A Mulher que testemunhou o tempo e as diversas faces do ensino nos centros de ciências

Legenda: Colagem de imagens antigas e modernas do saguão do CDCC exibindo diferentes formas de exposição da Mulher Transparente e diferentes recursos didáticos utilizados na década de 1980 e atualmente. Fonte: Colagem feita pelos autores com imagens do acervo do CDCC.

Abordagens diferentes para um mesmo objeto mostram como o ensino em centros de ciências mudou ao longo do tempo.

Aurélio Pena

Sou Bacharel em Física (2020) e licenciado em Ciências Exatas com habilitação em física (2023), Mestre em Ciências (2024) pelo Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP) e atualmente doutorando pelo Programa Interunidades de Pós Graduação em Ensino de Ciências (PIEC). Fui membro da equipe educativa do Centro de Divulgação Científica e Cultural da USP e atualmente colaboro com esse centro de ciências e com o CINTEC, também da USP. Além disso, sou professor de ciências e matemática do ensino fundamental 1 até o médio e muito interessado em divulgação, popularização e disseminação de ciências.

Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira

Sou uma pessoa queer branca do interior do estado de São Paulo, em estágio inicial dos estudos de Doutorado pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências (PIEC-USP). Tenho grande interesse pelas áreas de Educação e Comunicação Científicas, assim como por Filosofia e Sociologia das Ciências.

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Como citar

PENA, Aurélio Bianco; FERREIRA, Marcos Vinícius Ribeiro. A Mulher que testemunhou o tempo e as diversas faces do ensino nos centros de ciências. Revista Balbúrdia, São Paulo, mai. 2026. Disponível em: https://sites.usp.br/revistabalburdia/a-mulher-que-testemunhou-o-tempo-e-as-diversas-faces-do-ensino-nos-centros-de-ciencias/

10 de maio de 2026 | 10:00

Centros de ciências são espaços que, normalmente, não incluem o público surdo em suas mediações. Frente a isso, educadores do Centro de Divulgação Científica e Cultural da Universidade de São Paulo (CDCC/USP) produziram um trabalho que mostra como a mediação em espaços não-formais pode ser realizada tendo como prioridade o público surdo, pautando-se em princípios de inclusão e acessibilidade para transmitir um conteúdo escolar. Em agosto de 2025, esse trabalho foi apresentado no V Encontro Nacional de Centros e Museus de Ciências da Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciências (ABCMC) em Maringá-PR.

A atividade realizada pela equipe de mediação e apresentada no V Encontro da ABCMC teve como foco um dos objetos históricos do acervo do CDCC: A Mulher Transparente. Por meio de cards, demonstrações, vídeo e do próprio objeto, os mediadores dialogaram com os visitantes sobre o corpo humano, contando com uma intérprete de libras em parceria entre o setor educativo do centro e curso de graduação em Tradução e Interpretação em Libras/Língua Portuguesa (TILSP), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

O trabalho concluiu que a visita teve um impacto positivo na comunidade escolar e apontou que “é possível construir propostas pedagógicas acessíveis, relevantes e afetivamente marcantes para públicos historicamente excluídos dos espaços de ciência” (Koptski et al., 2025, p. 336).

 

O Centro de Divulgação Científica e Cultural da USP

Inaugurado em 1980, o CDCC é um centro de ciências da USP localizado em São Carlos - SP. Desde sua fundação o centro dedica-se à extensão universitária, promovendo ensino e pesquisa em um meio não-formal, ou seja, um espaço com objetivos pedagógicos mas fora do sistema formal de ensino e aprendizagem (escolas).

Seguindo tendências recentes, o CDCC têm atualizado suas exposições com materiais acessíveis. Em particular, toda exposição está sendo reformulada visando maior acessibilidade para o público.

Usualmente a acessibilidade é associada exclusivamente à infraestrutura de um espaço, seja na construção de rampas, pisos táteis ou banheiros adaptados. Todavia, a inclusão real exige muito mais que essa estrutura, sendo um processo também atitudinal e pedagógico e exige que todas as atividades sejam realizadas com a universalidade dos públicos em mente.

Fisicamente o espaço do CDCC conta com a infraestrutura básica, mas é na exposição e na mediação que se nota o progresso recente. Materiais adaptados em braille e libras foram instalados e a audiodescrição disponibilizada em todos os conjuntos didáticos do Centro. Itens táteis estão ao alcance dos visitantes e a equipe educativa se desdobra para criar e oferecer atividades que incluam a todos os públicos.

 

A mulher transparente

O objeto utilizado é de grande relevância. A Mulher Transparente é um modelo anatômico em tamanho real produzido e exportado pelo Deutsches Hygiene-Museum (Museu da Higiene Alemão) de Dresden, na Alemanha, chegando ao CDCC em 1987. Desde então, ela é um dos objetos mais visados do acervo.

A Mulher Transparente possui diversos órgãos do corpo humano, o que permite abordar questões de ciências, biologia e química relacionadas aos conteúdos escolares a partir do quinto ano. Junto a ela, há um áudio sobre cada órgão, já muito modificado em relação ao original. Concomitantemente ao áudio, o modelo acende um LED que indica o órgão apresentado, permitindo aos visitantes associar as informações  aos sistemas do corpo.

Esse áudio é antigo e retrata um período no qual o foco das visitas aos centros de ciências era exclusivamente transmissão de conteúdo, os visitantes eram vistos como simples receptores desse saber. Isso é o que os cientistas chamam de o modelo de divulgação científica de tábula rasa, ou modelo de déficit, que vem sendo muito criticado pela comunidade especializada. Dessa maneira, as mudanças na mediação demonstram como o CDCC reagiu nos últimos anos a essas tendências.

 

As atividades de mediação

No passado, uma visita mediada à Mulher Transparente consistia nos visitantes se reunirem ao redor dela, enquanto um áudio tocava, jogando informações aos quatro ventos, podendo  os visitantes aprenderem algo (ou não).

Não é surpresa que essa abordagem mudou ao longo dos anos, culminando no trabalho apresentado em 2025 em Maringá. Nele, os autores Laura J. Koptski e colaboradores demonstram que a mudança da abordagem é crucial para que as visitas ao centro de ciências sejam relevantes e memoráveis na formação dos estudantes, construindo saberes de forma interativa e inclusiva, mas principalmente incentivando a visita a esses espaços

Nas palavras dos autores: “[A] construção de um espaço de divulgação científica mais acessível, inclusivo e atento à diversidade dos seus visitantes. (...) evidencia o potencial transformador de propostas pedagógicas que respeitam as especificidades linguísticas e culturais da comunidade surda, promovendo sua participação ativa em ambientes historicamente pouco acessíveis”. (Koptski et al., 2025, p. 336).

O áudio não é mais isolado. Junto a ele acompanham recursos didáticos, como cards e a explicação do mediador. Além disso, a presença do intérprete de libras permitiu que uma turma com predominância de estudantes surdos, ou com algum grau de deficiência auditiva, fosse capaz de acompanhar a atividade.

Os autores apontam algumas dificuldades da atividade de mediação bem como algumas limitações, como a falta de recursos para imprimir cards para os estudantes ou a ausência de atividades que utilizam os próprios corpos dos estudantes, estratégias que favorecem o engajamento e o potencial das atividades de mediação com diversos públicos.

Entretanto, ressaltam que a atividade foi bem recebida e que é um passo na direção de um ensino mais plural e inclusivo no ambiente não-formal.

Em suma, este trabalho evidencia que atividades inclusivas contribuem para que grupos historicamente excluídos de visitas a museus e centros de ciências possam ocupar esses espaços e participar das ações promovidas pelas equipes educativas.