
Legenda: Atrás da máscara, outra máscara (1927), um autorretrato performativo de Gillian Wearing e Claude Cahun. (Fonte: Galeria Nacional de Retratos, Londres).
Ao acompanhar a trajetória de indivíduos queer e trans fica evidente o quanto a identidade padrão do cientista é culturalmente branca, capacitista e cisheteronormativa.

Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira
Sou uma pessoa queer branca do interior do estado de São Paulo, em estágio inicial dos estudos de Doutorado pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências (PIEC-USP). Tenho grande interesse pelas áreas de Educação e Comunicação Científicas, assim como por Filosofia e Sociologia das Ciências.
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Como citar
FERREIRA, Marcos Vinícius Ribeiro. Novos caminhos para a educação em ciências, você queer?. Revista Balbúrdia, São Paulo, abr. 2026. Disponível em: https://sites.usp.br/revistabalburdia/novos-caminhos-para-a-educacao-em-ciencias- voce-queer/
15 de abril de 2026 | 10:00
Na atual conjuntura de tendências neonazistas e neofascistas, a diversidade tem sido atacada. Políticas de diversidade, igualdade, inclusão e acessibilidade (sigla DEIA em inglês) vem sumindo das corporações, provando que essas só aderiram a esse movimento por um apelo de mercado e de marketing. Além disso, a vida de pessoas desviantes do binarismo de gênero e da heteronormatividade tem sido atacada. Dessa forma, superar o paradigma de categorização em caixinhas, que busca dominar e classificar corpos, existências e expressões humanas diversas, precisa ser uma dos caminhos da educação (científica).
Alinhado a isso, o recente trabalho cujo título traduzido para o português é Queer na Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática: Seguindo as Intersecções de Queerness, Transness e Identidades Científicas, de Nelly Marosi e colaboradores, publicado em novembro de 2025 na revista Science Education, apresenta um estudo de caso múltiplo no qual se acompanhou a vida de três pessoas queer, Rain, Goblin e Cassandra, membros de instituições de Ensino Superior na Europa e nos Estados Unidos.
Abordando tanto a teoria queer, a interseccionalidade e a construção de identidades científicas, o trabalho examina como a queerness e a transness se cruzam com as identidades científicas dos participantes ao longo de suas vidas. O objetivo foi investigar as normas culturais dos espaços científicos, como os indivíduos queer/trans se posicionam em relação à Ciência e como essas normas restringem ou favorecem suas trajetórias.
Antes de adentrarmos na metodologia e nos resultados do trabalho, vale uma tentativa singela de “explicação” de alguns dos conceitos.
Os conceitos de Queerness e Transness
Também denominado de forma aportuguesada de Cuir (queer), a queerness (ou “cuiridade”) possui uma dimensionalidade política, cultural, representativa e expressiva. Propositalmente, o queer quebra com o binarismo, recusando-se à taxonomização dos corpos e vivências. Queer é o escancaramento da performance de gênero. Ao se posicionar fora do modo hegemônico vigente de se comportar dos corpos em nossa sociedade, explicita a arbitrariedade de comportamentos e imagens construídas para os gêneros masculino e feminino. Ao fazer isso, torna-se desviante de bases estruturantes da cultura hegemônica tão arraigadas que pode causar em alguns certa estranheza ou incômodo.
Ambas as ideias de queer e trans se relecionam com uma ruptura do “caminho natural” a ser vivido e performado pelo indivíduo, o de interiorização do sexo biológico (que também não se resume apenas aos cromossos XX, XY, ou a genitálias como pênis e vagina) como construção identitária e reprodução da heteronormatividade, assim como a reprodução biológica. Portanto, queers e trans podem ser tidos como pessoas transviadas, que desviaram do “caminho”.
A transness (ou “transgeneridade”) é uma afirmação que uma pessoa faz sobre seu gênero que, em certa medida, contraria a percepção social de gênero do indivíduo segundo os outros.
STEM como um ambiente excludente
Utilizando-se de entrevistas, os autores buscaram desvelar as identidades científicas de Rain, Goblin e Cassandra. Ao analisar como cada indivíduo queer/trans construiu uma identidade científica e adentrou o espaço da Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (em inglês STEM), o artigo mostra o quão excludentes são os modelos culturais das áreas científicas.
Em geral, os coletivos que constituem esses espaços são pouco diversos, o que legitima uma ciência cisheteronormativa, branca, patriarcal, capacitista, individualista e competitiva, seguindo valores neoliberais. Esses modelos marginalizam as identidades queer, estigmatizam a saúde mental e despolitizam a ciência ao apagarem preocupações sociopolíticas e limitarem quais pessoas são reconhecidas como cientistas legítimos.
A literatura prévia já indicava que a cultura STEM é frequentemente hostil e acolhe mal indivíduos queer e trans, levando-os a experienciar exclusão, discriminação e assédio, e a ter maior probabilidade de considerar ou abandonar trajetórias na STEM. Esses grupos sociais também frequentemente reportam condições de saúde mental preocupantes, dizendo se sentir invisíveis ou não respeitados, forçados a ocultar suas identidades.
Desafios e superações de pessoas queer e trans
As histórias dos participantes do estudo revelam como esses modelos culturais estreitos afetam suas identidades e trajetórias. Rain, um indivíduo não-binárie, escolheu a Física e, depois, a Ciência da Computação, em parte para provar que as expectativas de gênero estavam erradas. No entanto, a cultura de competitividade na Física contribuiu para o desenvolvimento de um quadro de ansiedade e levou Rain a abandonar a Física. Já na Ciência da Computação, Rain viu-se em um ambiente sexista e altamente assediador, onde elu (pronome neutro) sentiu que precisava performar um homem para se sentir segure, além de esconder sua identidade bissexual para evitar mais sexualização e desvalorização. A falta de auto-reconhecimento como cientista levou Rain a se afastar do campo.
Goblin, um homem cisgênero queer, escolheu Biologia, um campo que julgou mais tolerante, visto tradicionalmente como “ciência de mulher”, o que o fazia sentir-se mais seguro. Contudo, embora houvesse representação de homens gays cisgêneros, ele enfrentou a imposição de estereótipos ao ser julgado como gay e não queer, fazendo-o se sentir um “alienígena”. Um incidente homofóbico com sua supervisora de Mestrado, que questionou seu atraso de sete minutos associando-o à falta de esposa ou namorada, demonstra como a cisheteronormatividade tinha potencial de impactar negativamente seu desempenho acadêmico.
Cassandra, uma mulher trans, experimentou inicialmente os privilégios de ser percebida como um homem branco, cis-heterossexual, o que favoreceu sua trajetória em Engenharia Química, um campo elitista e competitivo. Durante o Doutorado, ela usou seu alto desempenho acadêmico para se distrair do sofrimento interno relacionado à sua identidade de gênero, trabalhando incessantemente. Sua transição forçou-a a viver uma vida dupla em segredo na academia por quase um ano. Após a transição, ela se tornou mais empática e crítica, com sua transness, assumindo sua identidade como professora e pesquisadora focada em justiça social. Ela percebeu que foi desvalorizada profissionalmente após ser vista como mulher trans, ironicamente encontrando nisso uma afirmação de sua identidade.
Por uma educação queer
Como conclusão, a pesquisa indica que o sucesso não pode ser medido apenas pela assimilação nessas culturas existentes. Em vez de apenas buscar a inclusão, os resultados apontam para a necessidade de um reimaginar radical da educação científica que abandone normas cisheteronormativas e neoliberais, em detrimento de valores como justiça, fluidez e cuidado coletivo, para que indivíduos queer e trans possam trazer suas identidades completas para os espaços científicos.
As implicações incluem a urgência de construir estruturas de apoio e implementar políticas institucionais que promovam a visibilidade e o desmantelamento das injustiças nas ciências. Além disso, práticas formativas no âmbito da educação e comunicação em ciências que visem diversificar os atores científicos são necessárias, garantindo que a inclusão e diversidade não sejam apenas tópicos secundários dentro das inúmeras atribuições dos profissionais que ensinam e divulgam as ciências.
Referência:
MAROSI, N. K. M. et al. Queer in Science, Technology, Engineering, and Mathematics: Following the Intersections of Queerness, Transness and Science Identities. Science Education, v. 110, n. 2, p. 673–692, 2025. https://doi.org/10.1002/sce.70033.
