A escola é a nova fronteira de expansão agrícola do agronegócio

Legenda: Membros da Associação De Olho no Material Escolar (Donme) em encontros com políticos do alto escalão. Fonte: Reprodução de fonte secundária (matéria no jornal Repórter Brasil - https://reporterbrasil.org.br/2024/10/agronegocio-lobby-livros-didaticos/), cuja fonte primária é o perfil do Instagram da associação.

Que o Agro quer se dizer tech, pop e tudo já sabemos. Agora, ele quer ser escolar, e isso é preocupante.

Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira

Sou uma pessoa queer branca do interior do estado de São Paulo, em estágio inicial dos estudos de Doutorado pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências (PIEC-USP). Tenho grande interesse pelas áreas de Educação e Comunicação Científicas, assim como por Filosofia e Sociologia das Ciências.

E-mail: marcos.vinicius.ferreira@usp.br

Linktree: linktr.ee/marcos.vrf

Instagram: @marcos_vrf

Tags

Agronegócio na escola; Material didático; Educação ambiental crítica; Associação De Olho no Material Escolar; Negacionismo científico; Lobby corporativo; Financeirização da educação.

Espaço Aberto; Número 10

 

Agradecimentos

Agradeço à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelo auxílio financeiro concedido no formato de uma bolsa de jornalismo científico através do programa Mídia Ciência.

Declaração de uso de IA generativa

Eu, na qualidade de autor(a/e) responsável pela obra acima citada, declaro para os devidos fins de transparência e integridade acadêmica que ferramentas de Inteligência Artificial (IA) generativa NÃO FORAM utilizadas em etapas da elaboração deste material.

Como citar

FERREIRA, Marcos Vinícius Ribeiro. A escola é a nova fronteira de expansão agrícola do agronegócio. Revista Balbúrdia, São Paulo, n. 10, 29 ago. 2026. Disponível em: https://sites.usp.br/revistabalburdia/a-escola-e-a-nova-fronteira-de-expansao-agricola-do-agronegocio/.

Direitos Autorais

Atribuição CC BY-NC 4.0

29 de agosto de 2026 | 10:00

 

Mesmo diante da emergência climática sem precedentes, o agronegócio brasileiro encontrou uma nova fronteira de expansão para garantir seu alto faturamento. Ao invés de tomar decisões baseadas em consensos científicos, a nova estratégia de nosso agro pop é semear o imaginário da juventude, movendo-se dos campos para as salas de aula da Educação Básica. Da formação de professores à pressão sobre os conteúdos de livros didáticos, observa-se a construção de uma narrativa que substitui críticas socioambientais ao agronegócio por uma imagem associada ao desenvolvimento e à identidade nacional.

 

Colocando mau olhado em livros didáticos

No centro dessa balbúrdia está a Associação De Olho No Material Escolar (Donme). Embora se apresente como um grupo de pais preocupados, é financiada por grandes corporações do setor para alterar materiais que mencionam problemas reais do agronegócio, como o uso de agrotóxicos, o trabalho escravo nas lavouras e o desmatamento na Amazônia. A Donme argumenta que os materiais atuais são urbanos e ideológicos. Com forte poder econômico, esse lobby já surte efeitos.

Segundo o site da associação, até 20 de maio de 2026, seu programa de formação continuada Mestres no Agro (com cursos e eventos online ou presenciais para educadores) atingiu 971 participantes em 4 estados. Já seu Programa de Relacionamento com Editoras — que monitora materiais didáticos por meio de parcerias com institutos, especialistas, autores e universidades, como a USP — afirma impactar os livros de 30 milhões de alunos.

Conforme noticiado pela Repórter Brasil (Freitas, 2024), foi firmada uma parceria com a Somos Educação para treinar autores e editores. O estado de São Paulo tornou-se vitrine dessa interferência sob a gestão de Tarcísio de Freitas. Relatos ao jornal Aos Fatos (Lobato, 2026) indicam orientações para omitir menções negativas ao agronegócio dos materiais digitais da rede estadual paulista.

A Somos Educação integra a Saber, uma holding de Educação Básica que pertence à Cogna Educação, maior organização educacional do Brasil, que atende desde a educação infantil até a pós-graduação. Veja algumas marcas da Somos Educação na figura a seguir.

 

Legenda: Algumas das plataformas e sistemas de educação oferecidos pela Somos Educação. Fonte: Site da SOMOS Educação - https://somoseducacao.com.br/.

 

Uma holding é uma empresa criada para administrar participações em outras companhias. No contexto educacional, a captura de sistemas públicos e privados por esses grupos liga-se ao fenômeno da financeirização da educação, que abordo neste texto na Revista Balbúrdia (Ferreira, 2026). Para entender como a Cogna representa esse processo, deixo como sugestão de leitura de Chaves, de Camargo e Sousa (2023).

Outra atividade da Donme são excursões estudantis a feiras agropecuárias, onde professores, autores e alunos vivenciam a tecnologia do setor, como drones e maquinários na monocultura agroexportadora. Enraíza-se assim a visão "tech, pop e tudo" do agro, estigmatizando modelos como a agroecologia.

Além da Donme, outras entidades realizam programas similares, incluindo concursos de redação. Destacam-se o Agronegócio na Escola, da Associação Brasileira do Agronegócio da Região de Ribeirão Preto (ABAG/RP), que premia estudantes com telescópios, instrumentos e kits para o YouTube, e escolas com ar-condicionado e notebooks; e o Programa Agrinho, do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), famoso por festas de encerramento que distribuem prêmios como carros para professores e computadores e tablets para alunos.

 

Legenda: Gibi “Agrinho: no mundo do agronegócio”, volume 1, lançado em 25/11/2023, produzido pela Donme. Fonte: Site da Donme - https://deolhonomaterialescolar.com.br/books/agrinho-no-mundo-do-agronegocio/.

 

História para boi dormir

A história contada pela Donme sobre sua própria criação é que ela foi fundada em 2021 pelas Mães do Agro, seu nome inicial, como uma singela associação de mães preocupadas com o material escolar dos filhos. Ao se depararem com críticas ao agro em materiais do sistema Anglo, escreveram uma carta para a escola particular de Barretos, cidade dos rodeios, a qual você pode ler um trecho reproduzido a seguir.

 

Legenda: Um ponto apresentado na carta com a reprodução de páginas do livro didático  . Fonte: Carta das Mães do Agro. Reprodução de: https://reporterbrasil.org.br/wp-content/uploads/2024/10/Carta_Anglo_2020.pdf.

 

Realmente, mães do agro é um nome apropriado, considerando que as fundadoras da associação são grandes e influentes nomes femininos no mundo dos pecuaristas. Dando nome aos bois, a Donme é presidida por Letícia Jacintho, que além de produtora rural, atuou no mercado financeiro, na área de Captação e Fundos, é colunista da Forbes Mulher agro, e já foi entrevistada pela Revista Caras. Além dela, sua sogra, Helen Jacintho, é conselheira do Conselho Superior do Agronegócio (COSAG) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp)   e também compõe a Donme.

O nome original da associação induz a pensarmos que esse coletivo era algo pequeno. Contudo, com um olho no livro didático e outro no recém aprovado Plano Nacional de Educação (PNE), nos últimos anos, a Donme se reuniu diversas vezes com políticos brasileiros influentes, como senador por Minas Gerais Rodrigo Pacheco (PSD), deputado federal por Alagoas Arthur Lira (PP), deputado federal por Minas Gerais Nikolas Ferreira (PL), senadora pelo Distrito Federal Damares Alves (Republicanos), sendo frequente sua aparição junto à alta cúpula de Brasília. Basicamente como qualquer outro grupo de mães. Note que a Donme anda mais com políticos de um certo espectro político. Por que será?

 

A velha cartilha do negacionismo científico

Essa empreitada muitas vezes promove o negacionismo científico. Projetos encomendados pela Donme, como a Agroteca, uma biblioteca virtual criada em parceria com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), são criticados por omitir resultados comprovadamente danosos do agronegócio, como dados oficiais da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) sobre o uso de pesticidas, e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) sobre queimadas, apresentando apenas informações que buscam melhorar a imagem do setor em vez de promover uma educação verdadeiramente crítica. Isso enquanto defendem um ensino mais pautado na ciência.

Um outro texto do número 8 da Revista Balbúrdia apresenta alguns dos dados que a Agroteca esconde (Ferreira; Pena, 2025).

Frente a essa invasão corporativa na educação, a pedagogia crítica nos lembra que a educação nunca é neutra. Ou ela atua para a domesticação e reprodução das desigualdades, ou serve como prática da liberdade e da conscientização (Freire, 1987). A tentativa de transformar as salas de aula em balcões de propaganda do agronegócio mascara os profundos conflitos socioambientais inerentes a esse modelo econômico.

Na área do ensino de ciências, a perspectiva Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente (CTSA) aponta que o desenvolvimento científico e tecnológico, como os celebrados pelo agronegócio em suas mega feiras, carrega interesses políticos e econômicos (Andrade et al., 2016). Uma alfabetização científica crítica, portanto, exige que os estudantes compreendam não apenas as técnicas, mas também quem se beneficia delas e quem sofre suas consequências, rompendo com a falácia do agronegócio benfeitor.

Assim, é essencial que materiais didáticos apresentem temas como a grilagem de terras, queimadas para expansão de pastagens, deflorestamento, ataques à comunidades campesinas, genocídio de populações originárias, uso abusivo de agrotóxicos, e interferência do setor na política nacional por meio de uma das maiores bancadas governistas. Ou seja, os temas para os quais a Donme fecha os olhos.

É urgente fortalecer uma perspectiva alinhada à educação ambiental crítica (Lima, 2009), capaz de desvelar as raízes estruturais da destruição ambiental em prol do lucro de poucos mandatários de nosso país. O papel da escola e da ciência deve ser o de cultivar sujeitos críticos capazes de questionar suas realidades, e não a de cultivar mais soja e gado. A tarefa não é fácil, ainda mais em um sistema controlado pelas grandes holdings educacionais e pelo lobby brutal do agro, mas nosso compromisso com o pensamento crítico, justiça social e com o futuro do planeta deve prevalecer.

 

Referências

ANDRADE, M. A. S.; CONRADO, D. M.; NUNES-NETO, N. F.; ALMEIDA, R. O. Agrotóxicos como questão sociocientífica na Educação CTSA. REMEA - Revista Eletrônica do Mestrado em Educação Ambiental, v. 33, n. 1, p. 171–191, 2016.

CHAVES, V. L. J.; DE CAMARGO, M. D. H.; SOUSA, L. M. C. A Privatização da Educação Básica Superior em Tempos de Financeirização: o caso da Cogna Educação. Revista de Financiamento da Educação, v. 13, n. 14, p. 1-15, 2023.

FERREIRA, M. V. R. Precisamos lidar com os efeitos da plataformização, financeirização e mercantilização da educação pública. Revista Balbúrdia, São Paulo, n. 9, 29 abr. 2026. Disponível em: https://sites.usp.br/revistabalburdia/precisamos-lidar-com-os-efeitos-da-plataformizacao-financeirizacao-e-mercantilizacao-da-educacao-publica/. Acesso em: 20 mai. 2026.

FERREIRA, M. V. R.; PENA, A. B. Em um cenário de crise ambiental global, o que podemos fazer?. Revista Balbúrdia, São Paulo, n. 8, 30 mai. 2025. Disponível em: https://sites.usp.br/revistabalburdia/em-um-cenario-de-crise-ambiental-global-o-que-podemos-fazer/. Acesso em: 20 mai. 2025.

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

FREITAS, H. Agronegócio financia lobby para patrulhar livros didáticos. Repórter Brasil, 30 out. 2024. Disponível em: https://reporterbrasil.org.br/2024/10/agronegocio-lobby-livros-didaticos/. Acesso em: 20 mai. 2026.

LIMA, G. F. DA C. Educação ambiental crítica: do socioambientalismo às sociedades sustentáveis. Educação e Pesquisa, v. 35, n. 1, p. 145–163, jan. 2009.

LOBATO, G. Lobby do agro usa governo de SP como vitrine de projeto de interferência na educação. Aos Fatos, 19 fev. 2026. Disponível em: https://www.aosfatos.org/noticias/lobby-agro-usa-governo-sp-vitrine-projeto-interferencia-educacao/. Acesso em 20 mai. 2026.

PRATO CHEIO PODCAST. A de agrinho, 12 mai. 2026. Disponível em:  https://ojoioeotrigo.com.br/2026/05/a-de-agrinho/. Acesso em: 20 mai. 2026.