“Caminhante, não há caminho. Se faz caminho ao andar”

Legenda: Fotografia da viagem didática ao Instituto Paulo Freire, ocorrida em 27/11/25. Fonte: Fotografia feita por Angela Biz Antunes. Apenas a imagem dos participantes que concederam o direito de imagem está preservada, os demais foram anonimizados.

Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira

Sou uma pessoa queer branca do interior do estado de São Paulo, em estágio inicial dos estudos de Doutorado pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências (PIEC-USP). Tenho grande interesse pelas áreas de Educação e Comunicação Científicas, assim como por Filosofia e Sociologia das Ciências.

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FERREIRA, Marcos Vinícius Ribeiro. “Caminhante, não há caminho. Se faz caminho ao andar”. Revista Balbúrdia, São Paulo, abr. 2026. Disponível em: https://sites.usp.br/caminhante-nao-ha-caminho-se-faz-caminho-ao-andar/

20 de abril de 2026 | 10:00

O poema de Antônio Machado, título deste ensaio, apresentado na obra de Carlos Rodrigues Brandão, O que é método Paulo Freire, exemplifica a narrativa aqui construída. Nela, serão trilhados três caminhos que se entrelaçam com Freire, conectando três educadores em estágios distintos da vida. Assim, faz-se uma homenagem não apenas à figura e vida de Freire, mas também ao seu legado e instituto, logo, ao Instituto Paulo Freire (IPF).

Essa história começa em uma quinta, 27 de novembro de 2025. Naquele dia, subindo as ladeiras da Lapa, em São Paulo, via-se um grupo de professores e licenciandos em Matemática e Ciências Exatas, vindos de São Carlos (SP), rumo ao IPF. A professora Ana Carolina Faustino, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC/USP), organizadora da viagem, estava animada por chegar mais próximo da figura de Freire.

Além dela, o doutorando no Instituto de Química de São Carlos (IQSC USP), e estudante de Licenciatura em Ciências Exatas (USP), Victor Murilo P. da Silva, estava curioso para saber o que era esse instituto, que até então desconhecia, e que leva o nome do patrono da educação.

Recebidos pela exímia educadora Angela Biz Antunes, diretora do IPF, a visita foi, certamente, marcante. “Receber vocês foi uma alegria imensa, mesmo com as limitações do nosso espaço físico e equipe pequena, fazemos questão de organizar cada visita com prazer para democratizar e atualizar o trabalho de Freire”, conta.

Segundo Victor, “a viagem didática foi inspirada pelos tópicos explorados na disciplina de Introdução aos Estudos da Educação: ciência, sociologia e imprensa”, ofertada pela professora Ana Carolina. Ela explica que “durante o semestre lemos a Pedagogia do Oprimido e fizemos relações com textos de notícias. Isso permitiu pensarmos sobre questões educacionais relativas ao ensino de Física, Química e Matemática”. Assim, ao pensar em uma viagem didática complementar à formação dos licenciandos, “pensei no Instituto Paulo Freire”, conta.

Para Victor, “visitar o Instituto Paulo Freire e ter contato com quem realmente viveu e cuida desse legado,  inclusive o próprio filho do Freire (Lutgardes Costa Freire) foi uma experiência esclarecedora que me trouxe esperança”. A presença de Lutgardes também foi um dos pontos altos da visita para Ana Carolina.

O licenciando também comenta que ouvir o relato da Angela, que foi professora de escolas públicas e aplicou essa pedagogia na prática, mostrou que uma educação humanizadora e significativa é possível. “Saí de lá entendendo que a dificuldade de aplicar esses princípios não os torna impossíveis. Essa vivência no Instituto me deu o fôlego necessário para acreditar na minha futura carreira docente. Hoje, percebo que o caminho para uma educação transformadora é real e está ao nosso alcance”, afirma Victor. Dessa maneira, a professora Ana Carolina considera que a visita ao IPF “proporcionou aos estudantes aspectos históricos e relações com o currículo de Matemática importantes. Além disso, a palestra da Angela mostrou como o contexto social é importante e trouxe exemplos ricos para os professores em formação”.

 

Caminhos que levaram à Freire

Angela “conheceu” Freire ainda na graduação de Letras, em uma atividade na qual analisou o livro São Bernardo, de Graciliano Ramos. Inspirada na monografia de um amigo, escreveu sobre como o personagem Paulo Honório era um exemplo de como “o oprimido pode hospedar em si o opressor”, sem saber que, no fundo, citava Paulo Freire.

“Meu professor da faculdade, Benjamin Abdala Júnior, foi quem me recomendou a leitura de Pedagogia do Oprimido”, conta. Encantada, após a Letras, Angela cursou Pedagogia em São Paulo e seguiu carreira como professora na rede pública, atuando na periferia e também no ensino noturno. “Vivi intensamente a educação pública, inclusive na época em que Freire foi Secretário da Educação da cidade de São Paulo (1989-1991)”. Foi em sua entrevista de mestrado para a Faculdade de Educação da USP que Angela conheceu Moacir Gadotti, braço direito de Freire. “Surpreendentemente, ele me convidou para trabalhar no recém-criado Instituto Paulo Freire”.

Por conta disso, ela conviveu com Freire. “Testemunhei sua coerência, amorosidade e capacidade de escuta em cada reunião”, afirma. Hoje, Angela diz se sentir privilegiada por trabalhar em um lugar no qual sua prática é alinhada aos seus ideais de vida.

Já Victor foi monitor de duas disciplinas de graduação durante o mestrado, que o fizeram questionar como a educação poderia ser distinta. “Esse foi o motivo de eu começar a licenciatura”. Ao iniciar os estudos sobre educação, descobriu Freire, e, durante seu Estágio em Docência no Ensino Superior, no doutorado, conseguiu “aplicar essa pedagogia mais humanista”.

A professora Ana Carolina descobriu Freire quando estava na graduação em pedagogia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). “As obras dele foram ao encontro das minhas preocupações com grupos marginalizados, por meio de um processo educativo mais democrático que contemple todas as pessoas, em que todos são fontes de conhecimento”. Esse contato se manteve em seu mestrado, quando encontrou a Educação Matemática Crítica, referencial baseado em Ole Skovsmose que dialoga com a proposta de Freire. Um dos achados do mestrado de Ana Carolina “foi a importância do diálogo nas aulas de matemática”. Assim, no doutorado, ela investigou “como acontecia o diálogo entre professoras e estudantes, percebendo a sua contribuição para a aquisição dos conhecimentos matemáticos, da escuta do outro, da negociação de significado e de perspectivas”, explica.

 

Um Instituto nascido da amizade

O Instituto Paulo Freire, fundado em 1991, é um centro de promoção e manutenção do pensamento freireano, que não apenas preserva o legado de Freire, mas também reinventa continuamente sua práxis educativa. A ideia surgiu da vontade de criação de um espaço permanente de parcerias e promoção de transformações, conforme vivenciado por Freire em conferências nacionais e internacionais, contudo, que duravam poucas semanas.

Assim, junto aos amigos Carlos Alberto Torres, Francisco Gutiérrez, José Eustáquio Romão e Walter Esteves Garcia, Freire foi convencido da fundação da instituição, mesmo que o nome Instituto Paulo Freire não fosse sua opção preferida.

Sem tardar, a equipe cresceu, contando com os diretores, Angela Biz Antunes, Janaina M. Abreu, Moacir Gadotti e Paulo Roberto Padilha, e a equipe ampliada, que conta com Bernardo Baena, Plínio José D. Pinheiro, Sheila Ceccon e Sonia Couto S. Feitosa.

 


Da esquerda para a direita, João Antônio Manfio, Paulo Freire, Moacir Gadotti, Carlos Alberto Torres, Nita Freire e José Eustáquio Romão, no Instituto Paulo Freire. (Fonte: Instituto Paulo Freire - https://www.paulofreire.org/historia).

Da esquerda para a direita, Sonia Couto Souza Feitosa, José Eustáquio Romão, Paulo Freire, Angela Biz Antunes, Paulo Roberto Padilha e Moacir Gadotti, no Instituto Paulo Freire. (Fonte: Instituto Paulo Freire - https://www.paulofreire.org/historia).

Para Angela, a principal missão do IPF hoje é “mais do que nunca a perspectiva dialógica. Estimular uma educação que contribua para formar seres humanos com capacidade de compreender o seu estar sendo no mundo de maneira crítica, capazes de serem sujeitos da história, de entenderem que a realidade não é estática, é construção histórica, é resultado da ação humana”.

Para Ana Carolina, Freire é atual pois, “no século XXI, há a presença de atitudes antidemocráticas, desumanizadoras, o que demonstra a necessidade de uma educação libertadora e a atualidade da obra freiriana. Ela é preciosa para pensar possibilidades de educação democráticas, que coloquem a matemática como algo possível de ser aprendido por todas as pessoas, e não só por um grupo seleto”, conta.

O Instituto estrutura-se na promoção da educação cidadã e popular, assim como em sua defesa intransigente dos direitos humanos, tendo promovido projetos que já beneficiaram milhares de pessoas. Exemplo disso é o programa da Escola Cidadã que defende uma instituição de ensino autônoma e profundamente integrada à sua comunidade. Esse modelo prioriza a visão transdisciplinar e a formação crítica de educadores, consolidando uma resistência ética contra o pragmatismo tecnicista e mercadológico atuais (Antunes; Padilha, 2010; Romão, 2000).

Além disso, o IPF promove a cidadania planetária (Antunes, 2002) ao enfrentar injustiças sociais acentuadas pela globalização capitalista, fundamentando suas ações em uma cultura política que prioriza a dignidade humana, a justiça social e a libertação dos sujeitos. Isso se reflete na presença de seus membros em mais de 90 países em todos os continentes, demonstrando que o patrono da educação brasileira, seu legado e Instituto são verdadeiramente globais.

A importância do IPF reflete-se, ainda, no seu compromisso com a democratização do saber por meio do Centro de Referência Paulo Freire. Dedicado a preservar e divulgar o legado do educador, o centro disponibiliza um vasto acervo físico e digital para download gratuito, contando com cinco arquivos e quatro bibliotecas que incluem o acervo pessoal do patrono da educação. Isso garante que essa riqueza imensurável continue acessível a pesquisadores e interessados.

O trabalho do Centro de Referência Paulo Freire já foi reconhecido como de interesse público e social por parte do Conselho Nacional de Arquivos (Conarq) em 2012, e também pelo Programa Memória do Mundo, da Unesco como patrimônio da humanidade, em 2017, no formato de “documentos, arquivos e bibliotecas de grande valor internacional, regional e nacional”.

O IPF também é membro do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial (FSM) e do Fórum Mundial de Educação (FME), encontros internacionais anuais da sociedade civil, movimentos sociais e organizações não governamentais que lutam contra as desigualdades sociais promovidas pelo neoliberalismo, tornando o Brasil protagonista na construção de uma educação para a autonomia, liberdade e transformação.

Em 1998, um ano após o falecimento de Freire, foi criado o Fórum Paulo Freire para continuar o seu diálogo ao redor do globo. O Fórum é hospedado gratuitamente em um campus virtual e organiza encontros internacionais bianuais. Já em 2000, no II Encontro Internacional do Fórum Paulo Freire, fundou-se em Bologna (Itália) a UniFreire (Universitas Paulo Freire). Ela reúne institutos e cátedras em mais de vinte países, promovendo o intercâmbio acadêmico e a produção científica por meio de uma revista digital.

Ambos o Fórum e a UniFreire, no momento, passam por reestruturação e resgate de seus materiais digitais, que foram perdidos durante ataques à figura de Freire, seu Instituto e equipe, devido ao movimento vexatório com sua imagem propagado pela extrema-direita nos últimos anos. “A partir do golpe contra a Dilma, em 2014, começamos a sofrer ataques, desde ameaças de incêndio à violência. Isso se intensificou com o programa de governo de Bolsonaro, no qual está literalmente escrito, ‘expurgar Paulo Freire do MEC’. Como se ele estivesse no MEC. Se o pensamento de Freire orientasse as políticas educacionais do país, Bolsonaro não teria sido eleito”, afirma Angela.

Frente a esses ataques, formas de contribuição com o IPF são: participar de atividades, lives e cursos gratuitos, divulgar esses trabalhos, visitar o acervo do centro, ou mesmo, contribuir monetariamente pelo site.

“A principal forma de contribuir com o IPF é manter vivo o legado de Freire em suas práticas diárias, fortalecendo uma educação que forme cidadãos críticos e capazes de transformar o mundo. Seja na sala de aula ou em qualquer espaço social, honrar sua memória significa lutar ao lado dos ‘esfarrapados’ do mundo”, compartilhou Angela.

 

Referências:

ANTUNES, A. B. Aceita um conselho? Como organizar o colegiado escolar. São Paulo: Cortez/Instituto Paulo Freire, 2002.

ANTUNES, A. B.; PADILHA, P. R. Educação cidadã, educação integral: fundamentos e práticas. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2010.

BRANDÃO, C. R. O que é método Paulo Freire. São Paulo: Brasiliense, 1984.

FAUSTINO, A. C. Elementos da proposta freiriana em práticas docentes de professoras dos anos iniciais em um ambiente de resolução de problemas matemáticos. Dissertação de Mestrado – Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2014.

FAUSTINO, A. C. “Como você chegou a esse resultado?”: o diálogo nas aulas de Matemática dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Tese de Doutorado – Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, 2018.

GADOTTI, M.; CARNOY, M. (org.). Reinventando Freire: a práxis do Instituto Paulo Freire. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2018.

ROMÃO, J. E. Dialética da diferença: o projeto da escola cidadã frente ao projeto pedagógico neoliberal. São Paulo: Cortez, 2000.

SKOVSMOSE, O. Educação Matemática Crítica: a questão da democracia. Campinas: Papirus, 2001.