{"id":6774,"date":"2025-03-07T19:37:52","date_gmt":"2025-03-07T21:37:52","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=6774"},"modified":"2025-07-04T19:40:18","modified_gmt":"2025-07-04T21:40:18","slug":"6774-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/6774-2\/","title":{"rendered":""},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_6768\" style=\"width: 730px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2025\/04\/post2a.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6768\" class=\"wp-image-6768 size-large\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2025\/04\/post2a-1024x640.png\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2025\/04\/post2a-1024x640.png 1024w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2025\/04\/post2a-300x188.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2025\/04\/post2a-768x480.png 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2025\/04\/post2a-400x250.png 400w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2025\/04\/post2a.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6768\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Canva<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A no\u00e7\u00e3o grega de identidade permanece bastante difundida no mundo contempor\u00e2neo. Por exemplo, se branco \u00e9 branco, branco n\u00e3o pode ser n\u00e3o branco, n\u00e3o h\u00e1 terceira possibilidade. A filosofia que fundamentou juridicamente a propriedade privada precisou desta no\u00e7\u00e3o de identidade para se afirmar. Propriedade privada estaria intimamente relacionada \u00e0 identidade individual. A primeira propriedade \u00e9 a propriedade de si. Uma pessoa \u00e9 um ser que pode conhecer a si mesmo como si mesmo, como um mesmo ser em diferentes tempos e lugares. A identidade da pessoa seria alcan\u00e7ada por meio de um processo autorreflexivo que constr\u00f3i a consci\u00eancia da propriedade de si. A partir da propriedade de si, a pessoa poderia se apropriar das coisas do mundo, de objetos, terras e at\u00e9 mesmo de pessoas, ou ainda, do tempo das pessoas. Por fim, atrav\u00e9s da descend\u00eancia as propriedades de uma pessoa seriam transmitidas para seus herdeiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal modo de pensar encontra resson\u00e2ncia na tradi\u00e7\u00e3o religiosa que concebe que uma divindade fabricou um mundo povoado por dois tipos de seres, os humanos e os seres da natureza. Os seres humanos (sujeitos) poderiam, ent\u00e3o, estabelecer propriedade sobre a natureza (objeto). Tal distin\u00e7\u00e3o tem ecos na pesquisa cient\u00edfica que sup\u00f5e a dualidade entre sujeitos pesquisadores e os objetos da pesquisa, nos processos de constru\u00e7\u00e3o de conhecimento. Tal distin\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tem ecos na sociedade de classes que trata os propriet\u00e1rios de forma mais humana que os destitu\u00eddos de posses. Estes, por sua vez, costumam ter sua humanidade muitas vezes colocada sob suspei\u00e7\u00e3o por aqueles. Varia\u00e7\u00f5es sobre o mesmo tema, em que identidade e propriedade hierarquizam distin\u00e7\u00f5es concretamente experimentadas na vida, s\u00e3o encontradas nas rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais, de g\u00eanero, sexualidades etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por exemplo, por muitos s\u00e9culos pessoas escravizadas no Brasil n\u00e3o eram consideradas sujeitos de direito. Enquanto propriedades de outras pessoas, eram identificadas como negros. O tr\u00e1fico negreiro importava pessoas do continente africano e, no Brasil, ind\u00edgenas escravizados foram chamados de negros da terra. Quando o tr\u00e1fico negreiro se tornou ilegal em 1850, o pre\u00e7o pago pela propriedade de pessoas escravizadas subiu. O tr\u00e1fico ilegal e o tr\u00e1fico interno se tornaram neg\u00f3cios rent\u00e1veis para as pessoas n\u00e3o negras. As pessoas negras que por motivos diversos poderiam ter conquistado a liberdade, eventualmente, por meio da compra de cartas de alforria, eram colocadas sob suspeita: tinham que possuir um documento que identificasse tal condi\u00e7\u00e3o de liberdade como prova, para n\u00e3o serem escravizadas novamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro exemplo. A extin\u00e7\u00e3o oficial de povos ind\u00edgenas aconteceu em algumas partes do Brasil no s\u00e9culo 19, por meio de mudan\u00e7as classificat\u00f3rias jur\u00eddicas na identifica\u00e7\u00e3o das pessoas. Ind\u00edgenas passaram a ser reclassificados como caboclos ou negros da terra, perdendo, com tal reclassifica\u00e7\u00e3o, a prerrogativa legal que assegurava o direito de viverem em suas terras. Pessoas e comunidades ind\u00edgenas despossu\u00eddas de documentos que as identificassem como propriet\u00e1rias da terra ou como ind\u00edgenas foram colocadas sob suspei\u00e7\u00e3o. Sem a identidade documentada, passaram a ser legalmente expulsas dos lugares onde habitavam. Como desdobramento, as pessoas expulsas necessitaram vender o seu tempo livre enquanto trabalhadores mal pagos para outras pessoas, que se tornavam propriet\u00e1rias das terras, das pessoas quando escravizadas, e do tempo das pessoas, quando assalariadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dou um salto no tempo para os dias atuais, em que pessoas pretas, pardas ou ind\u00edgenas est\u00e3o conquistando alguma repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica dos danos historicamente sofridos, por meio de pol\u00edticas p\u00fablicas afirmativas. O que tenho percebido, recorrentemente, \u00e9 que, no acesso a tais pol\u00edticas p\u00fablicas, pessoas pretas, pardas e ind\u00edgenas t\u00eam sido colocadas novamente sob suspei\u00e7\u00e3o. Um questionamento volta-se para se as pessoas que pleiteiam direitos s\u00e3o de fato propriet\u00e1rias de algo que as identifique em uma das categorias focalizadas na pol\u00edtica p\u00fablica: tra\u00e7os fenot\u00edpicos f\u00edsicos t\u00eam sido privilegiados sobre os comportamentais, culturais, a linguagem, a hist\u00f3ria ou a mem\u00f3ria das pessoas. Trava-se uma confus\u00e3o entre ter ou n\u00e3o ter, que se confunde com ser ou n\u00e3o ser: ter o fen\u00f3tipo A significaria ser A, n\u00e3o ter o fen\u00f3tipo A significaria ser n\u00e3o A, n\u00e3o existe terceira op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, tal l\u00f3gica \u00e9 desdobramento de uma tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e religiosa distinta das tradi\u00e7\u00f5es de conhecimento e pr\u00e1ticas culturais de muitos daqueles que s\u00e3o classificados segundo o princ\u00edpio aristot\u00e9lico da identidade. Reflito, ent\u00e3o, se as l\u00f3gicas afrobrasileiras e ind\u00edgenas de inclus\u00e3o e pertencimento est\u00e3o sendo substancialmente consultadas na constru\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas a este p\u00fablico-alvo. Preocupa-me o fato de o identitarismo muitas vezes recair na estrutura de pensamento dos opressores, instaurando a divis\u00e3o entre grupos sociais que precisariam estar mais unidos para efetivamente enfrentar as opress\u00f5es que os amea\u00e7am. Como nos esquivar destas armadilhas?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por Danilo Silva Guimar\u00e3es, articulista do Jornal da USP e professor do Instituto de Psicologia da USP, 7\/3\/2025<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A no\u00e7\u00e3o grega de identidade permanece bastante difundida no mundo contempor\u00e2neo. 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