
Legenda: Niels Bohr (à esquerda) e Albert Einstein (à direita) foram centrais para a formulação da Mecânica Quântica e muito debateram sobre o seu significado. Fonte: @pickpik.
Pesquisas em história e filosofia da ciência reforçam a característica múltipla do conhecimento, assim como apontam para a importância dela para uma melhor compreensão da Física Quântica.

Mestranda em Ensino de Ciências na modalidade Física pelo PIEC-USP.
Tags
Ensino de Física, História, Filosofia e Sociologia da Ciência, História da Física
Como citar
TUKIA, Gabriella Araujo. O papel das múltiplas interpretações da Mecânica Quântica no ensino de Física Quântica. Revista Balbúrdia, São Paulo, abr. 2026. Disponível em: https://sites.usp.br/revistabalburdia/o-papel-das-multiplas-interpretacoes-da-mecanica-quantica-no-ensino-de-fisica-quantica/
27 de abril de 2026 | 10:00
Em seu artigo “Ênfase conceitual e interpretações no ensino da Mecânica Quântica”, Ileana Greca e Olival Freire refletem sobre a importância de se abordar questões filosóficas para tornar a teoria da Mecânica Quântica mais compreensível. Em um estudo histórico sobre como o ensino de quântica era realizado ao longo do século XX, eles relatam o desenvolvimento de uma postura instrumentalista, pouco interessada em reflexões conceituais e interpretativas. Das escolhas pedagógicas feitas a partir de tal visão sobre as teorias científicas, desenvolveu-se nos físicos assim formados uma postura pragmática, acompanhada de uma compreensão mais rasa do significado da Mecânica Quântica em relação à dita realidade. Os autores concluem que, para a promoção de uma compreensão mais profunda dos conceitos da teoria, é importante considerar as questões filosóficas, relacionadas às diversas formas de se interpretar o formalismo matemático da teoria.
A necessidade de evidenciar a interpretação adotada e, assim, as premissas das quais se está partindo, se relaciona a o que se discute em pesquisas em Ensino sobre a multiplicidade de saberes. Esta é considerada quando se entende a importância dos conhecimentos não-formais dos estudantes enquanto se reflete sobre as formas de apresentar os conhecimentos formais escolares. Este artigo, preocupado com o problema específico da Mecânica Quântica, acaba por reforçar a defesa por um ensino de ciências mais contextualizado, plural e humano, o que é significativo no âmbito da Física Moderna, em que um discurso estruturado sobre verdades absolutas ainda se manifesta.
O ensino de Mecânica Quântica na história
Segundo Greca e Freire, as disciplinas de Mecânica Quântica costumam ser “formalista[s], centradas na aprendizagem de métodos matemáticos de resolução de casos típicos, com pouca ou nenhuma discussão conceitual ou interpretacional”. Analisando textos didáticos do início do século XX, assim como fontes secundárias que se debruçaram sobre cursos de Mecânica Quântica dessa época, os autores apresentam as tendências educacionais no ensino dessa área ao longo do tempo, que nos permitem entender o formato atual da disciplina. Partindo de um foco conceitual, dado pela geração dos fundadores da teoria nas primeiras décadas do século XX, o ensino de Quântica passou a ser mais instrumentalista no período pós-Guerra. Nesse momento, se estabelecia na comunidade científica um sentimento de que problemas conceituais enfrentados pelos fundadores haviam sido solucionados. A teoria estaria pronta para ser utilizada para resolver problemas. Somando-se a isso um aumento no tamanho das turmas de graduação em física, nas quais debates filosóficos seriam difíceis de se promover, as escolhas pedagógicas foram feitas no intuito de formar físicos que conseguissem aplicar os algoritmos necessários para fazer novos cálculos. Esse estilo de ensino seguiu até os dias atuais. Contudo, há uma crescente demanda por abordar com mais cuidado questões conceituais, que se deve, em parte, pelo desenvolvimento das tecnologias quânticas, o qual requer uma compreensão mais profunda do formalismo.
As interpretações da Mecânica Quântica no ensino
O ensino focado nas ferramentas da teoria quântica para a resolução de problemas levou a uma compreensão mais rasa da teoria por uma geração de físicos. Isso é demonstrado por Greca e Freire por meio de alguns estudos sobre dificuldades conceituais específicas, assim como por relatos de casos de físicos renomados que se formaram com dificuldade dentro dessa perspectiva pedagógica. Manipular a teoria não requer que ela seja compreendida profundamente, mas uma tal manipulação pode parecer uma tarefa sem sentido, e pode acabar afastando o estudante das áreas correlatas a ela.
Quando o intuito é entender a teoria, é necessário um estudo mais atento dos seus conceitos, o que, no caso da Mecânica Quântica, demanda que se determine a interpretação da qual se parte. Dizer, por exemplo, que o “elétron é sempre uma partícula” está correto pela interpretação corpuscular, segundo a qual o objeto elementar é a partícula. Contudo, essa afirmação é incorreta segundo a interpretação ondulatória, que, por sua vez, defende a onda como a entidade mais fundamental. Diversas questões são respondidas de formas diferentes dependendo da interpretação, portanto, é necessário esclarecê-las no desenvolver da disciplina. Para Greca e Freire, um ensino preocupado com os conceitos precisa incluir as interpretações na sua proposta por essas razões. Não é necessário torná-las o centro da disciplina, elencando os detalhes de cada interpretação e as contrastando entre si. Para eles, o importante é reconhecer a existência dessa multiplicidade interpretativa, e evidenciar a interpretação preferida, sem necessariamente invalidar as outras. Dessa forma, a aluna pode compreender melhor as consequências de dada interpretação e, se desejar, buscar mais informações sobre as outras, cuja existência ela, então, estaria a par.
Considerações finais
Neste ano de 2025, em celebração do Ano Internacional da Teoria e Tecnologia Quânticas, torna-se significativa a divulgação de estudos sobre o ensino de Mecânica Quântica, uma teoria que causa tanto estranhamento nos indivíduos. Debater o seu ensino permite reflexões sobre o que é realmente estranho nela: o que é intrinsecamente contra-intuitivo contra o que é difícil de compreender devido a uma apresentação confusa dos seus elementos teóricos. O artigo de Greca e Freire apresenta, nesse momento, a importância que a filosofia tem no ensino de ciências, quando esclarece as premissas que embasam a estrutura das teorias que se quer apresentar. O seu trabalho reforça a importância do contexto – aqui, o contexto interpretativo – para uma melhor compreensão da teoria, e demonstra a pluralidade do conhecimento no âmbito do formalismo de teorias científicas, que deve ser evidenciada no ensino.
Leia o texto completo em:
GRECA, Ileana M.; FREIRE JR, Olival. Ênfase conceitual e interpretações no ensino da Mecânica Quântica. Teoria Quântica: estudos históricos e implicações culturais, p. 359.
