{"id":954,"date":"2016-07-06T15:00:00","date_gmt":"2016-07-06T17:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=954"},"modified":"2025-07-04T17:43:16","modified_gmt":"2025-07-04T19:43:16","slug":"954-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/954-2\/","title":{"rendered":"Elas querem voz"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #3366ff;\"><strong>Seguindo a for\u00e7a dos movimentos sociais e feministas na contemporaneidade, pesquisadores do IPUSP realizam projetos que procuram entender o feminino, o feminismo e os porqu\u00eas da desigualdade e da viol\u00eancia de g\u00eanero em pleno s\u00e9culo XXI<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/elas-querem-voz-1-e1751657715352.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-973 \" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/elas-querem-voz-1-e1751657715352-210x300.png\" alt=\"\" width=\"294\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/elas-querem-voz-1-e1751657715352-210x300.png 210w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/elas-querem-voz-1-e1751657715352-400x572.png 400w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/elas-querem-voz-1-e1751657715352.png 584w\" sizes=\"(max-width: 294px) 100vw, 294px\" \/><\/a>No come\u00e7o do s\u00e9culo XX, a psicanalista francesa Marie Bonaparte ouviu de Sigmund Freud uma pergunta que at\u00e9 hoje ressoa na cabe\u00e7a de muita gente: o que querem as mulheres? O pai da psican\u00e1lise n\u00e3o respondeu ao questionamento, mas muito do seu trabalho se deu na tentativa de solucionar satisfatoriamente essa pergunta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta pode parecer simples, afinal, a maior luta do feminismo, movimento que empodera cada vez mais mulheres, \u00e9 a de igualdade \u2013 ou melhor, equidade \u2013 de g\u00eanero. Mas, se olharmos para a perspectiva hist\u00f3rica dessa desigualdade e analisarmos os dados atuais da viol\u00eancia contra a mulher, \u00e9 poss\u00edvel perceber que a quest\u00e3o \u00e9 muito mais complicada do que parece e est\u00e1 longe de um final feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo dados da OMS (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade), o Brasil tinha, em 2013, uma taxa de 4,8 homic\u00eddios por cada 100 mil mulheres, a quinta maior do mundo. Quando se trata de mulheres negras, h\u00e1 ainda um agravante: os homic\u00eddios cometidos contra elas aumentaram 54% nos \u00faltimos dez anos. Ou seja, no pa\u00eds h\u00e1 uma combina\u00e7\u00e3o de sexismo com racismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No come\u00e7o do s\u00e9culo XX, a psicanalista francesa Marie Bonaparte ouviu de Sigmund Freud uma pergunta que at\u00e9 hoje ressoa na cabe\u00e7a de muita gente: o que querem as mulheres? O pai da psican\u00e1lise n\u00e3o respondeu ao questionamento, mas muito do seu trabalho se deu na tentativa de solucionar satisfatoriamente essa pergunta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta pode parecer simples, afinal, a maior luta do feminismo, movimento que empodera cada vez mais mulheres, \u00e9 a de igualdade \u2013 ou melhor, equidade \u2013 de g\u00eanero. Mas, se olharmos para a perspectiva hist\u00f3rica dessa desigualdade e analisarmos os dados atuais da viol\u00eancia contra a mulher, \u00e9 poss\u00edvel perceber que a quest\u00e3o \u00e9 muito mais complicada do que parece e est\u00e1 longe de um final feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo dados da OMS (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade), o Brasil tinha, em 2013, uma taxa de 4,8 homic\u00eddios por cada 100 mil mulheres, a quinta maior do mundo. Quando se trata de mulheres negras, h\u00e1 ainda um agravante: os homic\u00eddios cometidos contra elas aumentaram 54% nos \u00faltimos dez anos. Ou seja, no pa\u00eds h\u00e1 uma combina\u00e7\u00e3o de sexismo com racismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O feminismo e seus avan\u00e7os<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que hoje as lutas dos movimentos sociais sejam mais not\u00f3rias e com uma ades\u00e3o muito maior, as mulheres est\u00e3o longe \u2013 muito longe \u2013 de se\u00a0sentirem ao menos confiantes na mudan\u00e7a do panorama brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00f3pria hist\u00f3ria do movimento feminista, que ganhou for\u00e7a e popularidade apenas nas \u00faltimas d\u00e9cadas, \u00e9 uma prova disso. Costuma-se atribuir sua origem \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Industrial ou \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, com as mulheres lutando mais ativamente, seja por elas mesmas, seja ao lado dos homens; assumindo postos de trabalho, em duplas ou triplas jornadas; abandonando os servi\u00e7os dom\u00e9sticos, que eram deveres exclusivamente femininos. Por\u00e9m, o feminismo s\u00f3 se\u00a0fortaleceu e ganhou ares de luta efetiva, anos mais adiante \u2013 uma data importante \u00e9 o ano de 1848, por ocasi\u00e3o da\u00a0conven\u00e7\u00e3o dos direitos da mulher em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Ou ainda mais recentemente, na d\u00e9cada de 60, quando, incorporando as ra\u00edzes\u00a0hist\u00f3ricas da desigualdade, com a publica\u00e7\u00e3o de O Segundo Sexo, de Simone de\u00a0Beauvoir, as feministas conseguiram firmar-se como movimento amparado em bases te\u00f3ricas. Na obra, Beauvoir apresenta a hierarquiza\u00e7\u00e3o sexual como um constructo social e n\u00e3o mais com o olhar biol\u00f3gico de desmerecimento e inferioridade que se via em estudos mais datados de diversas \u00e1reas. Ser mulher passou a ser n\u00e3o s\u00f3 uma bandeira de igualdade, mas uma condi\u00e7\u00e3o de dar luz e voz a quem at\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 viveu nas sombras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante desse panorama, aumentaram os projetos e estudos sobre a mulher, particularmente sobre a desigualdade e a viol\u00eancia que elas sofrem ainda hoje. Muitas campanhas surgiram, mesmo que modestamente. Os estudiosos, pesquisadores e professores do IPUSP\u00a0fortalecem a luta pela causa da mulher, com pesquisas em n\u00famero cada vez maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O papel da mulher na hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se mudarmos a quest\u00e3o inicial, \u201cO que quer uma mulher\u201d, para \u201cO que \u00e9 a mulher e qual seu papel?\u201d, ainda assim n\u00e3o encontraremos uma resposta efetiva. O tal\u00a0\u201cpapel feminino\u201d difere, a depender do contexto s\u00f3cio-hist\u00f3rico, porque o momento, o lugar e as \u201cpersonagens\u201d se alteram e, com isso, se transformam as concep\u00e7\u00f5es que se t\u00eam acerca da mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista \u00e0 psico.usp, Belinda\u00a0Mandelbaum, Profa. Dra. da \u00e1rea de Psicologia Social do IPUSP, aponta que as defini\u00e7\u00f5es de g\u00eanero podem ser relativas porque \u201cas categorias mulher e homem s\u00e3o constru\u00eddas socialmente\u201d. Por isso, de acordo com ela, \u201co que cada um \u00e9 ou representa vai variar de acordo com a \u00e9poca, com elementos da religi\u00e3o ou da cultura, ou seja, com o modo como cada sociedade entende esses pap\u00e9is\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cultura ocidental, durante muito tempo, a vis\u00e3o de mulher podia muito frequentemente se esgotar na tr\u00edade casa\/marido\/filhos, como se o \u201cser m\u00e3e\u201d, cuidar da fam\u00edlia, lavar, passar, cozinhar e ceder ao prazer do homem fossem atribui\u00e7\u00f5es da natureza. Para Mandelbaum, a constru\u00e7\u00e3o do papel social feminino muitas vezes ancorava-se na ideia de que\u00a0\u201cnasci mulher, logo essa \u00e9 minha fun\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, uma consider\u00e1vel mudan\u00e7a ocorreu durante o s\u00e9culo XX, com a industrializa\u00e7\u00e3o e as guerras. Com a ida dos homens para os campos de batalha, \u201cas mulheres passaram a ser requisitadas nas ind\u00fastrias, na produ\u00e7\u00e3o, em tudo que se fazia necess\u00e1rio quanto \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o dos artefatos de guerra e da pr\u00f3pria sociedade\u201d. O ideal que se tinha at\u00e9 ent\u00e3o sobre a mulher como a dona do lar, enquanto o marido deveria ser o provedor da fam\u00edlia, sofre uma transforma\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que ela pr\u00f3pria passa a prover as necessidades da casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A psican\u00e1lise e as mulheres<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na psican\u00e1lise freudiana, o feminino \u00e9 geralmente definido como um ser de falta. A partir das formula\u00e7\u00f5es de Freud, ent\u00e3o, temos a mulher como aquela que n\u00e3o tem o falo, como o ser incompleto. De acordo com essa conceitua\u00e7\u00e3o, tida hoje por muitas frentes como machista e ultrapassada, a mulher apresentaria a necessidade de se unir a um homem que a protegeria de seu \u201cdesamparo\u201d, e sua satisfa\u00e7\u00e3o estaria completa com a vinda de filhos, especialmente se em seu ventre fossem gerados\u00a0descendentes do sexo masculino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conversando com representantes do Coletivo Feminista do IPUSP, foi poss\u00edvel perceber que algumas das futuras profissionais da psicologia veem em Freud um discurso faloc\u00eantrico que continua sendo obstinadamente repassado, ainda que hoje muitas de suas conceitua\u00e7\u00f5es sejam consideradas machistas e gerem desconforto entre muitos alunos, sejam eles mulheres ou homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para B\u00e1rbara Dias, uma das representantes do coletivo e aluna do IP,\u00a0\u201cexiste um anacronismo quando se fala de Freud, porque se entende sua teoria como uma verdade absoluta\u201d. Em sua opini\u00e3o, \u201co discurso que foi t\u00e3o importante na \u00e9poca dele, ainda que sejaimportante para a psicologia, hoje \u00e9 antiquado\u201d. Isso, entretanto, n\u00e3o significa prescindir da import\u00e2ncia do autor. O que se busca salientar \u00e9 que a evolu\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise exige uma contesta\u00e7\u00e3o e supera\u00e7\u00e3o dos problemas de g\u00eanero que surgiram em suas teoriza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Denise Harumi, outra representante do Coletivo Feminista do IPUSP, cita as teorias de desenvolvimento do ser humano para explicar o machismo incutido nas teorias psicanal\u00edticas ainda t\u00e3o estudadas hoje. \u201cPrimeiramente se reconhece a fam\u00edlia tradicional como a perfeita, aquela em que os indiv\u00edduos t\u00eam o melhor desenvolvimento ps\u00edquico. O que foge ao padr\u00e3o \u00e9 um desvio de personalidade, d\u00e9ficit de intelig\u00eancia, por exemplo\u201d.<br \/>\nA elei\u00e7\u00e3o desse modelo familiar implica a delimita\u00e7\u00e3o bem definida dos pap\u00e9is de homem e de mulher. Com isso, o padr\u00e3o estipulado para o g\u00eanero feminino acaba por se resumir \u00e0 ideia de que \u201cmulher \u00e9 a que cuida, \u00e9 a m\u00e3e\u201d, como conta Harumi. Mas a aluna se mostra otimista diante dos novos estudos, porque \u201cv\u00eam surgindo outras escolas mais recentes que n\u00e3o s\u00e3o apenas menos machistas como tamb\u00e9m mais preocupadas com uma cr\u00edtica social, outras \u00e1reas que n\u00e3o s\u00f3 a cl\u00ednica\u201d. E o fato de v\u00e1rios pensadores atuais, conquanto tenham bebido da fonte freudiana, \u00a0esenvolverem outras teorias e refor\u00e7arem uma vis\u00e3o de sociedade menos convencional, complementa esse avan\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso, contudo, tomar cuidado para n\u00e3o reduzirmos a psican\u00e1lise ao machismo, como se o profissional psicanalista fosse um desmerecedor das mulheres. Lucas Bulamah, pesquisador do IPUSP sobre o tema, reconhece que o discurso freudiano foi muito opressor em alguns aspectos. Mas v\u00ea como preocupante essa limita\u00e7\u00e3o reducionista que muitas vezes \u00e9 feita sobre a psican\u00e1lise, visto que as teorias contempor\u00e2neas sobre g\u00eanero e<br \/>\nsexualidade, atrav\u00e9s de seus representantes mais proeminentes, trabalham em\u00a0di\u00e1logo com a psican\u00e1lise. \u00c9 necess\u00e1rio, portanto, modalizar o nosso ponto de\u00a0vista e considerar tanto os progressos quando o conservadorismo da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos estudos de Freud, embora inovadores em sua \u00e9poca, hoje s\u00e3o um tanto quanto obsoletos e n\u00e3o podem ser considerados como uma verdade universal. Por\u00e9m, como explica o psic\u00f3logo e pesquisador, \u201ctemos que reconhecer que o discurso freudiano foi para muito al\u00e9m dele pr\u00f3prio, ao mesmo tempo em que esteve sujeito a restri\u00e7\u00f5es conceituais e lingu\u00edsticas do tempo dele\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/elas-querem-voz_coletivos2.png\" alt=\"elas querem voz coletivos2\" width=\"818\" height=\"1188\" \/><br \/>\nMandelbaum v\u00ea no discurso freudiano, para al\u00e9m da opress\u00e3o e subjuga\u00e7\u00e3o feminina, um in\u00edcio da possibilidade de dar voz \u00e0s mulheres. Segundo ela, indiretamente, Freud estimulou que a mulher ousasse falar, externar, seus sentimentos, ang\u00fastias e desejos. Isso porque, quando Freud e Breuer come\u00e7aram a atender as mulheres ditas\u00a0hist\u00e9ricas, como t\u00e9cnica terap\u00eautica eles \u201cpermitiram que a mem\u00f3ria dos traumas reprimidos pudesse ser colocada para fora\u201d, argumenta a professora.<br \/>\nPara ela, o tratamento psicanal\u00edtico pode ser visto \u201ccomo uma pr\u00e1tica subjetivante que tem o objetivo de que cada um de n\u00f3s se aproprie de si mesmo, ampliando essa consci\u00eancia de si\u201d. Assim, uma das consequ\u00eancias desta abordagem \u00e9 a sua contribui\u00e7\u00e3o para a\u00a0conquista da voz pelas mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A chamada \u201ccl\u00ednica da histeria\u201d, t\u00e3o importante para o desenvolvimento da psican\u00e1lise, foi o resultado de um trabalho entre Freud e Breuer. Anna O., paciente de Breuer, diagnosticada como uma jovem hist\u00e9rica (e tida como estudo marco da psican\u00e1lise), esgotava-se com a cansativa obriga\u00e7\u00e3o de cuidar do pai, doente terminal. Em raz\u00e3o de seu esgotamento profundo, desenvolveu graves sintomas f\u00edsicos. Breuer p\u00f4de atenuar o sofrimento da paciente \u2013 atrav\u00e9s do fluxo da palavra liberta dos confins da repress\u00e3o \u2013 ao mesmo tempo que descobria a \u201ccura pela palavra\u201d propiciada pelas sess\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A condi\u00e7\u00e3o\u00a0social das mulheres<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exemplos como o de Anna O. nos mostram que os estudos psicanal\u00edticos de Freud (e Breuer) trouxeram contribui\u00e7\u00f5es aos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o da mulher. Elas puderam encontrar material de\u00a0contesta\u00e7\u00e3o sobre as fun\u00e7\u00f5es sociais femininas, o que lhes permitiu transformar o seu sofrimento, antes silenciado, em \u201cgrito\u201d. Apesar disso, essa constata\u00e7\u00e3o da nova condi\u00e7\u00e3o feminina n\u00e3o eliminou suas responsabilidades como m\u00e3e, como esposa ou como cuidadora do lar. Por isso, ainda nos dias de hoje, \u00e9 bastante comum ver mulheres em jornadas duplas ou at\u00e9 triplas de trabalho. Mesmo que tenham conquistado espa\u00e7o no mercado de trabalho, muitas delas ainda s\u00e3o obrigadas a manter as antigas responsabilidades de cuidar da fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre este tema, Mandelbaum aponta que n\u00e3o h\u00e1 igualdade, pois a mulher \u201c\u00e9 extremamente demandada em termos do\u00a0cuidado do lar\u201d, al\u00e9m de ser \u201ca ponte entre as pol\u00edticas p\u00fablicas nos campos da sa\u00fade, da educa\u00e7\u00e3o, da assist\u00eancia social e da fam\u00edlia\u201d. Este \u00e9 ainda um aspecto predominante na sociedade brasileira: embora as novas rela\u00e7\u00f5es e divis\u00f5es de trabalho tenham se ampliado, em casa n\u00e3o \u00e9 unanimidade que o homem tenha os mesmos deveres que as mulheres, e \u00e9 evidente que a desigualdade de g\u00eanero se inicia no pr\u00f3prio lar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Briga de marido e mulher<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O espa\u00e7o que as mulheres conquistaram desde o come\u00e7o da luta feminista n\u00e3o nos permite ainda afirmar que seus objetivos foram conquistados e a igualdade alcan\u00e7ada. Al\u00e9m do fato de as\u00a0mulheres ainda serem incumbidas das tarefas dom\u00e9sticas, o lar tamb\u00e9m pode ser o pr\u00f3prio palco da repress\u00e3o, traduzida em agress\u00e3o f\u00edsica, psicol\u00f3gica,\u00a0sexual ou at\u00e9 mesmo em morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o \u201cMapa da Viol\u00eancia 2015: Homic\u00eddio de Mulheres no Brasil\u201d, de Julio Jacobo Waiselfisz, quase um ter\u00e7o\u00a0desses homic\u00eddios acontece em ambientes dom\u00e9sticos. Mas, durante muito tempo, esse tipo de viol\u00eancia foi tratado como algo que n\u00e3o deveria vir a p\u00fablico, seguindo o famoso dito popular \u201cem briga de marido e mulher, n\u00e3o se mete a colher\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, da mesma forma que existem situa\u00e7\u00f5es de aparente apatia, que privilegiam quem pratica a viol\u00eancia, h\u00e1 tamb\u00e9m aquelas que s\u00e3o propulsoras de mudan\u00e7as. Como \u00e9 o caso de Maria da Penha. Depois de ser\u00a0abusada em casa durante 23 anos de casamento, Maria sofreu duas tentativas de assassinato, incluindo uma s\u00e9rie de tiros que a deixou parapl\u00e9gica. Ela decidiu ent\u00e3o recorrer \u00e0 Justi\u00e7a. Mesmo\u00a0assim, a den\u00fancia dos acontecimentos n\u00e3o foi suficiente para uma puni\u00e7\u00e3o imediata ao marido, que s\u00f3 foi preso ap\u00f3s 19 anos de julgamento. Essa demora para a delibera\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a definitiva contra o agressor motivou a lei espec\u00edfica, promulgada em 2006 que leva seu nome e busca dar respaldo e prote\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como presas para o agressor<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem todos os casos de viol\u00eancia contra a mulher, por\u00e9m, s\u00e3o como os de\u00a0Maria da Penha, que saiu de casa em busca de seus direitos. \u00c9 comum, por exemplo, que mulheres aparentemente n\u00e3o se revoltem contra o seu agressor e\/ou n\u00e3o busquem suporte legal. Muitas ainda encaram a situa\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia dom\u00e9stica como algo natural, porque lhes foi incutida a ideia de que, sendo mulher, apanhar e sofrer abusos \u00e9 algo poss\u00edvel e, se a viol\u00eancia se concretiza, possivelmente, a culpa \u00e9 da v\u00edtima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensando nisso e visando a compreender a dificuldade que as mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia t\u00eam de abandonarem essas rela\u00e7\u00f5es t\u00f3xicas, Raquel\u00a0Younes, mestre pelo IPUSP, desenvolveu a pesquisa \u201cA permanente vitimiza\u00e7\u00e3o de mulheres: compreens\u00e3o psicodin\u00e2mica a partir de um estudo de caso\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pesquisadora explica que sempre se questionou sobre o motivo de in\u00fameras mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia n\u00e3o procurarem ajuda e n\u00e3o conseguirem sair dessa condi\u00e7\u00e3o. Para ela, \u00e9 perigoso considerar a mulher apenas como\u00a0v\u00edtima ou culpada, porque as rela\u00e7\u00f5es humanas transcendem essa simples ategoriza\u00e7\u00e3o. \u201cQuando se trata de um\u00a0assunto t\u00e3o complexo, se adotamos uma posi\u00e7\u00e3o manique\u00edsta (de um lado\u00a0a v\u00edtima e de outro o agressor) estamos abordando a quest\u00e3o de forma simplista e superficial\u201d, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A linha de pesquisa de Younes segue a teoria da agressividade de Winnicott e conclui que a impossibilidade de algumas mulheres abandonarem rela\u00e7\u00f5es violentas est\u00e1 relacionada \u00e0 n\u00e3o-integra\u00e7\u00e3o da agressividade, que, para Winnicott, funciona como o motor da vida. Sem poderem integrar esse aspecto fundamental da exist\u00eancia humana em si mesmas, elas o projetam no outro \u2013 em geral, seu agressor \u2013, pois essa \u00e9 a \u00fanica maneira de elas se sentirem inteiras e vivas. Dessa forma, elas n\u00e3o abandonam essas rela\u00e7\u00f5es violentas porque n\u00e3o conseguem, e n\u00e3 oporque n\u00e3o querem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a tamb\u00e9m pesquisadora do IP Marta Quaglia Cerruti, \u00e9 preciso tomar cuidado com uma ideia latente de vitimiza\u00e7\u00e3o da mulher. Isso porque uma polariza\u00e7\u00e3o entre sexos, que ela chama de l\u00f3gica bin\u00e1ria de opostos, entre v\u00edtima fraca e agressor forte, \u201cacaba por perpetuar aquilo que visa combater: a vis\u00e3o da mulher como um ser fraco e vulner\u00e1vel, que necessita de prote\u00e7\u00e3o\u201d, alega.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, intitulada \u201cBate-se em uma mulher: impasses da vitimiza\u00e7\u00e3o\u201d, a an\u00e1lise sobre a viol\u00eancia sofrida pelas mulheres considera as vicissitudes que perpassam a vida das v\u00edtimas. Essa investiga\u00e7\u00e3o encontra seu ponto cr\u00edtico num aspecto pouco questionado. \u201cTal dificuldade pode ser fruto de um projeto pol\u00edtico pautado na generaliza\u00e7\u00e3o de um tra\u00e7o por demais abrangente: a opress\u00e3o\u201d, salienta Cerruti.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, o que \u00e9 proposto pela pesquisadora \u00e9 que, ao mesmo tempo em que se busca entender a problem\u00e1tica da opress\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio analisar a sua complexidade caso a caso, especialmente no que diz respeito \u00e0 vida da mulher, que n\u00e3o pode ser reduzida a um indiv\u00edduo oprimido e incapaz. Assim, \u00e9 preciso fazer um trabalho intenso e elaborado para que as violentadas consigam sair definitivamente dessa condi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em resumo, Younes e Cerruti concordam que a ideia simplista que se tem sobre a opress\u00e3o faz com que a mulher se estabele\u00e7a na condi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima, como se isso, e nada mais, a norteasse na vida, o que contribui para a manuten\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o de objeto a que a mulher comumente fica subjugada. Falando sobre essa condi\u00e7\u00e3o, Cerruti nos alerta para o fato de que mesmo que a mulher consiga se separar do marido violento, \u00e9 grande o risco de ela\u00a0procurar outro homem com as mesmas caracter\u00edsticas. Por isso, a pesquisadora defende que \u201ca mulher se aproprie de sua hist\u00f3ria e escolhas, entendendo de que maneira se viu implicada numa rela\u00e7\u00e3o assim para, dessa maneira, construir ferramentas que possam vir a prevenir danos futuros\u201d. Para tanto, \u00e9 preciso um acompanhamento para que ela seja capaz de sair desse ciclo vicioso e prejudicial. \u201cEla precisa ser concebida como um ser humano com uma hist\u00f3ria, com sentimentos, com recursos internos e com possibilidades, sendo uma delas n\u00e3o mais estar perto de quem a agride\u201d, finaliza Younes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um\u00a0<em>N\u00e3o Cala<\/em>\u00a0\u00e0 viol\u00eancia de\u00a0g\u00eanero na universidade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos anos, a USP ganhou destaque nas p\u00e1ginas dos grandes jornais n\u00e3o s\u00f3 pelo mais concorrido dos vestibulares do pa\u00eds, mas tamb\u00e9m por um assunto tabu nas grandes universidades: os estupros em festas de alunos. Ainda que n\u00e3o haja evid\u00eancias de que casos de estupro e ass\u00e9dio aconte\u00e7am com frequ\u00eancia, grande parte dos que ocorrem n\u00e3o chega ao conhecimento p\u00fablico, seja pela falta de den\u00fancia, seja por acobertamento das autoridades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto mudou em 2014, quando tr\u00eas v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual denunciaram \u00e0 Assembleia Legislativa de S\u00e3o Paulo os abusos sofridos em festas da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (FMUSP). Elas, que tamb\u00e9m s\u00e3o alunas, foram ouvidas pela Comiss\u00e3o da Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, da Cidadania, da Participa\u00e7\u00e3o e das Quest\u00f5es Sociais (CDH). Os abusos ocorreram em 2011, em festa nomeada de \u201cCarecas do Bosque\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2015, novamente a FMUSP ganhou destaque nos jornais, mas dessa vez o \u00fanico abusador teria sido um aluno que, ao final, foi apenas suspenso por \u201cinfra\u00e7\u00f5es disciplinares\u201d e impedido de colar grau pela universidade, mas n\u00e3o foi julgado pelos seus crimes pela Justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros casos ainda foram noticiados, como o de uma aluna da Faculdade de Economia e Administra\u00e7\u00e3o (FEA), violentada na Pra\u00e7a do Rel\u00f3gio da USP\u00a0durante per\u00edodo de recesso, al\u00e9m de persegui\u00e7\u00f5es com bilhetes an\u00f4nimos que resultaram em tentativas de estupro a uma aluna da Faculdade de Filosofia\u00a0Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante das tentativas de silenciar a viol\u00eancia praticada contra as mulheres dentro da universidade, alguns coletivos feministas e grupos de amparo \u00e0s v\u00edtimas foram criados, com o intuito de coibir a falta de puni\u00e7\u00e3o aos agressores e erradicar a viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentre as a\u00e7\u00f5es e campanhas que v\u00eam surgindo, em abril de 2015 professoras da Faculdade de Medicina da USP \u2013 palco de epis\u00f3dios de ass\u00e9dio e estupros \u2013 criaram uma rede que acabou sendo abra\u00e7ada por professoras e pesquisadoras dos demais cursos da USP e que agora conta com o apoio de funcion\u00e1rias e alunas: a Rede de Professoras e Pesquisadoras pelo fim da viol\u00eancia sexual e de g\u00eanero na USP \u2013 Rede N\u00e3o Cala USP.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A iniciativa representa um modo de dizer que as mulheres n\u00e3o se calam, n\u00e3o consentem e n\u00e3o aceitam a viol\u00eancia sexual e de g\u00eanero presente nos campi. Seu funcionamento \u00e9 uma resposta \u00e0 \u201cinefici\u00eancia dos mecanismos de apura\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o dos casos e \u00e0 falta de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00edtimas\u201d, segundo consta no manifesto da rede, composta por mais de 200 mulheres de 23 unidades da USP.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Rede N\u00e3o Cala \u00e9 independente, aut\u00f4noma e autossustentada, n\u00e3o tem v\u00ednculo de depend\u00eancia nem mesmo com o Escrit\u00f3rio USP Mulheres, vinculado ao HeForShe, programa da ONU de combate \u00e0 viol\u00eancia de g\u00eanero, ainda que sua tem\u00e1tica e ideias tenham pontos em comum. A Rede prev\u00ea a\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o e sensibiliza\u00e7\u00e3o sobre a situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia sexual e de g\u00eanero na USP; organizar formas de acolhimento e incentivo \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma rede de solidariedade; al\u00e9m de uma efetiva contribui\u00e7\u00e3o para o aperfei\u00e7oamento dos regulamentos institucionais, que devem responsabilizar agressores e eliminar a viol\u00eancia do espa\u00e7o p\u00fablico e coletivo que \u00e9 a universidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu manifesto, a Rede reconhece que essa n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil, mas que exige uma a\u00e7\u00e3o urgente: \u201ca constru\u00e7\u00e3o de um ambiente democr\u00e1tico, que n\u00e3o tolere viol\u00eancias e abusos sexuais e de g\u00eanero, \u00e9 tamb\u00e9m responsabilidade de todos os membros da Universidade: docentes, funcion\u00e1rios e estudantes\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><strong>A constru\u00e7\u00e3o de um ambiente democr\u00e1tico,<br \/>\nque n\u00e3o <\/strong><strong>tolere viol\u00eancias e abusos sexuais e de g\u00eanero,<br \/>\n\u00e9 tamb\u00e9m responsabilidade de todos<br \/>\nos membros da Universidade<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\n<\/strong>Segundo Adriana Marcondes Machado, Profa. Dra. do Departamento de\u00a0Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do IPUSP e membro da Rede, para o ano de 2016, a Rede N\u00e3o Cala \u201cdesenvolver\u00e1 o acolhimento de maneira mais articulada, manter\u00e1 o trabalho e conversa com alunos e alunas no sentido da conscientiza\u00e7\u00e3o sobre a produ\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia sexual e de g\u00eanero no cotidiano da universidade e apliar\u00e1 a\u00e7\u00f5es de enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia sexual e de g\u00eanero e ao ass\u00e9dio sexual\u201d. Para viabilizar esse intenso trabalho, a professora conta que s\u00e3o realizados encontros mensais em que s\u00e3o discutidos os encaminhamentos das a\u00e7\u00f5es e as situa\u00e7\u00f5es que chegam as conhecimento da Rede.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a Rede N\u00e3o Cala, o reconhecimento da viol\u00eancia e a discuss\u00e3o aberta sobre os problemas de g\u00eanero na\u00a0universidade s\u00e3o o \u201cin\u00edcio da constru\u00e7\u00e3o de uma realidade acad\u00eamica que respeite plenamente os direitos humanos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As dificuldades do \u201cgrito\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sociedade, considerar a dificuldade que a mulher agredida tem em denunciar os abusos sofridos ainda se faz importante. Mesmo assim, continuam sendo comuns julgamentos como \u201cMas por que n\u00e3o denuncia?\u201d, \u201cComo ainda vive com o agressor?\u201d, \u201cPor que n\u00e3o procura ajuda?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u201cescolha\u201d por manter o segredo e n\u00e3o recorrer a nenhuma inst\u00e2ncia legal n\u00e3o deve ser entendida como omiss\u00e3o, porque este comportamento est\u00e1 relacionado a diversas variantes psicol\u00f3gicas. A vergonha do corpo lesado, o medo da exposi\u00e7\u00e3o ou mesmo a inseguran\u00e7a diante da possibilidade de julgamento e absolvi\u00e7\u00e3o do agressor, seguida por uma poss\u00edvel retalia\u00e7\u00e3o praticada contra a delatora, s\u00e3o quest\u00f5es que rondam\u00a0constantemente a mente da v\u00edtima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2014, uma pesquisa realizada e divulgada pelo IPEA \u2013 Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada \u2013 apresentou dados que denunciam uma realidade desesperan\u00e7osa. Segundo os dados levantados, 26% dos entrevistados consideram que \u201cmulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas\u201d. Outro dado mostra que para 58,5% dos brasileiros, \u201cse as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros\u201d. E 65,1% dos entrevistados concordam parcial ou totalmente que \u201cmulher que \u00e9 agredida econtinua com o parceiro gosta de apanhar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pesquisa mostra que a ideia de que \u201ca culpa \u00e9 da v\u00edtima\u201d ou que \u201cela provocou\u201d perpassa o imagin\u00e1rio da sociedade brasileira como um todo. Essas opini\u00f5es tamb\u00e9m mostram o quanto a viol\u00eancia \u00e9 vista de forma unilateral, sendo a v\u00edtima, antes de tudo, a motivadora da situa\u00e7\u00e3o.\u00a0Para Luciana Ferreira Chagas, pesquisadora do tema pelo IPUSP, a ideia de escolha pelo segredo em casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica pode atuar como \u201cum mecanismo inconsciente, em que o sujeito repete uma cena traum\u00e1tica como tentativa de dar conta de um conte\u00fado sem significa\u00e7\u00e3o, algo sem inscri\u00e7\u00e3o\u201d, o que ela detalha em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado\u00a0intitulada \u201cAfinal, segredo de qu\u00ea? Uma leitura metapsicol\u00f3gica da fun\u00e7\u00e3o do segredo na viol\u00eancia sexual e o atendimento em institui\u00e7\u00e3o de sa\u00fade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A psic\u00f3loga verificou clinicamente que h\u00e1 consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas negativas nos casos de v\u00edtimas de abusos e agress\u00f5es que guardam segredo. Por meio de uma investiga\u00e7\u00e3o te\u00f3rica sobre a viol\u00eancia e sobre o conceito de segredo encontrado nos estudos de Freud e Lacan, Chagas notou que, no artigo \u201cAs neuropsicoses de defesa\u201d, Freud explica que o segredo \u00e9 resultado de uma experi\u00eancia recalcada, um evento t\u00e3o \u00a0traum\u00e1tico que se esconde no inconsciente e pode retornar como sintomas\u00a0corporais e sofrimento ps\u00edquico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pesquisadora relata que quem quer que passe por um acontecimento traum\u00e1tico pode gozar de boa sa\u00fade mental at\u00e9 a \u201cocorr\u00eancia de incompatibilidade em sua vida representativa\u201d. Isso significa que quando o ego se confronta com uma experi\u00eancia, uma \u00a0representa\u00e7\u00e3o ou um sentimento que suscita nele um afeto aflitivo, o sujeito \u201cdecide\u201d esquec\u00ea-lo. Essa defesa se d\u00e1, segundo Chagas, porque o eu \u201cn\u00e3o<br \/>\nconfia em sua capacidade de resolver a contradi\u00e7\u00e3o entre a representa\u00e7\u00e3o\u00a0incompat\u00edvel e seu eu, por meio da atividade do pensamento\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chagas, ent\u00e3o, conclui que o segredo n\u00e3o seja propriamente o fato de a v\u00edtima manter oculta \u201ca experi\u00eancia da viol\u00eancia sexual, vivida ou fantasiada\u201d. O segredo seria \u201ca pr\u00f3pria fantasia\u201d, seria \u201co segredo do \u2018ser mulher\u2019\u201d, que diz respeito \u00e0 \u201csua pr\u00f3pria fantasia fundamental, ao seu modo singular de gozo\u201d. Consequentemente, isso significa que a escolha pelo sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 uma forma de ignorar o ocorrido ou a vergonha do sofrido, ou mesmo uma forma de compactuar com o crime. A escolha pelo \u00a0sil\u00eancio \u00e9 \u201cum modo de auto-preserva\u00e7\u00e3o, uma forma de manter intacta uma fantasia \u00edntima que se tem e que, brutalmente, foi destru\u00edda\u201d, ao ser convertida em ato. E a possibilidade de escolher dar voz a esse segredo oculto s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com o tempo, aliado ao apoio e a um processo pessoal, com o intuito de se aprender a lidar com o que se sofreu e seguir em frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A boca no trombone<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As dificuldades e os dilemas enfrentados pela v\u00edtima de um trauma como a viol\u00eancia de g\u00eanero trazem consequ\u00eancias para a constitui\u00e7\u00e3o de sua\u00a0subjetividade. O medo, da exposi\u00e7\u00e3o ou de repres\u00e1lias, continua representando o maior inimigo de uma a\u00e7\u00e3o de den\u00fancia mais efetiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A compreens\u00edvel inibi\u00e7\u00e3o de tantas mulheres que apresentam a dificuldade em lidar com os abusos e viol\u00eancias\u00a0sofridao se deve \u00e0 necessidade do desenvolvimento de mais a\u00e7\u00f5es de amparo voltadas a elas, v\u00edtimas de um sistem\u00e1tico desrespeito. Por isso, h\u00e1 urg\u00eancia em se educar\u00a0culturalmente as mulheres para que elas tomem conhecimento dos benef\u00edcios\u00a0sociais promovidos pela a\u00e7\u00e3o generalizada de trazer a p\u00fablico as agress\u00f5es e os abusos praticados contra o seu g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema se d\u00e1 no que se relaciona \u00e0s a\u00e7\u00f5es implementadas no cotidiano que acabam por nada fazer para\u00a0combater e punir o machismo di\u00e1rio. Com isso, \u00e9 natural que elas, acostumadas a esse modus operandi da sociedade\u00a0brasileira, sintam vergonha do ass\u00e9dio, dos abusos e da viol\u00eancia. Para complementar a\u00a0situa\u00e7\u00e3o, essa vergonha, na\u00a0maioria das vezes, ainda vem acompanhada de um dilacerante sentimento de culpa. Mas por que culpa, se o mal n\u00e3o foi praticado por elas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensando nisso, iniciativas na internet surgiram recentemente para\u00a0combater esse sentimento, dando espa\u00e7o para as mulheres retratarem suas hist\u00f3rias e verem que, afinal, elas n\u00e3o est\u00e3o sozinhas. As hashtags #meuprimeiroassedio, #meuamigosecreto e#elesemprefala foram iniciativas feministas que despertaram enorme interesse nas redes sociais, trazendo \u00e0 tona atitudes de\u00a0machismo, encoberto ou expl\u00edcito, e hist\u00f3rias de viol\u00eancia de g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira hashtag foi uma iniciativa da ONG Think Olga, que dava espa\u00e7o para as mulheres retratarem suas primeiras experi\u00eancias de abuso sexual. N\u00e3o faltaram\u00a0hist\u00f3rias chocantes. Muitos dos relatos, inclusive, estavam sendo compartilhados pela primeira vez, o que significa que aquelas pessoas estavam verbalizando s\u00e9rios traumas, guardados por toda uma vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A outra tag, #meuamigosecreto, faz uma par\u00f3dia da famosa brincadeira de fim de ano. Com essa ferramenta, \u00a0meninas contaram hist\u00f3rias reais de machismo velado ou escancarado, opress\u00e3o e contradi\u00e7\u00e3o, das quais elas tinham conhecimento ou foram v\u00edtimas. Essas hist\u00f3rias suscitaram a identifica\u00e7\u00e3o de mulheres das mais diferentes personalidades e um apoio coletivo e m\u00fatuo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por \u00faltimo, a campanha virtual veiculada por #elesemprefala buscou denunciar, tamb\u00e9m nas redes sociais, uma s\u00e9rie de desculpas contadas por homens que tentam disfar\u00e7ar suas atitudes machistas. A ideia de satirizar as justificativas masculinas teve in\u00edcio no dia primeiro de abril, \u201cDia da Mentira\u201d, o que somou \u00e0 cr\u00edtica um tom de humor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todo caso, esse tipo de campanha, mesmo que abra um canal de di\u00e1logo feminino, n\u00e3o traz prote\u00e7\u00e3o real \u00e0s mulheres. Por raz\u00f5es como esta, a luta pela implementa\u00e7\u00e3o de uma lei espec\u00edfica que defenda as mulheres \u00e9 t\u00e3o \u00a0indispens\u00e1vel. Com este intuito, em mar\u00e7o de 2015 foi sancionada a lei n. 13.104, conhecida como Lei do Feminic\u00eddio, que tipifica o crime violento contra a mulher como hediondo e, se acompanhado por especificidades que indicam a vulnerabilidade da v\u00edtima (tais como gravidez, menoridade, presen\u00e7a de filhos etc.), agrava a pena do agressor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A USP acompanhou no ano passado a lament\u00e1vel morte de uma de suas\u00a0funcion\u00e1rias, Geiza Aparecida Medeiros Martinez, de 44 anos, assassinada brutalmente pelo companheiro e abandonada numa estrada pr\u00f3xima \u00e0 \u00a0universidade. Geiza estava gr\u00e1vida e tornou-se mais uma v\u00edtima do feminic\u00eddio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se considerado o cen\u00e1rio brasileiro, as leis s\u00e3o ainda parcas e a justi\u00e7a falha para os abusadores. Campanhas na internet e nas universidades s\u00e3o algumas das poucas armas das mulheres para impor \u2013 muito mais do que a equidade dos g\u00eaneros \u2013 um basta na viol\u00eancia e no estado de mudez que as impede de gritar. Para elas, conquistar \u2013 com for\u00e7a e efetividade \u2013 a voz que sussurrou nos tempos de Freud \u00e9 o primeiro \u00a0passo para mudar em\u00a0definitivo essa situa\u00e7\u00e3o que, de t\u00e3o irracional, reduz a\u00a0humanidade \u00e0 animaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por Aryanna Oliveira, Sofia Mendes e An\u00e1tale Garcia<br \/>\nColabora\u00e7\u00e3o de Tatiana Iwata<br \/>\nEdi\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o por Islaine Maciel e Maria Isabel da Silva Leme<\/p>\n<p>Clique nas no t\u00edtulo para folhear as revistas <strong>psico.<\/strong>usp:<\/p>\n<div id=\"attachment_935\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 152px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-935 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png\" alt=\"\" width=\"142\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png 307w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2-226x300.png 226w\" sizes=\"(max-width: 142px) 100vw, 142px\" \/><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/revista_psico.usp_n1_2015.pdf\">Alfabetiza\u00e7\u00e3o \u2013 2015, n. 1<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"attachment_933\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 150px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\" data-wp-editing=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-933 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png\" alt=\"\" width=\"140\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png 305w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1-224x300.png 224w\" sizes=\"(max-width: 140px) 100vw, 140px\" \/><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/revista-psico.usp-n.-2-3-2016.pdf\">\u00c9 hora de falar sobre G\u00eanero \u2013 2016, n.2\/3<\/a><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seguindo a for\u00e7a dos movimentos sociais e feministas na contemporaneidade, pesquisadores do IPUSP realizam projetos que procuram entender o feminino,&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":973,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[374,1],"tags":[209,210,208,61,212,211,181,207,60,17,144,71,176,22,170],"class_list":["post-954","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-genero","category-sociedade","tag-agressor","tag-coletivo","tag-feminicidio","tag-feminismo","tag-feminista","tag-lgbt","tag-mulher","tag-nao-cala","tag-psicanalise","tag-psicologia","tag-social","tag-sofrimento","tag-trauma","tag-usp","tag-violencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/954","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=954"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/954\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6729,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/954\/revisions\/6729"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/973"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=954"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=954"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=954"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}