Biografias
Os fatos biográficos da vida de um escritor são, muitas vezes, construídos, registrados e difundidos por uma memória coletiva. A escrita da Biografia colaborativa de Ana Cristina Cesar (1952 – 1983) parte da necessidade de organização e de registro de informações de cunho biográfico, com foco na formação intelectual da escritora, que pode ser facilmente acessada e atualizada por pesquisadores de Cesar.
O texto traz uma compilação de informações e de leituras sistematizadas pelo Prof. Dr. Michel Riaudel e de outros dados consultados em livros sobre a escritora. Trata-se de uma biografia aberta para inserção de novos dados (com investigação comprovada) e coletiva, uma vez que abrange a colaboração de outros interessados. Também é aberta porque abarca inserção de hiperlinks, conectando o texto principal com outros conteúdos, servindo de ponte para novas ideias.
A Biografia colaborativa de Ana Cristina Cesar está organizada em quatro décadas (anos 1950, 1960, 1970 e 1980) e a edição final do texto/ moderação é realizada pela pesquisadora Raquel Galvão.
1950
2 de junho de 1952
Nasce no Rio de Janeiro Ana Cristina Cruz Cesar, filha de Waldo Aranha Lenz Cesar (sociólogo) e Maria Luiza Cesar (professora). A família materna é metodista tradicional e a família paterna é presbiteriana, liberal e socialista.
1954
Ingressa na pré-escola do Colégio Benett (atual Colégio Metodista Benett).
1956
Começa a ditar poemas para a mãe.
A família tem uma residência secundária, uma fazenda, em Pedra Sonora (município de Resende, ao sul do Rio de Janeiro), onde vão regularmente.
Novembro de 1959
O Suplemento Literário da Tribuna da Imprensa publica seus primeiros poemas.
1960
1961
Escreve um poema feito das primeiras linhas dos sonetos de Camões. Anteriormente, ela adiciona algumas pequenas palavras pessoais aos textos do hinário presbiteriano.
Maria Luiza presenteia Ana com As aventuras de Huck de Mark Twain, com a dedicatória: “Para a minha ‘Carolina’ / Mamãe”.
1963
Ana Cristina Cesar recebe como presente Tal Dia é o Batizado (O romance de Tiradentes), de Gilberto de Alencar (1959), com a dedicatória “O 5° ano B oferece este livro à ACC, como recompensa das magníficas cartas escritas às colegas. Colégio Benett, 23-10-1963”, seguida pela assinatura de todas as colegas. Entre 1961 e 1963, a adolescente fundou e dirigiu o Jornal Juventude Infantil, um jornal escolar e familiar elogiado pela diretora da escola.
1964
Maria Luiza leciona literatura no Colégio Metodista Bennett, onde estão matriculados Ana (primeiro ginasial), Flávio (fim do primário) e Felipe (jardim de infância). Ana Cesar é transferida para o Colégio Estadual Amaro Cavalcanti (Largo do Machado).
Viaja para o Uruguai, para Montevidéu, de carro, com os pais e Flávio. Passam por Curitiba, Caxias do Sul, Porto Alegre, Pelotas, Chuí. Com a crise política, Waldo perde a direção da Confederação Evangélica do Brasil. Como representante da revista Cristianismo y Sociedad, ele faz, nos anos 60, alguns passeios de carro com a família para a América Latina.
Ana Cristina Cesar é muito ligada à sua tia materna Maria Cristina (Téia) e à sua avó Maria Luiza, para quem ela lê a Bíblia.
Escreve um conto com Manuel Bandeira como personagem. Maria Luiza, que foi aluna de Bandeira na Faculdade Nacional de Filosofia (atual UFRJ), envia-lhe. Ele responde com dois poemas manuscritos: “Debussy” e “Irene no céu”.
1966-1967
Após um breve período na Igreja Metodista do Catete, torna-se membro da Igreja Presbiteriana de Ipanema, onde é ativa entre os jovens e lidera o jornal mensal Comunidade (mimeografado). Produção escrita intensa.
1967
Último ano no Colégio Amaro Cavalcanti.
1968
Primeiro ano no curso clássico do Aplicação da Nacional (hoje Colégio de Aplicação – UFRJ). Momento de manifestações estudantis. Seu namorado Luiz Augusto Garcia Pereira é atingido por uma bala na perna (ele emigrará para a Alemanha, em setembro de 1969, na mesma viagem que leva Ana para a Inglaterra): “Eu andei na cabeça com esse menino (menino mesmo) 69, 70, 71… digamos bem uns três anos, e a sombra ficou mais tempo. Nós nunca trepamos.”, carta para Ana Cândida Perez, 5 de dezembro de 1976 (Correspondência Incompleta, p. 241).
14 de dezembro de 1968
Festa com ex-colegas do Amaro Cavalcanti. Ela responde corajosamente a uma invasão de agentes do Dops que vem atrás de seu pai (já preso uma vez). Entre 68 e 70, existem processos da ditadura contra Waldo Cesar, considerado um “agente da subversão internacional”.
Setembro de 1969 – junho de 1970
Primeira estadia na Inglaterra através de um programa de intercâmbio de adolescentes realizado por entidades protestantes, o International Christian Youth Exchange. Ela é acolhida em Londres por uma família protestante cujo pai é pastor. Estuda na County School for Girls, em Richmond. Recebe visita de seu pai em outubro de 1969. Realiza viagens passando por País de Gales, Irlanda do Norte e Irlanda. Momento no qual aprende uma certa relatividade dos valores.
1970
Julho de 1970
Participa de uma excursão pela Europa, passando por Roma, Florença e Milão. Depois por Nice, Cannes e Paris.
Agosto de 1970
Retorna por Amsterdã, Nova York e Boston
Segundo semestre de 1970
A família passa a residir na rua Toneleros.
Waldo Cesar torna-se diretor da revista Paz e Terra e uma das personalidades que fundou o Instituto de Estudos da Religião (ISER). Fundador também do Centro de Estudos, Pesquisa e Planejamento (CENPLA), ONG que fornecia assistência e avaliava projetos sociais no Brasil e na América Latina.
Último ano de Ana Cristina Cesar no ensino médio do Colégio de Aplicação da Faculdade Nacional de Filosofia.
Início de 1971
Presta vestibular para entrar na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro(PUC-RJ,Gávea), cujos professores são Affonso Romano de Sant’Anna, Luiz Costa Lima, Silviano Santiago, Clara Alvim (a partir de 72-73), Cacaso, Maria Cecília Fonseca (Londres), Heidrun Krieger, Vilma Arêas. O apartamento de Cacaso, na Avenida Atlântica, é um ponto de encontro social.
Entre seus colegas estão Geraldo Carneiro, Eudoro Augusto, João Carlos Pádua, Luis Olavo Fontes, Gustavo Krause (Bernardo), Flora Süssekind, Patrícia Birman…
Foi professora voluntária de português no Curso Antigo 99, na paróquia de Catumbi.
Agosto de 1971
Sua biblioteca reflete muitas leituras sobre o estruturalismo: Estruturalismo e teoria da linguagem (1971) do qual ela lê especialmente dois artigos, seguindo as abundantes anotações: Luiz Costa Lima, “Pressupostos do pensamento estruturalista”, e Milton José Pinto, “Elementos para uma teoria da interpretação semântica dos discursos”; Princípios de linguística geral, de J. Mattoso Camara Jr. (1954, o livro pertenceu à sua mãe, depois reatribuído a ACC, agosto de 71); e Estrutura da língua portuguesa, de Joaquim Mattoso Camara Jr. (1970).
1972
Durante as férias, realiza viagem de carro ao Paraguai com a família e Turismo em várias cidades. Breve viagem ao Maranhão de carro para o CENPLA (em uma equipe de pesquisa socioeconômico-religiosa). Passam por Feira de Santana, Juazeiro, Petrolina, Teresina, São Luís. Retorno por Fortaleza, Recife, Olinda e Salvador. Em julho de 1972, comprou em Belo Horizonte Sons and Lovers de D.H. Lawrence. Durante a viagem, lê D. H. Lawrence.
1973
Ensina português no Curso Guimarães Rosa.
Conhece Ana Candida Perez durante o curso de Milton José Pinto sobre o teatro de Nelson Rodrigues.
Frequenta o poeta Luis Olavo Fontes (o Lui dos poemas), muito popular, que faz a conexão entre PUC e UFRJ, Letras e Comunicação.
Viagem ao Nordeste para o CENPLA: Bahia, Pernambuco, Ceará, Maranhão. Entrevistas com pequenos proprietários sobre a implantação de “defensivos agrícolas”.
Novembro de 1973
Trabalho entregue à sua professora Vilma Areas e mimeografado para os estudantes da PUC: “Notas sobre a decomposição em ‘Os Lusíadas'”. Inspirado na leitura de “El Aleph” de Borges e em um texto crítico de Antônio José Saraiva intitulado “Notas sobre a composição de ‘Os Lusíadas'”. Assinado por Luiza Andrade. Publicado na revista Mimeo.
1974
Atua como monitora da professora e amiga Maria Cecília Fonseca Londres, de quem se aproxima. Ana Candida Perez é a outra monitora.
Fevereiro de 1974
Estadia em Brasília, onde traduz Du Sens, de Greimas, publicado pela editora Vozes em 1975.
1975
Intensifica a atividade como tradutora, intercalada com viagens pela América Latina. É a partir deste momento que Ana Cesar busca profissionalização: traduções, aulas no ensino médio (português, inglês) e jornalismo.
Meados de 1975
Obtém a licenciatura em Letras na PUC. Tenta formar uma frente contra o estruturalismo de Luiz Costa Lima.
Atua como professora de português em escolas secundárias e de inglês na Sociedade Brasileira de Cultura Inglesa, de 1974 a 1979, após ensinar inglês no Instituto de Cultura Anglo-Brasileira, de 1970 a 1974.
Clara Alvim apresenta Heloísa Buarque de Hollanda a ela, que a convida a participar da coletânea 26 Poetas Hoje.
Tem como amiga e aliada Sonia Palhares, da UFRJ (que mora em uma casa na Rua Candido Mendes, na subida de Santa Teresa, local de encontro entre universidade, cultura alternativa e política). Sem inibições, muito extrovertida, muito liberta, ela é um modelo para ACC. Mais tarde, Sonia se casará com um prisioneiro político anistiado, Alex Polari, e se tornarão líderes da comunidade do Santo Daime em Mauá. Com ela, questões provocativas em um debate sobre literatura organizado pelo Teatro Casa Grande (parte de uma série de debates organizados pelo Opinião). Criticam Antônio Houaiss por estar preso a uma concepção mimética da relação literatura-realidade.
12 de dezembro de 1975
Colabora com o polêmico “Os professores contra a parede” no Opinião, jornal dirigido a partir de março de 1975 por Argemiro Ferreira, que dá mais liberdade a Julio Cesar Montenegro, responsável pela seção Tendências e Cultura.
Dezembro de 1975
Poemas selecionados para o primeiro número de Malasartes por Bernardo Vilhena e Eudoro Augusto (“Vigília II” e “Olho muito tempo o corpo de um poema”). Também aparece duas vezes na Revista José.
1976
Lê a poesia de Mário de Andrade.
Dá aulas de português um dia por semana no Sousa Leão, com Patrícia Birman. E na escola estadual do Rio de Janeiro para a qual prestou concurso.
Pequenos trabalhos: traduções, enciclopédias, digitação… Fase de profissionalização, em busca de autonomia financeira.
Estuda Antonio Candido com Heloisa, Cacaso, Sônia Palhares.
Projeto de estudar A origem do drama barroco alemão, de Walter Benjamin, cujo grupo procura uma edição legível.
Assiste a The Great Dictator, de Charles Chaplin, The Hurricane, de John Ford, Alphaville, de Godard, Citizen Kane, de Orson Welles, pela terceira vez, e desenhos animados de Betty Boop,
Lê Capitale de la douleur, de Paul Éluard.
Fevereiro de 1976
Publica “Quatro posições para ler”, no Opinião.
Final de abril de 1976
Entrega as traduções de Sylvia Plath, trabalhadas com Ana Candida Perez, para a antologia Quingumbo. Leu o artigo “Musa Morena e moça” de José Guilherme Merquior (meados de abril).
Início de maio de 1976
Realiza a leitura de Quincas Borba, de Machado de Assis” e de uma conferência de Freud, “A angústia e a vida instintual”. Lê Faces ocultas, um romance de Salvador Dali, para fazer uma crítica.
Junho de 1976
Começa a dar aulas de inglês no Colégio Estadual Amaro Cavalcanti, esperando também dar aulas de português em breve.
Assiste A Lição de amor, de Eduardo Escorel, adaptação de Amar, verbo intransitivo, Não aprecia o fime Um estranho no ninho.
Traduz o El Tarot, o la máquina de imaginar, Alberto Cousté e recebe um disco de Satie com as Gymnopédies.
15 de junho de 1976
Lançamento de 26 Poetas Hoje, organizado por Heloísa Buarque de Hollanda, Rio de Janeiro, Editora Labor. Ana Cesar será posteriormente consultora do Conselho editorial da editora.
Leitura dos ensaios de Mário de Andrade e de Adélia Prado. Participa do “lançamento” da antologia no Parque Lage.
25 de junho de 1976
Publica “Nove bocas da nova musa”, em Opinião. Crítica dos números 42-43 de Tempo brasileiro.
Agosto de 1976
Participa de “Debate: Poesia hoje”, com Heloísa Buarque de Hollanda, Ana Cristina Cesar, Geraldo Eduardo Carneiro, Eudoro Augusto, José, nº 2, Rio de Janeiro, pp. 3-9
10 de setembro de 1976
Publica “Para conseguir suportar essa tonteira”, entrevista com Carlos Sussekind, no Opinião.
Setembro de 1976
Nesta época ACC publica seus fragmentos de diários íntimos. Lê Kerouac (Chorus), uma antologia da poesia beat, aparentemente, Ferlinghetti, Michel Mc Clure.
Assiste Grupo de família no interior, de Visconti, que não gosta. Vê “Morte em Veneza”, e gosta muito, além de “Roma” de Fellini, e “1900”. Por outro lado, não curte muito “Eu Te Amo, Eu Te Amo”, de Alain Resnais).
Outubro de 1976
“Nada, esta espuma”, “Enciclopédia”, “Casablanca”, na revista José, nº 4, Rio de Janeiro. Deve colaborar regularmente com o novo “Suplemento do Livro” dominical do Jornal do Brasil, aparentemente dirigido por Cacaso, que a integra à sua equipe. Primeira resenha: Tennessee Williams.
22 de outubro de 1976
Publica “Um livro cinematográfico e um filme literário”, no Opinião. Projeto de inscrição na Unicamp, mas desiste. Em Campinas, assiste o filme Dona Flor.
Início de dezembro
O editor do Suplemento do Livro do JB lhe entrega um artigo corrigido que ela escreveu sobre Abel Silva.
Meados de dezembro
Prepara um exame para janeiro, para o mestrado da PUC: comentar “A Máquina do Mundo”, de Drummond, “A Terceira Margem do Rio”, de João Guimarães Rosa, um trecho de “Literatura e subdesenvolvimento”, de Antonio Candido (em Argumento nº 1) e de “Instinto de nacionalidade”, de Machado de Assis.
21 de janeiro de 1977
Publica “De suspensório e dentadura”, no Opinião.
Fevereiro de 1977
Viagem a Brasília e à Argentina, passando por Porto Alegre, Buenos Aires e Bariloche com Ítalo Moriconi.
Tentativa de mestrado na PUC frustradas pelo indeferimento de seu pedido de bolsa. Não termina as aulas do primeiro semestre, incluindo uma de Silviano Santiago sobre memorialismo.
Trabalha três noites por semana em uma escola estadual (Amaro Cavalcanti, 14 aulas), e no Sousa Leão.
22 de março de 1977
Assiste a O Dia se Levanta, de Marcel Carné, na Aliança Francesa. Manifesta o desejo de estudar a Escola de Frankfurt.
25 de março de 1977
Publica “O poeta fora da república”, no Opinião, com Ítalo Moriconi.
Fim do jornal, por dissensões internas, Gasparian censurando críticas de algumas personalidades de esquerda (Callado, Houaiss, Werneck) e temas como sexualidade.
30 de abril de 1977
“O poeta é um fingidor” é publicado no Jornal do Brasil.
Desde o início de abril, participou das reuniões de preparação para o Beijo, juntamente com Cacaso e Júlio César Montenegro. Gradualmente, a preparação se organizou em pequenos grupos. O grupo ao qual ACC pertencia (desde o final de junho) incluía Ronaldo Brito, Patinho, Waltércio Caldas, Ítalo Moriconi, Júlio César Montenegro.
21 de maio de 1977
Em uma carta para Ana Candida Perez, menciona ter lido uma biografia de Virgina Woolf.
14 de julho de 1977
Começa a ler Tropic of Cancer, de Henry Miller.
Ana Cesar deixa o Beijo antes mesmo do lançamento do primeiro número. Ela vai se dedicar a uma pesquisa financiada sobre cinema documentário e literatura (com bolsa da Funarte). Isso segue a linha de sua orientadora de mestrado, Heloisa Buarque de Hollanda, que fez seu mestrado sobre a adaptação de Macunaíma por Joaquim Pedro de Andrade.
Novembro de 1977
Lançamento do Beijo, no qual é publicado “Malditos, marginais, hereges”, um ataque direto ao neonaturalismo populista. Sete números são publicados até junho de 1978. Também faziam parte da aventura José Castello, com Ítalo Moriconi, Júlio Cesar Montenegro, Genilson Cezar, Wilson Coutinho, Ditter Stein, Ricardo Arnt, Marcos Augusto Gonçalves, etc.
Início de maio de 1978
Recebe uma bolsa do Rotary para ir para a Inglaterra em setembro de 1979. Boas mensalidades, em troca de algumas palestras sobre o Brasil de vez em quando. Fica indecisa entre uma “Escola de Estudos Comparados com programas uspianos”, na Universidade de Essex, campus moderno, ou um Instituto de Estudos Latino-Americanos, em Londres.
Escreve um artigo para a Almanaque sobre Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa. Será publicado no ano seguinte.
Agosto de 1978
Finaliza o Mestrado em Comunicação na UFRJ, Literatura não é documento, o manuscrito é entregue à Funarte no final de novembro.
26 de novembro de 1978
Assiste a uma adaptação teatral de Triste fim de Policarpo Quaresma.
Novembro de 1978
Concede entrevista para a pesquisa Retrato de Época, de Carlos Alberto Messeder Pereira.
1978-1979
Ano novo em Búzios, na casa de Heloisa Buarque de Hollanda.
Junho-julho de 1979
Publica Cenas de Abril (“pode ser lido como um livro de catarse da adolescência”, IM, 28).
Agosto de 1979
Publica Correspondência completa.
Final de setembro de 1979
Intercâmbio para a Inglaterra para um Mestrado em Artes em Tradução Literária com uma bolsa da Rotary Foundation. Fim de setembro em Londres, por uma semana, na casa de sua amiga Jennifer Jones, poeta, casada com um artista.
1º de outubro de 1979
Chegada a Colchester. Arranja seu apartamento, tem como vizinhos um sírio e um italiano. O campus é imenso, universidade marxista, moderna,
Assistiu a um filme de Sherlock Holmes na televisão.
Durante outubro
Conhece um brasileiro que estuda terapia bioenergética, cuja esposa está em Bruxelas. Mimada pelo irmão de Affonso Romano, diretor da Interbrás: Carlos Sant’Anna.
Conhece Maria Elena Brito, amiga de Helô Buarque, Chico Alvim, Clara Alvim, psicanalista brasileira que mora em Londres (Hampstead) há seis anos, mas nunca teve um amigo inglês. Ela frequentemente fica na casa dela, dormindo no “divã” de análise. Através dela, conhece o “gueto de analistas brasileiros em Londres” e Monica Laport.
Após uma semana, muda de direção. Deixa o curso de sociologia da literatura, muito marxista, para “teoria e prática da tradução literária”. Conhece Anthony Barnett, poeta local, em um pub.
Assiste ao Le Petit Théâtre de Jean Renoir, na televisão.
Fim de novembro
Lê Anaïs Nin, além de Ezra Pound e Octávio Paz para o curso.
Dezembro de 1979
Viaja para Roma, onde encontra Waldo que retorna ao Rio em 20 de dezembro. Fica Hospedada com dominicanas.
Waldo leva para ela: Almanaque nº 10, com seu artigo “Literatura e mulher: essa palavra de luxo” sobre duas antologias de Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa. Lê Fernando Gabeira, entusiasmada.
Passa o Ano Novo em Florença (depois cidades do campo, medievais, Milão) com Giovanni, um italiano com ar de terrorista, marxista, que faz um PhD em economia em Brighton, e tem um velho Citroën.
1980
5 de janeiro
Passa cerca de dez dias em Paris na casa de Beth, uma amiga que ela conheceu através de Helô e que tem um apartamento na Île Saint-Louis.
Fim de janeiro-começo de fevereiro
Ana Cesar compartilha seu processo de escrita com Ana Cândida Perez, mencionando que o romance que começou em Roma acabou se misturando à loucura parisiense. Volta ao diário íntimo, onde se sente mais confortável e enraizada em suas próprias memórias e experiências locais.
Expressa sua hesitação em relação à carreira de escritor, apesar de estar escrevendo mais do que nunca, agora que tem estabilidade financeira e seu próprio espaço. Também comenta sobre o curso de tradução, que está indo bem sem nenhum problema significativo, e menciona seu interesse pelos poetas metafísicos e sua impaciência ao estudá-los. Cesar relata sua leitura do livro Actuel, a autobiografia de W. C. Williams, e como isso inspirou até mesmo um ensaio semi-autobiográfico que ela escreveu sobre a elegia de John Donne, que Caetano canta. Menciona também sua leitura sobre os poetas metafísicos, sua impaciência ao folhear os livros da biblioteca e como ela se sente ao observar a vista do parque e do lago com patos. A pesquisadora também pergunta para Ana Cândida se ela tem o livro de pensamentos de Jim Morrison e American Prayer, indicando seu interesse em lê-los (Correspondência Incompleta, p. 272).
Fevereiro
Recebe Cinema transcendental de Caetano em K7 e redige seu ensaio “Pensamentos sublimes…” que enviou para Helô no dia 14 de fevereiro. Na carta para Heloisa Buarque do dia 24 de março, descobrimos que Alguma poesia vai publicá-lo, mas ele só no número de abril a junho de 1985.
Leu Lolita, de Nabokov.
Intensa produção ensaística. Escrita de cinco artigos sobre tradução literária em Essex.
Férias de Páscoa
Viaja para Paris. onde fica três dias na casa de João Almino e Bia Wouk. Muda de visual.
Ana Cesar realiza uma sessão de fotos com João Almino, publicadas em Correspondência Incompleta.
Início de maio de 1980
Retorna para Londres.
Meados de maio
As aulas praticamente acabaram. Fica para escrever os trabalhos para a tese. Ela tem até 30 de setembro.
29 de maio de 1980
Carta para Ana Candida Perez relata que leu a biografia de KM por LM (Correspondência incompleta, p. 282-283)
Fim de maio-início de junho
Traduz “Bliss” de Katherine Mansfield. Pergunta a Heloisa se existem traduções de Mansfield no Brasil e pede os endereços de revistas de contos para vender sua tradução
Meados de junho
Planeja descer para a Espanha, passando pela França, de moto. Começa a namorar o Chris.
Assiste Je tu il elle e Les rendez-vous d’Anna, de Chantal Ackerman.
Lê A via crucis do corpo, de Clarice Lispector
25 de junho
Assiste An American in Paris, de Vicente Minelli
26 de junho
Vai a Cambridge com Chris. Compra duas obras de Kaváfis, e outras de Beardley, Laforgue, Woolf, Klimt e Paul Klee.
27 de junho
Em Londres, assiste ao concerto do Fleetwood Mac com Chris. Envia um poema de Maurice Maeterlinck para Ana Cândida Perez.
28 de junho
Após o término das aulas em Colchester, vai compartilhar uma casa com dois ingleses em Portsmouth. Mas, desde o primeiro dia, ela percebe um erro: não gosta do papel de parede florido de seu quarto, tem a sensação de ser uma convidada, sente falta de Chris, a casa está em um lugar sinistro
Em uma carta para seu pai datada de 27 de agosto, menciona um projeto de viagem à Espanha com Chris e específica: “Também estou fazendo um livrinho que por enquanto tem o nome absurdo de ‘Edição Autorizada do Caderno de Viagem de Querida’. Vai ser outro problema familiar, é bem impróprio – mas todo PROSA mesmo, ou poesia disfarçada de prosa, ou diário com ritmo obsessivo na cabeça.”, citado por Maria Lúcia de Barros Camargo, em sua tese.
Meio de setembro
Projeta as impressões dos seus livros na Inglaterra.
16 de setembro
Viaja de Ferry para a Espanha, com Chris, em lua de mel. Passa a semana em Barcelona. Retorna via Paris.
Início de outubro
De volta à Inglaterra, realiza levantamento de livros de mulheres.
Durante outubro
Termina a tese sobre sobre Katherine Mansfield e inicia a impressão do livro Luvas de Pelica, do qual cuidou do projeto gráfico.
Vê Sauve qui peut la vie, de Godard.
28 de novembro
Planeja ministrar um curso sobre a questão feminina.
Dezembro de 1980
Termina o namoro com Chris.
Recebe o título de Mestre em Artes em teoria da tradução (Teoria e Prática da Tradução Literária. Universidade de Essex). Então parte para uma viagem pela Europa: França, Itália, Espanha e Países Baixos.
Janeiro de 1981
Retorno ao Brasil.
Lançamento de Luvas de pelica, impresso na Inglaterra mas editado no Brasil na “Coleção Capricho” (que também publicou Francisco Alvim, Afonso Henriques Neto, Pedro Lage, Luis Olavo Fontes, Ledusha, Eudoro Augusto, Carlos Saldanha. Cf. artigo na Veja de 20 de maio de 1981, por Antônio Carlos Brito).
Longas conversas com Armando Freitas Filho. Projeto de Meios de Transporte que se torna A teus pés, emprestado de um dos poemas do recolhimento 3 x 4 de Armando.
Personalidade marcada pela leitura de Fragmentos de um discurso amoroso.
Abril de 1981 – setembro de 1982
Escreve na Veja, Isto É, Leia livros (dirigido por Caio F.), Folhetim. Várias viagens a São Paulo onde ela queria se estabelecer. No total, publica doze críticas, um ensaio (“Riocorrente, depois de Eva e Adão…”, no Folhetim, 12-9-82, com o pretexto da poesia de Angela Melim) e o prefácio de Longa vida, recolhimento de poemas de Armando Freitas Filho.
4 de setembro de 1981
Lançamento de Cenas de Abril e Correspondência Completa, na livraria de Angela Melim, Noa Noa (Noa Noa Livros e objetos de Artes ltda), Shopping Cassino Atlântica, Rio de Janeiro, simultaneamente a uma exposição coletiva e a um recital de Nuvem Cigana (Chacal, Charles, Bernardo Vilhena e Ronaldo Santos).
1982
Trabalha na Globo como leitora de folhetins para a televisão, compartilhando um escritório com Angela Carneiro a partir de março de 1982, em um departamento criado pelo poeta Homero Icaza Sanchez.
Traduz vários poetas poloneses com Grazyna Drabik, incluindo o futuro Prêmio Nobel Wyslava Szymborska (1996), Czeslaw Milosz, Eva Lieska, Ana Kamieska, Ryszard Kunicki. Publicados parcialmente em A Polônia – O Partido, a igreja e a sociedade e na revista Religião e sociedade (ambos editados pelo Iser).
1982-1983
Amizade com Caio Fernando Abreu (a primeira carta de Ana Cesar para Caio F. é datada de 24 de janeiro de 1982). Eles se encontram nos fins de semana em São Paulo, saem com Reinaldo Moraes e Maria Emília Bender. E Mário Prata, conforme afirmado por ele mesmo em seu artigo de 2 de agosto de 1995. Se instala no Hotel Santa Teresa no Rio, para ficar perto dela. Também têm uma amiga em comum, a astróloga Graça Medeiros.
Fim de 1982
Participa de recitais de poesia com Grazyna Drabik, esposa de seu primo Rubem Cesar Fernandes, no bar Barbas, de Nelson Rodrigues Filho, em Botafogo. Prepara o lançamento de seu livro pela Brasiliense. Interessa-se cada vez mais pela astrologia e pelos horóscopos, como evidenciado pela carta de 26 de fevereiro de 1982, endereçada a Caio Fernando Abreu.
Reside uma temporada na Gávea, antes de prever uma mudança para um apartamento no Horto, que nunca realmente ocupa, preferindo o quarto na rua Toneleros.
Estuda César Vallejo, Carlos de Oliveira, Roberto Piva, o “fundamental Rimbaud”, e considera ler Heart of Darkness de Conrad (cf. carta para CFAbreu de 17-11-82). Está lendo Proust e em uma fase em que decidiu ler os clássicos.
Dezembro de 1982
Publicada a primeira edição de A teus pés pela editora brasiliense de São Paulo. Uma segunda edição é lançada no início de 1983.
Fevereiro de 1983
Vai para o Chile (Viña del Mar, Valparaíso, Horcones), onde seus pais moram. Waldo trabalha lá como representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.
Meados de agosto de 1983
Prepara um curso de extensão em tradução literária na PUC-RIO, mas nenhum aluno se inscreve. O curso é cancelado.
Fim de agosto de 1983
Jantar com Ítalo Moriconi no Restaurante Real na Praia do Leme.
Setembro de 1983
Passa algum tempo com Caio Fernando Abreu e Graça Medeiros.
Outubro de 1983
Fica internada em uma clínica de Botafogo por cerca de vinte dias, em um tratamento tradicional para depressão.
29 de outubro de 1983
Falecimento de Ana Cristina Cesar. É enterrada com a bandeira do Bennett, seu primeiro colégio.