Precisamos lidar com os efeitos da plataformização, financeirização e mercantilização da educação pública

Legenda: Máquina de ensinar exibida em março de 1954 em conferência da Universidade de Pittsburgh sobre “Psicologia e Ciências Comportamentais”. Burrhus Frederic Skinner projetou este instrumento para ensinar aritmética elementar para crianças. (Fonte: National Museum of American History - Behring Center. http://americanhistory.si.edu/collections/search/object/nmah_690070).

Os caminhos para a educação científica passarão por enfrentar nossos patrões “invisíveis”, que buscam dominar a educação e, por consequência, a sociedade

Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira

Sou uma pessoa queer branca do interior do estado de São Paulo, em estágio inicial dos estudos de Doutorado pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências (PIEC-USP). Tenho grande interesse pelas áreas de Educação e Comunicação Científicas, assim como por Filosofia e Sociologia das Ciências.

Linktree: linktr.ee/marcos.vrf

Instagram: @marcos_vrf

Como citar

FERREIRA, Marcos Vinícius Ribeiro. Precisamos lidar com os efeitos da plataformização, financeirização e mercantilização da educação pública. Revista Balbúrdia, São Paulo, abr. 2026. Disponível em: https://sites.usp.br/revistabalburdia/precisamos-lidar-com-os-efeitos-da-plataformizacao-financeirizacao-e-mercantilizacao-da-educacao-publica/

29 de abril de 2026 | 10:00

No dia 19 de novembro de 2025, cerca de 20 mil estudantes da rede pública estadual se reuniram no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte/MG, em evento organizado pela Secretaria de Estado de Educação (SEE-MG) em parceria com a empresa trilionária Google,  para uma “aula” realizada sem professor, mas sim pela inteligência artificial (IA) Gemini. A tentativa de palanque eleitoral para o presidenciável, governador Romeu Zema (Novo), não tinha como objetivo o ensino-aprendizado, mas sim, uma manobra de marketing eleitoral para conquistar um recorde no livro estrangeiro Guinness Book de maior aula de IA já realizada. Tal absurdo terminou em confusão com vaias ao governador e pancadaria entre os estudantes, causando o cancelamento da “aula”.

Essa abertura noticiosa, por mais distópica que pareça, é a realidade enfrentada nos diversos estados brasileiros. Com o avanço das políticas neoliberais, o ensino público se tornou mais um cenário de investimento e especulação para grandes players do mercado internacional. Isso é o que se chama de mercantilização e financeirização da educação.

Conforme explicam Blandy e Dowbor (2022), a tendência mundial de privatização também foi sentida pela educação a partir da década de 1990, no Brasil, inicialmente no Ensino Superior, intensificando a mercantilização e financeirização no setor educacional. Contudo, isso não parou nessa modalidade de ensino, sendo hoje a vez do Ensino Básico.

A financeirização é uma forma de transformar a educação em fundos de investimento especulativo, listados em bolsas de valores, para ganhos improdutivos (que não geram um produto vendível no mercado diretamente, como uma cadeira, por exemplo) sendo os investidores corporações bi-trilionárias e grandes bancos. Assim, esses atores sentam-se nas mesas de negociações, assumem cargos políticos e de gestão educacional, por trás de um discurso de inovação. Dessa maneira, retira-se ainda mais a participação da categoria de quem realmente trabalha com a educação brasileira, em detrimento de “especialistas” tipicamente estrangeiros com objetivos mercadológicos.

Esse cenário intensifica a precarização do trabalho, a uberização da categoria, a dominação e vigilância dos docentes, quebrando com o direito imperativo à autonomia previsto na LDB, por exemplo. Conforme afirmam Blandy e Dowbor “esse processo de financeirização e de mercantilização contribui para a manutenção e o aprofundamento da desigualdade estrutural da sociedade brasileira” (2022, p. 1851).

A Nota Técnica, elaborada pelo Grupo Escola Pública e Democracia (Gepud) e pela Rede Escola Pública e Universidade (REPU) em 2025, examinou os impactos da política de plataformização implementada pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP), que tornou obrigatório o uso de plataformas digitais na gestão e na prática pedagógica das escolas estaduais a partir de 2024. Com base nos documentos oficiais e relatos anônimos de professores da rede estadual paulista, para que os mesmos não fossem vítimas de possíveis represálias, os resultados indicam cinco eixos principais na política de plataformização: 1) O uso compulsório de materiais didáticos digitais, no formato de slides, por exemplo, e plataformas de atividades para os estudantes; 2) A centralização da formação docente em videoaulas e formulários padronizados em detrimento da coletividade da unidade escolar; 3) A intensificação do monitoramento digital sobre todas as dimensões da vida escolar; 4) A vigilância do tempo de uso das plataformas, com potenciais punições a professores e diretores que não as utilizarem suficientemente; 5) Um discurso que associa a utilização dessas ferramentas com a melhoria dos resultados das escolas no Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp).

De maneira similar, em artigo sobre a plataformização da educação, de Barbosa e Alves (2023), por meio de metodologia bibliográfica documental foram analisados pressupostos político-pedagógicos da plataformização, assim como suas consequências. Com um foco no estado do Paraná, as autoras indicam como o processo contribuiu para a expansão do mercado e da tendência privatista, padronização e massificação dos currículos e processos pedagógicos, aumento das desigualdades pedagógicas, favorecimento de novos processos de controle e  vigilância, e desqualificação da docência.

Outro ponto indicado foi a falta de transparência da Seduc-SP sobre o funcionamento das ferramentas digitais. Plataformas como o “Super BI” (Business Intelligence) orientam práticas, registro de frequência, envio de tarefas, cumprimento de metas de utilização de ferramentas digitais e participação em formações obrigatórias, tornando-se portanto a bússola educacional adotada, queiram os professores ou não.

Os relatos dos professores da rede mostram os efeitos deletérios da plataformização, como a perda de autonomia, a sobrecarga de trabalho, pressões para o registro fraudulento de indicadores para atingir metas definidas exogenamente à escola, ameaças constantes de sanções como cortes salariais ou não renovação de contratos. Não só são penalizados os docentes mas a gestão, que fica sujeita à remoção ou cessação de cargos caso não se atinjam indicadores  como o tempo de uso das plataformas.

Em todos esses cenários, nos diversos estados mencionados, tal lógica neoliberal, empresarial, competitiva e panóptica desmantela as relações de confiança e colaboração no ambiente escolar, em detrimento de um clima de medo.

A nota ainda mostra que, mesmo do ponto de vista dos resultados de indicadores externos, há baixa correlação, ou  mesmo inexistente, entre o uso obrigatório das plataformas e a melhoria no desempenho das escolas no Saresp entre 2023 e 2024, o que quebra com o argumento de melhoria da educação por meio dessas tecnologias de controle, assim como justificativa de aquisição massiva de tais plataformas, em sua maioria estrangeiras, que não são nem um pouco baratas. Em termos de custos, “[...] o governo paulista destinou R$ 471 milhões em 2024 para a aquisição de plataformas”.

Frente a esse cenário, cabe a nós, professores e estudiosos da educação, criticar e lutar para que a educação pública esteja a favor dos ideais de libertação, crítica e emancipação, e não do controle e do treinamento algorítmico. Hoje, ela está a serviço de grandes capitais que se dizem “todos pela educação”, mas cujo todos são meia dúzia de bilionários. Assim, excluem os professores das determinações sobre a própria carreira e sistema educacional, precarizam a profissão, exaurem os profissionais, e obrigam e vigiam a utilização de materiais, plataformas e slides.

Para além da crítica, é necessário a luta e mobilização da categoria, pois, conforme vimos recentemente em Minas Gerais, a ideia é clara, empurrar goela à baixo as novas máquinas de Skinner agora ditas inteligentes, cenário no qual não há espaço para o professor.

 

Referências:

BARBOSA, R. P.; ALVES, N. Reforma do Ensino Médio e a Plataformização da Educação. Revista e-curriculum, v. 21, p. e61619–e61619, 2023.

BLANDY, B. A.; DOWBOR, L. Impactos da financeirização da educação brasileira. Revista e-curriculum, v. 20, n. 4, p. 1848–1877, 2022.

GRUPO ESCOLA PÚBLICA E DEMOCRACIA [GEPUD]; REDE ESCOLA PÚBLICA E UNIVERSIDADE [REPU]. Plataformização e controle do trabalho escolar na rede estadual paulista [Nota Técnica]. São Paulo: Gepud / REPU, 03 jul. 2025. Disponível em: www.repu.com.br/notas-tecnicas; www.gepud.com.br/manifestacoes.html.