
Legenda: Darwin sempre adotou em público um discurso que não entrasse em conflito com a religião; tanto que, após sua morte, seu corpo foi sepultado na Abadia de Westminster, o templo principal da Igreja da Inglaterra". Fonte: https://ru.pinterest.com/pin/660762576615128028/. Acesso em 01/12/2025.

Sou Bruno Fancio Lima, aluno do Programa Interunidades em Ensino de Ciências (PIEC) da Universidade de São Paulo. Graduado em ciências biológicas por esta mesma universidade em 2016, comecei a dar aulas na rede de ensino municipal da cidade de São Paulo em 2017. Sempre tive muito interesse pelo mundo biológico, o que me fez estudar Darwin durante o mestrado. Agora no doutorado, estou desenvolvendo minha pesquisa traçando paralelos entre um crítico contemporâneo a Darwin, George Mivart, com defensores atuais do Design Inteligente, buscando pontos de contato que possam nos ajudar a lidar com os desafios contemporâneos do ensino de evolução. Sou apaixonado pela Daiana. Adoro ler, principalmente ficção científica, e acompanhar as teorias mais malucas sobre o mangá e anime One Piece.
Como citar
LIMA, Bruno Francio. Evolução e criacionismo: Como Darwin pode nos ajudar a lidar com essa relação? Revista Balbúrdia, São Paulo, mai. 2026. Disponível em: https://sites.usp.br/revistabalburdia/evolucao-e-criacionismo-como-darwin-pode-nos-ajudar-a-lidar-com-essa-relacao/
02 de maio de 2026 | 10:00
Em um dos meus primeiros empregos, uma das minhas colegas era uma senhora muito gentil e bem-humorada, evangélica fervorosa. Um dia, ela, que sempre levava frutas de sobremesa, ao admirar uma banana e uma mexerica em sua marmita, afirmou: “é, Bruno, Deus é maravilhoso mesmo... olha só, a banana tem o formato certinho pra gente pegar com a mão, e a mexerica vem em gomos, perfeita pra gente dividir. Além disso, as duas vem embaladas naturalmente! Ele pensou em tudo mesmo!”
Já formado em biologia, eu era professor de ciências naturais de algumas turmas de EJA (Educação de Jovens e Adultos). Estava abordando o conteúdo de reprodução de plantas, explicando como diversos animais apresentam adaptações para carregar o pólen de uma flor para outra, enquanto as plantas apresentam características para atrair determinados polinizadores. Ao final da explicação, uma aluna exclamou: “Deus é maravilhoso mesmo! Olha como ele fez as coisas se encaixaram perfeitamente na natureza!”
Trago essas duas pequenas anedotas pessoais porque “atire a primeira pedra” a pessoa que nunca se espantou com o mundo biológico. Na minha infância, ficava fascinado com os documentários de vida selvagem narrados por sir David Attenborough e consumia tudo o que caía em minhas mãos sobre animais, plantas e natureza.
Os estudantes para os quais lecionamos também ficam fascinados com esses fatos, seja uma adaptação muito específica de alguma espécie animal, sejam as relações ecológicas entre os seres vivos. Para muitos, a resposta para este espanto é o criacionismo, ou seja, como as duas historinhas que eu trouxe aqui mostram, a ideia de que as adaptações dos seres vivos foram planejadas por um Deus que agiu, ao mesmo tempo, como projetista e artífice dessas maravilhas.
A ideia, obviamente, não é nova. Tem já alguns milhares de anos e está presente no primeiro livro da Bíblia Sagrada. Quero me concentrar, porém, na teologia natural, que na Inglaterra, teve entre seus representantes mais famosos Isaac Newton, Robert Boyle e William Paley. Aqui as coisas podem começar a ficar confusas, já que Newton e Boyle têm leis científicas com seu nome, que são estudadas nos cursos de física e química, respectivamente. Como aprendemos na faculdade, religião e ciência não se misturam; como explicar que dois “cientistas” também estivessem conectados com teologia?
Para a teologia natural, não existia nenhum conflito. Estudar a natureza, conhecer as suas leis e as constâncias de seu funcionamento, compreender as formas com as quais os animais e seres vivos estão estruturados, era, no fundo, adentrar a mente de Deus. Era uma forma de conhecer a linguagem com a qual Ele havia estruturado o Universo. A teologia natural se propunha, justamente, a encontrar provas para a existência de Deus a partir de uma análise da natureza.
William Paley, citado anteriormente, foi um clérigo inglês que publicou seu livro mais famoso, chamado justamente Natural Theology, pouco antes de morrer. Ele inicia seu livro com o famoso argumento do relógio: supondo que você encontre um relógio (na época dele, de bolso) jogado no meio de um descampado, obviamente a existência do relógio será ligada ao planejamento e à criação por parte de um relojoeiro. Ora, argumenta Paley, pensando agora em um olho, um instrumento mais complexo do que um microscópio ou telescópio, não podemos chegar à mesma conclusão? Analisando toda a física envolvida no funcionamento de um olho, em suas diminutas partes, que separadas, não servem para nada, mas em conjunto, permitem a visão, não vem naturalmente à mente a ideia de que os olhos foram planejados e criados por uma inteligência divina?
Este é o pensamento que encontramos em nossas salas de aula, quando conversamos com nossos estudantes, e de maneira repaginada, em livros e no Youtube, sob o nome da “teoria do design inteligente”: um movimento “científico” que tenta provar a ideia de que a complexidade inerente de certas estruturas biológicas só pode ser explicada pela intervenção divina no mundo natural e no surgimento dos seres vivos.
Hoje, sabe-se que a complexidade inerente ao mundo vivo é explicada por processos evolutivos, de transformação das espécies ao longo do tempo, sendo o principal (mas não único) deles a seleção natural. Esta teoria foi apresentada por Charles Darwin em seu livro A origem das espécies.
Um fato notório sobre o Origem, escrito em um contexto muito mais criacionista do que o atual, é que nele não se encontram embates com a religião. Pelo contrário. Darwin acrescenta, na epígrafe do livro, algumas citações de notórios teólogos naturais de sua época. Ao longo do texto, ele não ataca ou combate visões religiosas, mas tem como objetivo defender seu ponto de vista – de que a evolução por seleção natural é uma explicação viável para a origem dos seres vivos e de suas adaptações que “tanto nos trazem espanto e admiração” (palavras do próprio Darwin, ainda na introdução do Origem).
Não por acaso, Darwin acrescenta um capítulo no livro para tratar das dificuldades de sua teoria. Ele ocupa papel central no livro, no sentido de estar em seu centro, isto é, praticamente na metade do volume. Na primeira parte do livro, Darwin explica a sua teoria da seleção natural, fazendo uma analogia com a seleção artificial, levada a cabo por agricultores e criadores de animais e conhecida por muitos leitores de seu livro. Daí vem o capítulo sobre as dificuldades, adiantadas por ele mesmo, o de número VI. Em seguida, nos capítulos VII, VIII e IX, Darwin debate outros pontos espinhosos da sua visão, como a questão dos instintos complexos e as lacunas existentes no registro fóssil entre os ancestrais dos animais atuais e seus representantes contemporâneos. Para encerrar, nos últimos quatro capítulos, Darwin aborda diversos fatos do mundo natural que sua teoria pode explicar.
Para convencer o seu leitor, Darwin vale-se de inúmeros exemplos práticos, de experimentos mentais, de metáforas e de estratégias de convencimento, como se colocar junto do leitor em diversas passagens. Além disso, Darwin nunca ataca diretamente o pensamento religioso como “inferior” ou “atrasado”. Afirma que, do ponto de vista das evidências, sua teoria pode explicar o surgimento da complexidade na natureza.
Defendo, portanto, que em nossas salas de aula, principalmente as de escolas públicas, que pululam de diversidade social, religiosa, de gênero, econômica, etc., é necessário adotarmos um discurso mais conciliador – a la Darwin – para, por um lado, assegurar aos estudantes que, ao se entender o processo de evolução, ninguém irá “virar ateu”, e por outro lado, conseguir passar para os nossos alunos as evidências e o arcabouço teórico da evolução por seleção natural.
A conversa pode ser difícil, claro. Nesse sentido, é importante fazermos a distinção, com nossos estudantes, entre naturalismo ontológico e naturalismo metodológico. O naturalismo ontológico afirma que só o que existe é o mundo natural, este em que estamos inseridos, e que não existe nada que não possa ser detectado por evidências - isto é, o naturalismo ontológico é uma posição filosófica, que atesta que o sobrenatural não existe. O naturalismo metodológico, aquele adotado por Darwin, é um procedimento de pesquisa que afirma que não se podem basear conclusões científicas em dados que não sejam oriundos de pesquisas e metodologias científicas. Ou seja, afirma apenas que o sobrenatural não pode ser estudado pela ciência, mas não que ele não existe.
Assim, é nosso dever desemaranhar essas diferentes posições com nossos estudantes, antes de adentrarmos em assuntos que possam trazer algum conflito. Nosso papel enquanto professores é fazer com que os estudantes se apropriem intelectualmente dos conceitos científicos abordados (no caso, a evolução), e não que os aceitem de maneira absoluta; se fosse assim, a ciência se tornaria um conhecimento dogmático, tal qual a própria religião o é.
Para se aprofundar no assunto:
CAPONI, Gustavo. El 18 Brumario de Michael Behe: La teoría del diseño inteligente en perspectiva histórico-epistemológica. Filosofia e História da Biologia, v. 8, n. 2, pp. 253-278, 2013.
CESCHIM, Beatriz; CALDEIRA, Ana Maria de Andrade. É caminhando que se faz o caminho: A natureza contingente da evolução como objeto de ensino. In: CALDEIRA, Ana Maria de Andrade (org). Didática e Epistemologia da Biologia. São Paulo: Cultura Acadêmica e Espelho D’Água. Pp. 17-52. 2020.
DARWIN, Charles. A Origem das Espécies [1859]. Organização, apresentação e tradução de Pedro Paulo Pimenta. Ilustrações de Alex Cerveny. São Paulo: Ubu Editora, 2018
SANTOS, Frederik Moreira dos; EL-HANI, Charbel N. Criacionismos, naturalismos e a prática da ciência. Filosofia e História da Biologia, v. 8, n. 2, pp. 223-252, 2013.
SELLES, Sandra Escovedo. A polêmica instituída entre ensino de evolução e criacionismo: Dimensões do público e do privado no avanço do neoconservadorismo. Ciência & Educação, v. 22, n. 4, p. 831-835, 2016.
