O projeto temático “Uma história conectada do Mediterrâneo medieval” tem como principal objetivo analisar a articulação entre espaços e comunidades no Mediterrâneo medieval por meio de fenômenos de comunicação e de circulação que tiveram esse mar como eixo. O marco espacial do Projeto é o Mediterrâneo e seus espaços conectados, da África Saariana ao Norte da Europa, da Península Ibérica ao Oriente árabe-bizantino. O marco cronológico se situa entre o final da hegemonia romana no Mediterrâneo, no século V, e a Primeira Globalização, no século XVII, quando as monarquias cristãs do Ocidente da Europa projetam o seu poder além do espaço mediterrânico.
O que é um Projeto Temático?
A modalidade de fomento a Projetos Temáticos destina-se a apoiar, por até cinco anos, projetos de pesquisa com objetivos ousados e abrangentes. A equipe é, em geral, composta por pesquisadores de diversas áreas, institutos e departamentos, visando à obtenção de resultados de alto impacto no avanço da fronteira do conhecimento científico ou tecnológico.
A história do Mediterrâneo medieval ainda não foi assimilada à lógica narrativa da história da Idade Média. Na perspectiva da História Nacional, o Mediterrâneo aparece essencialmente como uma fronteira, uma barreira intransponível para o comércio internacional, especialmente a partir do século VIII, e o lugar de confronto entre cristãos latinos e gregos, entre os próprios cristãos latinos e, acima de tudo, entre cristãos e muçulmanos. Esse Mediterrâneo é o resultado do apagamento da diversidade dentro das comunidades que o compunham e da exageração das diferenças entre elas. Os estudos específicos que têm sido feitos nos últimos anos apontam para a importância que a integração do mar Mediterrâneo terá sobre a abordagem de tópicos fundamentais da história política, econômica e cultural.
A proposição de um quadro histórico geral, portanto, se faz necessária, tendo em vista a relevância do mesmo para a reconfiguração da ideia de Idade Média e para o enquadramento do conjunto das pesquisas específicas do Projeto Temático, garantindo critérios para o diálogo entre elas. A metodologia da História Conectada ajuda a resolver o problema criado pelos arquivos nacionais, que é o da compartimentação de documentos que não foram produzidos segundo uma lógica nacional. A História Conectada se constitui como um método de análise das sociedades no tempo. Seu objetivo, como afirmam Caroline Douki e Philippe Minard, é quebrar as compartimentações das histórias nacionais e dos espaços culturais, de forma a salientar a interação entre o local, o regional e o suprarregional. Essa metodologia permite restabelecer as conexões que as redes documentais possuíam originalmente e que foram suprimidas pela interferência da lógica da organização dos arquivos nacionais. É preciso lembrar que as fronteiras políticas só passaram a ser vistas como impermeáveis graças à adoção de uma perspectiva de análise centrada nas nações. Nesse sentido, a História Conectada recusa a fragmentação historiográfica e as compartimentações disciplinares: ela pretende mobilizar todas as disciplinas.
Deve-se deixar claro que o “conectado”, no entanto, não é sinônimo de “total”, ou seja, uma História Conectada da Idade Média não corresponde a uma grande narrativa da história europeia que vai do século IV ao século XVII. Privilegiamos neste projeto os processos de comunicação e de circulação que articularam espaços e comunidades em torno do Mediterrâneo. Também entendemos que uma História Conectada da Idade Média não pode ser conduzida a partir de temáticas ou de eixos de análise que derivam de uma abordagem puramente eurocêntrica do período (por exemplo, a emergência do Estado Moderno ou a expansão da Cristandade), ainda que esses fenômenos continuem a ser objeto de estudo. Além disso, a História Conectada não significa apenas a combinação de escalas de diversos níveis. A incorporação da climatologia, da arqueologia, da demografia permite estabelecer comparações, relações que ultrapassem os contextos cronológicos e geográficos tradicionais e compreender como as circulações de ideias, de artefatos e de mercadorias (mas também os conflitos, a fome e a peste) conectaram os espaços eurasiano e africano. Seja pelo amplo escopo cronológico, seja pelo escopo geográfico, uma pesquisa que versa sobre Idade Média e História Conectada deve estar atenta ao impacto dos grupos humanos sobre o meio ambiente, mas também ao impacto do meio ambiente sobre os grupos humanos – sem, naturalmente, adotar as perspectivas deterministas que marcaram uma primeira etapa do pensamento geográfico. A história conectada da Idade Média que propomos aqui tem três focos, cuja combinação reforça o caráter inovador do Projeto. Um foco clássico, que respeita as relações continentais, porém, renovado pela reconsideração da extensão e dos limites dessas relações para além da esfera nacional. Um foco mediterrânico, que procura resgatar esse “território líquido” e as formas de integração entre as suas margens, inventariando seus objetos e dinâmicas no tempo. E, por fim, um que aponte as conexões entre o foco mediterrânico e o continental.
O Projeto se articula em torno de três núcleos temáticos – “Espaço e comunidades”, “Comunicação e Circulação” e “Espaço e Circulação” – e um núcleo operacional, “História Conectada e Métodos Digitais”. Os membros da equipe estão divididos entre os três núcleos temáticos, segundo a aderência dos projetos individuais. Além disso, todos os membros da equipe participarão do núcleo operacional.
Pretende-se atender a dois imperativos principais, a inovação e a formação de quadros. A inovação concerne, por um lado, o ineditismo da pesquisa e da abordagem que propomos aqui, baseada na metodologia da História Conectada; por outro, ela está vinculada ao emprego das Humanidades Digitais como ferramenta para o desenvolvimento das pesquisas e para a formação de quadros. No que se refere à formação de quadros, nosso foco não é apenas o Ensino Superior, mas também o Ensino Fundamental e o Ensino Médio (destinos de um número cada vez maior de doutores).
Entre os resultados esperados com o andamento do Projeto Temático, estão a publicação das pesquisas desenvolvidas em seu âmbito. Para tanto, tem-se em vista a publicação de 7 grandes conjuntos articulados de trabalho, sendo 3 livros e 4 dossiês temáticos (dois deles em periódicos internacionais) durante a vigência do projeto. Os temas, naturalmente, expressam as preocupações dos especialistas envolvidos, como as experiências ambientais, as trocas mercantis, ou a relação entre Idade Média e as novas tecnologias, mas não se limitam a eles. A intenção é que as publicações sejam feitas em múltiplas formas de mídia, sejam elas físicas ou digitais (e-books, por exemplo).
Também é esperado a criação de um atlas interativo capaz de congregar as diferentes formas de conexão, pacíficas ou conflituosas, no Mediterrâneo do período medieval, a partir dos dados obtidos pelos três eixos de investigação elencados na proposta. Entende-se que a elaboração de mapas tem como benefício oferecer uma visão de conjunto da História Conectada do Mediterrâneo, proporcionando assim: a) facilitar a pesquisa de forma interconectada entre especialistas de diferentes épocas e espaços, utilizando a ferramenta digital para apontar e encorajar possíveis diálogos acadêmicos; e b) prover um modelo espacial, acessível à consulta, que evidencie o caráter interconectado e global dos problemas de pesquisa estudados. O atlas interativo das contribuições será construído a partir da plataforma Multimapas, desenvolvida por pesquisadores do “Center for Artificial Intelligence” (C4AI – http://c4ai.inova.usp.br), sediado no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP).
Em adição à produção de material para divulgação científica, o Projeto também terá como um resultado esperado o desenvolvimento de jogos (digitais e analógicos) relacionados às suas linhas de investigação. A ideia é que os jogos produzidos no seio do Projeto Temático contribuam de forma direta e indireta à própria produção do conhecimento, traduzindo explicações históricas em modelos interativos que podem ser experimentados, questionados e desafiados por outros pesquisadores e entusiastas, inserindo o Projeto Temático na linha de frente da pesquisa em história pública e humanidades digitais. Os jogos serão feitos para atender às necessidades de pesquisa dos membros do Temático. Uma vez concluídos, serão lançados para o público geral, mirando professores de ensino secundário, acompanhados de guias didáticos adequados à BNCC.
Outro objetivo do projeto referente ao campo das mídias digitais é o desenvolvimento de um aplicativo web que contribua para a formação de pesquisadores de todos os níveis, de graduandos a doutorandos, que auxilie o jovem pesquisador a conhecer e utilizar as ferramentas digitais mais adequadas ao seu projeto. A partir de um banco de dados que já foi criado e estruturado, o estudante/pesquisador poderá fazer um levantamento das ferramentas existentes utilizando as seguintes categorias: tipo, tema, língua, região, período. Dessa forma, esperamos que a construção desse aplicativo web tenha um impacto positivo na formação e na qualificação dos alunos de Graduação e de Pós-Graduação. Além disso, pretendemos criar um modelo para desenvolvimento de projetos similares no futuro.
Além disso, prevê-se durante a vigência do projeto oficinas de formação para seus membros preparando-os para as novas exigências de suas áreas de atuação. Nessas oficinas, serão ensinadas a utilização de (mas não estão restritos a): i) Ferramentas de gerenciamento bibliográfico (e.g. Zotero) para otimizar a produção acadêmica e facilitar o compartilhamento de referências; ii) Softwares de modelagem espacial e georreferenciamento (e.g.: QGIS, Recogito) para criação de mapas (tradicionais e interativos), organização espacial de dados, associação de mapas a bases de metadados e criação de ferramentas para pesquisas comuns entre arqueólogos e historiadores; iii) Interfaces gráficas (GUI) para modelagem de redes sociais (ex: Pajek); iv) Linguagens de programação (e.g.: R, NetLogo) que permitirão aos pesquisadores utilizar as funções mais avançadas das ferramentas utilizadas no Projeto Temático; v) Ferramentas e estratégias de comunicação em redes sociais (YouTube, Instagram, Facebook, Twitter, TikTok entre outros); vi) Modelagem 3D para a produção de peças de jogos históricos e reprodução de artefatos arqueológicos.
Também pretende-se organizar três cursos de pós-graduação em rede, cada um deles com a temática de um dos eixos de investigação, reunindo as instituições vinculadas ao Projeto Temático: 1) Experiências ambientais, vulnerabilidade e resiliência no Mediterrâneo medieval (Coordenação: Marcelo Cândido da Silva e Néri de Barros Almeida); 2) Etimologias: do manuscrito ao hipertexto (Coordenação: Ana Paula Torres Megiani e Maria Cristina Correia Leandro Pereira); 3) Trocas e conexões no Mediterrâneo medieval (Coordenação: Flavia Galli Tatsch e Fabiano Fernandes). Os coordenadores ficarão responsáveis por propor e organizar os módulos do curso, credenciar os cursos e providenciar a sua transmissão para as instituições dos pesquisadores principais e dos pesquisadores associados ao Projeto. Esse formato, além de permitir a participação de pesquisadores de outras instituições que não a instituição que sediará o curso, tem a vantagem de suprimir os custos com passagens e diárias.
Por fim, ao final do período de vigência do Projeto Temático, os membros da equipe publicarão o livro coletivo Uma História Conectada do Mediterrâneo medieval, cujo objetivo é apresentar, em uma obra de síntese, os principais resultados da pesquisa. Essa obra contribuirá para a renovação historiográfica dessa área de estudos no Brasil, além de fornecer material para a capacitação de professores do Ensino Básico. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), no Ensino Fundamental, define como um dos objetos de conhecimento para a área de História o Mediterrâneo como espaço de interação entre as sociedades da Europa, da África e do Oriente Médio. Esse objeto está reunido na habilidade EF06HI15, “Descrever as dinâmicas de circulação de pessoas, produtos e culturas no Mediterrâneo e seu significado”. Além disso, no Ensino Médio, essa visão conectada da História também se faz presente nas competências específicas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, especialmente nas habilidades EM13CHS101 e EM13CHS104.