
Legenda: Deputada Célia Kraxiabá em protesto contra o Marco Temporal das terras indígenas (PL490/07), no plenário da Câmara dos Deputados em 2023. (Fonte: Pablo Valadares, Câmara dos Deputados, 2023).
O conceito de saúde planetária urge por uma educação em ciências que reconheça a interdependência entre os humanos e o ambiente

Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira
Sou uma pessoa queer branca do interior do estado de São Paulo, em estágio inicial dos estudos de Doutorado pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências (PIEC-USP). Tenho grande interesse pelas áreas de Educação e Comunicação Científicas, assim como por Filosofia e Sociologia das Ciências.
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Como citar
FERREIRA, Marcos Vinícius Ribeiro. Por uma Educação Científica que lute pela Saúde Planetária. Revista Balbúrdia, São Paulo, mai. 2026. Disponível em: https://sites.usp.br/por-uma-educacao-cientifica-que-lute-pela-saude-planetaria/
22 de maio de 2026 | 10:00
Durante a escrita deste texto, em dezembro de 2025, voltou à pauta do governo brasileiro o marco temporal das terras indígenas, medida que ataca os direitos das populações originárias e o meio ambiente. No dia 09/12/25, o Senado Federal aprovou a proposta de inclusão da demarcação de terras indígenas na Constituição Federal. Dez dias depois, em 19/12/25, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou a proposta como inconstitucional. Tal movimento do Senado contraria uma decisão prévia do STF que, em 2023, já havia considerado inconstitucional o marco temporal, na época, aprovado pelo Congresso Nacional. Assim, o marco temporal continua a assombrar nosso país.
Essa disputa pela manutenção dos ecossistemas se relaciona com o conceito transdisciplinar de saúde planetária, o qual deve orientar os novos caminhos da educação em ciências. Tal conceito contempla os impactos sem precedentes da ação humana nos ecossistemas e os riscos que deles decorrem para a sobrevivência da civilização.
Estruturada como um campo emergente de pesquisa, a saúde planetária adota uma perspectiva sistêmica para compreender, quantificar e reverter os efeitos deletérios das atividades antrópicas sobre o ambiente, que por consequência afetam diretamente a saúde e o bem-estar de todos os seres vivos.
A proposta do que seria chamado por saúde planetária data de 2015, por meio do relatório Protegendo a saúde humana na era do Antropoceno: relatório da Comissão Rockefeller Foundation–Lancet sobre saúde planetária (Whitmee et al. 2015), e do documento conjunto entre a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Secretariado da Convenção da Diversidade Biológica, Conectando prioridades globais: biodiversidade e saúde humana: uma revisão do estado do conhecimento (Romanelli et al., 2015).
Os documentos elucidam como a ação humana ocasiona, hoje, um risco existencial sem precedentes para a vida terrestre. Exemplos são as mudanças no clima, o uso da terra, alterações nos ciclos do nitrogênio e fósforo, poluição química do solo, água e ar, redução na disponibilidade de água potável, perda da biodiversidade, acidificação dos oceanos, entre outras.
O conceito propositalmente expande a atenção normalmente limitada à esfera ambiental, ao discutir os impactos humanos no planeta em outras duas esferas, a da saúde e a social, indicando de maneira crítica que tais efeitos são produzidos pelo homem moderno/contemporâneo ocidental, e não por outros povos e grupos societais.
Algumas das consequências para a saúde humana, tanto em nível individual quanto público, são o surgimento de novas doenças, o aumento resistência microbiana (superbactérias, por exemplo), maior disseminação de doenças infecciosas, aumento das doenças crônicas não transmissíveis relacionadas à deterioração do sistema alimentar vigente de baixa qualidade e alto processamento (como obesidade, hipertensão, etc.), do sistema mental-psicossomático (como estresse, ansiedade, depressão, doenças autoimunes, etc.).
Já a esfera social aborda problemas como a hiper-urbanização, o aumento das migrações climáticas, os conflitos por recursos naturais, os modos de produção extrativistas insustentáveis, sistemas políticos que perpetuam a exploração, o racismo ambiental, a globalização, entre outros.
Frente a tantos desafios, a perspectiva da saúde planetária valoriza os sistemas de conhecimento tradicional, a conexão com a natureza, a criação de uma identidade ecológica, a diversidade epistemológica, a humildade, a justiça social, distributiva, intergeracional e multiespécie, os direitos da natureza, o pensamento complexo, a noção de riscos e incertezas, o respeito aos limites planetários e o ecocentrismo sobre o antropocentrismo (Guzman; Potter, 2021). Com isso, visa-se a integração dos conceitos aos currículos e competências, de forma transdisciplinar e transversal.
Não é possível ser um indivíduo saudável em um ambiente doente. A saúde planetária nos convida a perceber a nossa dependência do coletivo e com o ambiente. Ela é, portanto, um esforço para tratar a vida humana sob uma ótica mais integrativa, transdisciplinar e planetária, já que os riscos hoje transpassam fronteiras geopolíticas, delimitações puramente acadêmicas e afetam a humanidade como um todo.
A integração da saúde planetária à educação científica implica uma mudança de paradigma, afastando-se da visão fragmentada da natureza, externa ao ser humano, segmentada em formas disciplinares, para uma compreensão de redes complexas de interdependência. Isso significa superar um modelo simplesmente propedêutico, que se limita a modelos simples, idealizados e irreais, baseado no paradigma do exercício, do binômio “certo ou errado”, para um que valorize o pensamento complexo e trabalhe com a problematização. Assim, deve-se superar a pura memorização de conteúdos de modo passivo e estanque, priorizando-se uma formação que almeje uma alfabetização científica crítica, voltada à transformação concreta da realidade.
A educação em saúde planetária inclui cinco temas principais: a interconexão com a natureza, o antropoceno e a saúde (perturbação causada pelo homem nos sistemas naturais da Terra); o pensamento sistêmico e abordagens baseadas na complexidade; equidade e justiça social; construção de movimentos e mudança de sistemas (Guzman; Potter, 2021). Por meio desses temas, os diversos conhecimentos científicos podem ser explorados e construídos, com finalidades positivas à saúde de nosso planeta e, por consequência, a nossa.
Ao explorar a saúde planetária, deve-se transformar a sala de aula em um espaço de investigação, luta e resiliência. O conceito exige pensamento crítico sobre os modos de consumo e produção, e sobre quais são os limites biofísicos que não podem ser ultrapassados. Deve-se promover ações com impactos positivos.
O tema exige que sejam abordadas dimensões sócio-políticas e da justiça social, racial e ambiental. Assim, entende-se que a proteção da biodiversidade não é uma mera escolha altruísta, mas um imperativo ético. Portanto, educar para a saúde planetária é promover e estimular soluções transdisciplinares, políticas públicas e mudanças profundas no estilo de vida, transformando o conhecimento em ação, ainda mais em um cenário como o da atual política brasileira, que conta com mais defensores do agronegócio do que da saúde dos seres vivos.
Para conhecer mais sobre como atuar junto à saúde planetária, conheça a Rede Saúde Planetária Brasil, sediada no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, que conta com membros de todo o país e inúmeras instituições. Ou participe da rede global, Planetary Health Alliance.
Referências:
GUZMAN, C. A. F.; POTTER, P. (Eds.). Planetary health education framework. Planetary Health Alliance, 2021. 65p. Fonte online, disponível em: https://planetaryhealthalliance.org/wp-content/uploads/2025/02/The-Planetary-Health-Education-Framework.pdf. Acesso em 29 dez. 2025.
ROMANELLI, C.; COOPER, D.; CAMPBELL-LENDRUM, D.; MAIERO, M.; KARESH, W.; HUNTER, D.; GOLDEN, C. (Org). Connecting global priorities: biodiversity and human health: a state of knowledge review. Suíça, Genebra: UNEP, Convention on Biological Diversity, World Health Organization, 03 jun. 2015. 364p. Fonte online, disponível em: https://iris.who.int/server/api/core/bitstreams/a2765b5f-eaed-4702-b794-5219e84bd3e8/content. Acesso em 29 dez. 2025.
WHITMEE, S. et al. Safeguarding human health in the Anthropocene epoch: report of The Rockefeller Foundation–Lancet Commission on planetary health. The Lancet, v. 386, n. 10007, p. 1973-2028, 14 nov. 2015. Fonte online, disponível em: https://www.thelancet.com/action/showPdf?pii=S0140-6736%2815%2960901-1. Acesso em 29 dez. 2025.
