Caminhos em disputa frente ao Novo Ensino Médio

Legenda: Estudantes protestando contra o Novo Ensino Médio na Avenida Paulista, em São Paulo, durante 2023. Fonte: Banco de dados AND.

Compreender o sinuoso caminho do Ensino Médio brasileiro é necessário para participarmos de sua disputa

Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira

Sou uma pessoa queer branca do interior do estado de São Paulo, em estágio inicial dos estudos de Doutorado pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências (PIEC-USP). Tenho grande interesse pelas áreas de Educação e Comunicação Científicas, assim como por Filosofia e Sociologia das Ciências.

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Felipe Santana Pena

Sou graduado em Engenharia Civil/IFSP e em Licenciatura em Ciências Exatas/USP. Atualmente sou Mestrando no Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências (PIEC-USP) e conto com o auxílio da FAPESP. Também faço parte do Grupo de Pesquisa em Ensino de Química de São Carlos (GPEQSC). No âmbito pessoal, gosto de jogos, filmes e séries.

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Guilherme Ribeiro Mendes

Olá, meu nome é Guilherme, sou licenciado em Ciências Exatas pela USP. Dentre minhas atuações no ensino até hoje, já fui monitor de disciplinas pedagógica e de física da referida graduação, fui monitor-bolsista do projeto de ensino e extensão “Clube de Ciências” do EIC/USP, fui estagiário em escolas públicas e privadas onde cheguei a atuar com a educação especial e sou educador voluntário em uma ONG que atende crianças e jovens da periferia de São Carlos. Tenho interesse pelas áreas de ensino e aprendizagem, psicologia da educação e metodologias ativas de ensino-aprendizagem. Nas horas vagas, gosto de ouvir música, ler e jogar xadrez.

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Como citar

FERREIRA, Marcos Vinícius Ribeiro; PENA, Felipe Santana; MENDES, Guilherme Ribeiro. Caminhos em disputa frente ao Novo Ensino Médio. Revista Balbúrdia, São Paulo, 04 mai. 2026. Disponível em: https://sites.usp.br/revistabalburdia/caminhos-em-disputa-frente-ao-novo-ensino-medio/

04 de maio de 2026 | 10:00

A reforma do Ensino Médio brasileiro, instituída pelo Novo Ensino Médio (NEM), é um tema complexo. Desde sua proposta até a atual implementação, ocorreram várias alterações que não encerraram o debate ao seu redor. Diante desse contexto, uma análise crítica sobre o processo de implementação do NEM mostra-se relevante, pois permite compreender não apenas seus resultados imediatos, mas também os efeitos estruturais que essa política produz a médio e longo prazo.

O NEM foi instituído pela Lei nº 13.415/2017 [1], originada na Medida Provisória nº 746/2016 [2] no governo Temer (2016-2018). Contudo, sua implementação começou em 2022 [3] durante o governo Bolsonaro (2018-2022), aumentando sua controvérsia desde então.

A reforma foi elaborada sem engajamento democrático, gerando desconfiança e rejeição pelos profissionais da educação [4,5]. Assim, a literatura especializada produziu críticas contundentes ao NEM, chamando-o de desmonte ou “desreforma” do Ensino Médio, especialmente quanto ao seu caráter formativo e ao direito a um conhecimento robusto [6].

O NEM instituiu a Política de Fomento à Implementação de Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral e alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional-LDB (Lei nº 9.394/1996), ampliou progressivamente a carga horária, reforçando o tempo integral, implementou total de 3000 horas, sendo 1800 para formação geral básica e 1200 para itinerários formativos, reorganizou o currículo via Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e itinerários, e possibilitou certificações intermediárias e experiências práticas na formação técnica.

Quanto à implementação, definiu-se uma adoção gradual. Em 2021, houve aprovação dos referenciais curriculares e formação continuada. Em 2022, iniciou-se a implementação na 1a série do Ensino Médio (EM), estendida a 2a série em 2023, e em 2024, consolidou-se em todas as séries do EM.

Já em 2022 eram evidentes os desafios operacionais do NEM, a resistência docente, as desigualdades na oferta de itinerários e o aumento das desigualdades educacionais [7]. Nesse cenário, educadores se posicionaram contra a reforma.

O período teve mobilização estudantil, como o movimento Revoga NEM, com atos nacionais em 17 de outubro de 2023. Estudantes protestaram contra a reforma e por mais investimentos na educação, promovendo debates e reivindicações [8]. Esse cenário levou o governo Lula (2023-2026) a promover revisões. Em 2023, instaurou-se uma consulta pública para reestruturação da política [9] e suspenderam-se os prazos do cronograma de implementação [10].

Baseado na consulta pública, aprovou-se a Lei nº 14.945/2024, alterando o NEM ao propor: aumento da carga horária da formação geral básica e diminuição dos itinerários; definição dos itinerários conectados às áreas do conhecimento; e valorização do ensino profissional integrado [11]. Trechos importantes sobre mudanças no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) para adequação aos itinerários foram vetados pelo presidente [12]. Tais alterações não encerraram o debate, mantendo a relevância da análise crítica sobre o processo.


A disputa sobre o Ensino Médio brasileiro

A reforma do EM foi baseada como resposta à rigidez e evasão do modelo anterior. Todavia, a implementação dos itinerários, principal inovação, mostrou-se desigual, refletindo a falta de recursos e infraestrutura. Essa limitação impede o acesso equânime às oportunidades de escolha, ampliando, em vez de reduzir, as desigualdades educacionais. Assim, a promessa de escolha e protagonismo juvenil se fragiliza diante das condições materiais desiguais das redes de ensino, fazendo com que as opções formativas disponíveis aos estudantes sejam, na prática, estreitas e previamente condicionadas.

Além disso, a carência de formação docente para as novas áreas e metodologias é central. Professores foram inseridos no processo sem preparação para currículos flexíveis e interdisciplinares. As iniciativas de formação continuada têm se mostrado insuficientes diante da complexidade da reforma. Tal cenário contribui para a precarização do trabalho docente e para a sobrecarga profissional.

Outra faceta é o alinhamento com a financeirização da educação pública [13]. O NEM insere-se num contexto de reformas como a da previdência e trabalhista. A educação pública, pensada a partir do mercado de trabalho, alinha-se a uma agenda neoliberal que valoriza o empreendedorismo e reduz a carga de disciplinas humanísticas e críticas. Grandes conglomerados, via fundações, ditam a agenda educacional, tornando-a um ativo financeiro.

Há uma grande presença de atores privados (fundações e institutos) em todas as fases de criação, implementação e manutenção do NEM, adentrando as secretarias de educação, produzindo materiais didáticos e paradidáticos [14]. Tais “parceiros” da educação conseguem, assim, determinar as políticas educacionais que lhes beneficiam. Portanto, a comunidade escolar e os sindicatos, ao invés de participarem da construção da educação pública, reduzem-se à função de “levar a cabo nas escolas o que as secretarias de educação e seus parceiros bilionários decidiram a portas fechadas” [14, p. 288].

O NEM não veio de maneira isolada, e sim junto a outros desmontes. Ao alinhar o EM a uma agenda neoliberal, altera-se o objetivo central da educação, distanciando-se da formação cidadã e emancipatória. Portanto, embora o NEM busque uma modernização, sem investimentos em infraestrutura e valorização docente, tende a aprofundar desigualdades históricas, falhando na promessa de uma formação significativa e plural.

Além disso, geralmente na rede privada, os professores buscam contornar o NEM usando as aulas de itinerários para cumprir o conteúdo disciplinar geral de sua área. Em contrapartida, na grande maioria das escolas públicas, itinerários e eletivas são realizados em geral sem devido preparo docente e estrutura, devido à maior pressão do sistema educacional. Esse contraste explicita que os efeitos do NEM não são homogêneos, incidindo de maneira desigual sobre a rede pública e aprofundando assimetrias já existentes no sistema educacional.

É notória a grande conexão entre o NEM, a plataformização do ensino, ou seja, a inclusão de plataformas de forma excessiva nas redes de ensino, que determinam o que, como e quando ensinar/aprender, assim como promovem uma hiper-vigilância sobre as escolas públicas e seus membros. Frente a esse cenário, fica o questionamento: como disputar novos caminhos para o ensino médio frente a um sistema na mão dos grandes jogadores? Qual o papel do docente neste novo caminho? O de aplicador de slides prontos? E do aluno? Cabe a nós a reflexão e a ação frente aos desafios da atual trajetória da educação.

 

Referências:

[1]  BRASIL. Lei nº 13.415, de 16 fev. 2017. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13415.htm. Acesso em 13 de ago. 2025.

[2] BRASIL. Diário Oficial da União. Ed. extra, seção 1, p. 1,  23 de set. 2016. Disponível em: https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=23/09/2016&jornal=1000&pagina=1. Acesso em 13 de ago. 2025.

[3] BRASIL. Diário Oficial da União. Ed. 131, seção 1,  p. 47, 14 de jul. 2021. Disponível em: https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=14/07/2021&jornal=515&pagina=47. Acesso em 13 de ago. 2025.

[4] FRIGOTTO, G. Reforma do ensino médio do (des) governo de turno: decreta-se uma escola para os ricos e outra para os pobres. Movimento-revista de educação, v. 1, n. 5, p. 329-332, 2017. DOI: 10.22409/mov.v0i5.32621. Disponível em: https://periodicos.uff.br/revistamovimento/article/view/32621. Acesso em: 13 ago. 2025.

[5] MENDES, J. E.; DE MEDEIROS, F. V. G.  A reforma do Ensino Médio: que encruzilhada é esta? para quê? para quem?. Cadernos de Pesquisa, v. 29, n. 2, p. 33–57, 5 jul. 2022. Disponível em: https://periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/cadernosdepesquisa/article/view/14507. Acesso em: 13 ago 2025.

[6] PINHEIRO, B. C. S.; EVANGELISTA, N. A. M.; DE MORADILLO, E. F. A reforma do “novo Ensino Médio”: uma interpretação para o ensino de ciências com base na pedagogia histórico-crítica. Debates em Educação, v. 12, n. 26, p. 242–260, 2020. DOI: 10.28998/2175-6600.2020v12n26p242-260. Disponível em: https://www.seer.ufal.br/index.php/debateseducacao/article/view/7289. Acesso em: 11 ago. 2025.

[7] BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Censo Escolar da Educação Básica 2022: Resumo Técnico. Brasília, 2023. Disponível em: https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/estatisticas_e_indicadores/resumo_tecnico_censo_escolar_2022.pdf. Acesso em: 11 ago. 2025.

[8] UNIÃO BRASILEIRA DOS ESTUDANTES SECUNDARISTAS. 17 de Outubro: estudantes pela revogação do NEM. out. 2023. Disponível em: https://www.ubes.org.br/2023/17-de-outubro-estudantes-pela-revogacao-do-nem/. Acesso em: 17 ago. 2025.

[9] BRASIL. Diário Oficial da União. Ed. 47, seção 1, p. 16, 09 mar. 2023. Disponível em: https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=09/03/2023&jornal=515&pagina=16. Acesso em: 13 ago. 2025.

[10] BRASIL. Diário Oficial da União. Ed. 66, seção 1, p. 18, 05 abr. 2023. Disponível em: https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?jornal=515&pagina=1&data=05/04/2023&totalArquivos=80. Acesso em: 13 ago. 2025.

[11] BRASIL. Diário Oficial da União. Ed. 147, seção 1, p. 5, 01 ago. 2024. Disponível em: https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=01/08/2024&jornal=515&pagina=5&totalArquivos=186. Acesso em: 13 ago. 2025.

[12] AGÊNCIA SENADO. Reforma do Novo Ensino Médio é sancionada com veto a mudança no ENEM. 01 ago. 2024. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/08/01/reforma-do-novo-ensino-medio-e-sancionada-com-veto-a-mudanca-no-enem. Acesso em: 17 ago. 2025.

[13] KATUTA, A. M. Mercantilização e financeirização da educação brasileira: a proposta neoliberal, o apagão pedagógico global (APG) e as r-existências. Geografia, v. 44, n. 1, p. 89-111, 2020. DOI: https://doi.org/10.5016/geografia.v44i1.14960.

[14] CÁSSIO, F.; GOULART, D. C. A implementação do Novo Ensino Médio nos estados: das promessas da reforma ao ensino médio nem-nem. Retratos da Escola, v. 16, n. 35, p. 285–293, 2022. Disponível em: https://retratosdaescola.emnuvens.com.br/rde/article/view/1620. Acesso em: 17 ago. 2025.