem aplicadas para a solu\u00e7\u00e3o de impasses concretos. O medo das misturas tende a produzir movimentos bruscos para elimina\u00e7\u00e3o daquilo que \u00e9 tomado como amea\u00e7ador. O medo dos seres fronteiri\u00e7os \u00e9, tamb\u00e9m, fundacional da psicologia enquanto ci\u00eancia e profiss\u00e3o que lida com percursos de vida situados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A feitura de novas categorias \u00e9 uma forma de deslocar a quest\u00e3o sem, necessariamente, resolv\u00ea-la. Com a cria\u00e7\u00e3o de novas categorias h\u00e1 a possibilidade de nomear identidades antes invisibilizadas, gerando novas fronteiras e novas zonas de indefini\u00e7\u00e3o. A mudan\u00e7a na classifica\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica, invertendo os polos de domin\u00e2ncia ou tentando igual\u00e1-los, por exemplo, o oprimido se tornar opressor, n\u00e3o enfrenta a quest\u00e3o de que existem dimens\u00f5es que permanecem amb\u00edguas ou desencaixadas e que demandam aten\u00e7\u00e3o cuidadosa. Diante disto, torna-se mais pertinente olhar para a hist\u00f3ria, e para as hist\u00f3rias que as pessoas podem contar, sustentando a possibilidade de lidar com o ambivalente e o amb\u00edguo, sem se apressar em format\u00e1-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pesquisa valiosa sobre como tecedoras Mapuche do Chile identificam suas produ\u00e7\u00f5es, publicada em<a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/books\/cambridge-handbook-of-identity\/1E155093A356FBD2792112904D027FC8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a0<em>The Cambridge Handbook on Identity<\/em><\/a>, organizado por Michael Bamberg, Carolin Demuth e Meike Watzlawik no ano de 2021, pode ser tomada como um caso paradigm\u00e1tico para as reflex\u00f5es colocadas aqui. Nas belas produ\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas de tecido, as mulheres produzem com pigmentos naturais usados pelos antigos e com pigmentos industrializados mais acess\u00edveis hoje. Produzem grafismos da simbologia ancestral e grafismos modificados pelas exig\u00eancias de comercializa\u00e7\u00e3o, dentre outras press\u00f5es sociais contempor\u00e2neas. Quando perguntadas sobre qual tecido \u00e9 verdadeiramente Mapuche, as tecedoras responderam que todos s\u00e3o, porque todos foram feitos por pessoas Mapuche. Esta conclus\u00e3o direciona o olhar para como as coisas e as pessoas s\u00e3o \u201cfeitas\u201d, suas hist\u00f3rias, pertencimentos e n\u00e3o somente para o resultado do \u201cproduto\u201d acabado no presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao falarmos de identidades sociais, chegamos a um entendimento de que para serem verdadeiras elas n\u00e3o precisam ser fixas e imut\u00e1veis ou sem contradi\u00e7\u00f5es. \u00c9 relevante olhar para os processos, como fomos feitos e por quem fomos feitos, para transgeracionalidade e ancestralidade do que existe hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Compreender a continuidade das experi\u00eancias em transforma\u00e7\u00e3o sup\u00f5e n\u00e3o perpetuar o apagamento da hist\u00f3ria com o olhar focado no presente. H\u00e1 uma c\u00e9lebre express\u00e3o bastante utilizada pelo movimento ind\u00edgena atual que diz \u201ceu posso ser quem voc\u00ea \u00e9 sem deixar de ser quem eu sou\u201d, que traduz uma possibilidade de entender as identidades sociais de forma sofisticada. Tamb\u00e9m reconhecemos esta possibilidade na express\u00e3o po\u00e9tico-filos\u00f3fica de Arthur Rimbaud com a qual dialogamos\u00a0<a href=\"https:\/\/periodicos.uff.br\/fractal\/article\/view\/5693\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">em estudos sobre suas cartas vision\u00e1rias<\/a>, ao afirmar \u201cEU \u00e9 um outro\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"elementor-heading-title elementor-size-default\">Por Danilo Guimar\u00e3es, 10\/1\/2025, para o <a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/articulistas\/danilo-silva-guimaraes\/identidades-fixas-nao-descrevem-as-experiencias-de-muitas-pessoas-e-produzem-apagamentos-historicos\/\">Jornal da USP<\/a><br \/>\nInd\u00edgena de ancestralidade Tikmu\u2019un (Maxakali). Psic\u00f3logo, livre-docente na \u00e1rea de Hist\u00f3ria e Filosofia da Psicologia, do departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia da USP. Coordena o servi\u00e7o Rede de Aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Pessoa Ind\u00edgena, que abriga a Casa de Culturas Ind\u00edgenas da USP. \u00c9 proponente da no\u00e7\u00e3o de Multiplica\u00e7\u00e3o Dial\u00f3gica, sobre a qual publicou o livro <i>Dialogical Multiplication: Principles for an Indigenous Psychology<\/i>, em 2019, pela editora Springer. Fala sobre temas relacionados \u00e0 interculturalidade, sa\u00fade e bem-viver.<\/p>\n<p>_______________<br \/>\n<em>(As opini\u00f5es expressas pelos articulistas do\u00a0<strong>Jornal da USP<\/strong>\u00a0s\u00e3o de inteira responsabilidade de seus autores e n\u00e3o refletem opini\u00f5es do ve\u00edculo nem posi\u00e7\u00f5es institucionais da Universidade de S\u00e3o Paulo. Acesse aqui nossos\u00a0<a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/noticias\/parametros-editoriais-para-artigos-de-opiniao-no-jornal-da-usp\/\">par\u00e2metros editoriais para artigos de opini\u00e3o<\/a>.)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 quem considere que, para alguma coisa ser verdadeira, ela n\u00e3o pode ser amb\u00edgua ou ambivalente, de modo que a&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":6398,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[3,1],"tags":[],"class_list":["post-6397","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arte-e-cultura","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6397","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6397"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6397\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6443,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6397\/revisions\/6443"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6398"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6397"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6397"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6397"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}