
Legenda: Recorte da capa do filme Bugonia (2025). Fonte: Imagem disponível no portal https://rollingstone.com.br/cinema/tudo-o-que-sabemos-sobre-bugonia-novo-filme-de-emma-stone-e-yorgos-lanthimos/.
Adaptação troca a crítica ao capitalismo industrial coreano pelo pânico conspiracionista ocidental, levantando questões cruciais sobre a confiança na ciência e nas instituições.

Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira
Sou uma pessoa queer branca do interior do estado de São Paulo, em estágio inicial dos estudos de Doutorado pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências (PIEC-USP). Tenho grande interesse pelas áreas de Educação e Comunicação Científicas, assim como por Filosofia e Sociologia das Ciências.
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Como citar
FERREIRA, M. V. R. Entre abelhas, alienígenas e dissonância cognitiva: uma resenha de Bugonia. Revista Balbúrdia, São Paulo, 22 ago. 2026. Disponível em: https://sites.usp.br/revistabalburdia/entre-abelhas-alienigenas-e-dissonancia-cognitiva-uma-resenha-de-bugonia/
Direitos Autorais:
Atribuição CC BY-NC 4.0
22 de agosto de 2026 | 10:00
Como misturar abelhas, CEOs, conspiracionismo, Coreia do Sul, capitalismo e alienígenas? Essa é a tarefa do filme Bugonia (2025), sobre a direção de Yorgos Lanthimos, com um elenco brilhante contando com Emma Stone, Jesse Plemons e Aidan Delbis.
Enredo de Bugonia
A obra possui um ritmo cativante com um ar de suspense. Em Bugonia, acompanhamos o sequestro de Michelle (Emma Stone), CEO de uma grande empresa farmacêutica, por um apicultor chamado Teddy (Jesse Plemons), com auxílio de seu primo Don (Aidan Delbis).
Teddy, que certamente é quem está à frente da operação de sequestro, está convencido que Michelle é, na realidade, um alienígena de Andrômeda que está matando o planeta Terra, e portanto, ao sequestrá-la, ele e Don buscam salvar o planeta usando-a de moeda de troca com a Corte de Andrômeda.
Michelle nega ser um extraterrestre, o que leva a Teddy à torturá-la com correntes elétricas, até que ela diga ser de Andrômeda (uma cena bem forte que pode causar um desconforto).
Teddy e Dom querem que Michelle os leve para sua nave espacial durante o eclipse lunar, dentro de 4 dias, para negociar a salvação da Terra. A tensão constante no filme deriva também do mistério, seria mesmo Michelle um alienígena? Ou seriam Teddy e Don lunáticos conspiracionistas que acreditam que ETs estão destruindo o planeta?
Bugonia como uma adaptação
O filme é uma releitura de Save the Green Planet! (2003), do diretor Jang Joon-Hwan. O original, bem mais violento, passa-se na Coreia do Sul e tem uma proposta mais clara de luta de classes. A obra do movimento do cinema novo coreano marca a mudança de milênio, momento pós o “milagre” econômico sul-coreano, marcado pela exploração extrema da classe trabalhadora, a rápida industrialização, a hiper competitividade no mundo do trabalho, e a estagnação social vivida pelos coreanos. Dessa forma, o filme mostra como o capital está destruindo a Terra, representado pela destruição total do planeta ao final.
Já Bugonia recontextualiza esses debates para os EUA de 2025, onde o corporativismo expressado por Michelle é “woke” apenas por motivos de fachada. Além disso, há alusão aos problemas climáticos e ao colapso das colônias de abelhas. Contudo, o tema da luta de classes fica bem menos evidente ao centralizar as discussões ao redor do conspiracionismo, outro tema muito presente no cenário sócio-político hoje (principalmente nos EUA).
As discussões entre Michelle e Teddy remetem constantemente a como lidar com a crescente negação da ciência em detrimento de temas conspiracionistas. No caso de Bugonia, isso é exemplificado pelo fato de a personagem Michelle precisar tentar convencer Teddy de que ela não é um alien.
Especulações e conexões com a educação científica
Um mistério em Bugonia é descobrir se no dia do eclipse a nave alienígena realmente apareceria, provando que Teddy não é um louco. Imaginei que o filme iria para um caminho semelhante ao famoso estudo de Leon Festinger (1957), que propôs a teoria da dissonância cognitiva, afirmando que, quando temos crenças ou valores em conflito com nossas ações, experimentamos um estado de dissonância cognitiva que evita com que algo muito importante para nós seja “quebrado”, evitando um processo doloroso. Na área da educação em ciências, essa teoria é geralmente utilizada em investigações sobre o negacionismo científico, como maneira de entender as estruturas psíquicas que levam a indivíduos, por vezes, a negarem a realidade objetiva logo à sua frente.
Festinger estudou seitas que aguardavam naves alienígenas durante um eclipse. Com a não-realização do evento, os fiéis não abandonaram a crença em extraterrestres. Pelo contrário, reforçaram-na para evitar o colapso de uma estrutura psíquica importante, fato peculiar que chamou a atenção de Festinger. Bugonia, contudo, opta por um desfecho diferente.
Atualmente, lidar com indivíduos que acreditam em desinformações ou conspirações tem sido um desafio para professores, divulgadores e pesquisadores (e suas intersecções). De alguma forma, a saída irá demandar a construção de uma cultura científica inclusiva, acessível e capaz de dialogar com os inúmeros saberes e indivíduos, por mais que a ciência tenha historicamente sempre sido para poucos.
Além disso, é possível traçar paralelos com o livro Como falar com um negacionista de Lee McIntyre (2017), que discute como a educação científica tradicional não tem dado conta de instrumentalizar os cidadãos para compreenderem como a ciência realmente é feita, assim como aspectos importantes de sua natureza, facilitando as compreensões inadequadas e até mesmo anti-científicas. Em certa medida, as personagens do filme representam esse desafio enfrentado por docentes nos dias de hoje: como dialogar com sujeitos que negam a ciência, sem cair em uma defesa do cientificismo?
Ou mesmo, a ideia de vacinas CTS (Ciência-Tecnologia-Sociedade), de Valladares (2021), que pode ser entendida como uma estratégia pedagógica de promoção da alfabetização científica crítica, que busca “imunizar” os cidadãos contra a desinformação. Essa abordagem utiliza a metáfora da vacina para descrever como pequenas “doses” de reflexão crítica sobre a natureza da ciência auxiliam na criação de “defesas intelectuais” contra visões deformadas da ciência ao introduzidas no processo educativo. Assim, professores podem “vacinar” seus estudantes ao expô-los a exemplos de desinformação científica em um ambiente seguro, a sala de aula, permitindo a criação dessa resiliência.
Quando não estimulamos uma alfabetização científica crítica, a ciência corre o risco de se tornar apenas mais uma narrativa em um mercado de ideias, facilmente descartada quando inconveniente. Por esses motivos, Bugonia é um filme extremamente provocador para discussões sobre como pensar a educação científica na contemporaneidade.
Referências
FESTINGER, L. A theory of cognitive dissonance. [s.l.] Stanford University Press, 1957.
MCINTYRE, L. How to talk to a science denier: conversations with flat earthers, climate deniers, and others who defy reason. Cambridge: Mit Press, 2017.
VALLADARES, L. Post-Truth and Education: STS Vaccines to Re-establish Science in the Public Sphere. Science & Education, v. 31, p. 1311–1337, 2021.

