Relações entre Edgar Morin e os caminhos futuros para a educação (científica)

Legenda: Cartoon intitulado “Push-button education” (Educação de apertar botão), representando a educação do futuro conforme imaginado na década de 1950. Provocativamente, 70 anos depois, como imaginamos os caminhos para a educação do futuro são distintos do representado pelo cartoon? Fonte: Revista “Closer than we think” (Mais perto do que imaginamos), de 25 de maio de 1958, produzido por Arthur Radebaugh.

Pensar os caminhos da educação científica exige pensar os saberes necessários à educação do futuro, tarefa essa, complexa, em diversos níveis de interpretação, como nos apresenta Morin

Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira

Sou uma pessoa queer branca do interior do estado de São Paulo, em estágio inicial dos estudos de Doutorado pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências (PIEC-USP). Tenho grande interesse pelas áreas de Educação e Comunicação Científicas, assim como por Filosofia e Sociologia das Ciências.

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FERREIRA, Marcos Vinícius Ribeiro. Relações entre Edgar Morin e os caminhos futuros para a educação (científica). Revista Balbúrdia, São Paulo, 24 mai. 2026. Disponível em: https://sites.usp.br/revistabalburdia/relacoes-entre-edgar-morin-e-os-caminhos-futuros-para-a-educacao-cientifica/

24 de maio de 2026 | 10:00

Pensar em caminhos para a educação em ciências é pensar o futuro. Contudo, qualquer projeção de futuro é, em certo grau, opaca. Quanto mais longe tentamos prevê-lo, menos são as chances de sucesso. Ou seja, o futuro é um sistema complexo, no qual a previsibilidade mecânica não dá conta de calcular o que acontecerá. As variáveis são muitas e suas variações emaranhadas. Qualquer mudança pequena em seus estados tem potencialidade de acarretar mudanças drásticas nos caminhos percorridos. Esse pensamento complexo é um dos primeiros e principais pontos abordados na obra magistral de Edgar Morin, Os sete saberes necessários à educação do futuro [1] que se apresenta essencial para pensar novos caminhos para a educação em ciências.

Publicado na virada do milênio, a obra busca indicar os principais saberes para o desenvolvimento da humanidade, sendo eles: o crescimento da compreensão, senso de comunidade, respeito à diversidade, valorização da vida pública e da democracia, celebração da multiplicidade de saberes, paz e superação dos conflitos entre grupos humanos em detrimento de uma identidade humana planetária e terráquea.

Essas propostas decorrem de reflexões de Morin com base na história do século XX que se encerrava. Naquele século, por mais que houve enorme crescimento da ciência e tecnologia, não por acaso, também aconteceram duas guerras mundiais, o advento de armas de destruição planetária, o crescimento de políticas e visões totalitárias, a atomização extrema dos indivíduos em prol da coletividade e a constatação de que a crise climática ameaça a sobrevivência de todos os seres terráqueos.

A própria ciência do século XX é aquela de abandono de um entendimento do mundo clássico, disciplinar, mecânico, determinístico e universal, para aquela do caótico, localmente dependente, iterativo, transdisciplinar e complexo, que substitui as certezas por incertezas intrínsecas à própria visão epistêmico-filosófica da ciência, que passa a lidar com o incerto e não com  a afirmação da verdade.

Portanto, prever um caminho no qual construímos um futuro de superação da desumanização é ainda mais difícil, ao entender que a previsibilidade dos eventos e desse tal caminho é, em si, imprevisível. Contudo, não devemos desesperançar, mas sim, conforme explica Morin, desenvolver uma ética da ação, que prevê dois movimentos. O primeiro deles é entender que qualquer ação é, em si, uma aposta, podendo se voltar contra seus objetivos iniciais, estando os apostadores eticamente responsáveis por tais apostas. O segundo sendo a autocrítica constante do processo trilhado, sendo necessárias diversas paradas de calibração e replanejamento das ações. As duas juntas podem evitar que nossas ações bem intencionadas resultem em cenários piores no futuro.

Imagino que Morin era leitor de Gregory Bateson, escritor de Ecologia da Mente [2], já que faz diversas alusões em ‘Sete saberes’ a um pensamento ecológico (por exemplo, a expressão ecologia da ação, usada por Morin). Além disso, ao pensar a complexidade, a ideia de caminhos e bifurcações, mencionadas brevemente por Morin, podem ser mais a fundo compreendidas na obra de Ilya Prigogine e Isabelle Stengers, Ordem a partir do caos [3], explorada de maneira excelente pela autora brasileira, Letícia Cesarino, em O mundo do avesso [4]. Com  base nessas leituras, é possível entender como os sistemas fora do equilíbrio podem se reorganizar espontaneamente por meio de estruturas dissipativas irreversíveis (um exemplo clássico é misturar o café no leite, um fenômeno que não conseguimos desfazer, ou seja, separar  o café do leite assim que eles entraram em contato).

O futuro segue essa complexidade, portanto, não pode ser deduzido apenas se sabendo suas condições iniciais (o agora), nem por meio do somatório das contribuições individuais dos componentes de seu sistema, pois mesmo essas pequenas contribuições dependem e se relacionam com sua macroestrutura (a realidade).

Frente o imperativo da incerteza, Morin [1] propõe seus sete saberes necessários à educação do futuro, que implicam ensinar-aprender: (i) as cegueiras do conhecimento, o erro e a ilusão; (ii) os princípios do conhecimento pertinente; (iii) a condição humana; (iv) a identidade terrena; (v) a enfrentar as incertezas; (vi) a compreensão; (vii) a ética do gênero humano.

Dentre eles, julgo que um ponto crucial é a promoção da compreensão. É por meio dela que evitamos o que Morin chama de auto-proclamação [1]. A maneira que a compreendo é semelhante ao que Byung-Chul Han chama de ditadura do self, em A expulsão do outro [5], ou seja, a atual condição de extrema falta de compreensão, na qual não se enxerga mais o humano no outro, passando a ver apenas um igual a si ou um inimigo, bloqueável em todas as nossas redes sociais. Portanto, urge o exercício da escuta, da empatia e da abertura ao diferente. Ensinar para a compreensão parece premente no contexto de aumento da polarização e extremismo políticos, vide a guinada à extrema-direita vivenciada ao redor do globo.

Aqui valem duas extrapolações que vão além do abordado por Morin em ‘Sete saberes’. O papel da utopia e a função do encanto.

Ao pensar a utopia baseio-me em três autores, Marilena Chauí [6], Mark Fisher [7] e Novaes Adauto [8]. Penso ser importante para pensar os caminhos da educação para o futuro a decolonização do pensamento e da imaginação sobre o futuro, de forma a resgatar o pensamento utópico. Na contemporaneidade, imersos nos aparelhos de cultura hegemônica, dominados por bilionários que destroem o planeta, não há outro futuro que não o que Fisher denomina de realismo capitalista [7], no qual a humanidade é destruída pelos oligarcas que mais querem é abandonar esse titanic chamado Terra em foguetes da spaceX.

Para alcançar os sete saberes conforme nos diz Morin, precisamos resgatar a função da utopia, decolonizar o pensamento sobre o futuro e criar a imagem de uma sociedade distinta, livre desses déspotas gananciosos e autofágicos. Talvez precisamos de um Futuro ancestral, ou mesmo de Ideias para adiar o fim do mundo, como nos conta Ailton Krenak [9] [10], como caminhos para a educação do futuro.

Já o papel do encanto obtenho da obra Políticas do encanto, de Paolo Demuru [11], que pensou em saídas para o imbróglio da guinada à extrema-direita associada aos tecno-oligarcas. Tais saídas passam pelo encantamento, que relaciono com a possibilidade dos progressistas e humanistas  de acessarem o coração das pessoas, de construir sentidos coletivos para além do capital, de exercerem o pensamento utópico e realmente encantarem a nossa visão de futuro, semelhante a um esperançar freireano.

Por fim, faz-se essencial aos caminhos futuros o conceito de Morin de antropo-ética [1]. Segundo o autor, “a ética propriamente humana, ou seja, a antropo-ética, deve ser considerada como a ética da cadeia de três termos indivíduo/sociedade/espécie, de onde emerge nossa consciência e nosso espírito propriamente humano” (Morin, 2000, p. 106). Assim, faz-se necessário incluir no imperativo ético as relações entre indivíduo/sociedade/espécie. Mas, usando de base o pensamento planetário, que vem sendo pensado por pesquisadores das humanidades atualmente no contexto da planetabilidade (algo como habitabilidade planetária no antropoceno) [12], é preciso superarmos uma ética antropológica, antropométrica, antropocentrada e antropocênica. Traduzindo, precisamos pensar em uma ética para além da vivência humana, que inclua outros seres vivos, como os animais e vegetais. Precisamos incluir todos os sistemas vivos e inteligentes, portanto, a diversidade biológica multiespécies. Assim, os novos caminhos da educação científica, a meu ver, são em grande parte relacionados aos saberes que Morin identificou para o novo milênio, o que torna a leitura e releitura da obra um dos primeiros passos obrigatórios para aqueles que quiserem participar da construção de um futuro melhor.

 

Referências:

[1] MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Tradução de Catarina Eleonora F. da Silva e Jeanne Sawaya. Revisão técnica de Edgard de Assis Carvalho. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2000. 118p.

[2] BATESON, Gregory. Steps to an ecology of mind: collected essays in anthropology, psychiatry, evolution, and epistemology. Chicago: University of Chicago Press, 1972. 521p.

[3] PRIGOGINE, Ilya; STENGERS, Isabelle. Order out of chaos: man’s new dialogue with nature. Nova York: Bantam Books, 1984. 384p.

‌[4] CESARINO, Letícia. O mundo do avesso: verdade e política na era digital. São Paulo: Ubu, 2022. 330p.

[5] HAN, Byung-Chul. A expulsão do outro: sociedade, percepção e comunicação hoje. Petrópolis: Editora Vozes, 2022. 136p.

[6] CHAUÍ, Marilena. Notas sobre Utopia. In: SOUSA, C. M., org. Um convite à utopia [online]. Campina Grande: EDUEPB, 2016. Um convite à utopia collection, v. 1, p. 29-45.

[7] FISHER, Mark. Realismo Capitalista: é mais fácil Imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? São Paulo: Autonomia Literária, 2020. 208p.

[8] NOVAES, Adauto. Mutações: o novo espírito utópico. São Paulo: Edições Sesc, 2016. 475p.

[9] KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. 128p.

[10] KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia Das Letras, 2019. 64p.

[11] DEMURU, Paolo. Políticas do encanto: extrema direita e fantasias da conspiração. São Paulo: Editora Elefante, 2024. 144p.

[12] Evento sobre Planetabilidade. Fonte online, disponível em: https://www.iea.usp.br/eventos/planetability-cohabitation. Acesso em 19 nov. 2025.