Educação para combater a violência de gênero

Legenda: Violência contra a mulher. (Fonte: Imagem de pikisuperstar no Freepik, disponível em: https://br.freepik.com/vetores-gratis/conceito-de-violencia-de-genero_9009084.htm#fromView=search&page=2&position=20&uuid=5c8ebc5f-efd2-4da3-b798-6def32961274&query=viol%C3%AAncia+de+g%C3%AAnero).

Brasil encerra 2025 marcado pela violência contra à mulher, indicando a urgência de uma educação anti-patriarcal.

Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira

Sou uma pessoa queer branca do interior do estado de São Paulo, em estágio inicial dos estudos de Doutorado pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências (PIEC-USP). Tenho grande interesse pelas áreas de Educação e Comunicação Científicas, assim como por Filosofia e Sociologia das Ciências.

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FERREIRA, Marcos Vinícius Ribeiro. Educação para combater a violência de gênero. Revista Balbúrdia, São Paulo, 15 mai. 2026. Disponível em: https://sites.usp.br/revistabalburdia/educacao-para-combater-a-violencia-de-genero/

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15 de maio de 2026 | 10:00

 

Nos últimos meses de 2025, os noticiários brasileiros estamparam novamente um dos problemas mais abjetos de nosso país, os feminicídios e tantas outras violências contra as mulheres. Alguns casos tiveram ampla repercussão na mídia (Cruz et al., 2025; Tammaro, 2025; Boehm, 2025). Infelizmente, exemplos não parecem faltar. Contudo, frente a esse cenário desolador, como educadores, é preciso lutar cotidianamente para o combate à violência de gênero. Portanto, surgem as questões: o que fazer? Como incorporar práticas e estimular transformações que visem diminuir não somente as disparidades entre gêneros, mas especialmente as violências perpetuadas pelo patriarcado?

 

O cenário brasileiro atual

Segundo dados da Central de Atendimento à Mulher (ligue 180), do Ministério da Mulher, só nos primeiros sete meses de 2025 foram registradas 86.025 denúncias de violência contra mulheres (Gama, 2025). Além disso, sabe-se que os índices de violência de gênero pioram muito para mulheres negras e em situação de vulnerabilidade social e econômica (Instituto de Pesquisa DataSenado, 2025).

Segundo dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero, estima-se que três em cada dez mulheres declararam ou vivenciaram situações de violência no Brasil, ou seja, cerca de 33% da população feminina, dados obtidos com base em 21.641 entrevistas com mulheres brasileiras com mais de 16 anos, realizadas entre 16 de maio e 8 de julho de 2025, em amostra probabilística da população feminina brasileira (Instituto de Pesquisa DataSenado, 2025), o que também indica que uma enorme quantidade de homens são formados para se tornarem agressores em nossa sociedade.

Já a distribuição segundo idade da primeira agressão indica que a maioria (38%) das mulheres vítimas de violência doméstica e familiar sofreram a primeira agressão até os 19 anos (Instituto de Pesquisa DataSenado, 2025), ou seja, o histórico da agressão contra as mulheres se inicia muito provavelmente em período de suas vidas no qual frequentam a escola.

Olhando para a cidade de São Paulo especificamente, em 2025, ela atingiu seu recorde de feminicídios desde o início da série histórica de registros em 2015 (Albuquerque, 2025), mostrando a gravidade do cenário atual.

 

O que fazer?

A violência de gênero é um fenômeno estrutural que pode ser tanto perpetrado no formato de violência física, psicológica, sexual, moral e patrimonial (Valladares; Oliveira; Zabello, 2024). A educação pode desempenhar um papel central na prevenção a essa violência ao funcionar como uma ferramenta de transformação social e emancipação do machismo (Silva; Miranda; Zibetti, 2025). Para tal, é essencial que escolas e professores adotem ações desde a infância, da educação infantil até o final do ensino básico, que vêm se mostrando eficazes para superar estereótipos e violências de gênero (Alzaga et al., 2025).

É essencial que toda instituição indique caminhos de acolhimento e apoio para meninas e mulheres que passaram por casos de violência, assim como uma infraestrutura para que denúncias possam ocorrer. Também é preciso o engajamento dos meninos e homens, rompendo com a cumplicidade masculina que muitas vezes tolera atos violentos, de forma a serem eles aliados ao combate contra a violência de gênero (Abreu; Santos, 2022). Isso envolve questionar a masculinidade tóxica, segundo a qual meninos reprimem sentimentos, agem com dominação e agressividade, promovendo modelos de masculinidades alternativas e saudáveis (Alzaga et al., 2025).

Segundo a Cartilha para profissionais: Violência contra a mulher não é normal, desenvolvida pelo Programa de Enfrentamento da Violência contra Meninas e Mulheres na Rede Estadual de Educação de São Paulo, no cotidiano escolar, ao identificar situações de violência, educadores devem adotar uma postura de escuta qualificada e empática, abstendo-se de emitir juízos de valor e garantindo a proteção da vítima para evitar a revitimização. Além disso, a escola deve agir de modo articulado à rede protetiva, que inclui as Delegacias de Defesa da Mulher, Conselhos Tutelares, Centro de Referência de Assistência Social e serviços de saúde (SEDUC-SP, 2022).

Já a Cartilha para adolescentes: Violência contra a mulher não é normal, apresenta 5 perguntas para ajudar no enfrentamento à violência de gênero, sendo elas: “1) Machismo: como isso me afeta? 2) O que são as violências baseadas em gênero? 3) Como identificar um relacionamento abusivo e como ajudar alguém a sair dele? 4) Como o machismo afeta os homens e o que eles podem fazer para enfrentar a violência contra meninas e mulheres? 5) Alguém está passando por uma violência: como e onde buscar ajuda?” (SEDUC-SP, 2022, p. 6).

Além disso, a implementação de marcos legais e de conteúdos sobre prevenção nos currículos escolares (como a Lei nº 14.164/2021, que incluiu conteúdos sobre prevenção da violência contra a mulher nos currículos da educação básica e instituiu a Semana Escolar de Combate à Violência contra a Mulher), fortalece a construção de uma cultura de paz e respeito à diversidade (Scalco; Pinto, 2023).

Este ano (2026) a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) completa 20 anos. Portanto, não é mais possível ser conivente com a naturalização e a banalização das diversas formas de agressão contra mulheres em nossa sociedade. É urgente romper com o silêncio e cumplicidade que muitas vezes protegem os perpetradores, exigindo a desconstrução de comportamentos machistas. Nesse cenário, a escola possui um papel essencial ao estimular uma postura crítica capaz de promover a justiça social.

 

Educação científica frente às desigualdades e violências de gênero

A educação científica está sim relacionada ao tema da violência de gênero, ainda mais quando grande parte das carreiras e áreas científicas são historicamente dominadas por homens. Dessa forma, é dever dos profissionais da área da educação em ciências de hoje contribuir para uma mudança que vise a dignidade humana, em especial a das mulheres que são vítimas de violências muito recorrentes na sociedade conforme demonstram os dados, assegurando que o sofrimento deixe de ser silenciado.

No Brasil, segundo dados do Plano Nacional de Pós-Graduação 2025-2029 (PNPG), por mais que as mulheres ainda enfrentem mais obstáculos, elas representam 57% das pessoas tituladas na pós-graduação, sendo maioria entre os estudantes de alta escolaridade. Mesmo sendo maioria entre as pessoas com um título de doutorado, as mulheres no Brasil representam apenas 43% do corpo docente da pós-graduação, sendo essa desigualdade maior nas áreas de STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Em áreas como nas ciências exatas e da terra, representam cerca de 24%.

Já na Educação Básica, mulheres são cerca de 59% segundo o Novo painel de Estatísticas Censo Escolar da Educação Básica, 80,3% dos diretores são do sexo feminino. Além disso, o número de docentes mulheres é cerca de 3,7 vezes maior do que de homens no Ensino Básico. Todavia, de maneira inversa ao caso dos homens, a maioria das mulheres trabalham nas etapas da educação infantil e anos iniciais, enquanto os homens nos anos finais e ensino médio. A menor presença de mulheres em carreiras científicas, assim como docentes de alto nível de escolarização nas áreas de STEM implica na manutenção de um viés que pensa não ser papel de mulheres os caminhos das ciências exatas e da natureza, agravando ainda mais essas desigualdades.

Dessa forma, fica evidente que muitos avanços em termos da garantia da igualdade de gênero na escola, tanto para estudantes e docentes, ainda são necessários.

 

Referências

ABREU, C. L.; SANTOS JR., J. M. Cultura Visual, Violência de Gênero e Masculinidades: Entrecruzamentos e Possibilidades Pedagógicas. Vista, n. 10, e022012, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.21814/vista.4105. Acesso em: 19 jan. 2026.

ALBUQUERQUE, Bervelin. MPF abre inquérito para apurar suposta omissão do governo de SP no combate à violência contra a mulher após alta de feminicídios. São Paulo: G1, 18 dez. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/12/18/mpf-abre-inquerito-para-apurar-suposta-omissao-do-governo-de-sp-no-combate-a-violencia-contra-a-mulher-apos-alta-de-feminicidios.ghtml. Acesso em: 19 jan. 2026.

ALZAGA, A. et al. Building Teachers’ Confidence and Critical Thinking Through Scientific Evidence with Social Impact in Gender Violence Prevention. Education Sciences, v. 15(4), n. 407, p. 1-13, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.3390/educsci15040407. Acesso em: 19 jan. 2026.

BOEHM, Camila. Crimes recentes mostram grave cenário de violência contra a mulher: Capital paulista bate recorde de feminicídio em 2025. São Paulo: Agência Brasil, 03 dez. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-12/crimes-recentes-mostram-grave-cenario-de-violencia-contra-mulher. Acesso em: 16 jan. 2026.

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CRUZ, Abraão; SIMONATO, Sabina; MARI, João de; VASCONCELOS, Daniela. VÍDEO: mulher sofre amputação das pernas após ser atropelada e arrastada pelo ex na Marginal Tietê, em SP. São Paulo: G1, 30 nov. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/11/30/video-mulher-sofre-amputacao-das-pernas-apos-ser-atropelada-e-arrastada-pelo-ex-na-marginal-tiete-em-sp.ghtml. Acesso em: 16 jan. 2026.

INSTITUTO DE PESQUISA DATASENADO. Pesquisa DataSenado: Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher. Brasília: Senado Federal, nov. 2025. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/institucional/datasenado/materias/relatorios-de-pesquisa/pesquisa-nacional-de-violencia-contra-a-mulher-datasenado-2025. Acesso em: 19 jan. 2026.

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GAMA, Guilherme. Brasil tem 17 denúncias de violência contra mulher por hora, diz ministério. São Paulo: CNN, 07 ago. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/brasil-tem-17-denuncias-de-violencia-contra-mulher-por-hora-diz-ministerio/. Acesso em: 19 jan. 2025.

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TAMMARO, Rodrigo. Homem usa duas armas para atirar contra ex em pastelaria na zona norte. São Paulo: Metrópoles, 01 dez. 2025. Disponível em: https://www.metropoles.com/sao-paulo/duas-armas-atirar-ex-em-pastelaria-sp. Acesso em: 16 jan. 2026.

VALADARES, V. S.; OLIVEIRA, S. E. S.; ZANELLO, V. Caracterização de homens autores de violência doméstica contra mulheres. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, v. 14, p. 01–19, 2024. Doi: 10.5433/2236-6407.2023.v14.47729. Disponível em: https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/eip/article/view/47729. Acesso em: 19 jan. 2026.