{"id":926,"date":"2016-07-06T15:30:08","date_gmt":"2016-07-06T17:30:08","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=926"},"modified":"2025-07-04T17:30:52","modified_gmt":"2025-07-04T19:30:52","slug":"violencia-que-se-monta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/violencia-que-se-monta\/","title":{"rendered":"A viol\u00eancia que se monta"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Doutorado do IPUSP retrata sofrimento e resist\u00eancia das travestis diante da viol\u00eancia de que s\u00e3o alvo diariamente<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/violencia-1-e1751657117961.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-952 size-full alignleft\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/violencia-1-e1751657117961.png\" alt=\"\" width=\"737\" height=\"946\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/violencia-1-e1751657117961.png 737w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/violencia-1-e1751657117961-234x300.png 234w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/violencia-1-e1751657117961-400x513.png 400w\" sizes=\"(max-width: 737px) 100vw, 737px\" \/><\/a>Imagine um adolescente de classe m\u00e9dia alta, mais gentil e educado do que o esperado, para quem voc\u00ea d\u00e1 aula particular e costuma ter conversas variadas e agrad\u00e1veis. Certo dia, esse jovem, contando de uma \u201cbalada\u201d de final de semana, relata, entre risos, que uma das grandes divers\u00f5es de fim de noite dele e de seus amigos, \u00e9 bater com o tapetinho enrolado do carro nas travestis que fazem ponto na rua do Jockey, em S\u00e3o Paulo. A agress\u00e3o gratuita vinda de algu\u00e9m que nunca antes havia apoiado ou demonstrado comportamento violento chocou a ent\u00e3o professora Val\u00e9ria Melki Busin, sendo essa uma de suas motiva\u00e7\u00f5es para estudar no doutorado a respeito das agress\u00f5es por que passam as travestis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Busin fez uma pesquisa qualitativa na qual investigou de que forma a viol\u00eancia \u201cmarca a experi\u00eancia cotidiana das travestis\u201d. Ela constatou que a estigmatiza\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia, nas mais diversas modalidades, s\u00e3o desencadeadas a partir do momento em que ocorre a ruptura com as conven\u00e7\u00f5es sociais de g\u00eanero. Essa ruptura se d\u00e1 n\u00e3o necessariamente quando a pessoa come\u00e7a a se \u201cmontar\u201d de \u2018mulher\u2019 (o que, em alguns casos, aconteceu tardiamente), mas desde o ponto em que o indiv\u00edduo se percebe e ou \u00e9 percebido por algu\u00e9m (familiar ou n\u00e3o) como \u201cafeminado\u201d, o que ocorre j\u00e1 na inf\u00e2ncia. Busin verificou que em todos os casos estudados \u201ca express\u00e3o do feminino se deu inicialmente por meio de brincadeiras (usar toalha na cabe\u00e7a para parecer cabelo comprido ou coque, ou na cintura, forjando saia), coocorrendo quase sempre a experi\u00eancia de algum tipo de interdi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por meio de entrevistas semiestruturadas, a pesquisadora recolheu e registrou as viv\u00eancias de oito pessoas que se consideram\u00a0 ou se consideraram em algum momento da vida como sendo travestis. A an\u00e1lise dessas experi\u00eancias e das entrevistas se deu, sobretudo, com base no construcionismo social, campo te\u00f3rico-metodol\u00f3gico que busca demonstrar o car\u00e1ter da condi\u00e7\u00e3o social de nosso mundo. Sob essa perspectiva, mesmo\u00a0realidades tidas como biol\u00f3gicas \u2014\u00a0a sexualidade e o g\u00eanero, por exemplo \u2014 s\u00e3o, na verdade, constru\u00e7\u00f5es sociais, cujo desenvolvimento pode ser percebido no decorrer da hist\u00f3ria. Busin explica que essa abordagem come\u00e7a a ser mais aplicada nos estudos da sexualidade em meados de 1990,\u00a0mas que se inicia com trabalhos realizados a partir da d\u00e9cada de 70, principalmente por John Gagnon e William Simon, que \u2018inauguram\u2019 a\u00a0vertente norte-americana do contrucionismo social, tradicionalmente\u00a0alem\u00e3o. Segundo a pesquisadora, aqueles autores \u201ctrabalham com uma linguagem teatral \u2014 uso de conceitos como \u2018cena\u2019, \u2018cen\u00e1rio\u2019, \u2018<em>script<\/em>\u2019 \u2014 para falar das situa\u00e7\u00f5es que acontecem socialmente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u201ccena\u201d, em especial, foi bastante explorada na pesquisa. Para al\u00e9m de uma entrevista mais convencional, quando no decorrer da conversa situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia vinham \u00e0 tona de maneira importante, sempre que poss\u00edvel (contanto que houvesse a aceita\u00e7\u00e3o da colaboradora e a devida adequa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o),\u00a0Busin procurava solicitar que a participante\u00a0revivesse o ocorrido \u201ccomo se ela estivesse de novo naquele lugar, naquele momento, com aquelas pessoas, passando de novo por aquela situa\u00e7\u00e3o\u201d.\u00a0Segundo a pesquisadora, o colocar-se novamente na cena contribui para que \u201ca mem\u00f3ria venha de forma menos censurada\u201d. Ela continua: \u201c\u00e9 mais poss\u00edvel que a gente acesse os sentimentos, pensamentos, lembran\u00e7as quando criamos condi\u00e7\u00f5es pra que elas revivam\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto as cenas como as hist\u00f3rias de vida das travestis que colaboraram com a pesquisa revelam que se identificar com um g\u00eanero (no caso o \u201cfeminino\u201d) diferente do tido como apropriado ao seu \u00f3rg\u00e3o sexual (o \u201cmasculino\u201d) e sofrer viol\u00eancia por conta disso andam de m\u00e3os dadas na sociedade brasileira. Assim, ao mesmo tempo em que existe um encantamento pela realiza\u00e7\u00e3o de um forte desejo \u2014 expressar-se f\u00edsica e psicologicamente com atributos tidos como femininos, na medida em que se veem dessa forma \u2014 h\u00e1 tamb\u00e9m um grande temor pelos riscos que se corre por essa express\u00e3o. Riscos que muitas vezes se concretizam. Enquanto maquiagem,\u00a0silicone, salto, horm\u00f4nio e demais acess\u00f3rios e adere\u00e7os s\u00e3o utilizados para a travesti se montar e se mostrar, a viol\u00eancia contra elas tamb\u00e9m se \u201ctraveste\u201d, mas, nesse caso, passando desapercebidamente. Evas\u00e3o escolar, prostitui\u00e7\u00e3o imposta,\u00a0<em>bullying<\/em>, precariza\u00e7\u00e3o do atendimento \u00e0 sa\u00fade, abuso policial&#8230; esses s\u00e3o alguns dos disfarces da viol\u00eancia constru\u00edda contra elas.<br \/>\nA roupa que n\u00e3o serve<strong><br \/>\n<\/strong>O sentimento de inadequa\u00e7\u00e3o est\u00e1 bastante presente na vida das travestis. Isso porque, de acordo com a tese de Busin, desde o in\u00edcio da socializa\u00e7\u00e3o elas vivem uma contradi\u00e7\u00e3o: a forma \u201ccorreta\u201d ou esperada de se comportarem \u2015 os\u00a0<em>scripts<\/em>\u00a0culturais de g\u00eanero e sexo \u2015, que v\u00e3o sendo assimilados em suas intera\u00e7\u00f5es pessoais, n\u00e3o condizem com o sentimento de serem \u201cfemininas\u201d. A pesquisadora explica que, desse modo, as travestis vivem a \u201cexperi\u00eancia permanente e cotidiana de serem diferentes, mas um diferente n\u00e3o desejado socialmente: a diferen\u00e7a que exclui e inferioriza\u201d. Esse estado permanente de \u201cinferioridade moral\u201d, no qual a pessoa fica posicionada \u00e0 margem da\u00a0sociedade, \u00e9 considerado como viol\u00eancia\u00a0simb\u00f3lica. Val\u00e9ria esclarece que esse tipo de viol\u00eancia nem chega a ser considerada como tal, porque \u00e9 um tipo de coer\u00e7\u00e3o invis\u00edvel na qual a pessoa que a sofre, ao reconhecer a autoridade de quem a exerce, acaba indireta e inconscientemente consentindo com a pr\u00f3pria viol\u00eancia. Por sermos criados desde crian\u00e7as em uma sociedade que marginaliza, estigmatiza e agride as travestis, \u00e9 como se houvesse uma \u201cautoriza\u00e7\u00e3o\u201d para agir dessa forma, ocasionando uma aceita\u00e7\u00e3o geral dos agressores, dos agredidos e dos espectadores da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A viol\u00eancia simb\u00f3lica fica clara, por exemplo, nos relatos em que as entrevistadas mostram um esfor\u00e7o para se adequarem \u00e0s normas: \u201cMe botaram na cabe\u00e7a isso, que era ruim. Era ruim e eu n\u00e3o queria, tipo: \u2018Eu vou crescer, namorar uma menina\u2019\u201d [fala de uma das\u00a0entrevistadas ao relatar a sua atra\u00e7\u00e3o por meninos, ainda crian\u00e7a]. Mas, ao mesmo tempo em que h\u00e1 tentativas de cumprir as condutas preestabelecidas, como, por exemplo, n\u00e3o deixar o cabelo crescer, muitos relatos mostram tamb\u00e9m modos de escape desse roteiro e resist\u00eancia \u00e0s interdi\u00e7\u00f5es: \u201cEle [o pai] chegou a me ver com o cobertor amarrado na cintura e com o cinto dele [&#8230;]. Ele pendurou o cinto atr\u00e1s da porta do quarto dele, que era um local que eu n\u00e3o alcan\u00e7ava [&#8230;]. A\u00ed eu lembro que eu fui conseguindo outros artif\u00edcios: a gente pega a toalha da mesa, o len\u00e7ol&#8230; a gente inventa alguma outra coisa\u201d.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">Maquiada de prostitui\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">A viol\u00eancia simb\u00f3lica fica evidente tamb\u00e9m no relato posterior, em que se observa uma esp\u00e9cie de predetermina\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-profissional da condi\u00e7\u00e3o de prostituta, unicamente por ser travesti. \u201cEu conheci as travestis e eu achei que travesti tinha que ir pra esquina [fazer ponto de prostitui\u00e7\u00e3o], porque s\u00f3 l\u00e1 que tinha travesti [&#8230;]. Eu via travesti, mas eu via travesti na boate ou via travesti descendo a [rua]\u00a0Augusta, mais nada. Eu n\u00e3o via travesti em outros lugares\u201d.\u00a0Al\u00e9m de simb\u00f3lico, o frequente exerc\u00edcio da prostitui\u00e7\u00e3o pelas travestis muitas vezes se caracteriza como um outro tipo de viol\u00eancia: a econ\u00f4mica. Segundo Busin,\u00a0 seria esse o caso, por exemplo, \u201cquando as pessoas s\u00e3o obrigadas a exercer a prostitui\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o conseguem entrar no mercado formal de trabalho\u201d. Ela ainda informa que \u201cOs n\u00fameros da ANTRA [Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais] demonstram que cerca de 90% das travestis est\u00e3o na prostitui\u00e7\u00e3o e a maioria delas n\u00e3o gosta disso, n\u00e3o escolheu como profiss\u00e3o.<br \/>\nUniformizada de\u00a0evas\u00e3o escolar<strong><br \/>\n<\/strong>A escolha profissional fica ainda mais restrita em fun\u00e7\u00e3o da generalizada baixa escolaridade das travestis. O alto \u00edndice de evas\u00e3o escolar se d\u00e1 tanto pela estigmatiza\u00e7\u00e3o quanto por outros fatores socioecon\u00f4micos relacionados a essa popula\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 conhecido como interseccionalidade, termo que compreende as diferentes formas de\u00a0 intera\u00e7\u00f5es entre as minorias e as estruturas de poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao serem consideradas pelos\u00a0colegas e demais pessoas da escola como \u201cafeminadas\u201d, o bullying pode se tornar frequente sob v\u00e1rias formas:\u00a0desde agress\u00f5es verbais (\u201cviado\u201d, \u201cbicha\u201d etc.), segrega\u00e7\u00e3o, proibi\u00e7\u00e3o do uso do banheiro feminino, at\u00e9 abuso sexual e ataques f\u00edsicos. Muitas das entrevistadas relataram que eram constantemente\u00a0ofendidas nas escola, o que as levou a desistir dos estudos.\u00a0Como ilustra\u00e7\u00e3o dessa viol\u00eancia, h\u00e1 um marcante epis\u00f3dio experienciado por uma das participantes da pesquisa. Ao retornar das f\u00e9rias para ingressar no segundo ano do Ensino M\u00e9dio,\u00a0por estar supostamente muito<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">afeminada \u201cdevido \u00e0 ingest\u00e3o de horm\u00f4nios e ao uso de roupas assumidamente femininas\u201d, ela, juntamente com mais duas amigas na mesma situa\u00e7\u00e3o de modifica\u00e7\u00e3o corporal, foi apedrejada pelos colegas nas imedia\u00e7\u00f5es da escola. \u201cE a\u00ed na escola a gente teve a chuva de pedras portuguesas na cal\u00e7ada. Deram uma chuva de pedras em n\u00f3s tr\u00eas. [Na volta das f\u00e9rias escolares, eu j\u00e1] estava megafeminina [&#8230;]. A\u00ed uma disse pra outra: \u2018N\u00e3o vamos mais. A gente vai morrer\u2019\u201d.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">Etiquetada com o\u00a0 nome masculino<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de todas as dificuldades, algumas travestis que abandonaram os estudos quando crian\u00e7as ou adolescentes est\u00e3o retornando \u00e0 escola\u00a0atualmente, sobretudo aquelas ligadas de algum modo a organiza\u00e7\u00f5es que lutam pela conquista de seus direitos, cujos membros costumam apoiar a volta ao ensino formal. Entretanto, os obst\u00e1culos permanecem. Dentre eles, ser identificada pelo nome de registro\u00a0(masculino), que para muitas \u00e9 uma exposi\u00e7\u00e3o humilhante. Uma das participantes relata que, mesmo ap\u00f3s seus amigos do Movimento LGBTIQQ terem sugerido \u00e0 escola que se dirigissem a ela por seu nome social (feminino), era recorrente que durante a chamada usassem o seu nome de registro (masculino). \u201cFui para a aula. Come\u00e7ou a chamada, a\u00ed chamou o nome de registro, n\u00e3o tinha nada de nome social. \u2018E agora? Respondo? O que eu falo? Ganho falta?\u2019. Aquilo&#8230; eu senti um\u00a0calor de baixo para cima, subindo. Eu simplesmente abaixei a cabe\u00e7a, o olho\u00a0encheu de l\u00e1grima e eu ergui o bra\u00e7o e disse \u2018Presente\u2019\u201d. Al\u00e9m da desist\u00eancia do ensino formal, a pesquisadora cita outras consequ\u00eancias por n\u00e3o se conseguir mudar o nome nos documentos\u00a0oficiais, como \u201cdeixar de receber\u00a0cuidados m\u00e9dicos, ter dificuldades de conseguir emprego ou, ainda, n\u00e3o poder locar um im\u00f3vel para sua moradia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, dentre as colaboradoras da pesquisa, houve uma que se posicionou de maneira bastante divergente das outras, em rela\u00e7\u00e3o a essa quest\u00e3o do nome. Busin afirma que, para a referida entrevistada, poder viver a ambiguidade a que \u00e9 exposta por se ter um corpo\u00a0\u2018feminino\u2019 e um nome oficial \u2018masculino\u2019 \u201c\u00e9 justamente onde reside o encanto e a ousadia de ser travesti; \u00e9 somente\u00a0assim que a fantasia se realiza\u201d. A pesquisadora prossegue concordando com a entrevistada, de que a sa\u00edda seria o acolhimento social da pluralidade:\u00a0\u201cA solu\u00e7\u00e3o proposta [por ela] parece ser justa: ser aceita e ser tratada dignamente em sua diferen\u00e7a, e que a diferen\u00e7a seja simplesmente vivida como diversidade\u201d.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">Bombada pelo ativismo<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se, por um lado, atuar na milit\u00e2ncia contribui, em geral, para a conscientiza\u00e7\u00e3o e uni\u00e3o das travestis e popula\u00e7\u00e3o LGBTIQQ, por outro, o Movimento n\u00e3o est\u00e1 imune aos preconceitos pr\u00f3prios \u00e0 sociedade \u00e0 qual pertence. O doutorado de Busin mostra exatamente isso, j\u00e1 que mesmo entre os grupos representados em favor da diversidade de g\u00eanero e de orienta\u00e7\u00e3o sexual (l\u00e9sbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, queer etc.) as travestis s\u00e3o marginalizadas. Uma das colaboradoras da pesquisa, a exemplo, relata que se sente pressionada no Movimento a abandonar o\u00a0termo \u2018travesti\u2019, que seria sujo, e adotar o termo \u2018transexual\u2019, mais higienizado. \u201cEu estou sofrendo viol\u00eancia [dentro da\u00a0milit\u00e2ncia LGBTIQQ], por exemplo, porque eu sou travesti. Porque eu n\u00e3o assumo a transexualidade.\u00a0Porque eu tenho que usar o termo pessoa trans\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto entre as entrevistadas, que j\u00e1 participaram de alguma organiza\u00e7\u00e3o dessa natureza, quanto em sua pr\u00f3pria\u00a0experi\u00eancia como ativista, Busin informa que s\u00e3o frequentes as situa\u00e7\u00f5es e\u00a0relatos em que se percebe a\u00a0discrimina\u00e7\u00e3o dentro do pr\u00f3prio movimento. Como isso \u00e9 poss\u00edvel? Segundo a pesquisadora, todos, inclusive os ativistas, fomos socializados em um mesmo contexto sociocultural, o que implica algum grau de ades\u00e3o a certos valores. Ela explica que internalizamos os\u00a0preconceitos e que alguns deles s\u00e3o descontru\u00eddos com menos resist\u00eancia, mas que outros relutantemente persistem, \u201cporque eles, de alguma forma, mant\u00eam uma linha entre aquelas pessoas que s\u00e3o valorizadas e t\u00eam mais poder e aquelas que s\u00e3o desvalorizadas\u201d. Por isso, a\u00a0pesquisadora afirma que, \u201c\u00e0s vezes, se agarrar ao preconceito \u00e9 se agarrar a algum tipo de poder e se diferenciar, vamos dizer assim, daquelas pessoas que na sociedade n\u00e3o valem nada\u201d. No caso das travestis, a pesquisadora diz que n\u00e3o \u00e9 incomum que elas sejam vistas dentro do movimento como escandalosas e mal-educadas, sendo colocadas em segundo plano. Ela ainda pontua: \u201cMuito embora elas tenham sido usadas por muito tempo por v\u00e1rios grupos para obter verba que vinha principalmente do enfrentamento \u00e0 aids\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Busin, no entanto, ressalta tamb\u00e9m que as travestis n\u00e3o est\u00e3o passivas diante da situa\u00e7\u00e3o. \u201cO que est\u00e1 acontecendo de uma forma muito recente, mas muito consistente, \u00e9 que as pr\u00f3prias travestis est\u00e3o se organizando\u201d.\u00a0Para exemplificar, a pesquisadora relembra o protesto organizado pela Frente Paulista de Travestis e Transexuais contra a discrimina\u00e7\u00e3o por parte da organiza\u00e7\u00e3o da Parada do orgulho LGBT de S\u00e3o Paulo, em 2012.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">Roupa \u201csuja\u201d se lava em casa<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Discorrendo sobre as viol\u00eancias com as quais as travestis do grupo se deparam diariamente em suas rela\u00e7\u00f5es pessoais, a pesquisadora aponta a\u00a0viol\u00eancia familiar como uma das primeiras e mais simb\u00f3licas experi\u00eancias deste tipo. O afeto,\u00a0muitas vezes, dava lugar ao temor, pois a viol\u00eancia era justificada pelo afastamento indevido da sexualidade masculina, vista como \u201cobrigat\u00f3ria\u201d pela fam\u00edlia. \u201cO pai de Roberta, al\u00e9m de desferir-lhe um sonoro tapa na cara, tamb\u00e9m gritou\u00a0\u2018Na minha casa n\u00e3o tem isso! Na minha casa eu tenho filho homem!\u2019\u201d, conta Busin.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 mesmo nos casos em que a prote\u00e7\u00e3o familiar \u00e9 mais forte que a viol\u00eancia, como no caso de Cynthia, que disse sempre ter sido protegida por ter uma fam\u00edlia grande com muitos irm\u00e3os, o preconceito ocorre velado. Cobrada todos os dias por estar se tornando \u201cmuito feminina\u201d, ela decidiu sair de casa.\u00a0Esta \u201caceita\u00e7\u00e3o com ressalvas\u201d, muito comum em diversas rela\u00e7\u00f5es familiares, ainda constitui uma forma de opress\u00e3o, pois mesmo se sentindo mulher, Cynthia era impedida de se vestir como mulher, de ser livremente mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que mais se destaca neste ponto \u00e9 a diferen\u00e7a entre a aceita\u00e7\u00e3o da sexualidade e a aceita\u00e7\u00e3o de g\u00eanero. Muitas fam\u00edlias dos relatos aceitaram mais facilmente que o filho poderia ser homossexual, por\u00e9m, no momento em que este come\u00e7ava a se travestir, o preconceito se estampava claramente atrav\u00e9s de humilha\u00e7\u00f5es, expuls\u00f5es e exclus\u00f5es. Sharon relata, por exemplo, que ao passar a se vestir de mulher, ent\u00e3o com doze anos, foi obrigada a morar em uma casinha no fundo do quintal dos pais, para ela, uma humilhante \u201ccasinha de cachorro\u201d.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">Nua e crua<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">O relato das oito participantes da\u00a0pesquisa mostra que todas se sentiam femininas e desde muito cedo realizavam transforma\u00e7\u00f5es que diferiam do sexo que lhes havia sido designado. Infelizmente, quanto mais elas se expressavam mais apareciam as desaprova\u00e7\u00f5es sociais, os t\u00edtulos pejorativos, a viol\u00eancia. Descobriam, ent\u00e3o, que adiar a mudan\u00e7a era sin\u00f4nimo de seguran\u00e7a e se sentiam culpadas por cada ato de viol\u00eancia que sofriam.\u00a0\u201cAs op\u00e7\u00f5es delas eram libertar-se \u2013 expressar-se abertamente de forma feminina \u2013, correndo risco de morte, ou morrer como travestis para se libertar das viol\u00eancias\u201d, explica a pesquisadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A constru\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o de suas identidades pessoais \u00e9 complicada e dolorosa, por\u00e9m recompensadora. A\u00a0representatividade e a recusa da opress\u00e3o conseguem, pouco a pouco, romper os la\u00e7os da desigualdade social e da viol\u00eancia. Esse processo \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de poder e, onde h\u00e1 poder, sempre haver\u00e1 resist\u00eancia. Desta maneira, Busin nos afirma que \u201ca rea\u00e7\u00e3o e a resist\u00eancia \u00e0 viol\u00eancia de g\u00eanero t\u00eam permitido \u00e0s pessoas que n\u00e3o se\u00a0conformam aos\u00a0<em>scripts<\/em>\u00a0de sexo e g\u00eanero, e aos cen\u00e1rios culturais de sua socializa\u00e7\u00e3o,\u00a0deixar para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es o legado de novas\u00a0produ\u00e7\u00f5es discursivas que amplificam a liberdade, criam outras formas de exist\u00eancia, renovando e ampliando a diversidade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por Tatiana Iwata e Fernanda Giacomassi<\/p>\n<p>Clique nas no t\u00edtulo para folhear as revistas <strong>psico.<\/strong>usp:<\/p>\n<div id=\"attachment_935\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 152px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-935 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png\" alt=\"\" width=\"142\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png 307w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2-226x300.png 226w\" sizes=\"(max-width: 142px) 100vw, 142px\" \/><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/revista_psico.usp_n1_2015.pdf\">Alfabetiza\u00e7\u00e3o \u2013 2015, n. 1<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"attachment_933\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 150px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\" data-wp-editing=\"1\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-933 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png\" alt=\"\" width=\"140\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png 305w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1-224x300.png 224w\" sizes=\"(max-width: 140px) 100vw, 140px\" \/><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/revista-psico.usp-n.-2-3-2016.pdf\">\u00c9 hora de falar sobre G\u00eanero \u2013 2016, n.2\/3<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Doutorado do IPUSP retrata sofrimento e resist\u00eancia das travestis diante da viol\u00eancia de que s\u00e3o alvo diariamente Imagine um adolescente&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":952,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[374,1],"tags":[37,168,17,144,206,22,170],"class_list":["post-926","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-genero","category-sociedade","tag-genero","tag-instituto","tag-psicologia","tag-social","tag-travestis","tag-usp","tag-violencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/926","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=926"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/926\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6723,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/926\/revisions\/6723"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/952"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=926"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=926"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=926"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}