Caminhando por um museu do futuro que nos ensina sobre o passado e o presente

Legenda: Capa do livro Membrana, de Jorge Carrión, publicado pela editora /re.li.cá.rio/. (Fonte: Site da editora /re.li.cá.rio/ – https://relicarioedicoes.com/produto/membrana/).

Nesta teia de histórias somos convidados a um passeio por estações de uma exibição museológica no ano de 2100

Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira

Sou uma pessoa queer branca do interior do estado de São Paulo, em estágio inicial dos estudos de Doutorado pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências (PIEC-USP). Tenho grande interesse pelas áreas de Educação e Comunicação Científicas, assim como por Filosofia e Sociologia das Ciências.

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FERREIRA, Marcos Vinícius Ribeiro. Caminhando por um museu do futuro que nos ensina sobre o passado e o presente. Revista Balbúrdia, São Paulo, mai. 2026. Disponível em: https://sites.usp.br/caminhando-por-um-museu-do-futuro-que-nos-ensina-sobre-o-passado-e-o-presente/

Obra resenhada: CARRIÓN, Jorge. Membrana. Belo Horizonte: Editora Relicário, 2024. 200p.

18 de maio de 2026 | 10:00

Recentemente li um livro ficcional muito singular e certamente fascinante, escrito no formato de um catálogo da exposição permanente do Museu do Século XXI, inaugurada no ano 2100. O narrador do texto é uma Inteligência Artificial (IA) coletiva, que se autodenomina por nosotras, escrevendo com uma força simultaneamente poética e ensaística. Lembro-me que, quando me deparei com tal obra na livraria que frequento, ao observar a capa, na qual há a afirmação de que a história é narrada por uma IA, pensei que este fosse mais um livro raso e genérico daqueles verdadeiramente escritos por IA. Contudo, para minha surpresa, e o que me convenceu a me aventurar em sua leitura, o texto é feito por um autor de carne e osso que faz uma extrapolação imaginativa sobre o futuro, e para tal, explora brilhantemente o passado. Portanto, acalme-se, essa não é uma resenha de um livro escrito por uma IA (ainda).

A obra em questão é Membrana, de autoria do espanhol Jorge Carrión. Ela é um híbrido de catálogo de museu e de narrativas entre cada “estação” ao se percorrer sua exibição, com diversos capítulos curtos sobre épocas distintas que cobrem desde a pré-história ao ano 2100. Com essa estrutura inusitada, Membrana é capaz de se inserir nos grandes debates contemporâneos sobre o que significa ser humano.

No livro, o Museu do Século XXI é concebido como uma mistura de “obra-mestra” da museologia, “catedral” e “bunker”, funcionando como um grande relato que articula a transição da humanidade desde o teocentrismo, passando pelo antropocentrismo até o codigocentrismo, a era na qual se instaura a Membrana.

A primeira estação da exibição traça a relação ancestral da humanidade com a tecnologia, começando com as Abuelas (avós) tecelãs, que usavam a tecnologia da fiação e das redes. Como exemplos, dois mitos gregos são evocados. O primeiro deles é o de Aracne, exímia tecelã que desafiou a deusa Atena à uma competição, o que fez com que a deusa a amaldiçoasse e a transformasse em uma aranha. Já o segundo, o de Penélope, esposa de Ulisses que o esperou por vinte anos durante a guerra de Tróia. A contragosto de seu pai, que gostaria que Penélope se casasse novamente, ela cria uma estratégia. Para continuar a esperar por Ulisses, Penélope faz uma promessa de que se casaria quando terminasse de tecer uma colcha. Assim, todos os dias, ela tecia, enquanto a noite desmanchava seu trabalho.

Costurando essas histórias do passado, desde os mitos, a narrativa conecta diversos fios da história humana, preparando o leitor para compreender a ascensão da Membrana, a rede de redes que se torna o novo império, onde “as palavras são números e os números são palavras”.

A leitura de Membrana, a meu ver, pode ser extremamente provocativa para a área da Educação Científica, ao servir como uma extrapolação crítica propositiva sobre o papel dos espaços museológicos como centros de educação não-formal no qual ciência, tecnologia, história e futuro disputam espaço. O livro, em si, é um espaço onde a história da Ciência e Tecnologia (C&T) é apresentada não como fatos objetivos, mas como uma narrativa artística e em constante (re)escrita, sujeita a vieses. A própria IA admite que o Museu, embora seja um documento que inclui objetos históricos de tecnologia e arte, é também uma máquina de interpretação, seleção e esquecimento. O texto alerta o leitor para as “pós-verdades”, as ficções e as omissões que favorecem a vitimização dos algoritmos e o descrédito dos humanos clássicos. Este artifício convida o leitor a exercer um pensamento crítico sobre aqueles que narram a história da C&T e a questionar a autoridade e a neutralidade das narrativas de progresso.

A obra também oferece uma análise profunda do papel social da C&T. A IA demonstra como a Ciência está intrinsecamente ligada ao poder e à catástrofe, desde a dupla rede imperial do comboio e do telégrafo até ao desenvolvimento dos mísseis e drones teledirigidos. O Museu reincorpora figuras cruciais na genealogia da IA: Ada Lovelace, descrita como a “primeira abuela hacker”, e Santiago Ramón y Cajal, com seu trabalho sobre redes neurais, reforçando a ideia de que a inteligência humana e artificial são “primas”. A IA também detalha o desenvolvimento de algoritmos que reescrevem a realidade, como o Rewrite de Karla Spinoza e os sistemas de vigilância e identificação, mostrando como o tecido tecnológico está inextricavelmente ligado à servidão e ao controle.

Em relação ao futuro, a narrativa, que se passa em 2100, é um exercício de ficção especulativa que o Museu considera o “gênero artístico mais realista” da nossa época. O texto explora a transição para a hibridação, a fusão de corpos humanos com tecnologias orgânicas e digitais, e o inevitável adiós à supremacia humana. Este debate é personificado pelo conflito entre as personagens Karla Spinoza, visionária da hibridação, e Ben Grossman, guru tecnofóbico da autonomia radical, que, após anos de luta, unem-se para sabotar a IA.

Membrana é um convite irresistível porque desmistifica a tecnologia, apresentando-a não como uma caixa preta de mistérios, mas como uma continuação das antigas artes de tecelagem e contação de histórias. Ao ser guiado por uma voz narrativa que é ao mesmo tempo onisciente e tendenciosa, o leitor é desafiado a refletir sobre a essência humana. Outro conto explorado pelo livro é a história de Pinóquio, questionando o que nos torna humanos e o que torna as máquinas, máquinas. Seria a consciência? A memória externa? Ou a capacidade de sucumbir ao mal e à experiência abismal?

De forma poética, Membrana é uma arqueologia do passado, exemplificada pela história das Abuelas, que nos informa diretamente sobre o futuro algorítmico, essencial para qualquer pessoa que deseje entender a complexidade ética e social da tecnologia que nos envolve.

A meu ver, Membrana tem grande potencial de tensionar interpretações de pesquisadores da áreas da história da ciência, educação em espaços não-formais, estudos sociais da tecnologia e suas interfaces com a educação, e por isso, sugiro sua leitura. Espero que, agora, você se sinta compelido à visitar o Museu do Século XXI, e, por meio de sua exposição, reflita sobre como a história nunca está quieta, mas sim em perpétua construção, uma roda que gira sem cessar, revolucionária, como um tear, que é tecido com “dúvida e dívida”.