{"id":755,"date":"2017-05-30T14:56:01","date_gmt":"2017-05-30T16:56:01","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=755"},"modified":"2018-08-06T15:03:30","modified_gmt":"2018-08-06T17:03:30","slug":"755-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/755-2\/","title":{"rendered":"Psicologia e feminismo s\u00e3o discutidos no IPUSP"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\"><em><strong>Palestras ministradas por pesquisadoras discutem pr\u00e1ticas feministas na Semana de Psicologia da USP<\/strong><\/em><\/p>\n<p dir=\"ltr\">A viol\u00eancia contra a mulher parece n\u00e3o ter fim: f\u00edsica, verbal ou psicol\u00f3gica, disfar\u00e7ada de piada ou concretizada em atitudes, todos os dias surge um novo epis\u00f3dio e uma nova v\u00edtima.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Na pr\u00e1tica, determinadas viol\u00eancias s\u00e3o cometidas principalmente contra o g\u00eanero feminino. Isso significa que a sociedade se acostumou a lidar de maneira desigual com homens e mulheres.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Em contrapartida, esse problema tem sido trazido \u00e0 luz gra\u00e7as a pesquisas que investigam medidas de preven\u00e7\u00e3o contra a viol\u00eancia de g\u00eanero e tratamentos oferecidos para as suas v\u00edtimas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Discutindo esses aspectos sociais e culturais ligados \u00e0 viol\u00eancia de g\u00eanero, as palestras &#8220;Viol\u00eancia contra as mulheres: Qual o papel da psicologia?&#8221;, de Tamiris da Silva Cantares, e &#8220;Feminismo sob a \u00f3tica da An\u00e1lise do Comportamento&#8221;, de La\u00eds Nicolodi e Amanda Morais, foram apresentadas na Semana de Psicologia da USP, no Instituto de Psicologia da USP.<\/p>\n<h6>O car\u00e1ter social da viol\u00eancia contra a mulher<\/h6>\n<div style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/portal\/images\/DSC_0977.JPG\" alt=\"DSC 0977\" width=\"340\" height=\"311\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Tamiris da Silva Cantares<\/p><\/div>\n<p dir=\"ltr\">Durante a palestra \u201cViol\u00eancia contra as mulheres: Qual o papel da psicologia?\u201d, a pesquisadora da PUC-Campinas Tamiris da Silva Cantares falou sobre como os conflitos de car\u00e1ter social costumam ser invisibilizados. Analisando, pelo vi\u00e9s da Psicologia Cr\u00edtica, as diretrizes pol\u00edticas que s\u00e3o constru\u00eddas nos Congressos Nacionais de Psicologia, a pesquisadora percebeu o quanto fatores como pobreza, desigualdade social e viol\u00eancia tendem a ser naturalizados e individualizados, at\u00e9 mesmo na l\u00f3gica presente no consult\u00f3rio psicol\u00f3gico.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Cantares considera que \u201cos fen\u00f4menos devem ser interpretados segundo a sua historicidade e para al\u00e9m das apar\u00eancias\u201d. Por isso, ela trouxe o conceito de viol\u00eancia estrutural e se apoiou em intelectuais como o psic\u00f3logo Ignacio Martin-Bar\u00f3 e a soci\u00f3loga Heleieth Saffioti. Para a palestrante, nas an\u00e1lises psicol\u00f3gicas, n\u00e3o h\u00e1 como separar as quest\u00f5es de ra\u00e7a\/etnia, de classe e de g\u00eanero.<\/p>\n<h6>A educa\u00e7\u00e3o e a preven\u00e7\u00e3o contra a viol\u00eancia de g\u00eanero<\/h6>\n<p dir=\"ltr\">As diretrizes analisadas pela pesquisadora foram retiradas do manual <a href=\"http:\/\/site.cfp.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/referencias-tecnicas-para-atuacao-de-psicologas.pdf\">\u201cRefer\u00eancias T\u00e9cnicas para a Pr\u00e1tica de Psic\u00f3logas(os) em Programas de Aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Mulher em situa\u00e7\u00e3o de Viol\u00eancia (2013)<\/a>\u201d. Este manual prop\u00f5e os seguintes princ\u00edpios para nortear a atua\u00e7\u00e3o dos profissionais de psicologia: o trabalho em equipe multiprofissional, relacionando a psicologia a campos como a sa\u00fade e a assist\u00eancia social; a forma\u00e7\u00e3o e a divulga\u00e7\u00e3o de uma rede de atendimento no combate \u00e0 viol\u00eancia; o incentivo \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o coletiva e pol\u00edtica, buscando a garantia dos direitos femininos; a compreens\u00e3o, pelos psic\u00f3logos, do que \u00e9 a viol\u00eancia contra a mulher, em suas m\u00faltiplas dimens\u00f5es; e a n\u00e3o manifesta\u00e7\u00e3o de julgamentos. \u201cJuntos, esses s\u00e3o fatores importantes para fortalecer a autonomia feminina, e n\u00e3o a sua culpabiliza\u00e7\u00e3o, responsabiliza\u00e7\u00e3o, patologiza\u00e7\u00e3o, medicaliza\u00e7\u00e3o ou judicializa\u00e7\u00e3o\u201d, afirma a psic\u00f3loga.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Com isso, Cantares levantou a quest\u00e3o de que pouco ou nada se faz como atividade preventiva, e que a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o aparece como componente da j\u00e1 analisada rede de enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia. A partir disso, surgiu a quest\u00e3o: \u201ccomo resolver um problema se n\u00e3o conseguirmos agir na causa?\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Tendo em vista o projeto de lei que pro\u00edbe a ideologia de g\u00eanero nas escolas &#8211; que ainda n\u00e3o foi aprovado, mas recebe muita press\u00e3o para ser implementado -, a pesquisadora, juntamente com o grupo ECOAR, lan\u00e7ou a cartilha <a href=\"http:\/\/www.apropucc.org.br\/apropucc\/2016\/01\/cartilha-debate-sobre-genero-nas-escolas-e-eu-com-isso\/\">\u201cDebate sobre g\u00eanero nas escolas: E eu com isso?\u201d<\/a>.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Em suma, a pesquisadora afirmou que \u00e9 de grande relev\u00e2ncia para o combate \u00e0 viol\u00eancia de g\u00eanero que os psic\u00f3logos \u201cn\u00e3o patologizem e violentem ainda mais as pacientes em situa\u00e7\u00e3o de sofrimento\u201d, e finalizou dizendo que \u201c\u00e9 preciso ter coragem para ser mulher nesse mundo. Para viver como uma. Para escrever sobre elas\u201d, enfrentando os desafios, tomando os espa\u00e7os e mostrando a voz feminina.<\/p>\n<h6>A An\u00e1lise do Comportamento na investiga\u00e7\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero<\/h6>\n<p dir=\"ltr\">Na palestra \u201cFeminismo sob a \u00f3tica da An\u00e1lise do Comportamento\u201d, La\u00eds Nicolodi esclareceu que os diferentes comportamentos, os padr\u00f5es de est\u00e9tica, as fun\u00e7\u00f5es e os pap\u00e9is sociais dos indiv\u00edduos s\u00e3o os fatores que constituem socialmente o g\u00eanero. Sendo assim, pela \u00f3tica da An\u00e1lise do Comportamento, os processos de g\u00eanero s\u00e3o constru\u00eddos pelas respostas diferenciadas que homens e mulheres d\u00e3o aos est\u00edmulos que recebem no mundo.<\/p>\n<div style=\"width: 330px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/portal\/images\/DSC_0085.JPG\" alt=\"DSC 0085\" width=\"320\" height=\"390\" \/><p class=\"wp-caption-text\">La\u00eds Nicolodi<\/p><\/div>\n<p dir=\"ltr\">Nesse sentido, Nicolodi explicou, segundo os termos comumente utilizados na An\u00e1lise do Comportamento, que a jun\u00e7\u00e3o de est\u00edmulos sociais ao est\u00edmulo \u201chomem\u201d ou \u201cmulher\u201d gera processos de discrimina\u00e7\u00e3o que podem criar conting\u00eancias positivas, neutras ou aversivas\/punitivas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A t\u00edtulo de ilustra\u00e7\u00e3o, Nicolodi relatou que quando o est\u00edmulo \u201cperna peluda\u201d se associa ao est\u00edmulo homem, a conting\u00eancia discriminativa \u00e9 neutra, porque o homem, socialmente, n\u00e3o vai sofrer qualquer tipo de repres\u00e1lia por ter pelos na perna. Por outro lado, se esse est\u00edmulo vier junto do est\u00edmulo feminino, o processo de discrimina\u00e7\u00e3o criar\u00e1 uma condi\u00e7\u00e3o aversiva ou de puni\u00e7\u00e3o, o que far\u00e1 com que a mulher seja malvista ou mesmo alvo de retalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Dessa maneira, a psic\u00f3loga contou quea sociedade se comporta de maneira discriminat\u00f3ria, a depender do est\u00edmulo social que se une ao est\u00edmulo mulher ou homem. Consequentemente, criam-se padr\u00f5es diferenciados de acordo com o g\u00eanero. Essa diferen\u00e7a de conting\u00eancias e, por extens\u00e3o, de tratamento, gera diferen\u00e7as de poder baseadas no g\u00eanero.<\/p>\n<h6>Poder e privil\u00e9gios<\/h6>\n<p dir=\"ltr\">Fundamentando-se na An\u00e1lise do Comportamento, Nicolodi resumiu a defini\u00e7\u00e3o de poder como a posse de um \u201cmaior acesso a refor\u00e7adores, benef\u00edcios e privil\u00e9gios que, socialmente, n\u00e3o s\u00e3o concedidos de forma igualit\u00e1ria aos g\u00eaneros feminino e masculino\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Contudo, tamb\u00e9m \u00e0 luz da An\u00e1lise do Comportamento, a pesquisadora afirmou que a sociedade n\u00e3o funciona como uma soma de rela\u00e7\u00f5es individualizadas, mas, sim, como uma rede cujas ideologias s\u00e3o disseminadas por institui\u00e7\u00f5es (como o Estado, a Igreja etc.) e culturalmente arraigadas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Portanto, segundo Nicolodi, existem diferentes graus de controle que beneficiam determinados indiv\u00edduos e prejudicam outros. Dessa forma, \u00e0 diferen\u00e7a de poder que beneficia somente os homens, pode-se dar o nome de Patriarcado, que seria, como explica Saffioti em seu livro &#8220;G\u00eanero, patriarcado, viol\u00eancia&#8221; (2011), uma forma de domina\u00e7\u00e3o social calcada na explora\u00e7\u00e3o que os homens exercem sobre as mulheres, e que estaria inculcado no inconsciente individual e coletivo da nossa sociedade.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Isto posto, a pesquisadora revelou que, muitas vezes, as pessoas n\u00e3o percebem que est\u00e3o sendo oprimidas. Isso acontece porque a rela\u00e7\u00e3o de coer\u00e7\u00e3o e controle faz com que a explora\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo seja continuamente perpetuada, inclusive com conting\u00eancias que o reforcem positivamente a curto prazo e fa\u00e7am com que essa rela\u00e7\u00e3o pare\u00e7a ser mais branda, gerando nele um sentimento de felicidade e liberdade.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">No entanto, pensando no Patriarcado, Nicolodi, aproximando-se das ideias de Tamiris Cantares, salientou a import\u00e2ncia de se observar os recortes de classe e de ra\u00e7a das mulheres, j\u00e1 que todas elas s\u00e3o submetidas a essa hierarquia, mas o s\u00e3o de modos diferentes. Por exemplo, uma mulher branca e rica tem muitos privil\u00e9gios se comparada \u00e0s outras mulheres, por\u00e9m, em rela\u00e7\u00e3o aos homens, o poder que ela exerce socialmente \u00e9 \u00ednfimo, e o comportamento discriminativo da sociedade evidencia constantemente que os valores atribu\u00eddos aos indiv\u00edduos dependem dessas diferen\u00e7as de g\u00eanero.<\/p>\n<h6>Formas de opress\u00e3o contra as mulheres<\/h6>\n<p dir=\"ltr\">Ainda sobre o Patriarcado, Amanda Morais mostrou que existem outras formas de controlar as mulheres, que n\u00e3o pelas conting\u00eancias aversivas. Quando n\u00e3o h\u00e1 uma puni\u00e7\u00e3o envolvida, Morais relatou que torna-se mais dif\u00edcil que as v\u00edtimas compreendam que est\u00e3o sendo oprimidas, porque elas t\u00eam alguns de seus comportamentos refor\u00e7ados positivamente, e n\u00e3o punidos, como de costume. Isso significa, por exemplo, que quando as mulheres correspondem aos valores estabelecidos pela sociedade, elas recebem um tipo de resposta que estimula que elas continuem a agir de tal ou qual maneira.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Morais exemplificou essa quest\u00e3o com as festas que cobram menos dinheiro para a entrada das mulheres. Se observada a conting\u00eancia, a consequ\u00eancia imediata pode ser entendida como um refor\u00e7ador positivo. Contudo, se a quest\u00e3o for analisada mais a fundo, ser\u00e1 poss\u00edvel compreender que a verdadeira conting\u00eancia desse tipo de festa \u00e9 usar o p\u00fablico feminino como isca para atrair o p\u00fablico masculino. Este, por sua vez, sabendo disso, frenquentar\u00e1 a festa para assediar as mulheres e, consequentemente, o estabelecimento receber\u00e1 mais dinheiro. Portanto, essa n\u00e3o \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o que distribui refor\u00e7os igualmente ou uma pol\u00edtica compensat\u00f3ria para beneficiar as mulheres, que recebem sal\u00e1rios menores que os dos homens. Esse \u00e9 um exemplo de rela\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/portal\/images\/DSC_0089.JPG\" alt=\"DSC 0089\" width=\"640\" height=\"425\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Da esq. p\/ dir., J\u00e9ssica Aparecida da Silva, La\u00eds Nicolodi e Amanda Morais<\/p><\/div>\n<p dir=\"ltr\">O ass\u00e9dio \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o comum na vida das mulheres que elas nem conseguem entender o que causa o mal-estar em determinadas situa\u00e7\u00f5es, como \u00e9 o caso das festas, onde existe uma invas\u00e3o corporal t\u00e3o grande (desde os olhares maliciosos at\u00e9 os toques sem consentimento) com a qual elas s\u00e3o, paulatinamente, acostumadas a lidar.<\/p>\n<h6>Desigualdade de g\u00eanero: a distribui\u00e7\u00e3o de refor\u00e7os<\/h6>\n<p dir=\"ltr\">Em geral, Morais relatou que os homens t\u00eam acesso a uma variabilidade muito maior de refor\u00e7adores positivos, al\u00e9m de serem os que controlam os refor\u00e7adores. Isso permite que eles, diferentemente das mulheres, ocupem e frequentem com seguran\u00e7a os espa\u00e7os p\u00fablicos, e controlem a m\u00eddia, a ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica, a pornogr\u00e1fica, as igrejas, os governos, entre outros. Por meio desses dispositivos, os homens ditam os padr\u00f5es de beleza, os pisos e as m\u00e9dias salariais, os esportes valorizados que receber\u00e3o incentivos financeiros etc.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Al\u00e9m do controle e acesso sobre os refor\u00e7adores, Morais tamb\u00e9m contou que os homens disp\u00f5em de meios para mudar o valor refor\u00e7ador de certos est\u00edmulos de acordo com o seu interesse. Ou seja, eles variam o seu comportamento quando n\u00e3o obt\u00eam o que querem. As mulheres, por outro lado, t\u00eam in\u00fameras conting\u00eancias espec\u00edficas, de maneira que elas t\u00eam que aprender a responder diferencialmente de acordo com cada contexto.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ademais, segundo Morais, a hipersexualiza\u00e7\u00e3o do corpo da mulher acontece muito desde cedo, e os meninos t\u00eam acesso a conte\u00fado pornogr\u00e1fico precocemente. Ent\u00e3o, o emparelhamento de est\u00edmulos em rela\u00e7\u00e3o ao corpo feminino e \u00e0 atividade sexual costuma come\u00e7ar prematuramente. No entanto, isso n\u00e3o \u00e9 culpa da mulher, mas, sim, de como esse processo \u00e9 socialmente constru\u00eddo.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u00c0s vezes, mulheres s\u00e3o criticadas, julgadas e se sentem envergonhadas n\u00e3o necessariamente pelas roupas que usam, mas por algo sobre o qual elas n\u00e3o t\u00eam nenhum controle: seus pr\u00f3prios corpos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Por todos esses fatores, Morais e Nicolodi explicaram que as mulheres, muitas vezes, confundem privil\u00e9gio com poder, quando, em verdade, elas t\u00eam acesso e n\u00e3o controle estrutural sobre os refor\u00e7adores.<\/p>\n<h6>Fun\u00e7\u00f5es do Feminismo<\/h6>\n<p dir=\"ltr\">Nesse sentido, entra a necessidade de resist\u00eancia. Conforme cita Gerda Lerner, em seu livro \u201cA cria\u00e7\u00e3o do Patriarcado\u201d (1986), o Feminismo tem duas defini\u00e7\u00f5es que se complementam: \u00e9 uma conquista de igualdade entre homens e mulheres em todos os setores da sociedade e \u00e9 um movimento de emancipa\u00e7\u00e3o feminina, que visa \u00e0 autonomia, \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o e \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o de restri\u00e7\u00f5es opressivas impostas por sexo.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/portal\/images\/DSC_0100.JPG\" alt=\"DSC 0100\" width=\"326\" height=\"216\" \/>Dessa forma, Nicolodi descreveu que o feminismo entra nesse cen\u00e1rio combatendo os comportamentos discriminativos que, em fun\u00e7\u00e3o do g\u00eanero, restringem escolhas. A pesquisadora justificou essa necessidade dizendo que todos os est\u00edmulos que constituem a diferen\u00e7a entre homens e mulheres, e geram desequil\u00edbrio de acesso e deten\u00e7\u00e3o de refor\u00e7adores entre os g\u00eaneros precisam ser eliminados.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Assim, em termos comportamentais, Nicolodi falou sobre a necessidade de um contra-controle, de modo que o Feminismo mudaria as conting\u00eancias de opress\u00e3o e restri\u00e7\u00e3o impostas ao sexo, conting\u00eancias estas respons\u00e1veis por limitar o acesso a refor\u00e7adores que as mulheres t\u00eam. Em outras palavras, a psic\u00f3loga acredita que a fun\u00e7\u00e3o do Feminismo seria acabar com o controle social exercido sobre as mulheres, que fiscaliza os comportamentos femininos e, n\u00e3o raro, pune esse g\u00eanero.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Nicolodi evidenciou que contra-controlar \u00e9 tentar equilibrar o poder, justamente diminuindo o poder do opressor. Por isso o Feminismo n\u00e3o nasceu para agradar aos homens, porque ele procura emancipar as mulheres, fazendo com que os homens reconhe\u00e7am seus privil\u00e9gios e abram m\u00e3o deles. E essa situa\u00e7\u00e3o de \u201credistribui\u00e7\u00e3o\u201d de poder ainda causa muito desconforto.<\/p>\n<h6>Mas o que o feminismo tem a ver com a pr\u00e1tica psicol\u00f3gica?<\/h6>\n<p dir=\"ltr\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/portal\/images\/DSC_0046.JPG\" alt=\"DSC 0046\" width=\"354\" height=\"251\" \/>Segundo Morais, \u00e9 preciso rever os valores dos psic\u00f3logos relacionados ao bem-estar humano, porque, segundo o c\u00f3digo de \u00e9tica do psic\u00f3logo, s\u00e3o intr\u00ednsecas \u00e0 fun\u00e7\u00e3o desses profissionais a atua\u00e7\u00e3o com responsabilidade social e a an\u00e1lise cr\u00edtica da realidade e das rela\u00e7\u00f5es de poder nela existentes.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Por conseguinte, a pesquisadora afirmou que seria necess\u00e1rio utilizar o Feminismo nas interven\u00e7\u00f5es psico-terap\u00eauticas, uma vez que a descri\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas machistas e opressivas precisa participar do trabalho cl\u00ednico e educacional, porque ela \u00e9 fundamental para se compreender a viol\u00eancia praticada contra o g\u00eanero feminino.<\/p>\n<h6>Psicoterapia feminista<\/h6>\n<p>E como uma terapia feminista funciona? De acordo com Morais, ela busca o compromisso com a transforma\u00e7\u00e3o social e procura entender a falta de representatividade, combater a invisibiliza\u00e7\u00e3o das vari\u00e1veis e a culpabiliza\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas. Ou seja, uma terapia feminista critica as terapias tradicionais, atentando para as quest\u00f5es particulares de cada paciente e baseando as an\u00e1lises em princ\u00edpios e conceitos feministas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Morais, revelou que \u201ctodos os nossos atos s\u00e3o pol\u00edticos, j\u00e1 que o comportamento de todos, inclusive dos terap\u00eautas, \u00e9 afetado pelas conting\u00eancias. Por isso \u00e9 imposs\u00edvel ser neutro\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Nicolodi, ent\u00e3o, finalizou a palestra elucidando que \u201cdiante de uma situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia, a omiss\u00e3o significa coniv\u00eancia. Ent\u00e3o, quando um psic\u00f3logo \u00e9 neutro, \u00e9 como se ele fosse conivente com o problema\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">***<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Tamiris da Silva Cantares \u00e9 doutoranda de Psicologia Social Comunit\u00e1ria da PUC &#8211; Campinas e integrante do Espa\u00e7o de Conviv\u00eancia, A\u00e7\u00e3o e Reflex\u00e3o (ECOAR), um grupo de est\u00e1gio e pesquisa que, ligado \u00e0 gradua\u00e7\u00e3o e \u00e0 p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, trabalha a preven\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia no contexto escolar.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">La\u00eds Nicolodi \u00e9 Mestranda no programa de Psicologia Experimental no Instituto de Psicologia na Universidade de S\u00e3o Paulo. Amanda Morais \u00e9 Mestranda em An\u00e1lise do Comportamento pela Universidade Estadual de Londrina. Ambas fazem parte do Coletivo Marias &amp; Am\u00e9lias de Mulheres Analistas do Comportamento.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Texto e fotos por An\u00e1tale Garcia<br \/>\nEdi\u00e7\u00e3o por Islaine Maciel<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Palestras ministradas por pesquisadoras discutem pr\u00e1ticas feministas na Semana de Psicologia da USP A viol\u00eancia contra a mulher parece n\u00e3o&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":764,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[61,168,181,17,22,170],"class_list":["post-755","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade","tag-feminismo","tag-instituto","tag-mulher","tag-psicologia","tag-usp","tag-violencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/755","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=755"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/755\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2112,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/755\/revisions\/2112"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/764"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=755"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=755"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=755"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}