
Legenda: Como os programas de pós-graduação em Ensino de Ciências têm produzido conhecimento? Que perfil teórico e metodológico marca essas pesquisas? E o que isso revela sobre a formação de pesquisadores na área? (Fonte: https://br.freepik.com/vetores-gratis/fundo-de-conceito-de-universidade-plana_4672602.htm#fromView=search&page=1&position=1&uuid=3cc2f73c-dee0-4d0c-b8fc-0c5fdb1af9dc&query=pesquisas+acad%C3%AAmicas
O que revelam as dissertações sobre o Ensino de Ciências no Oeste Potiguar?

Eliani J. da Silva Moreira é licenciada em Química pelo IFRN, especialista em Ensino de Ciências Naturais e Matemática pela mesma instituição e mestre em Ensino pelo Programa de Pós-Graduação em Ensino (POSENSINO), da associação ampla entre UERN/UFERSA/IFRN, com área de concentração em Ensino na escola pública. Atualmente, é doutoranda no Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências da Universidade de São Paulo (PIEC-USP) e membro do grupo de pesquisa Linguagem no Ensino de Química (LiEQui). Também é integrante do corpo editorial da Revista BALBÚRDIA - Revista de Divulgação Científica dos Discentes do PIEC-USP. Sempre estudou em escola pública e acredita que a educação é a única forma de mudar a realidade daqueles que desejam mudança.
Comumente ouvimos falar do termo produções acadêmicas e naturalmente o associamos à universidade, mas o que tais produções representam para a sociedade? Que tipos de pesquisas voltadas para o Ensino de Ciências vêm sendo desenvolvidas nos programas de pós-graduação? O repertório teórico utilizado pelos pesquisadores condiz com os estudos desenvolvidos atualmente na área em destaque?
É notória a crescente produção de pesquisas em ensino no Brasil, sobretudo, na área de ciências. Os programas de pós-graduação vêm ganhando espaço no cenário educacional do país, ofertando um número de vagas cada vez maior e, com isso, alcançando uma maior quantidade de profissionais da educação.
Ao analisar o que tem sido produzido em dois programas de pós-graduação no oeste Potiguar, os pesquisadores Albino Nunes, Leonardo Alcântara, Luciana Bertini e Marcelo Nunes, docentes do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN) realizaram uma investigação que lhes permitiu identificar aspectos acerca do tipo de pesquisas desenvolvidas e perspectivas teóricas abordadas.
No artigo, publicado na revista Insignare Scientia em 2021, os pesquisadores categorizaram as pesquisas desenvolvidas nos programas investigados como disciplinares e interdisciplinares, a partir de uma pesquisa do tipo exploratória de natureza mista. Este tipo de pesquisa tem como função preencher as lacunas que costumam aparecer em um estudo por meio de diversas técnicas como entrevistas, levantamento bibliográfico dentre outros.
O estudo torna-se relevante por apresentar algumas das perspectivas teóricas utilizadas, pelos pesquisadores na área de Ensino de Ciências. Tais estudos são importantes para o monitoramento, a caracterização e o direcionamento da pesquisa em pós-graduação no Brasil, especialmente em regiões fora dos grandes centros. Além disso, identifica possíveis lacunas que podem ser preenchidas/sanadas nos referidos programas ou ainda em programas futuros.
No que se refere aos cursos de nível stricto sensu (mestrado e doutorado), a quantidade de pesquisas desenvolvidas em universidades das regiões sul e sudeste se sobressaem às demais regiões. Essa diferença está relacionada à própria história da expansão do ensino superior no país, que se consolidou primeiro nas regiões Sul e Sudeste.
O crescimento da pesquisa em Ensino de Ciências no Brasil
Dada a importância das ciências para a sociedade ocidental, foi por volta de mais ou menos 200 anos que surgiram os primeiros currículos escolares sobre ciências, enquanto as primeiras investigações nesse campo tomaram contornos ainda pouco nítidos na segunda década do século XX.
Segundo dados obtidos no ano de 2019 pela Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), é notório o crescimento do número de pesquisas sobre o Ensino de Ciências desenvolvido no país em cursos de pós-graduação. Ao analisar dois programas situados no Oeste do Rio Grande do Norte, os autores buscaram compreender como essas pesquisas têm se estruturado e quais perspectivas teóricas predominam nesses contextos específicos.
Investigando o Ensino de Ciências na pós-graduação
No que se refere ao Ensino de Ciências, tem-se discutido bastante nos cursos de pós-graduação acerca de estudos teóricos voltados à promoção de um ensino mais integrado à atualidade. Visando responder os questionamentos iniciais apresenta-se o resultado de uma investigação realizada em dois programas de pós-graduação do Rio Grande do Norte (RN), expresso no trabalho “A produção do conhecimento em Ensino de Ciências no Oeste Potiguar: análise das dissertações defendidas em dois programas de pós-graduação em ensino”, de autoria de Albino Nunes, Leonardo Alcântara, Luciana Bertini e Marcelo Nunes.
O objetivo do artigo foi identificar nas produções dos discentes dos programas os tipos de pesquisas desenvolvidas e o referencial teórico utilizado visando assim, analisar se as mesmas estão condizentes com os temas abordados e se incorporam perspectivas teóricas importantes para o Ensino de Ciências no país. O artigo analisa um total de 39 dissertações de mestrado por meio do IRAMUTEQ, uma ferramenta gratuita utilizada para organizar e analisar grandes conjuntos de textos, permitindo identificar padrões de linguagem e categorias temáticas.
Os pesquisadores Ferreira e Munchen, no artigo “A contextualização no Ensino de Ciências: reflexões a partir da Educação do Campo”, de 2020, citados no artigo original, defendem que o Ensino de Ciências tem um papel relevante na sociedade, pois possibilita ao estudante compreender melhor o contexto em que está inserido e os fenômenos decorrentes da interação entre esses indivíduos. As autoras Silva e Amaral, no artigo “Pesquisa em ensino de biologia: características da produção acadêmica do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Brasil”, de 2015, também mencionadas no artigo original, afirmam que os estudos nessa área permitem não apenas conhecer aquilo que é produzido, mas também, traçar novas rotas e preencher lacunas ainda em aberto. É importante enfatizar a importância de se divulgar os resultados destas pesquisas para além do universo acadêmico, uma vez que o objetivo principal das pesquisas é apontar possíveis soluções para determinado problema de um espaço social.
A produção do conhecimento científico em pauta: um olhar para o Ensino de Ciências
A partir das concepções apresentadas no artigo, é possível perceber a importância de ensinar ciências de maneira contextualizada e alinhada à realidade nas quais as escolas se inserem. A partir dessa ótica, os conhecimentos mobilizados e construídos na área das ciências naturais e exatas começam a fazer sentido para o aluno, que consegue identificá-los em seu cotidiano também, fazendo uso do conhecimento científico de forma eficiente e direcionada.
Vale salientar a importância desses estudos para aqueles que estão iniciando suas pesquisas na área e ainda não definiram uma abordagem teórica para fundamentar seu trabalho. Ao revelar o perfil das dissertações analisadas, o estudo mostra que os programas investigados possuem identidade própria e coerência teórica, mas também enfrentam desafios quanto à diversidade de referenciais adotados. Conhecer esse panorama é fundamental para fortalecer a formação de pesquisadores e ampliar o diálogo entre universidade e escola básica, especialmente em regiões fora dos grandes centros.
Diante dessa perspectiva, torna-se relevante questionarmos, por exemplo, como vem ocorrendo a divulgação científica nas instituições de ensino superior no Brasil, se o conhecimento produzido nas universidades chega à sociedade de forma clara e aplicável e ainda, qual o impacto desses estudos nas escolas de educação básica, nas quais os estudantes têm o primeiro contato com as ciências.
Referência:
NUNES, A.; ALVES, L.; BERTINI, L.; COELHO, M. A produção do conhecimento em Ensino de Ciências no Oeste Potiguar: análise das dissertações defendidas em dois programas de pós-graduação em ensino. Revista Insignare Scientia - RIS, v. 4, n. 5, p. 86-104, 20 ago. 2021. Acesso em: https://periodicos.uffs.edu.br/index.php/RIS/article/view/12559
Literatura complementar citada:
GARCIA, M.; RIBEIRO, M. Pesquisa em ensino de biologia: características da produção acadêmica do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Brasil. Ciência & Educação, v. 21, n. 2, p. 285–305, 1 jun. 2015. Acesso em: http://dx.doi.org/10.1590/1516-731320150020003
FERREIRA, M. A.; MÜNCHEN, S. A contextualização no Ensino de Ciências: reflexões a partir da Educação do Campo. Revista Insignare Scientia - RIS, v. 3, n. 4, p. 380–399, 20 nov. 2020. Acesso em: https://doi.org/10.36661/2595-4520.2020v3i4.11825
