Marcelo Cândido da Silva
Crises ambientais, pobreza e fome no Mediterrâneo (séculos VIII-XI)
Eixo: Espaço e Comunidades/Métodos Digitais
Resumo do projeto individual: A bacia do Mediterrâneo foi atingida, ao longo de toda a Alta Idade Média, por crises alimentares cujo alcance geográfico não correspondia às fronteiras políticas ou culturais da região. Os textos escritos do período associam frequentemente tais crises aos fenômenos climáticos (seca, inundações, invernos rigorosos etc.). Nos últimos anos, no entanto, os historiadores têm chamado a atenção para a importância de fatores sócio-políticos, como a pobreza e as hierarquias sociais, para se entender o fenômeno da fome. Todavia, a questão do peso relativo dos fatores ambientais e dos fatores políticos na explicação da fome permanece em aberto para o mundo pós-romano. A documentação escrita está repleta de menções a fenômenos climáticos e à pobreza, bem como às respostas à crise; nos relatórios de escavação, temos dados preciosos sobre as hierarquias sociais e as condições de vida das elites e das populações subalternas; finalmente, os proxies climáticos fornecem um quadro de um detalhamento inédito das experiências ambientais do período. A análise em conjunto desses dados, sobretudo no que se refere à Gália, à Península Itálica e à Península Ibérica entre os séculos VIII e XI, nos ajudará a compreender o quadro de resiliência e de vulnerabilidade das sociedades mediterrânicas diante da fome. Este projeto pretende: a) cotejar as referências à fome e aos fenômenos climáticos presentes nas crônicas, anais, histórias, epístolas e hagiografias do período com informações oriundas dos enterramentos e da climatologia; b) traçar, a partir do cruzamento de dados fornecidos pelos relatos escritos, pela arqueologia funerária e pela paleoclimatologia, um panorama das diferentes condições de distribuição e de acesso aos gêneros alimentícios; c) identificar os diferentes tipos de reações às crises alimentares, levando em conta a identidade de seus agentes promotores, sua origem geográfica, suas práticas de gestão.
Ana Paula Torres Megiani
Cultura escrita em perspectiva global: a circulação de notícias entre o Mediterrâneo e o mundo ibérico. Sécs. XV-XVII
Eixo: Comunicação e Circulação
Resumo do projeto individual: Este projeto tem por objetivo refletir acerca da circulação de notícias – impressas e/ou manuscritas – entre Portugal e Espanha e seus vastos domínios, durante os séculos XV e XVII. As notícias que circularam em formas de Relaciones de Sucesos, Anais, Gazetas, Mercúrios e outras, foram responsáveis pela construção de um conjunto de representações dos poderes constituídos e desempenharam papel fundamental na constituição de um cultura política de longa distância, dado que tais papéis circularam por todas as partes do globo, configurando um plano de vínculo entre as metrópoles e suas colônias definindo o que Benedict Anderson denominou como raízes culturais de suas comunidades imaginadas. As notícias foram reunidas e colecionadas por homens de letras, clérigos nobres e funcionários da coroa, e podem ser encontradas atualmente em acervos de bibliotecas e arquivos. Alguns desses “colecionadores de notícias” já começaram a ser estudados por nós, como são os casos dos portugueses Manuel Severim de Faria (1583-1655), chantre eborense e Jerónimo Mascarenhas (1600-1669), do bispo de Segóvia e confessor da rainha D. Mariana de Áustria, esposa de Felipe IV de Espanha. A partir das miscelâneas reunidas por ambos é possível conhecer uma ampla gama de notícias impressas e manuscritas que circularam entre os reinos de Portugal e Espanha e suas conquistas entre os séculos XV e XVII. Seus acervos encontram-se disponíveis em diferentes instituições, bibliotecas de arquivos portugueses, espanhóis e também brasileiros como o IHGB, IHGP e a BN Rio.
Néri de Barros Almeida
Crise, resiliência e memória de fenômenos ambientais na Bacia do Mediterrâneo (séculos XII-XV)
Eixo: Espaço e Circulação
Resumo do projeto individual: Se a natureza das crises ambientais do passado tem bem pouco a nos ensinar, tendo em vista a especificidade limítrofe do que experimentamos hoje, no plano sociológico, podemos almejar compreender a reação das sociedades diante das macro-injunções do mundo natural. Portanto, não se trata aqui de buscar a presença do mundo natural, em particular da emergência de dados climáticos, do ponto de vista da subjetividade individual, mas de seu impacto coletivo. O que se percebe e como se percebe, por meio de que valores tais percepções são avaliadas e de que forma elas são incorporadas à memória coletiva interessam como ferramentas de reação às crises ambientais e seus desdobramentos sociais. Os dados históricos da relação entre sociedade e clima serão buscados em documentos memorialísticos, notadamente histórias, crônicas e relatos de viagens, produzidas na Bacia do Mediterrâneo. A atenção ao quadro mediterrânico altera significativamente a abordagem dos séculos finais da Idade Média. Ele tem a vantagem de nos manter em um quadro de experiências climáticas conectadas cujo impacto comum aumenta com os deslocamentos sistemáticos a partir das cruzadas. Ela também nos coloca em contato com uma experiência com a diversidade que pode nos permitir ver melhor, através dessa “periferia” historiográfica, os sentidos que irrigam o cerne da ideia de conquista moderna que envolvem o controle concomitante de sociedades e do meio ambiente. A análise comparativa do dossiê constituído por obras de autores cristãos ocidentais, orientais e muçulmanos, entre os séculos XIII e o início do século XV, pretende identificar a) a correspondência entre dados documentais e mudanças climáticas apontadas pelas ciências naturais e a partir deles verificar a ocorrência de b) crises e períodos de prosperidade, c) mudanças de sensibilidade no registro dos dados e seus fatores explicativos d) conflitos e formas de resolução de conflitos sociais bem como e) mudanças de padrão das atitudes em relação ao que é considerado “exógeno”, “limítrofe”, “estranho” e “estrangeiro”, tendo em vista que o fenômeno social determinante do período é exatamente o aumento da abrangência geográfica e da diversidade dos contatos humanos. Embora a diversidade de condições sociológicas não permita comparações abusivas, pretendemos investigar em que medida, contrariando a própria essência da cultura competitiva que nos últimos cem anos acelerou a deterioração do meio ambiente, as sociedades da Bacia do Mediterrâneo exibem formas de adaptação e mitigação baseadas na cooperação altruísta, ou seja, na força da empatia e, também, quais fatores operaram negativamente sobre ela.