{"id":333,"date":"2015-06-08T12:48:17","date_gmt":"2015-06-08T15:48:17","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/trampos\/?p=333"},"modified":"2015-06-25T16:23:51","modified_gmt":"2015-06-25T19:23:51","slug":"desigualdade-nao-e-imutavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/desigualdade-nao-e-imutavel\/","title":{"rendered":"&#8220;A desigualdade n\u00e3o \u00e9 imut\u00e1vel&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><em>Lan\u00e7ado no dia 2 passado pelo Centro de Estudos da Metr\u00f3pole (CEM), o livro &#8220;Trajet\u00f3rias das Desigualdades \u2013 Como o Brasil mudou nos \u00faltimos cinquenta anos&#8221; mostra os avan\u00e7os sociais do Pa\u00eds nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/em><\/p>\n<p>Por Silvana Salles<\/p>\n<p>O tema da desigualdade ganhou interesse renovado das ci\u00eancias sociais em todo o mundo depois que o economista franc\u00eas Thomas Piketty chamou a aten\u00e7\u00e3o para o crescimento da disparidade de renda entre ricos e pobres em curso nos pa\u00edses desenvolvidos. No Brasil, por muito tempo se acreditou que o Pa\u00eds teria um \u201cDNA problem\u00e1tico\u201d, que bloquearia a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade. No entanto, a trajet\u00f3ria das \u00faltimas d\u00e9cadas mostra que os brasileiros t\u00eam vivenciado uma queda em alguns aspectos importantes da desigualdade, com a universaliza\u00e7\u00e3o do acesso ao ensino fundamental, do direito ao voto e a servi\u00e7os de infraestrutura \u2013 como abastecimento de \u00e1gua e fornecimento de energia. Na realidade, os dados mostram que o Brasil de 2010 foi um pa\u00eds menos desigual que o de 1991. Esse diagn\u00f3stico dos pesquisadores do Centro de Estudos da Metr\u00f3pole (CEM) resulta das an\u00e1lises do livroTrajet\u00f3rias das Desigualdades \u2013 Como o Brasil mudou nos \u00faltimos cinquenta anos\u00a0\u2013 lan\u00e7ado no dia 2 passado, em evento na Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH) da USP \u2013 e contraria o esperado e estabelecido no debate sobre o tema nas ci\u00eancias sociais.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-content\/uploads\/sites\/67\/2015\/06\/4-Reprodu\u00e7\u00e3o2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-360\" alt=\"4-Reprodu\u00e7\u00e3o2\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-content\/uploads\/sites\/67\/2015\/06\/4-Reprodu\u00e7\u00e3o2-300x195.jpg\" width=\"300\" height=\"195\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-content\/uploads\/sites\/1339\/2015\/06\/4-Reprodu\u00e7\u00e3o2-300x195.jpg 300w, https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-content\/uploads\/sites\/1339\/2015\/06\/4-Reprodu\u00e7\u00e3o2-1024x667.jpg 1024w, https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-content\/uploads\/sites\/1339\/2015\/06\/4-Reprodu\u00e7\u00e3o2-400x260.jpg 400w, https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-content\/uploads\/sites\/1339\/2015\/06\/4-Reprodu\u00e7\u00e3o2.jpg 1181w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Novidade \u2013<\/strong>\u00a0O livro \u00e9 o primeiro balan\u00e7o das ci\u00eancias sociais no Brasil que trata da desigualdade como um fen\u00f4meno de m\u00faltiplas dimens\u00f5es, analisadas ao longo de um per\u00edodo de meio s\u00e9culo \u2013 durante o qual o Pa\u00eds passou por grandes transforma\u00e7\u00f5es sociais e estruturais. Os 14 cap\u00edtulos da obra, assinados por autores como Fernando Limongi, Alvaro Comin, Eduardo Marques, Vera Schattan Coelho e Adrian Gurza Lavalle, exploram separadamente dimens\u00f5es como participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, estratifica\u00e7\u00e3o educacional, desenvolvimento de pol\u00edticas p\u00fablicas na sa\u00fade e na infraestrutura urbana, migra\u00e7\u00e3o, rela\u00e7\u00f5es raciais e de g\u00eanero e mercado de trabalho. O estudo se apoia em tabula\u00e7\u00f5es especiais das informa\u00e7\u00f5es dos Censos Demogr\u00e1ficos do IBGE de 1960, 1970, 1980, 1991, 2000 e 2010. Essas tabula\u00e7\u00f5es foram realizadas e disponibilizadas online pelo pr\u00f3prio CEM, que \u00e9 um dos Centros de Pesquisa, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o (Cepids) sediados na USP e hoje opera com o apoio de seu segundo financiamento junto \u00e0 Fapesp.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil \u00e9 conhecido mundialmente por ser um dos pa\u00edses mais desiguais do mundo, o que era interpretado como uma caracter\u00edstica inerente ao caso brasileiro. A novidade importante, ent\u00e3o, \u00e9 a desigualdade n\u00e3o ser imut\u00e1vel. Temos uma avalia\u00e7\u00e3o abrangente de escopo e de longo prazo, o que permite fazermos balan\u00e7os de transforma\u00e7\u00f5es de interesse, controladas por macroprocessos \u2013 urbaniza\u00e7\u00e3o, migra\u00e7\u00e3o em massa, industrializa\u00e7\u00e3o, democratiza\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7as dos patamares de renda\u201d, explica Marta Arretche, organizadora do livro.<\/p>\n<blockquote><p><em>Redu\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as socioecon\u00f4micas n\u00e3o ocorre aos pulos nem como resultado de um mandato governamental, mas de forma incremental, afirma a professora Marta Arretche.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Diretora do Centro de Estudos da Metr\u00f3pole (CEM), a professora Marta Arretche \u2013 organizadora do livro Trajet\u00f3rias das Desigualdades \u2013 Como o Brasil mudou nos \u00faltimos cinquenta anos \u2013 \u00e9 docente titular do Departamento de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH) da USP e atual diretora da Brazilian Political Science Review. \u00c9 p\u00f3s-doutora pelo Massachusetts Institute of Technology, nos Estados Unidos, e foi visiting fellow do Instituto Universit\u00e1rio Europeu, em Floren\u00e7a, na It\u00e1lia. Sua \u00e1rea de pesquisa \u00e9 a an\u00e1lise institucional e comparada. Acompanhe, a seguir, entrevista concedida pela docente a Ana Paula Chinelli, Fabiana Mariz e Silvana Salles, sobre a publica\u00e7\u00e3o rec\u00e9m-lan\u00e7ada pelo CEM, em parceria com a Editora Unesp. A entrevista foi gravada por Alexandre Gennari e Djalma Moraes e est\u00e1 dispon\u00edvel no Portal da USP.<\/p>\n<p><strong>Jornal da USP \u2013 Como o Brasil mudou entre 1960 e 2010?<\/strong><\/p>\n<p>Marta Arrechte \u2013 O Brasil de 1960 definitivamente n\u00e3o \u00e9 o Brasil de 2010, por qualquer indicador. Em 1960, era um pa\u00eds essencialmente rural, com uma grande massa de trabalhadores baixamente escolarizados, muito mal pagos e exclu\u00eddos do acesso a servi\u00e7os. A industrializa\u00e7\u00e3o e as vantagens de renda, de escolaridade e de servi\u00e7os se concentravam em S\u00e3o Paulo e em um pouco da regi\u00e3o Sul. O mundo escolar era branco e masculino; a elite de homens brancos tinha acesso ao ensino, \u00e0 universidade e, depois, aos melhores empregos. Ao examinar a desigualdade nesse per\u00edodo por um indicador simples como o \u00edndice de Gini, que esconde todas essas dimens\u00f5es, o Brasil parecia relativamente igualit\u00e1rio \u2013 mas era uma igualdade na pobreza. J\u00e1 em 2010, 85% dos habitantes viviam no meio urbano. Entre 1980 e 2010, a popula\u00e7\u00e3o que chegou ao ensino m\u00e9dio e \u00e0 universidade se multiplicou por seis; as taxas de fertilidade ca\u00edram a partir de 1982 e isso teve consequ\u00eancias sobre o mercado de trabalho, porque aquele fen\u00f4meno da d\u00e9cada de 1960, de existir abund\u00e2ncia de m\u00e3o de obra pouco qualificada, se alterou.<\/p>\n<p><strong>JUSP \u2013 A desigualdade aumentou nas d\u00e9cadas seguintes?<\/strong><\/p>\n<p>Marta \u2013 Com a industrializa\u00e7\u00e3o durante o regime militar, come\u00e7a a grande migra\u00e7\u00e3o de trabalhadores do Nordeste para o Sul, principalmente S\u00e3o Paulo, e tamb\u00e9m para a fronteira agr\u00edcola no Centro-Oeste e na regi\u00e3o Norte. Esse momento de crescimento econ\u00f4mico trouxe, sim, um grande aumento da desigualdade, com crescimento dos servi\u00e7os e da ind\u00fastria concentrado no Sul e no Sudeste. No livro, temos os mapas do acesso \u00e0 agua, ao esgoto, \u00e0 energia. Tudo est\u00e1 bem concentrado em S\u00e3o Paulo e em algumas cidades mais ricas do Centro-Sul. A desigualdade expressa a fus\u00e3o de vantagens de uma parcela da popula\u00e7\u00e3o em uma determinada parcela do territ\u00f3rio. Na d\u00e9cada de 1970, as mulheres de alta renda e mais escolarizadas j\u00e1 tinham o padr\u00e3o de fertilidade de hoje, dois filhos por per\u00edodo de fertilidade, ao passo que as mulheres do Norte e Nordeste, muito pobres, tinham oito filhos por per\u00edodo de fertilidade. Existia, assim, desigualdade entre mulheres e tamb\u00e9m entre mulheres e homens.<\/p>\n<p><strong>JUSP \u2013 Existe diferen\u00e7a entre as trajet\u00f3rias das mulheres e dos n\u00e3o-brancos?<\/strong><\/p>\n<p>Marta \u2013 As mulheres entraram em massa na escola e na universidade, que se tornou majoritariamente feminina. J\u00e1 n\u00e3o existem profiss\u00f5es tipicamente masculinas. Os n\u00e3o-brancos, no entanto, n\u00e3o tiveram o mesmo sucesso. Ainda existe desigualdade entre mulheres e homens no mercado de trabalho, mas as desigualdades entre brancos e n\u00e3o-brancos s\u00e3o maiores. A redu\u00e7\u00e3o da desigualdade que existiu nessa dimens\u00e3o funciona por algo que chamamos nas ci\u00eancias sociais de mecanismo de satura\u00e7\u00e3o. Quando o acesso ao ensino fundamental foi universalizado, os n\u00e3o-brancos foram inclu\u00eddos e as desigualdades se deslocaram para outro patamar \u2013 para o ensino m\u00e9dio e o universit\u00e1rio. Como consequ\u00eancia, as desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho s\u00e3o menores do que as desigualdades entre brancos e n\u00e3o-brancos.<\/p>\n<p><strong>JUSP \u2013 Por que o termo desigualdades, no plural?<\/strong><\/p>\n<p>Marta \u2013 De modo geral, a ci\u00eancia social se concentra no estudo das desigualdades de renda. Isso ocorre por raz\u00f5es te\u00f3ricas e pragm\u00e1ticas: esses s\u00e3o os estudos mais f\u00e1ceis de fazer, porque h\u00e1 maior possibilidade de produzir bases de dados comparadas entre pa\u00edses. A renda, no entanto, n\u00e3o esgota as dimens\u00f5es da desigualdade. Ela \u00e9 a express\u00e3o de outros fen\u00f4menos. Por exemplo: a desigualdade de renda \u00e9 em grande medida explicada por desigualdades educacionais \u2013 pelo que se chama o pr\u00eamio da educa\u00e7\u00e3o. O mercado de trabalho premia quem det\u00e9m n\u00edveis mais altos de escolaridade. Quando as desigualdades educacionais diminuem, afetam as desigualdades de renda. As mudan\u00e7as nas desigualdades educacionais, por sua vez, s\u00e3o explicadas sobretudo pela expans\u00e3o da escolaridade p\u00fablica. Mas isso n\u00e3o \u00e9 suficiente para explicar toda a desigualdade de renda: indiv\u00edduos de mesma escolaridade t\u00eam rendas diferentes conforme o sexo e conforme a cor. A desigualdade \u00e9 um fen\u00f4meno multidimensional: o que existe s\u00e3o desigualdades.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-content\/uploads\/sites\/67\/2015\/06\/PredioFavelaJUSP.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-359\" alt=\"PredioFavelaJUSP\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-content\/uploads\/sites\/67\/2015\/06\/PredioFavelaJUSP-300x157.jpg\" width=\"300\" height=\"157\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-content\/uploads\/sites\/1339\/2015\/06\/PredioFavelaJUSP-300x157.jpg 300w, https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-content\/uploads\/sites\/1339\/2015\/06\/PredioFavelaJUSP-1024x538.jpg 1024w, https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-content\/uploads\/sites\/1339\/2015\/06\/PredioFavelaJUSP-400x210.jpg 400w, https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-content\/uploads\/sites\/1339\/2015\/06\/PredioFavelaJUSP.jpg 1772w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>JUSP \u2013 Em que bases de dados foi feita a pesquisa?<\/strong><\/p>\n<p>Marta \u2013 No Brasil, temos muitos dados de acesso aberto dispon\u00edveis, produzidos publicamente, o que n\u00e3o \u00e9 a realidade da maior parte dos pa\u00edses, mesmo os desenvolvidos. No Censo, o IBGE d\u00e1 acesso at\u00e9 aos dados dos setores censit\u00e1rios, a unidade de coleta de dados, que inclui cerca de 400 domic\u00edlios. Qualquer cidad\u00e3o pode usar a internet para baixar esses dados gratuitamente. O fato de existirem dados p\u00fablicos, por\u00e9m, n\u00e3o significa que eles sejam pass\u00edveis de tratamento estat\u00edstico tal como est\u00e3o \u2013 v\u00eam cheios de lacunas ou de repeti\u00e7\u00f5es. \u00c9 preciso corrigir essas bases de dados para que possam ser tratadas estatisticamente. Um dos trabalhos do CEM, que consideramos um servi\u00e7o para a ci\u00eancia social, foi disponibilizar esses dados j\u00e1 limpos no nosso site, em portugu\u00eas e em ingl\u00eas. Queremos deixar os dados acess\u00edveis para que outras an\u00e1lises, outros balan\u00e7os possam ser produzidos a partir deles. Uma das novidades do livro \u00e9 termos tido acesso a bases de dados de longo prazo, dos censos de 1960, 1970, 1980, 1991, 2000 e 2010, o que permite fazer estudos de grandes transforma\u00e7\u00f5es, controladas por macroprocessos \u2013 urbaniza\u00e7\u00e3o, migra\u00e7\u00e3o em massa, industrializa\u00e7\u00e3o, democratiza\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7as dos patamares de renda.<\/p>\n<p><strong>JUSP \u2013 H\u00e1 outras inova\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Marta \u2013 Sim. Em termos de metodologia, tamb\u00e9m buscamos inovar em outro aspecto: mantivemos a mesma m\u00e9trica ao longo do per\u00edodo. Em geral, a m\u00e9trica de estudos sobre transforma\u00e7\u00f5es nas sociedades vai mudando \u00e0 medida que avan\u00e7os v\u00e3o sendo obtidos. Por exemplo, como hoje o acesso ao ensino fundamental \u00e9 praticamente universalizado, a exig\u00eancia passa para o pr\u00f3ximo patamar \u2013 o ensino m\u00e9dio. Ou seja, a m\u00e9trica mudou. Quando voc\u00ea muda a m\u00e9trica, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que nada avan\u00e7ou. Manter a mesma m\u00e9trica ao longo do per\u00edodo tem consequ\u00eancias cruciais sobre a conclus\u00e3o. Outra inova\u00e7\u00e3o importante \u00e9 pegar cada dimens\u00e3o separadamente \u2013 a trajet\u00f3ria das mulheres, trajet\u00f3ria das migra\u00e7\u00f5es etc. \u2013 e depois articular em uma conclus\u00e3o final.<\/p>\n<p><strong>JUSP \u2013 Como a senhora situa os resultados dos estudos do livro no debate internacional das ci\u00eancias sociais sobre as desigualdades?<\/strong><\/p>\n<p>Marta \u2013 Em primeiro lugar, s\u00e3o importantes as evid\u00eancias de que a desigualdade se reduziu no Brasil, em m\u00faltiplas dimens\u00f5es. Isso n\u00e3o era o esperado pela ci\u00eancia social. A novidade, ent\u00e3o, \u00e9 a desigualdade n\u00e3o ser imut\u00e1vel. A segunda novidade relevante \u00e9 que a mudan\u00e7a da desigualdade no Brasil vem se dando de forma incremental. Tamb\u00e9m foi assim a trajet\u00f3ria dos Estados Unidos, da Inglaterra, da Su\u00e9cia: a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade n\u00e3o ocorre aos pulos nem \u00e9 resultado de um mandato governamental. A trajet\u00f3ria da universaliza\u00e7\u00e3o do ensino fundamental no Brasil, de 1980 a 2000, \u00e9 semelhante \u00e0 trajet\u00f3ria da Gr\u00e3-Bretanha, que levou 30 anos para colocar todo mundo no ensino fundamental. Isso \u00e9 importante para mostrar que a trajet\u00f3ria segue o que \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>JUSP \u2013 O que o livro mostra sobre o papel das pol\u00edticas de governo na redu\u00e7\u00e3o das desigualdades?<\/strong><\/p>\n<p>Marta \u2013 Pol\u00edticas de governo, por paradoxal e contradit\u00f3rio que possa parecer, podem aumentar e reduzir as desigualdades ao mesmo tempo. Diferentes pol\u00edticas t\u00eam efeitos diferentes sobre a desigualdade. A previd\u00eancia p\u00fablica, por exemplo, aumenta a desigualdade ao beneficiar uma parcela que recebe aposentadorias mais altas do que as da previd\u00eancia privada. A previd\u00eancia privada reduz a desigualdade, porque ela beneficia majoritariamente aposentados que ganham de um a dois sal\u00e1rios m\u00ednimos e atinge um maior n\u00famero de pessoas. O Imposto de Renda reduz a desigualdade, porque s\u00f3 15% da popula\u00e7\u00e3o brasileira paga \u2013 ou at\u00e9 menos do que isso, porque, por efeito at\u00e9 da desigualdade, 70%, 75% da popula\u00e7\u00e3o sequer declara Imposto de Renda. O pagamento de impostos indiretos, como o ICMS, aumenta a desigualdade, pois os mais pobres gastam uma propor\u00e7\u00e3o muito maior de sua renda consumindo bens essenciais sobre os quais recai uma parcela importante de imposto. Assim, diferentes pol\u00edticas t\u00eam efeitos diferentes sobre as desigualdades. As pol\u00edticas de sa\u00fade e de educa\u00e7\u00e3o reduzem muito a desigualdade, porque os mais pobres t\u00eam acesso a servi\u00e7os gratuitos de educa\u00e7\u00e3o e de sa\u00fade e, portanto, n\u00e3o precisam gastar uma parcela da renda com isso. Essa pergunta, portanto, n\u00e3o tem resposta f\u00e1cil. Costumo dizer que ci\u00eancias duras mesmo s\u00e3o as ci\u00eancias sociais, porque t\u00eam muitas dimens\u00f5es a serem consideradas, se voc\u00ea n\u00e3o quiser dar uma resposta simplificadora.<\/p>\n<p><strong>JUSP \u2013 De toda forma, essas pol\u00edticas s\u00e3o importantes?<\/strong><\/p>\n<p>Marta \u2013 S\u00e3o fundamentais. Na verdade, governos sempre t\u00eam pol\u00edticas. O que temos a analisar \u00e9 o efeito das pol\u00edticas sobre a desigualdade. Ent\u00e3o, quando o sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 valorizado, isso reduz a desigualdade. Se o valor do sal\u00e1rio m\u00ednimo cair e o acesso a ele for restringido, essa mesma pol\u00edtica aumentar\u00e1 as desigualdades. \u00c9 preciso analisar o conte\u00fado das pol\u00edticas, pois o governo e as pol\u00edticas de Estado est\u00e3o constantemente interferindo no acesso das pessoas ao bem-estar, a oportunidades.<\/p>\n<p>JUSP \u2013 Na sua opini\u00e3o, qual ser\u00e1 a trajet\u00f3ria internacional do livro?<\/p>\n<p>Marta \u2013 Imagino que haver\u00e1 grande interesse daqueles que estudam o Brasil. Os estudos recentes sobre desigualdade, na linha do economista franc\u00eas Thomas Piketty, est\u00e3o concentrados no uso de dados das declara\u00e7\u00f5es do Imposto de Renda, sobre os quais h\u00e1 controv\u00e9rsia. O livro poder\u00e1 ter interesse para aqueles que est\u00e3o preocupados em entender mecanismos que produzem trajet\u00f3rias virtuosas da redu\u00e7\u00e3o da desigualdade, porque fornece ampla evid\u00eancia para um balan\u00e7o abrangente das diversas dimens\u00f5es da desigualdade e dos diversos mecanismos que est\u00e3o associados \u00e0 sua redu\u00e7\u00e3o. At\u00e9 agora, o conhecimento dos cientistas sociais sobre esses mecanismos se baseava em infer\u00eancias muito especulativas e em informa\u00e7\u00f5es muito prec\u00e1rias. Na verdade, \u00e9 espantoso o que se conseguiu fazer em termos de conhecimento com a precariedade de dados dispon\u00edveis. Agora, n\u00e3o h\u00e1 precariedade de dados. Temos condi\u00e7\u00f5es de avan\u00e7ar muito mais no nosso conhecimento sobre trajet\u00f3rias de desigualdades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A reportagem foi publicada na edi\u00e7\u00e3o de 8 de junho do Jornal da USP.\u00a0Leia no site do Jornal da USP:<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/espaber.uspnet.usp.br\/jorusp\/?p=42263\" target=\"_blank\">parte 1<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/espaber.uspnet.usp.br\/jorusp\/?p=42269\" target=\"_blank\">parte 2<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lan\u00e7ado no dia 2 passado pelo Centro de Estudos da Metr\u00f3pole (CEM), o livro &#8220;Trajet\u00f3rias das Desigualdades \u2013 Como o Brasil mudou nos \u00faltimos cinquenta anos&#8221; mostra os avan\u00e7os sociais do Pa\u00eds nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Por Silvana Salles O tema da desigualdade ganhou interesse renovado das ci\u00eancias sociais em todo o mundo depois que o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":118,"featured_media":337,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[9,8,11,13,12],"class_list":["post-333","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaques","tag-cem","tag-centro-de-estudos-da-metropole","tag-cepid","tag-livro","tag-trajetorias-das-desigualdades"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/333","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/118"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=333"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/333\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":408,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/333\/revisions\/408"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/337"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=333"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=333"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/trampos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=333"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}