{"id":3055,"date":"2020-03-11T00:00:00","date_gmt":"2020-03-11T02:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/uspmulheres.usp.br\/?p=3055"},"modified":"2021-03-13T17:43:15","modified_gmt":"2021-03-13T19:43:15","slug":"construir-a-igualdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/uspmulheres\/construir-a-igualdade\/","title":{"rendered":"Construir a igualdade"},"content":{"rendered":"\n<p><a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/artigos\/construir-a-igualdade\/\"><em>Por Maria Arminda do Nascimento Arruda, diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH\/ USP) e coordenadora do Escrit\u00f3rio USP Mulheres, e Vahan Agopyan, reitor da USP<\/em>  <\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O dia 8 de mar\u00e7o celebra internacionalmente a luta das mulheres pela igualdade em rela\u00e7\u00e3o aos homens, em todos os aspectos que perpassam os direitos civis, pol\u00edticos e sociais. Historicamente, esta data n\u00e3o possui um \u00fanico marco. A sua institui\u00e7\u00e3o decorreu de uma mo\u00e7\u00e3o aprovada na Segunda Confer\u00eancia Internacional das Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague, em 1910, para que se criasse um dia internacional de celebra\u00e7\u00e3o das lutas das mulheres trabalhadoras que j\u00e1 ocorriam na Europa e nos Estados Unidos. No entanto, epis\u00f3dios tr\u00e1gicos como a morte de 123 mulheres (muitas delas imigrantes) e de 13 homens no inc\u00eandio da camisaria Triangle Shirtwaist Company, em Nova York, em 1911, foram incorporados \u00e0s justificativas para a cria\u00e7\u00e3o da data. A escolha do dia 8 de mar\u00e7o, por sua vez, tem sido relacionada \u00e0 eclos\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es lideradas por mulheres russas que deram origem \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, em 1917. Nos dias atuais, ap\u00f3s a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas oficializar esta data, em 1975, como Dia Internacional da Mulher, convivemos com manifesta\u00e7\u00f5es que celebram de diferentes maneiras as lutas pela emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres, em paralelo a comemora\u00e7\u00f5es menos reflexivas.<\/p>\n\n\n\n<p>A Universidade de S\u00e3o Paulo, conjuntamente com outras institui\u00e7\u00f5es de ensino no Brasil e no exterior, tem contribu\u00eddo diretamente com a defesa da igualdade de g\u00eanero, seja por meio do est\u00edmulo a pesquisas, seja por interm\u00e9dio da identifica\u00e7\u00e3o dos dilemas vivenciados pelas mulheres, seja ainda buscando solu\u00e7\u00f5es que possam dirimir as desigualdades. Al\u00e9m de fomentar a pesquisa sobre as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, o que permitiu \u00e0 USP contar com especialistas de renome, cuja produ\u00e7\u00e3o intelectual tem contribu\u00eddo com o debate realizado no Brasil e no exterior, a Universidade se responsabiliza pela forma\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es de estudantes \u2013 mulheres e homens \u2013 que igualmente se dedicam \u00e0 agenda dos direitos humanos, tendo como refer\u00eancia o ferramental te\u00f3rico-metodol\u00f3gico adquirido nos cursos de humanidades, ci\u00eancias biol\u00f3gicas e exatas. Em termos institucionais, dados organizados pelo Escrit\u00f3rio de Gest\u00e3o de Indicadores de Desempenho Acad\u00eamico (<a href=\"https:\/\/egida.usp.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"EGIDA\/ USP (abre numa nova aba)\">EGIDA\/ USP<\/a>) informam que a USP abriga 2.202 docentes mulheres em atividade, 23.438 alunas de gradua\u00e7\u00e3o e outras 11.554 de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de grande contingente de servidoras nos quadros t\u00e9cnicos. Em rela\u00e7\u00e3o aos homens, as alunas de mestrado e doutorado est\u00e3o em maioria (51%) e na gradua\u00e7\u00e3o s\u00e3o um pouco menos da metade (45%). J\u00e1 as docentes est\u00e3o em minoria, correspondendo a 37% do total. Promover a igualdade de oportunidades para mulheres e homens em todos os aspectos da carreira universit\u00e1ria \u00e9 hoje uma necessidade reconhecida pela institui\u00e7\u00e3o. Para avan\u00e7ar neste trabalho foi criado, em 2016, o Escrit\u00f3rio USP Mulheres, a partir do convite da <a href=\"https:\/\/www.onumulheres.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"ONU Mulheres (abre numa nova aba)\">ONU Mulheres<\/a> para que a Universidade integrasse o <a href=\"https:\/\/www.heforshe.org\/pt-br\/impact\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Projeto Impact 10x10x10 (abre numa nova aba)\">Projeto Impact 10x10x10<\/a>, junto com outras nove universidades ao redor do mundo. Esta iniciativa \u00e9 parte do Movimento <a href=\"https:\/\/www.heforshe.org\/pt-br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"HeForShe (abre numa nova aba)\">HeForShe<\/a>, que foi traduzido para o portugu\u00eas como ElesPorElas. As atividades realizadas neste per\u00edodo contribu\u00edram para inserir a Universidade no debate sobre a igualdade de g\u00eanero, em di\u00e1logo com os coletivos de mulheres, compostos por estudantes, professoras e funcion\u00e1rias, e que hoje s\u00e3o numericamente expressivos e atuantes. A cria\u00e7\u00e3o de Comiss\u00f5es de Direitos Humanos nas unidades da USP, por exemplo, \u00e9 parte integrante das a\u00e7\u00f5es desenvolvidas, do mesmo modo como a realiza\u00e7\u00e3o de uma pesquisa in\u00e9dita entre os estudantes, que buscou avaliar a qualidade das intera\u00e7\u00f5es na USP. Ao final de 2019, o Escrit\u00f3rio USP Mulheres deu in\u00edcio a iniciativas com o objetivo de aprofundar a institucionaliza\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es, planejando a cria\u00e7\u00e3o de programas e de estudos que possam contribuir com o enfrentamento da viol\u00eancia de g\u00eanero e com a promo\u00e7\u00e3o da igualdade de oportunidades no ambiente universit\u00e1rio, iniciativa a ser projetada para a sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>De maneira mais ambiciosa, compreendemos que \u00e9 o momento da Reitoria, em uma a\u00e7\u00e3o coordenada pelo Escrit\u00f3rio USP Mulheres com as Pr\u00f3-Reitorias e demais \u00f3rg\u00e3os da administra\u00e7\u00e3o da Universidade, aprofundar o di\u00e1logo com os movimentos internos e externos \u00e0 comunidade universit\u00e1ria e avan\u00e7ar em medidas que possam produzir impactos estruturais, interrompendo din\u00e2micas que hoje perpetuam a desigualdade, adotando pol\u00edticas que possam acelerar processos de equipara\u00e7\u00e3o de oportunidades no \u00e2mbito da Universidade de S\u00e3o Paulo. Essas a\u00e7\u00f5es t\u00eam sido discutidas e planejadas de forma a ajustar-se \u00e0s diferentes realidades vividas pelos discentes, pelos docentes e pelo quadro t\u00e9cnico da Universidade, como resumimos a seguir.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Comunidade discente \u2013 Projetando o futuro<\/h3>\n\n\n\n<p>A prioridade junto aos estudantes \u00e9 criar condi\u00e7\u00f5es para que alcancemos um percentual igualit\u00e1rio de participa\u00e7\u00e3o entre alunos de todas as \u00e1reas do conhecimento, com aten\u00e7\u00e3o especial \u00e0s STEM (sigla inglesa para Ci\u00eancia, Tecnologia, Engenharia e Matem\u00e1tica). Nessa \u00e1rea, \u00e9 poss\u00edvel construir pol\u00edticas que estimulem alunas do ensino m\u00e9dio para que se interessem por essas carreiras, oferecendo apoio \u00e0quelas que desejarem seguir nesses cursos. \u00c0s ingressantes \u00e9 poss\u00edvel, da mesma forma, fomentar o surgimento de mentorias que ofere\u00e7am suporte a essas estudantes, realizar atividades de integra\u00e7\u00e3o e supera\u00e7\u00e3o de desafios, conferir premia\u00e7\u00f5es, entre outras atividades que contribuam para a perman\u00eancia e a conclus\u00e3o da gradua\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, fundamental ser\u00e1 envolver a Pr\u00f3-Reitoria de Gradua\u00e7\u00e3o (<a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"PRG (abre numa nova aba)\" href=\"http:\/\/www.prg.usp.br\/\" target=\"_blank\">PRG<\/a>) e a Pr\u00f3-Reitoria de Pesquisa (<a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"PRP (abre numa nova aba)\" href=\"https:\/\/prp.usp.br\/\" target=\"_blank\">PRP<\/a>) em uma defini\u00e7\u00e3o de percentuais m\u00ednimos \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o de bolsas de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica para todas as \u00e1reas, estabelecendo uma progress\u00e3o que produza, em poucos anos, um cen\u00e1rio de bolsas distribu\u00eddas igualmente entre alunas e alunos. Compreendemos tamb\u00e9m a necessidade de criar, a partir da gradua\u00e7\u00e3o, um esfor\u00e7o cont\u00ednuo de conscientiza\u00e7\u00e3o da comunidade da USP sobre a import\u00e2ncia da pauta dos direitos humanos, do respeito \u00e0s diferen\u00e7as, da promo\u00e7\u00e3o da igualdade de oportunidades. Especificamente nesse campo, ainda em 2020, est\u00e1 sendo proposta, junto \u00e0 PRG, uma disciplina de g\u00eanero, inicialmente eletiva e em formato EaD, voltada aos alunos ingressantes em todas as habilita\u00e7\u00f5es oferecidas pela Universidade. Segundo o mesmo esp\u00edrito, um conjunto de iniciativas poder\u00e1 ser desenvolvido, com a finalidade de conscientizar a todos os envolvidos na vida universit\u00e1ria sobre a import\u00e2ncia da sua atua\u00e7\u00e3o no processo. Estamos convencidos que \u00e9 por interm\u00e9dio da mudan\u00e7a de valores que as desigualdades ser\u00e3o superadas. Sabedores que transforma\u00e7\u00f5es de comportamentos n\u00e3o s\u00e3o autom\u00e1ticas, tampouco simples e r\u00e1pidas, mudar atitudes depender\u00e1 da participa\u00e7\u00e3o de esferas centrais da Universidade, para cujo concurso a Pr\u00f3-Reitoria de Cultura e Extens\u00e3o Universit\u00e1ria (<a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"PRCEU (abre numa nova aba)\" href=\"https:\/\/prceu.usp.br\/\" target=\"_blank\">PRCEU<\/a>) dever\u00e1 ter papel decisivo.<\/p>\n\n\n\n<p>A p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o tem papel igualmente central. \u00c9 ingente e necess\u00e1rio construir medidas de apoio \u00e0queles que se tornam m\u00e3es e pais. De acordo com dados obtidos recentemente junto ao EGIDA\/USP sobre o uso de licen\u00e7as parentais pela comunidade universit\u00e1ria entre 2009 e 2019, constatou-se que, ao passo que a demanda entre as docentes mulheres n\u00e3o alcan\u00e7a 0,5% do total de licen\u00e7as requeridas, a demanda entre as alunas de mestrado e doutorado totalizou 2.158 casos neste per\u00edodo, sendo a maior parte pelas estudantes de doutorado e doutorado direto (61,8%). A partir de uma reflex\u00e3o conjunta com a <a href=\"http:\/\/www.prpg.usp.br\/pt-br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Pr\u00f3-Reitoria de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o (abre numa nova aba)\">Pr\u00f3-Reitoria de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o<\/a> vislumbrou-se formas mais abrangentes de apoio, como prorrogar por mais dois meses o pagamento de bolsas durante as licen\u00e7as-maternidade, que hoje s\u00e3o concedidas pelas ag\u00eancias de fomento por quatro meses \u00e0s alunas de mestrado e doutorado, em dissintonia com os seis meses concedidos pela USP. A complementa\u00e7\u00e3o do pagamento de bolsas neste per\u00edodo cr\u00edtico de conclus\u00e3o dos estudos \u2013 especialmente nos casos que envolvem o t\u00e9rmino de pesquisas \u2013 pode caracterizar-se como um apoio diferenciado \u00e0s m\u00e3es pesquisadoras neste momento t\u00e3o crucial de suas carreiras, tornando a nossa universidade pioneira em iniciativas dessa natureza. Da mesma maneira, aos pais pesquisadores pode-se avan\u00e7ar na cria\u00e7\u00e3o de um aux\u00edlio proporcional ao afastamento por vinte dias, direito ainda n\u00e3o previsto por nenhuma ag\u00eancia de fomento.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Comunidade docente \u2013 Igualdade de reconhecimento na produ\u00e7\u00e3o do conhecimento<\/h3>\n\n\n\n<p>Como apresentado no in\u00edcio, o percentual de docentes mulheres em atividade na USP n\u00e3o alcan\u00e7a os 40% do total. Vemos esta diferen\u00e7a persistir e, a depender da \u00e1rea, aprofundar-se, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s professoras titulares. Condi\u00e7\u00f5es relacionadas ao ingresso, \u00e0 produtividade e \u00e0s oportunidades de progress\u00e3o podem ser aprimoradas. No primeiro caso, \u00e9 preciso considerar a cria\u00e7\u00e3o de uma cota m\u00ednima para o ingresso de mulheres nos concursos p\u00fablicos realizados. Como mencionado, \u00e9 preciso ver com preocupa\u00e7\u00e3o o fato de a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o ser um ambiente no qual as mulheres est\u00e3o em p\u00e9 de igualdade com os homens, ao passo que isto n\u00e3o se traduz \u2013 pelo menos no caso da USP \u2013 em uma eleva\u00e7\u00e3o do percentual de mulheres docentes. A partir de dados mobilizados junto ao EGIDA\/USP, foi identificado que, entre 1999 e 2019, a propor\u00e7\u00e3o de ingressantes nas carreiras docentes da Universidade como professor doutor encontra-se cristalizada em uma situa\u00e7\u00e3o na qual os homens correspondem a 60,3% dos ingressantes, enquanto as candidatas mulheres n\u00e3o alcan\u00e7am a marca dos 40%. Este percentual chegou a ser atingido nos anos que registraram um volume elevado de contrata\u00e7\u00f5es (2003, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009, 2011 e 2012) e depois em 2019 (43%). Mesmo em 2008, ano que registrou o maior n\u00famero de contrata\u00e7\u00f5es por concurso p\u00fablico (1.008), a propor\u00e7\u00e3o de mulheres manteve-se em 42%. Um cen\u00e1rio que se encontra congelado por duas d\u00e9cadas, levando-se em conta as transforma\u00e7\u00f5es estruturais pelas quais tem passado a sociedade brasileira, revela um processo que tende a n\u00e3o se alterar sem que haja uma a\u00e7\u00e3o deliberada de est\u00edmulo. Neste caso, levando-se em considera\u00e7\u00e3o as realidades vividas em cada unidade, \u00e9 poss\u00edvel avan\u00e7ar no debate interno \u2013 se for o caso, envolvendo as demais universidades p\u00fablicas e o Legislativo paulista \u2013 sobre o estabelecimento de um percentual m\u00ednimo de ingresso de mulheres nas carreiras docentes acima da m\u00e9dia registrada, com o compromisso de progredir a cada ano para uma realidade em que homens e mulheres ocupem metade das posi\u00e7\u00f5es existentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Para obter a igualdade na progress\u00e3o das carreiras, seria igualmente importante estabelecer, em entendimento com as unidades, percentuais de g\u00eanero na composi\u00e7\u00e3o de bancas de defesa, eventos cient\u00edficos e atividades de pesquisa. Uma iniciativa pioneira foi recentemente adotada pela Faculdade de Direito que, por meio da Portaria 09\/2020, instituiu a participa\u00e7\u00e3o de pelo menos 25% de expositoras, debatedoras, mediadoras e oradoras nos eventos organizados por aquela institui\u00e7\u00e3o (Art. 2\u00ba). A amplia\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o das mulheres nas diversas modalidades acad\u00eamicas dever\u00e1 erigir-se em est\u00edmulo \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das desigualdades presentes na hierarquia da Universidade. De acordo com o levantamento j\u00e1 mencionado, a propor\u00e7\u00e3o de mulheres que chegam \u00e0 titulatura \u00e9 ainda mais reduzida, limitando-se a 30,6% do total ao longo de duas d\u00e9cadas. Esta propor\u00e7\u00e3o decresceu de maneira surpreendente nos anos recentes, pois em 2000, ainda que em um ano isolado, a presen\u00e7a de mulheres no topo da hierarquia chegou a 40%. Por fim, e n\u00e3o menos importante, \u00e9 necess\u00e1rio atuar na modifica\u00e7\u00e3o da atual propor\u00e7\u00e3o entre mulheres e homens em cargos de dire\u00e7\u00e3o, lideran\u00e7a e gest\u00e3o da Universidade. Dados coletados no Portal Ur\u00e2nia no in\u00edcio deste ano, acompanhados de verifica\u00e7\u00f5es complementares nos sites dos \u00f3rg\u00e3os de administra\u00e7\u00e3o da USP, revelam um panorama no qual 73% dos cargos de lideran\u00e7a s\u00e3o exercidos por homens, contra apenas 27% de presen\u00e7a feminina, n\u00fameros reveladores da desigualdade de oportunidades vigente na Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Quadros t\u00e9cnicos \u2013 Oportunidades iguais de realiza\u00e7\u00e3o profissional<\/h3>\n\n\n\n<p>Ainda que os dados existentes n\u00e3o permitam refletir com igual precis\u00e3o as realidades vividas pelos servidores n\u00e3o docentes da USP, compreende-se a necessidade de avan\u00e7ar em pol\u00edticas internas que possam redefinir as posi\u00e7\u00f5es de chefia e dire\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os t\u00e9cnico-administrativos. Em que pesem as desigualdades certamente existentes e persistentes, a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica tem sido um lugar historicamente promotor da igualdade de vencimentos entre os g\u00eaneros, no que diz respeito \u00e0 equipara\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios oferecidos para as mesmas fun\u00e7\u00f5es desempenhadas. Quest\u00e3o diversa \u00e9 tratar das desigualdades de recebimentos, em fun\u00e7\u00e3o das dificuldades de acesso aos cargos de chefia. O desafio da Universidade de S\u00e3o Paulo, como institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica de ensino superior, \u00e9 assegurar que a progress\u00e3o para posi\u00e7\u00f5es de gest\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o siga uma l\u00f3gica parit\u00e1ria entre homens e mulheres. Da mesma forma, reconhece-se a import\u00e2ncia de abrir um di\u00e1logo construtivo com os movimentos organizados dos servidores da Universidade no que diz respeito ao aprimoramento da rede de prote\u00e7\u00e3o social voltada ao cuidado dos filhos e \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade hoje existentes. Os dados j\u00e1 mencionados sobre a concess\u00e3o de licen\u00e7as-parentais registram uma grande ades\u00e3o por parte dos servidores do sexo masculino. Entre 2009 e 2019, 1.804 servidores do sexo masculino (49,2% sobre o total de benef\u00edcios concedidos) usufru\u00edram de alguma forma de licen\u00e7a-paternidade, 4 deles (0,11%) de licen\u00e7a-ado\u00e7\u00e3o, ao passo que 1.604 servidoras (43,78%) usufru\u00edram alguma modalidade de licen\u00e7a-maternidade e 26 delas (0,71%) de licen\u00e7a-ado\u00e7\u00e3o. Assim como em rela\u00e7\u00e3o aos docentes homens, a\u00e7\u00f5es de refor\u00e7o \u00e0 figura dos pais como correspons\u00e1veis pela cria\u00e7\u00e3o de seus filhos contribuir\u00e3o para desnaturalizar as divis\u00f5es sexuais do trabalho hoje dominantes.<\/p>\n\n\n\n<p>As quest\u00f5es aqui analisadas e as linhas de a\u00e7\u00e3o inicialmente intu\u00eddas fazem parte da agenda de promo\u00e7\u00e3o da igualdade de oportunidades entre todos aqueles que participam da vida universit\u00e1ria, em prol da supera\u00e7\u00e3o das distor\u00e7\u00f5es que teimam persistir, mesmo em um contexto crescentemente aberto ao acolhimento da pauta dos direitos. Para avan\u00e7ar, \u00e9 preciso ousar e estar \u00e0 altura do tempo. De maneira inquestion\u00e1vel, necess\u00e1rio se faz romper a cultura cristalizada da desigualdade em todas as suas manifesta\u00e7\u00f5es, que, ainda hoje, habita os cora\u00e7\u00f5es e as mentes da sociedade brasileira, e que reverbera no seio da nossa comunidade. Para tal empreitada \u00e9 preciso o igual engajamento de mulheres e homens. Como argumenta a sra. Phumzile Mlambo-Ngcuka, diretora executiva da ONU Mulheres, respons\u00e1vel pelo Movimento&nbsp;<em>HeForShe<\/em>&nbsp;\/ ElesPorElas do qual a USP faz parte: \u201cA ONU Mulheres inteira \u00e9 ElasPorElas, ou&nbsp;<em>SheForShe<\/em>, mas isso n\u00e3o \u00e9 o suficiente. O tamanho do problema nos mostra que temos que diversificar. N\u00f3s precisamos que os homens sejam parte da solu\u00e7\u00e3o porque \u00e9 preciso refletir masculinidades positivas\u201d. Propor mudan\u00e7as de rumo nesse assunto t\u00e3o sens\u00edvel \u00e0 conviv\u00eancia e \u00e0 sociabilidade acad\u00eamica tornar\u00e1 a Universidade de S\u00e3o Paulo uma institui\u00e7\u00e3o \u00e0 altura do seu tempo; abrir\u00e1 caminhos para que as novas gera\u00e7\u00f5es possam enfrentar os dilemas que pesam sobre n\u00f3s, no caminho inescap\u00e1vel de construir uma sociedade mais justa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Maria Arminda do Nascimento Arruda, diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH\/ USP) e coordenadora do&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":525,"featured_media":3058,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[111,35,20,135,137,134,14,61,138,67],"class_list":["post-3055","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","tag-elesporelas","tag-onumulheres","tag-8demarco","tag-ciencia","tag-engenharia","tag-equidade","tag-heforshe","tag-mulheres","tag-oportunidades-iguais","tag-stem"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/uspmulheres\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3055","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/uspmulheres\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/uspmulheres\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/uspmulheres\/wp-json\/wp\/v2\/users\/525"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/uspmulheres\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3055"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/uspmulheres\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3055\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3948,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/uspmulheres\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3055\/revisions\/3948"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/uspmulheres\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3058"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/uspmulheres\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3055"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/uspmulheres\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3055"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/uspmulheres\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3055"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}