
Legenda: Totem da faculdade de educação, sede do XX EPIEC em 2026 com as árvores características da região ao fundo em formato de desenho. Fonte: Imagem gerada com inteligência artificial DALL-E3 e editada pelos autores para se adequar ao escopo do texto.
O 20o Encontro do Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências celebrou a conquista da nota 6 na CAPES e debateu temas como a educação para as relações étnico-raciais, a formação docente e o legado da experimentação lúdica, consolidando a pesquisa como pilar da Educação Básica.

Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira
Sou uma pessoa queer branca do interior do estado de São Paulo, em estágio inicial dos estudos de Doutorado pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências (PIEC-USP). Tenho grande interesse pelas áreas de Educação e Comunicação Científicas, assim como por Filosofia e Sociologia das Ciências.
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E-mail: marcos.vinicius.ferreira@usp.br

Doutorando em ensino de ciências pelo PIEC-USP, é bacharel e licenciado em Física, mestre em Ciências Pela USP. Atua como professor de ciências, matemática e física na educação básica e pesquisa representações temporais de ciências no ensino não formal.
E-mail: aurelio.pena@usp.br
Como citar
FERREIRA, Marcos Vinícius Ribeiro. PENA, Aurélio Bianco. O que aprendemos em duas décadas de encontros promovidos por um programa de pós-graduação. Revista Balbúrdia, São Paulo, 30 abr. 2026. Disponível em: https://www.sites.usp.br/revistabalburdia/o-que-aprendemos-no-vigesimo-encontro-promovido-por-um-programa-de-pos-graduacao/
Direitos Autoriais:
Atribuição CC BY-NC 4.0
30 de abril de 2026 | 10:00
A área de Ensino de Ciências no Brasil cresceu significativamente nas últimas décadas. Essa maturação da área certamente se relaciona aos 53 anos de existência do tradicional Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências da Universidade de São Paulo (PIEC-USP). Anualmente, o programa promove o EPIEC - Encontro do Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências - evento que reúne seus membros para debater pesquisas em desenvolvimento. Entre 30 de março e 1º de abril de 2026, a Faculdade de Educação (FE-USP) sediou a vigésima edição do encontro, consolidando-se como o centro das discussões da área. Este texto explora as atividades e os temas debatidos durante o XX EPIEC.
Além de celebrar duas décadas de tradição, o evento destacou a conquista recente da nota 6 na avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Sob o tema A pós-graduação e a formação docente, o encontro reuniu pesquisadores da área, não apenas do PIEC, mas também de outras universidades e estados, em um diálogo profundo sobre avanços nas pesquisas em ensino de ciências e o papel da pós-graduação nesse trajeto.
A abertura contou com representantes das unidades do programa, Profa. Carlota Boto (diretora da FE-USP), Profa. Kaline Rabelo Coutinho (diretora do IF-USP), Prof. Mauricio da Silva Baptista (diretor do IQ-USP), Prof. Ricardo Pinto da Rocha (diretor do IB-USP), Profa. María Elena Infante-Malachias (representando a diretoria da EACH-USP), além da Profa. Valéria Silva Dias (coordenadora do PIEC, do IF-USP) e do Prof. Marcelo Giordan (comitê organizador do XX EPIEC, da FE-USP).
Legenda: Fotografia oficial da mesa de abertura do evento feita pelos organizadores do XX EPIEC. Nela, vê-se à esquerda, a diretora da FE-USP, profa. Carlota Boto, e à direita, o prof. Marcelo Giordan (FE-USP). Fonte: Acervo da organização do XX EPIEC.
A programação do evento contou com uma mesa redonda por dia. Na segunda-feira, 30/03, a mesa discutiu o tema contribuições das pesquisas sobre educação para as relações étinico-raciais para a formação de docentes de ciências. No dia 31/03, o tema explorado foi a Pós-graduação e a formação de docente: experiências e desafios. Já na quarta-feira, 01/04, a última mesa redonda do evento foi uma homenagem a Norberto (Tex) Cardoso Ferreira: contribuições para a área de ensino de física.
Além das mesas redondas o evento contou com onze sessões de apresentação de trabalhos dos estudantes que permitiram intercâmbio de ideias e pesquisas entre discentes e docentes do programa e convidados. A Revista Balbúrdia teve um espaço de oficina no evento, da qual participaram diversos discentes e docentes do programa, sendo discutido o papel da divulgação científica na formação de professores e iniciada a produção de textos de divulgação pelos participantes.
O último dia do evento contou com uma palestra ministrada pelo Prof. Dr. Antônio Carlos Rodrigues Amorim, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), diretor de Articulação e Inovação em Educação Aberta (DIEA) da CAPES, sobre o tema: pesquisar é parte do trabalho docente? O ProEB/Capes em foco. Após a palestra, o evento foi finalizado com uma mesa de encerramento.
Neste texto vamos resenhar as mesas e os espaços propostos no XX EPIEC e propor algumas reflexões importantes para o ensino de ciências que foram levantadas em diversos espaços e momentos durante o evento por docentes e discentes. No decorrer deste texto, você poderá clicar em links que o levará para textos publicados na Revista Balbúrdia que discutem os temas abordados no EPIEC, vamos construir juntos!
Decolonialidade e a ciência como território de luta
A primeira mesa redonda da vigésima edição do evento destacou o tema da Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER), por meio de reflexões conduzidas pelos professores Katemari Diogo da Rosa (UFBA), Ingriddy Nathaly Santos Moreira (FAAMP) e Caio Ricardo Faiad da Silva (IFSP). Questionou-se por que há uma demora na efetiva incorporação da Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas. Além disso, os pesquisadores enfatizaram que o enfrentamento ao racismo no ensino de ciências exige uma postura decolonial, que dê destaque para saberes para além dos produzidos na Europa.
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Legenda: Fotografias oficiais da primeira mesa redonda do evento feita pelos organizadores do XX EPIEC. Em (a), vê-se à esquerda, a profa. Ingriddy Nathaly Santos Moreira (FAAMP), e à direita, o prof. Caio Ricardo Faiad da Silva (IFSP). Em (b), à esquerda está a profa. Katemari Diogo da Rosa (UFBA), seguida de Ingriddy e Caio. Fonte: Acervo da organização do XX EPIEC.
Um exemplo marcante, apresentado por Caio Faiad, membro emérito da Balbúrdia, foi a integração entre ciência e literatura negra afrofuturista. Caio compartilhou vivências nas quais utilizou de narrativas sobre a diáspora africana em suas aulas de química, o que fez o processo de ensino-aprendizagem ganhar novas camadas de significado, explorando saberes tradicionais.
A discussão também lançou um olhar crítico sobre os espaços não formais de educação, que historicamente legitimaram teorias eugênicas e racistas. Outro ponto de destaque abordado foi o deslocamento do sujeito negro, no passado frequentemente tratado como objeto de estudo da ciência colonial, mas que hoje ocupa o lugar dos sujeitos pesquisadores, definindo as perguntas e as prioridades da área.
A pós-graduação para a formação profissional docente e a pesquisa como função docente
O papel da pós-graduação para a formação de professores foi abordado tanto em uma mesa redonda, que contou com os professores Waldmir Nascimento Araújo Neto (UFRJ), Jackson Gois da Silva (UNESP) e José Otávio Baldinato (IFSP), e posteriormente, por uma palestra do professor da Unicamp, Antônio Carlos Rodrigues de Amorim (diretor da DIEA/CAPES).
Legenda: Fotografia oficial da segunda mesa redonda do evento feita pelos organizadores do XX EPIEC. Nela, vê-se o prof. Waldmir Nascimento Araújo Neto (UFRJ). Fonte: Acervo da organização do XX EPIEC.
A discussão na mesa redonda sobre o papel dos mestrados e doutorados profissionais e acadêmicos refletiu sobre os desafios de formar pesquisadores que atuam diretamente na escola. No contexto da UFRJ, o professor Waldmir abordou os desafios enfrentados no contexto do programa de pesquisa frente à precarização das condições de trabalho docente na rede pública, assim como a influência de reformadores empresariais que tentam padronizar o ensino sob uma lógica de mercado.
Waldmir propôs uma reflexão crucial no contexto atual da educação: muitos dos estudantes de pós-graduação das universidades públicas são cooptados pela rede privada de ensino, indiretamente subjugando a universidade pública a produzir material e mão-de-obra para o setor privado. A valorização da carreira da rede pública com concursos recorrentes, evolução de carreira e recursos que parem com o atual sucateamento de salas de aula e instituições de ensino é, portanto, central na democratização do saber produzido na academia.
Já o docente Jackson, da UNESP, destacou o papel fundamental da interiorização da pós-graduação. Com um vasto programa de vários campi que atende o noroeste paulista, a UNESP está equilibrando a necessidade de internacionalização da pós-graduação com o olhar atento à realidade regional. O docente expõe os maiores desafios do programa como a criação de grupos de pesquisa, disciplinas e articulação de projetos que sejam multicampi e que respeitem a realidade de cada estudante.
Representando o Instituto Federal, o professor José Otávio pautou sua fala em torno da obrigatoriedade do “produto” educacional nas pós-graduações profissionais. Ele reforçou que esses produtos, sejam aplicativos, guias didáticos ou blogs, devem ter autonomia em relação à dissertação, servindo como recursos prontos para serem aplicados por qualquer professor em sala de aula, gerando um impacto social imediato. A dissertação, nesse caso, deveria propor uma reflexão mais profunda a respeito do impacto do produto educacional na sala de aula.
No dia seguinte, em palestra, o professor Antônio Carlos (DIEA-CAPES), complementou essa discussão ao abordar o programa ProEB. Segundo o docente, embora a pesquisa seja um desejo das políticas educacionais, ela raramente está prevista na carga horária oficial do professor da rede pública, o que inibe uma formação mais longeva como a de uma pós-graduação. O desafio posto, então, seria articular a pesquisa com a prática educacional, fazendo com que o professor possa investigar e propor soluções para problemas reais da escola, transformando a pós-graduação em uma ferramenta de emancipação profissional.
Legenda: Fotografia oficial feita pelos organizadores do XX EPIEC, da palestra do prof. Antônio Carlos Rodrigues Amorim, da UNICAMP, diretor de Articulação e Inovação em Educação Aberta (DIEA) da CAPES. Fonte: Acervo da organização do XX EPIEC.
Como o legado do professor Tex nos ensina a arte de ensinar ciências
Uma mesa dedicada à memória do Prof. Norberto Cardoso Ferreira, carinhosamente conhecido como Tex, trouxe uma dimensão afetiva e emocionante ao evento. Ela contou com os professores Eugênio Ramos (UNESP), Maria Regina Kawamura (IF-USP) e Maurício Pietrocola (FE-USP), que conheceram e foram orientados (formal e informalmente) pelo professor Tex.
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Legenda: Fotografias oficiais da terceira mesa redonda do evento feita pelos organizadores do XX EPIEC. Em (a), vê-se à esquerda, a profa. Valéria Silva Dias (IF-USP), coordenadora do PIEC, e à direita, o prof. Maurício Pietrocola (FE-USP). Em (b), da esquerda para a direita, na mesa, encontram-se os docentes Eugênio Ramos (UNESP), Maria Regina Kawamura (IF-USP), Valéria e Maurício. Fonte: Acervo da organização do XX EPIEC.
Tex foi docente do Instituto de Física da USP e deixou um grande legado que valoriza a instrumentação com materiais de baixo custo para o ensino de física. Para Tex, mesmo um canudo de refresco ou um pedaço de madeira balsa não eram lixo, podendo ser ferramentas potentes para aprender sobre a natureza. Suas criações transformaram a sala de aula.
A ludicidade estava sempre presente em seu trabalho, assim como a arte. De maneira bela, o professor propunha a reconstrução de experimentos históricos (como os de Faraday e Lavoisier) de forma problematizadora. Esse resgate durante o EPIEC reforçou a importância de uma formação docente que valorize a criatividade e a curiosidade como motores do aprendizado.
O papel dos discentes e o horizonte político
Com cerca de 106 participantes e uma presença de estudantes de graduação e ouvintes externos, o XX EPIEC demonstrou a vitalidade da nova geração de pesquisadores. As sessões orais apresentaram 43 trabalhos distribuídos em oito eixos temáticos, indo da História e Filosofia da Ciência à Educação Ambiental.
Legenda: Fotografia feita pelos organizadores do XX EPIEC do mestrando Nixon Bastos em apresentação de sua pesquisa. Fonte: Acervo da organização do XX EPIEC.
A Revista Balbúrdia, iniciativa gerida por discentes do programa, também teve papel de destaque, promovendo uma oficina de divulgação científica que forneceu subsídios para os participantes atuarem junto à Revista na forma de divulgadores. Nela, os pesquisadores puderam discutir textos já publicados, boas práticas na divulgação científica, e rascunhar ideias para um texto de divulgação, pensando em uma pauta relevante, o que auxiliará na promoção da ciência para além dos muros da universidade e do próprio encontro.
Legenda: Foto final da oficina da Revista Balbúrdia com os participantes em destaque. Fonte: Acervo da Revista Balbúrdia.
O encerramento do evento foi marcado por um ato de cunho político. A leitura de uma carta à Comissão de Pós-Graduação Interunidades (CPGI) pela Profa. Daisy de Brito Rezende (IQ-USP) expressou a urgência de apoio institucional à valorização da carreira docente e à melhoria das condições físicas e pedagógicas das escolas públicas, dando destaque a necessidade de um compromisso social dentro da pós-graduação.
A importância de um evento como o EPIEC
Eventos como o EPIEC são fundamentais para construir a coletividade e a identidade de uma área, desempenhando funções que as atividades rotineiras da pós-graduação não conseguem suprir. Partindo do princípio de que a formação acadêmica não deve ser uma ilha isolada, esses encontros consolidam a identidade do professor-pesquisador ao promover o debate e a valorização da docência. Dessa forma, os educadores iniciam um ciclo de transformação pessoal que, gradativamente, reflete-se na qualidade do ensino e no desenvolvimento de seus próprios alunos.
Legenda: Foto de um dos cafés durante o evento, momento de socialização entre os participantes. Fonte: Acervo da organização do XX EPIEC.
No próximo ano (2027), o evento será sediado no Instituto de Química (IQ-USP), e, novamente, um espaço dedicado a renovação da área será garantido, para que muitos mais anos estejam por vir, e para que a luta por uma educação mais humana e transformadora continue.











