Como Solaris nos faz pensar em novos caminhos para a inteligência

Legenda: Capa do livro “Solaris” de Stanisław Lem, publicado pela editora Aleph. (Fonte: Site da editora Aleph – https://editoraaleph.com.br/products/solaris?variant=44838490276123).

Conforme nos mostra Stanisław Lem, talvez, nós não sejamos assim tão inteligentes quanto gostamos de acreditar

Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira

Sou uma pessoa queer branca do interior do estado de São Paulo, em estágio inicial dos estudos de Doutorado pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências (PIEC-USP). Tenho grande interesse pelas áreas de Educação e Comunicação Científicas, assim como por Filosofia e Sociologia das Ciências.

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Como citar

FERREIRA, Marcos Vinícius Ribeiro. Como Solaris nos faz pensar em novos caminhos para a inteligência. Revista Balbúrdia, São Paulo, abr. 2026. Disponível em: https://sites.usp.br/revistabalburdia/como-solaris-nos-faz-pensar-em-novos-caminhos-para-a-inteligencia/

Obra resenhada: Solaris, de Stanisław Herman Lem.

09 de abril de 2026 | 10:00

 

Solaris, livro de ficção científica do polonês Stanisław Herman Lem [1], originalmente publicado em 1961, é considerado um divisor de águas no gênero. Traduzido para dezenas de línguas, existem adaptações para o cinema. Se você for assistir a alguma delas (o melhor seria ler o livro), sugiro a versão russa de 1972 à hollywoodiana, dirigida por Andrei Tarkovsky.

A história começa quando o pesquisador, Dr. Kris Kelvin, chega à estação de pesquisa que orbita o planeta oceano Solaris. Imediatamente, Kris nota que a estação não está da forma como deveria. Ouvem-se passos e vozes que não deveriam estar ali, e logo Kris descobre que seu colega, Dr. Gibarian, suicidou-se logo antes de sua chegada. Além disso, outro cientista da estação, Dr. Sartorius, vive trancafiado em seu laboratório misteriosamente. O último dos cientistas na estação, Dr. Snaut, dúvida que Kris seja sequer real e o avisa que ele receberá um visitante misterioso. Em seguida, Harey, esposa de Kris, aparece na estação, por mais que ela já tivesse morrido anos atrás.

Além dessa trama misteriosa envolvendo os personagens “humanos” que deixa o leitor com vontade de não largar o livro, outra maravilha de Solaris é a concepção do planeta oceano, que, em si, é um ser cognoscente, contudo incognoscível. Devido a décadas de pesquisa Solarística, os cientistas sabem que o oceano alienígena possui inteligência, contudo, todas as tentativas de comunicação realizadas foram em vão. Na obra, o ser inteligente é um fluido, plástico e disforme, e não um humanóide, funcionando como um grande conectoma (mapa das conexões neurais do sistema nervoso de um organismo) do qual uma superinteligência aparentemente surgiu, distanciando-se, assim, de uma visão antropocentrada da inteligência.

Essa visão nos convida a pensar em formas mais plurais de inteligência, ancoradas nas práticas culturais, nos modos situados de existência, ou mesmo, para além da espécie humana, já que o Oceano é a antítese da cognição abstrata e desencarnada. Tal visão mais expandida da inteligência ressoa com os saberes de certos povos originários, historicamente marginalizados pela Ciência ocidental, que entendem a inteligência como uma teia de relações, muito mais coletiva e cósmica do que individual. Segundo Ailton Krenak [2] [3], tanto um rio, quanto uma pedra, são sujeitos, familiares, com os quais populações originárias conversam e respeitam. Sendo assim, um caminho possivelmente anti-cataclísmico frente aos desafios do antropoceno (período em que as atividades humanas passaram a impactar o clima e todos os ecossistemas da Terra) é aprendermos e ouvirmos as inteligências do mundo natural, reconhecendo que os saberes não se limitam à cognição humana.

A tentativa frustrada de comunicação em Solaris também dialoga com as novas interfaces entre o corpo, a mente e o ambiente que surgem hoje, não apenas com a natureza, mas com a tecnologia, em uma espécie de transhumanismo. Pode-se extrapolar esse dilema para as novas interações humanas com as Inteligências Artificiais (IA). Qual o papel delas na concepção de inteligência? Seremos capazes de nos comunicar conscientemente com elas? Seria a educação científica compatível com outras formas de inteligências, incluindo a IA?

Hoje, a IA exerce inúmeras funções, inclusive a generativa, produzindo novos textos, imagens, vídeos e sons. Assim, podemos refletir sobre como algoritmos e grandes modelos de linguagem participam de processos criativos e expandem os modos de imaginar, compor e expressar inteligências. Essa nova fronteira da criatividade tecno humana suscita questões profundas sobre autoria, originalidade, criatividade e capacidade artística, desafiando a produção de obras que antes pareciam exclusivamente humanas. O Oceano de Solaris, em sua criação de “visitantes” a partir das memórias humanas, é um espelho estranho desse processo criativo mediado pelo não-humano. Uma espécie de deep-fake.

Outra extrapolação possível está presente no capítulo de conclusão do livro "O que é a filosofia", de Gilles Deleuze e Félix Guattari [4], no qual afirmam que o pensamento humano nasce frente ao caos, reconhecendo padrões de ordenação, semelhança e causalidade para garantir um mínimo de estabilidade diante da ameaça constante do esquecimento e da confusão. Arte, Ciência, Filosofia e a Educação enfrentam o caos diretamente para emergir dele formas próprias de criação, seja capturando sensações, identificando variáveis regidas por leis ou inventando conceitos. O cérebro é o ponto de encontro desses processos, não reduzido a mecanismos neurais, mas como um campo capaz de sustentar variações que dão origem ao pensamento, à sensação, ao conhecimento e ao aprendizado. O Oceano representa um caos pensante incompreensível do qual cientistas tentam extrair sentido, concomitantemente, representando nossa própria incapacidade de entender como nós mesmos emergimos nossas consciências de nossos cérebros.

Em Solaris a ciência humana é incapaz de compreender o Oceano, crítica de Lem ao cientificismo, que se imagina capaz de acessar seus objetos de estudo em sua totalidade, contemplando-os integralmente por meio dos modelos da racionalidade humana. Dessa forma, Solaris tem a capacidade de provocar leitores que pensam sobre as ciências e sua educação, fazendo-os questionar os limites da ciência, da inteligência, da  consciência e das formas como ensinamos e  aprendemos.

Solaris questiona como compreensões sobre inteligência limitam ou expandem nossas capacidades de ensino-aprendizagem. A obra nos ensina que a resposta pode não estar em dominar o outro, seja um planeta, um ser vivo ou um algoritmo, mas em aprender a coexistir com inteligências radicalmente diferentes, valorizando a multiplicidade das formas de viver e aprender e assumindo a responsabilidade ética por aquilo que criamos e pelo diálogo que buscamos, ou mesmo, que nos foge. Portanto, Solaris pode ser objeto de estudos em sala de aula, principalmente em perspectivas que valorizem cosmovisões plurais e o reconhecimento de que as Ciências não são neutras, imaculadas e nem buscam trazer a verdade absoluta.

Referências:

[1] LEM, Stanislaw Herman. Solaris. Tradução de Eneida Favre. São Paulo: Aleph, 2021. 320p.

[2] KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. 128p.

[3] Ailton Krenak e o sonho da pedra. Direção: Marco Altberg. Produção: Bárbara Gual, Marcelo Goulart. Rio de Janeiro: Indiana Produções, 2017. Digital (52 min), son., color. Português. (Documentário).

[4] DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Conclusão: Do Caos ao Cérebro. In: DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a Filosofia?. Tradução de Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Munoz. São Paulo: Editora 34, 2010. 257-288p.