
Legenda: Entulho acumulado nas proximidades da escola, destinado posteriormente à queima. Na imagem, é possível identificar resíduos como papel,plástico, vegetação e, ao olhar com um pouco mais de atenção, até mesmo um livro didático. Fonte: Arquivo da pessoa autorizada.
Até que ponto o livro didático busca relacionar os conteúdos científicos, com a vida real dos nossos estudantes?

Meu nome é Alayne Góes. Sou natural do Maranhão, mas me considero piauiense, pois toda a minha trajetória escolar e acadêmica foi construída no Piauí. Sou licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Piauí, onde participei ativamente de projetos de ensino (monitorias e Programa de Residência Pedagógica), pesquisa (Iniciação Científica) e extensão (como o Clube de Ciências na escola e na estrada). Durante quase três anos, integrei um grupo de pesquisa (GEPECBio) que me aproximou de abordagens que sigo estudando e desenvolvendo em meus trabalhos, como o ensino por investigação e a alfabetização científica. Atualmente, sou professora da rede municipal da cidade de Barão de Grajaú e também faço parte, à distância, do Laboratório de Pesquisa em Práticas Epistêmicas e Científicas (LaPPEC), coordenado pela professora Maíra Batistoni e Silva. Em junho deste ano fui aprovada no mestrado do Programa Interunidades em Ensino de Ciências (PIEC/USP), ao qual darei início em 2026, em São Paulo. Essa conquista marca uma nova fase da minha trajetória acadêmica e profissional. Além da sala de aula e da pesquisa, também sou mãe de uma humana e uma pet, irmã e filha caçula, apaixonada por animais, leituras diversas e por séries que vão de Outlander à The Big Bang Theory, afinal, como diria Sheldon: “Bazinga! Eu não estou nem aí”.
Como citar
GOÉS, Alayne. Quando o livro didático não dá conta: o ensino de ciências e sua relação com as práticas vivenciadas na zona rural. Revista Balbúrdia, São Paulo, abr. 2026. Disponível em: https://sites.usp.br/revistabalburdia/quando-o-livro-didatico-nao-da-conta-o-ensino-de-ciencias-e-sua-relacao-com-as-praticas-vivenciadas-na-zona-rural/
24 de abril de 2026 | 10:00
Em uma escola pública da zona rural do Maranhão, em setembro de 2025, eu estava com minha turma do 3º ano do Ensino Fundamental, tentando trabalhar o tema da reciclagem. Logo ficou claro que aquele conteúdo, apresentado pelo livro didático com exemplos totalmente urbanos, não fazia nenhum sentido para aqueles estudantes.
Ali, onde o lixo é quase totalmente queimado ou jogado num lixão a céu aberto, falar de coleta seletiva parecia quase fora de lugar, e foi nesse contraste que percebi que precisava encontrar outra maneira de fazer o Ensino de Ciências conversar com a realidade daquela turma.
“Professora, o lixo vai para outro lixo!!!”
A fala sincera (e marcante!) de um dos meus alunos instiga reflexões sobre a forma como os livros didáticos abordam alguns conteúdos e o quanto isso pode se distanciar da vida real. Na comunidade onde estudam, localizada a 17 km da área urbana mais próxima, não existe coleta seletiva; o lixo produzido é basicamente todo queimado pela população. Falar sobre reciclagem, como trazia o livro adotado pela escola, soava para mim - enquanto professora de zona rural - quase como algo de outro mundo. Embora seja um tema fundamental para pensar soluções ambientais, sua ausência nas práticas locais dificultava qualquer trabalho mais concreto. Foi desse contraste entre conteúdo e realidade que surgiu a necessidade de reorganizar a abordagem da minha aula.
O livro didático é, sem dúvida, um recurso importante. Ele organiza conteúdos, oferece sugestões e auxilia no planejamento da/o professora/o. Mas, quando usado como única referência, pode não alcançar a pluralidade de experiências que marcam a vida dos nossos estudantes. Como ressalta Carvalho (2013), o interesse pelas ciências cresce quando aquilo que ensinamos dialoga com o mundo vivido pelos alunos. Quando tudo é pensado a partir de um cenário urbano, onde o estudante da zona rural se vê representado nesse conhecimento?
Quando o conteúdo escolar atravessa a comunidade
Em uma manhã de quinta-feira, dia destinado às aulas de ciências, ao invés de seguir exatamente o que o livro apresentava, fiz um questionamento: “Vocês sabem para onde vão os resíduos produzidos nas suas casas?”. A resposta de um dos alunos, “para outro lixo”, abriu espaço para uma conversa cheia de dúvidas e curiosidade. Eles discutiram sobre a queima do lixo e seus efeitos na saúde, comentaram sobre o cheiro forte que às vezes invade as casas e sugeriram alternativas possíveis e alcançáveis para reduzir o descarte.
Além da proposta de transformar resíduos orgânicos em adubo para as plantações, os alunos também sugeriram reaproveitar pneus velhos para criar objetos decorativos destinados ao jardim da escola e até para uso doméstico. Um exemplo foi o comentário de um estudante sobre a construção da “gamela de pneu” (ou cocho) muito comum entre moradores da zona rural maranhense para oferecer água ou alimento aos animais. Essas sugestões revelam como, mesmo diante das limitações locais, emergem soluções criativas e diretamente ligadas ao cotidiano da comunidade. A sala se encheu de interesse e empolgação: surgiram perguntas espontâneas, relatos e conexões mais próximas entre o conteúdo estudado e a realidade vivida por aqueles estudantes.
A situação supracitada também destaca um problema maior: muitas políticas públicas ainda tratam o ensino rural como se fosse igual ao urbano, ignorando especificidades culturais, sociais e ambientais. Pesquisas recentes feitas por Torres, Ramos e Torres (2025), enfatizam que a falta de políticas integradas e sensíveis a essa realidade contribui para uma série de desafios nas escolas rurais, justamente por não considerar o cotidiano e as necessidades locais nos processos educacionais.
Esse cenário se reflete diretamente nas escolas: a falta de coleta de resíduos, de saneamento e de orientações técnicas faz com que conteúdos como reciclagem cheguem aos estudantes apenas pelo livro didático, sem qualquer ligação com o contexto no qual estão inseridos. Enquanto essa distância persistir, caberá a nós, professores, trilhar caminhos para que o Ensino de Ciências dialogue com a realidade dos nossos alunos.
Pesquisadores como Vechiato e Scarpa (2024) lembram que, mesmo diante de materiais prescritivos, o professor é alguém que interpreta, reformula, adapta e cria. Foi justamente essa postura, definida pelos autores como agência docente, que permitiu que o livro deixasse de ser um fim em si mesmo e se tornasse um ponto de partida para o meu planejamento pedagógico.
Essa experiência também reforça que não existe uma única realidade escolar. Estudantes da zona rural, de periferias urbanas, de comunidades quilombolas, ribeirinhas e indígenas trazem histórias e desafios próprios. Uma educação científica plural precisa reconhecer essas diferenças, e não oferecer uma visão única e distante da vida real.
Como aponta a filósofa Helen Longino (2022), quanto mais diversa for a ciência, mais confiável ela se torna. O mesmo vale para o Ensino de Ciências: quando se abre às múltiplas vozes e realidades, tornamos a educação mais significativa e emancipatória.
Ao final, tudo aquilo que discutimos virou ação. Com apoio das famílias, os alunos produziram adubo a partir de resíduos orgânicos e plantaram na escola várias mudas em alusão ao Dia da Árvore, comemorado dia 21 de setembro. Mais do que um gesto simbólico, essa ação destaca que o conhecimento científico floresce ao encontrar raízes na experiência vivida.
Se almejamos uma educação científica que seja capaz de enfrentar os desafios do nosso tempo, não basta seguirmos o livro didático ao pé da letra. É necessário olharmos para fora da página e enxergarmos o mundo que está diante de nós.
Referências:
CARVALHO, Anna Maria Pessoa de. O ensino de Ciências e a proposição de sequências de ensino investigativo. In: CARVALHO, Anna Maria Pessoa de (org.) Ensino de Ciências por Investigação: Condições para implementação na sala de aula. São Paulo: Cengage Learning, 2013.
LONGINO, Helen Elizabeth. What's Social about Social Epistemology? Journal of Philosophy, 119(4), 169-195, 2022. https://doi.org/10.5840/jphil2022119413.
DE OLIVEIRA TORRES, Eliane; RAMOS, Paulo Roberto; DE OLIVEIRA TORRES, Francisca Aline. Integração entre políticas públicas e educação ambiental: estratégias de permanência escolar no meio rural brasileiro. Revista JRG de Estudos Acadêmicos, v. 8, n. 19, p. e082675-e082675, 2025. https://doi.org/10.55892/jrg.v8i19.2675
VECHIATO, Lucas; SCARPA, Daniela Lopes. O QUE CONTA COMO CONHECIMENTO SOBRE ENSINO DE CIÊNCIAS POR INVESTIGAÇÃO? CONSTRUÇÃO DE OPORTUNIDADES DE APRENDIZAGEM DOCENTE EM UM CONTEXTO DE REFORMA CURRICULAR. Investigações em Ensino de Ciências , v. 3, 2024. http://dx.doi.org/10.22600/1518-8795.ienci2024v29n3p287.
