Um manifesto pelo fim da disciplinaridade

Legenda: Capa do livro Manifesto da Transdisciplinaridade, de Basarab Nicolescu, pela editora Triom. (Fonte: Imagem de capa disponível no site de compras Amazon).

O século XX foi marcado pelo triunfo da hiperespecialização disciplinar, tecnociência, aumento do distanciamento entre as pessoas e guerras. Seria a transdisciplinaridade uma maneira de contornar as mazelas do século XX?

Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira

Sou uma pessoa queer branca do interior do estado de São Paulo, em estágio inicial dos estudos de Doutorado pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências (PIEC-USP). Tenho grande interesse pelas áreas de Educação e Comunicação Científicas, assim como por Filosofia e Sociologia das Ciências.

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Como citar

FERREIRA, Marcos Vinícius Ribeiro. Um manifesto pelo fim da disciplinaridade. Revista Balbúrdia, São Paulo, mai. 2026. Disponível em: https://sites.usp.br/revistabalburdia/um-manifesto-pelo-fim-da-disciplinaridade/

Obra resenhada: NICOLESCU, Basarab. Manifesto of transdisciplinarity. Albany: State University Of New York Press, 2002.

06 de maio de 2026 | 10:00

O Manifesto da Transdisciplinaridade, de Basarab Nicolescu, físico quântico romeno, originalmente publicado em 2002, é um apelo urgente à superação de uma lógica declaratória e taxonômica de conhecimentos, em detrimento de uma visão mais conectada e holística, a da transdisciplinaridade.

Em contraposição à disciplinaridade, que surge por meio de uma organização científica hierárquica dos conhecimentos, o texto propõe a transdisciplinaridade como uma nova visão de mundo, capaz de confrontar a fragmentação do conhecimento, relacionada às múltiplas crises da contemporaneidade (ou policrise), tanto de caráter existencial quanto civilizacional, engendradas pelo advento da tecnociência.

Conforme justifica Nicolescu, o formato de manifesto foi impulsionado pela necessidade (e desafio) de se apresentar o conceito da transdisciplinaridade de forma abrangente e global, o que denomina de caráter axiomático e permite uma maior acessibilidade e compreensão do conceito. Isso implica que a construção realizada pelo autor buscou de forma proposital o que ele afirma abraçar “a extraordinária diversidade cultural, histórica, religiosa e política dos muitos povos diferentes da Terra” (p. 2).

O manifesto começa diagnosticando a crise da civilização moderna que, apesar das revoluções da quântica e da computação no século XX, não superou a antiga visão de mundo clássica, a barbárie das guerras e o desprezo à natureza. O crescimento acelerado das disciplinas científicas tornou a unidade do conhecimento impossível de imaginar, e o avanço científico exterior é acompanhado de uma “atrofia do ser interior” (p. 7). Durante o século XX, a humanidade passou a ter a capacidade de se destruir, sendo essa uma ameaça produto da “tecnociência cega, mas triunfante, obediente apenas à implacável lógica do utilitarismo” (p. 8).

Nicolescu relaciona a fragmentação disciplinar ao paradigma da simplicidade da ciência clássica, que se baseou no dogma da existência de um único nível de realidade. A ciência moderna foi construída sobre a separação total entre o sujeito cognoscente e a realidade (seu objeto de estudo). A transdisciplinaridade é uma quebra com essa corrente de pensamento ao estar baseada em três pilares, o primeiro sendo a existência de múltiplos níveis de realidade. Mencionando interpretações da mecânica quântica e dos estudos de sistemas naturais, o autor afirma que existem diferentes níveis da realidade, como o  macrossocial ou macrofísico, o quântico ou infinitamente pequeno. Pela visão transdisciplinar, a realidade é multidimensional e multirreferencial.

O segundo pilar é o da lógica do terceiro incluído. A visão lógica clássica é a do terceiro excluído (A e não-A), ou seja, do binarismo. Já a lógica do terceiro incluído admite um terceiro termo (T), que é ao mesmo tempo A e não-A, uma espécie de “superposição quântica de estados”. Conforme argumenta Nicolescu, a aplicação da lógica binária em esferas complexas, como a social ou política, é um reducionismo base de ideologias destrutivas. Para ilustrar a ideia de terceiro incluído, o físico usa da figura do bastão, que sempre tem duas pontas opostas. Contudo, também é verídico que não é possível as separar, já que a tentativa de cortar o bastão apenas duplica o problema (de não conseguir separar os opostos). Assim, sempre há um estado espectral entre os extremos do binarismo, onde habitam as demais combinações não reducionistas da realidade.

O terceiro pilar da transdisciplinaridade é a complexidade. Nicolescu argumenta que ela precisa ser compreendida em termos de uma nova ordem e de uma nova simplicidade, lidando com a dinâmica gerada pela ação de vários níveis de realidade simultaneamente.

A transdisciplinaridade exige, portanto, uma atitude de rigor dos conhecimentos e epistemes, de abertura ao novo e desconhecido, e de tolerância com o diferente e diverso. Ela é um equilíbrio entre a eficácia do conhecimento e o sentimento ou emoção. Essa harmonia “yin-yang” conduz ao que o autor denomina de transhumanismo, uma nova forma de humanismo focada na dignidade e na nobreza do ser humano, rejeitando a redução da pessoa a um objeto.

Pode-se considerar a leitura desse manifesto como um certo ato de transgressão às nossas próprias bases formantes, muito provavelmente disciplinares. Não é necessário ser um físico teórico que conheça mecânica quântica para apreciar as críticas lançadas por Nicolescu. O livro convida o leitor a participar de uma “revolução da inteligência”, aprendendo a “ler nas entrelinhas do livro da Natureza e nas entrelinhas do livro do ser interior” (p. 89).