Leitura territorial – Os resultados revelaram padrões relevantes para o planejamento urbano, como a presença de áreas de alta vulnerabilidade energética em bairros de alto padrão, mostrando que o fenômeno não decorre diretamente da renda, mas do cruzamento de múltiplos fatores territoriais e estruturais.
A metodologia permite ir além da análise de um único fenômeno. A partir dos mapas, é possível cruzar diferentes temas — como vulnerabilidade social e energética — e identificar correlações no território. Também permite simular cenários: em um dos exercícios, a ampliação do uso de gás em cerca de 23% nas residências paulistanas reduziria, em média, 11% da vulnerabilidade energética, indicando seu potencial para apoiar políticas e estratégias de intervenção.
A partir dessa experiência, a equipe estruturou o procedimento metodológico e solicitou sua proteção intelectual, concedida recentemente após processo iniciado em 2018. A patente reconhece como inovação a integração sistemática de três dimensões — teoria, método e técnica — em um único fluxo analítico aplicado ao mapeamento territorial.
Base metodológica – Na prática, a abordagem parte da definição conceitual do fenômeno a ser analisado e da seleção de indicadores adequados ao contexto estudado. Esses indicadores são então organizados em uma matriz de ponderação (Analytical Hierarchy Process – AHP), que permite atribuir pesos relativos a cada variável. Por fim, os dados são processados em ambiente de geoprocessamento, resultando em mapas temáticos que classificam o território em diferentes níveis de vulnerabilidade.
“Mais do que o mapa em si, o que desenvolvemos foi um procedimento. Ele permite mapear diferentes fenômenos, desde que haja indicadores consistentes e dados georreferenciados”, explica Venturi. Segundo o pesquisador, o método pode ser aplicado a temas diversos, como vulnerabilidade social, segurança hídrica, mobilidade urbana, criminalidade e até padrões epidemiológicos ou de saúde pública.
Outro aspecto central é o caráter interdisciplinar da aplicação. A construção dos mapas exige a atuação conjunta de especialistas em diferentes frentes — desde a definição teórica dos indicadores até a modelagem e o processamento geoespacial. “Dificilmente uma única pessoa domina todas as etapas. É um trabalho que integra diferentes competências para garantir um resultado confiável”, afirma.
A concessão da patente é considerada um marco pouco comum na área de Geografia, na qual não há tradição de proteção intelectual de métodos analíticos. “É um reconhecimento de que a combinação dessas etapas, aplicada de forma estruturada, gera um procedimento novo, com potencial de uso amplo”, diz o pesquisador.
A metodologia já começa a ser considerada em novos projetos de maior escala. Uma das iniciativas em discussão prevê sua aplicação no diagnóstico da infraestrutura energética do estado de São Paulo, com o objetivo de mapear vulnerabilidades regionais e apoiar decisões de planejamento. A proposta ainda está em fase de estruturação.
Para Venturi, o principal valor da metodologia está justamente na sua capacidade de adaptação. “Cada tema exige indicadores próprios e uma leitura cuidadosa do contexto. O método organiza esse processo e permite transformar dados dispersos em informação estratégica para tomada de decisão”, conclui.