
Legenda: Arte produzida durante a oficina “Como atuar para além da sala de aula com a extensão”, durante a XVIII Semana da Licenciatura em Ciências Exatas. Autoria de Star (@marcattistar).
Fazer a universidade chegar em mais lugares injetivamente não é extensão. Nessa função, falta a sobrejeção de mais lugares chegarem à universidade. Extensão é bijeção

Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira
Sou uma pessoa queer branca do interior do estado de São Paulo, em estágio inicial dos estudos de Doutorado pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências (PIEC-USP). Tenho grande interesse pelas áreas de Educação e Comunicação Científicas, assim como por Filosofia e Sociologia das Ciências.
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Como citar
FERREIRA, Marcos Vinícius Ribeiro. Precisamos considerar a finalidade da extensão, um dos “novos” imperativos da educação universitária. Revista Balbúrdia, São Paulo, abr. 2026. Disponível em: https://sites.usp.br/revistabalburdia/precisamos-considerar-a-finalidade-da-extensao-um-dos-novos-imperativos-da-educacao-universitaria/
22 de abril de 2026 | 10:00
A curricularização da extensão universitária é uma realidade recente nas universidades públicas, em especial na Universidade de São Paulo (USP). Mas, como essa extensão tem sido realizada? Quais seus objetivos? Inspirados por essas perguntas, os brilhantes licenciandos que constituem a Secretaria Acadêmica da Licenciatura em Ciências Exatas da USP de São Carlos (SACEx), acertaram em cheio no tema da XVIII Semana da Licenciatura em Ciências Exatas (SeLic), “Estendendo o Ensino”, que ocorreu em outubro de 2025.
Devido ao Plano Nacional de Educação (PNE) de 2014-2023, que estabeleceu a garantia de, no mínimo, 10% do total de créditos curriculares exigidos para a graduação em programas e projetos de extensão universitária, finalmente, o pilar esquecido do trinômio Pesquisa-Ensino-Extensão aparentemente tem sido valorizado.
Em teoria, a extensão visa criar conexões entre a universidade com a sociedade, beneficiando a função social da educação. Ao refletir sobre as experiências com a extensão que conheço e apoiando-me em obras Freireanas, organizei uma oficina em parceria com um grupo de estudos no qual faço parte da coordenação, o Filosofísica, para explorar as bases da extensão e sua função. Neste texto, farei uma breve análise dessa experiência.
Professores arteiros e grafiteiros
Seguindo a identidade visual do evento, da arte de rua, graffiti, pichação, a oficina foi realizada em uma sala com as paredes recobertas com cartolinas. Os participantes utilizaram canetões para expressarem suas ideias. Algumas das produções da oficina estão ilustradas no decorrer deste texto.
De maneira muito resumida, começamos pensando sobre o que é a arte e onde a encontramos. Vimos imagens de um grafite exibido em um museu e um em um muro na rua. Pensamos sobre quais são os conhecimentos e manifestações permitidas nos espaços, incluindo na escola e na universidade. Quem pode se levantar e marcar uma parede? Quem usa canetão ou giz e graffita um conhecimento na sala? Dessa forma, chegamos aos seguintes questionamentos: quem sabe mais? A universidade ou a escola? O professor ou o aluno? Por quê?
Superar a dominação, a invasão cultural e a ação antidialógica
Mas, o que essas reflexões tem haver com extensão? Segundo Freire, em Pedagogia da autonomia, “não seria possível a educação problematizadora, que rompe com os esquemas verticais característicos da educação bancária, realizar-se como prática da liberdade, sem superar a contradição entre o educador e os educandos” (p.95).
Além disso, em Pedagogia do oprimido, Freire explica o conceito de invasão cultural, próprio da ação antidialógica. Essa invasão ocorre quando um grupo dominante penetra no universo cultural de outro para impor sua própria visão. Nesse processo, os invasores, como sujeitos da ação, suprimem a criatividade e a autonomia dos invadidos. Estes, por sua vez, vivem na ilusão de que agem, pois, na realidade, seguem as determinações e a visão daqueles que os invadem (p. 78).
Agora, em Extensão ou comunicação?, Freire afirma que: “Como educador, se recusa a ”domesticação” dos homens, sua tarefa corresponde ao conceito de comunicação, não ao de extensão” (p. 23). Assim, o que chamamos normalmente de extensão deve seguir o princípio dialógico da comunicação, e não da invasão cultural ou um ato bancário de transferência e dominação (p.37).
Função social da educação, da universidade e da extensão
O encerramento da oficina lançou as perguntas: Qual o papel da extensão? Da escola? Da educação? Do aluno? O seu papel? Frente a elas, buscamos pensar como podemos ser agentes de transformação e abertura da universidade a fim de favorecer o diálogo com a sociedade, quebrar os muros, e fazer extensão no sentido da comunicação.
Além disso, baseados em Nóvoa, uma transformação real na educação depende essencialmente de uma abertura à profissão docente, ainda que com um apoio externo da universidade. As escolas e os docentes são os produtores de saberes, e não apenas a academia. Quando pensamos a extensão na educação, ao irmos às instituições escolares, não devemos fazer uma invasão cultural, mas sim estimular a criação de novos ambientes educativos onde os professores, trabalhando de forma coletiva, possam desenvolver pedagogias e organizar seu trabalho de modos inovadores (p. 3).
Portanto, a universidade, como instituição social, além de construir e socializar conhecimentos, interfere no sistema de relações sociais, contribuindo para a transformação das formas de ver, compreender e produzir visões de mundo, projetando novas formas de atuação política. O compromisso ético deve ser a popularização de saberes e valores em prol da justiça social e da busca pela resolução das mazelas da sociedade. Para tal, a extensão universitária tem sido a forma de diálogo com a sociedade, mesmo enfrentando o elitismo que marca a educação universitária brasileira.
A educação popular e a quebra dos muros e barreiras
A educação popular é o referencial que embasa a visão emancipatória da extensão universitária. Para Freire, ela é definida pela opção e prática política assumida na ação educativa, delineando-se como um esforço de mobilização e organização das classes populares visando à criação de um poder popular. Portanto, substitui a noção de extensão da cultura ou aculturação, processo invasor e que nega a agência dos sujeitos, pelo de comunicação sobre cultura.
Os princípios da educação popular incluem teorizar a prática para transformá-la, reconhecer a legitimidade do saber popular, a pesquisa participante, o diálogo, a conscientização e a busca pela autonomia. Assim, um novo caminho possível para uma universidade popular depende de seu projeto, currículos, conteúdos e métodos, refletindo suas escolhas em relação ao poder. Pensar a extensão sob essa perspectiva exige superar o academicismo e sair dos muros da universidade, integrando os saberes das comunidades.
Referências:
BRASIL. República Federativa. Lei 13.005 de 25 de junho de 2014. Aprova o Plano Nacional de Educação – PNE e dá outras providências. Brasília, Gabinete da Presidência da República, 2014. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2014/lei-13005-25-junho-2014-778970-publicacaooriginal-144468-pl.html. Acesso em: 20 nov. 2025.
GADOTTI, Moacir. Extensão Universitária: Para quê?. Fonte online, disponível em: https://paulofreire.org/9-noticias/247-extensao-universitaria-para-que. Acesso em: 20 nov. 2025.
FREIRE, Paulo, Extensão e comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021. 128p.
FREIRE, Paulo, Pedagogia do oprimido. 91a ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019. 256p.
FREIRE, Paulo . Pedagogia da autonomia: saberes necessários a prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019. 144p.
MIGUEL, J. C. A curricularização da extensão universitária no contexto da função social da universidade. Práxis Educacional, v. 19, n. 50, p. e11534, 31 jan. 2023.
Nóvoa, A. Conhecimento profissional docente e formação de professores. Revista Brasileira de Educação, v. 27, e270129, 2022.
RIBEIRO, M. R. F.; MENDES, F. F. F.; SILVA, E. A. Curricularização da extensão em prol de uma universidade socialmente referenciada. Revista Conexão UEPG, v. 14, n. 3, p. 334–342, 1 set. 2018.







