Nesses últimos anos, a evolução das tecnologias de Inteligência Artificial, como aprendizado de máquina, processamento de linguagem e geração de imagens, redefine fronteiras entre produções humanas e artificiais. A questão aponta tanto para o humano quanto para a máquina: a máquina cada vez mais se humaniza, enquanto o humano parece cada vez mais um funcionário da máquina. Com o tema “TORNAR-SE HUMANO?”, o X-Reality USP, em sua edição de 2026, questiona o papel do audiovisual nesse contexto. Então, nós interrogamos: Como integrar humanos e máquinas para criar arte?

“Não está claro quem faz e quem é feito na relação entre o humano e a máquina. Não está claro o que é mente e o que é corpo em máquinas que funcionam de acordo com práticas de codificação. Na medida em que nos conhecemos tanto no discurso formal (por exemplo, na biologia) quanto na prática cotidiana (por exemplo, na economia doméstica do circuito integrado), descobrimo-nos como sendo ciborgues, híbridos, mosaicos, quimeras.” (HARAWAY, Donna. Manifesto Ciborgue. In: TADEU, Tomaz [org.]. Antropologia do Ciborgue: As Vertigens do Pós-Humano. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009, p. 91.)

As tecnologias de Realidades Expandidas (X-Realities ou XR) se mostram centrais ao permitir uma imersão intuitiva e acessível. No cruzamento entre criatividade humana e computacional, questionamos: A máquina torna-se humana? Aqui, meio e mensagem se fundem, criando uma experiência sensorial deslocada do cotidiano para conhecer a diferença, a alteridade, através da imersão, levando a uma segunda questão: O humano torna-se humano?

O futuro depende dessa fabulação, de “como-ses” e de ficções que criam “rotas de fuga” para reinventar realidades diante de um presente que por vezes se mostra perverso. A prática poética e técnica do grupo LabArteMídia inspira o X-REALITY USP, que em 2026 chega à sua quinta edição. O evento quer debater a complexidade e a dinâmica das expansões narrativas e linguagens dos habitats virtuais e imersivos, expandindo as fronteiras entre o real e o virtual.

As transformações da cultura digital produziram desafios em Pesquisa & Desenvolvimento e nos modelos de negócios do audiovisual. As inovações em VR (realidade virtual), AR (realidade aumentada), MR (realidade mista) e ambientes imersivos, englobadas na expressão X-Reality, apontam elementos para se pensar as práticas no audiovisual. Enquanto isso, empresas de tecnologia jogam nuvem de fumaça sobre os debates éticos, especialmente na coleta de dados que alimentam algoritmos, o que levanta preocupações relativas e a criação de vieses diante de uma potencial falta de ética na captação e filtragem desses dados.

Nesse contexto, a peculiaridade do X-Reality USP o coloca como um evento ímpar, uma vez que é um evento acadêmico que coloca o foco tanto nas tecnologias e nas demandas do mercado, quanto na produção de cultura e nas inovações e rupturas. Propõe-se o fomento dos debates contemporâneos sobre XR e as tecnologias que a ele se acoplam, sem deixar de lado o caráter econômico de seu modelo de negócios gerador de capital e de empregos. Desse modo, o tema desta edição de 2026, “Tornar-se Humano?” vem trazer o debate ético sobre a produção estética ao contexto do mercado.