
Legenda: A observação cuidadosa, o registro acurado e a interpretação fundamentada são as bases das ciências que investigam os fenômenos humanos e sociais - Imagem: Pixabay.
Marcelo Valério
Docente e pesquisador integrante da Rede de Divulgação Científica da UFPR e do Grupo de Estudos e Pesquisas Alfabetização Científica e Tecnológica na Educação em Ciência (GEPACT). Também é vice-Diretor da Associação Brasileira de Ensino de Biologia (SBEnBio), Regional 3 (RS/SC/PR). Graduado em Biologia e Doutor em Educação para a Ciência e a Matemática.
Audiodescrição da foto do divulgador:
Douglas é um homem branco de barba feita, possui cabelos com penteado do tipo “topete alto”.
11 de dezembro de 2025 | 10:00
Um martelo e um pincel. Uma cadeira de praia e um gravador. Uma pilha de documentos e uma caneta marca-texto. Você consegue imaginar cientistas usando estes objetos para construir conhecimento? Difícil, né?
As pesquisas de percepção pública da ciência mostram que, ainda hoje, a maior parte das pessoas imagina a ciência sendo feita em meio a jalecos brancos e vidrarias com líquidos coloridos. E, muitas vezes, o estereótipo é ainda mais reducionista: os cientistas são representados e identificados apenas como homens, brancos, cisgênero e, quase sempre, um tanto antissociais.
Mas, e se eu te apresentasse uma mulher Paleontóloga, um negro Antropólogo e uma trans Psicóloga? Toparia conhecer? Pois, procure os nomes de Aline Ghilardi, Mauro Baracho e Jaqueline Gomes de Jesus no buscador de sua preferência. São três brasileiros que saem com amigos, brigam com familiares por política, namoram e, claro, fazem ciência (usando aqueles recursos lá no primeiro parágrafo)! Nem por isso, porém, o conhecimento que produzem sobre dinossauros brasileiros, sobre autoestima negra ou sobre a psicologia social são menos relevantes do que a ciência feita em um acelerador de partículas ou um gel de agarose.
Quando digo que nem todo herói usa capa, não me refiro ao Wolverine ou ao Homem-Aranha. Aliás, os filmes desses dois adoram uma “ciência-clichê” também, né? O que quero chamar a atenção é para uma ciência que é feita por gente, por seres humanos, sem padrões, com suas virtudes e defeitos, inclusive. Aliás, a ciência sempre esteve emaranhada com a história, a cultura, as crenças e as ideologias de quem a produziu. Ou, então, como explicaríamos o fato de que populações afrodescendentes sejam sub-representadas em bancos de dados genômicos? Ou que assistentes virtuais de voz respondam melhor a alguns idiomas, dialetos ou sotaques?
Nesse contexto, quem sabe, eu, mesmo não passando longe do estereótipo, sinto que posso servir de exemplo para expandir sua visão do que seja científico. Não que eu tenha algum superpoder, não, mas eu trabalho com Educação, onde as questões de pesquisa não costumam ser respondidas com relações de causa e efeito, e são prioritariamente qualitativas. Eu e meus pares vivemos mais mergulhados em palavras do que números. Estudamos discursos transcritos e documentos, emprestando estratégias de investigação de outras áreas, como da História e da Linguística. E fazemos isso porque os fenômenos educacionais – e sociais, para ser mais abrangente – mais do que explicados de modo geral, precisam ser compreendidos em suas particularidades. Imagine, por exemplo, um fenômeno como a Fome: ele pode ser explicado, sim, estabelecendo correlações e panoramas, causas e consequências com dados quantitativos, gráficos e tabelas, mas há um conhecimento que só emerge no diálogo direto com contexto e a identidade dos famintos. E é aqui que um gravador se torna mais importante que um espectrômetro; que papel e lápis são mais poderosos do que uma planilha gigante.
Quando pesquisadores da minha área, o Ensino de Ciências, entrevistam um professor, eles gravam suas falas, transcrevem-nas em texto, as interpretam à luz de referenciais teóricos e apresentam suas conclusões aos pares. Não há a pretensão de definir a verdade sobre o mundo, mas de propor uma interpretação quanto ao tema da entrevista que possa ser debatida de modo sistemático, fundamentado, e, claro, escrutinada por outras interpretações igualmente embasadas. Não há reprodutibilidade como critério nas ciências da educação, ainda que clareza e coerência metodológica sejam necessárias. Trata-se da capacidade científica posta à prova pelos pares, que, juntos, constroem os saberes que sustentam.
Aliás, os cientistas sociais nem deveriam se incomodar tanto com as perturbações demarcatórias das “outras ciências”... seu estatuto epistemológico é outro, onde as visões de realidade e verdade são menos fixas, mais contextuais, contingenciais.
Por outro lado, não estaríamos errados ao dizer que todas as ciências são humanas. São os métodos declarados, as práticas de investigação reconhecidas e, sobretudo, o caráter intersubjetivo de submissão à crítica que garante sua legitimidade como forma de conhecer. Mesmo nos laboratórios, os colegas de jaleco só elaboram algo relevante baseando-se em muitas contribuições de quem os antecedeu, assegurados por seus contemporâneos, e, claro, submetidos ao crivo da coletividade, em seu tempo e no futuro.
É importante compartilhar isso para que se perceba que nem todo cientista é igual. Todo cientista é, antes, uma pessoa. Nem sempre usamos jaleco. Capa, também não!

