MIGRAÇÕES LESTE-SUL

Mapeando artistas do Leste Europeu e da Áustria no Brasil:

contribuições da arte imigrante, 1918–1989

Imagem:
Yolanda Mohalyi [Sem título, 1975]

DATA DA CONFERÊNCIA

10, 11, 12 de Novembro de 2026

LOCAL DO EVENTO

Av. Pedro Álvares Cabral, 1301
Vila Mariana, São Paulo
SP — 04094-050

REALIZAÇÃO

MAC/USP

Migrações LESTE-SUL

Mapeando artistas do Leste Europeu e da Áustria no Brasil: contribuições da arte imigrante, 1918–1989

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Cronograma

1º Dia

CONTEXTOS E HISTÓRIAS
Migrações e Diáporas

DIA 10

NOVEMBRO

MAC USP entre Diásporas e Migrações:  o caso Leste Europeu

Dia 10 de Novembro de 2026 às 10H

Palestrante: Ana Gonçalves Magalhães (USP)

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Emigração Artística Húngara para o Brasil: fontes arquivísticas, motivações e estudos de caso

Dia 10 de Novembro de 2026 às 14H

Palestrante: Eszter Öze, Magdolna Gucsa & Sára Bárdi (KEMKI)

A disseminação de ideias artísticas e modelos institucionais no século XX esteve intimamente ligada à mobilidade de artistas que cruzaram fronteiras geográficas e culturais. Embora a migração de artistas da Europa Central e Oriental para metrópoles europeias tenha recebido crescente atenção acadêmica, a emigração artística húngara para o Brasil permanece um fenômeno amplamente inexplorado.

Esta apresentação visa contribuir para preencher essa lacuna, perseguindo um duplo objetivo. Primeiro, apresenta fontes e coleções arquivísticas na Hungria que fornecem uma base para uma investigação mais aprofundada sobre este tema. Segundo, explora as possíveis motivações que levaram artistas húngaros ao Brasil, situando esses movimentos dentro dos padrões mais amplos de migração voluntária ou forçada no período entreguerras.

Por meio de estudos de caso selecionados (incluindo Ferenc Asszmann, György Radó, Berényi Piroska e Hamza D. Ákos), o artigo examina carreiras que, embora enraizadas na Hungria, se desenvolveram no ambiente cultural brasileiro.

Esta pesquisa contribui para nossa investigação mais ampla sobre a vanguarda, examinando a mídia, as mudanças institucionais e os eventos que caracterizaram o final do século XIX e o início do século XX em movimentos sociais e contextos de cultura de massa. Indo além das interpretações estéticas, nossa abordagem enfatiza a inserção social da arte e sua estrutura internacional, utilizando métodos interdisciplinares que abrangem história social, teoria da arte, urbanismo, sociologia da arte e estudos de transferência cultural. Ao destacar esse destino sul-americano, expandimos a estrutura transnacional dos estudos de migração para além dos centros europeus familiares, oferecendo novos insights sobre as relações entre mobilidade artística e transferência cultural.

Do Rio Vístula para o Mundo Inteiro: Migrações de Artistas Poloneses no Curto Século XX

Dia 10 de Novembro de 2026 às 16:30H

Palestrante: Ewa Bobrowska

A migração tem sido uma característica marcante da história polonesa desde as partições entre Rússia, Prússia e Áustria. Oprimidos política, econômica e culturalmente, os poloneses deixaram sua terra natal tanto para apoiar a causa da independência quanto para preservar sua identidade nacional no exterior. Intelectuais e artistas, privados de educação, liberdade criativa e oportunidades profissionais, recorreram primeiramente a Roma e Munique. No entanto, foi a França — vista como um refúgio de liberdade desde a Revolução — e especialmente Paris, aspirante ao status de capital artística global, que se tornou seu principal destino. As pressões econômicas também levaram outros grupos sociais, em particular os pobres, a cruzar o Atlântico, principalmente para os Estados Unidos, mas também para a América do Sul.

Com a independência da Polônia restaurada em 1918, o Estado ofereceu aos artistas a estrutura institucional para prosperarem em casa, e a emigração deixou de ser uma necessidade. No entanto, o mito de Paris perdurou, atraindo gerações de artistas poloneses. A Segunda Guerra Mundial interrompeu novamente essa trajetória: muitos poloneses, incluindo artistas, encontraram-se na Grã-Bretanha, enquanto a Polônia do pós-guerra caiu sob o domínio stalinista por mais de quatro décadas. A emigração tornou-se severamente restringida, mas ainda mais procurada por aqueles que rejeitavam o regime comunista.

Este artigo explorará as múltiplas ondas de migração artística ao longo do “curto século XX”, destacando como convulsões políticas, restrições econômicas e a atração duradoura por centros culturais no exterior moldaram a mobilidade e a criatividade dos artistas poloneses, especialmente as mulheres.

2º Dia

DIÁSPORAS, MEMÓRIAS E
CONTRIBUIÇÕES PARA A ARTE

DIA 11

NOVEMBRO

Programas de intercâmbio: reflexões sobre ressonâncias entre práticas artísticas na Europa Central e Oriental e no Brasil

Dia 11 de Novembro de 2026 às 9H

Palestrante: Sabeth Buchmann

No que diz respeito aos debates históricos sobre quais países pertencem à Europa Oriental e quais à Ocidental, é notável o interesse pela autolocalização das vanguardas históricas como movimentos centro-europeus. A evitação e/ou resistência a posicionamentos periféricos pode estar relacionada à multiplicidade de lugares entre os quais artistas e atores culturais, obras estéticas e mídias como revistas circulavam – seja para formar redes translocais, seja em nome do internacionalismo socialista. Denegrido e suprimido por governos comunistas, primeiro na Rússia e depois nos países do Pacto de Varsóvia, sabe-se que o legado do Construtivismo prevaleceu na arte e na cultura brasileiras, sendo em parte importado por artistas que emigraram da Europa; isso significa que o imaginário construtivista emergiu de “locais de troca” (Bruce Altschuler), que também inclui a cultura indígena oprimida e colonizada. Ainda mais significativas são as semelhanças entre os programas artísticos dos contramovimentos brasileiros e centro-orientais europeus ao vanguardismo racionalista: na década de 1960, isso incluía um tratamento diferente, neutro e abstrato de imagens geométricas e linguagens de objetos – ou seja, sua percepção não como neutra, como na Arte Minimalista Americana dos EUA, mas como formas historicamente, ideologicamente e culturalmente codificadas localizadas na vida cotidiana: seja o foco em modelos de subjetivação individual e agência coletiva, seja o interesse em uma prática artística cotidiana não institucional e na reinvenção da objetividade com base na (inter)ação física. A palestra planejada explora as razões e os efeitos das ressonâncias entre dois contextos geograficamente distantes, ambos os quais tiveram que se afirmar sob as condições do pós-/neocolonialismo e das ditaduras autoritárias – e ambos os quais entendiam a prática artística precisamente sob essas condições como micropolítica participativa em vez de resistência de vanguarda.

Fronteiras em movimento, dados em fluxo: repensando a catalogação de artistas

Dia 11 de Novembro de 2026 às 10:30H

Palestrante: Lynn Rother

Desde o início da guerra de agressão da Rússia, curadores e artistas ucranianos têm instado museus a recapitular figuras como Sonia Delaunay-Terk, Kazimir Malevich e Ilya Repin, cujas origens ucranianas foram por muito tempo subsumidas sob rótulos “russos”. Este apelo destaca um desafio mais amplo: ao longo do século XX, a mudança de fronteiras na Europa Oriental — redesenhada pela guerra, ocupação e mudanças de regime — complicou a identificação de artistas e suas obras. Locais de nascimento mudaram de uma nação para outra, afiliações foram renegociadas e artistas frequentemente migraram através de múltiplos contextos culturais. Como resultado, registros de objetos e biografias de artistas estão emaranhados em reivindicações sobrepostas de geografia, linguagem e identidade.

Na era digital, essas complexidades ganharam nova urgência. A catalogação não se limita mais a arquivos de fichas ou materiais impressos, mas está cada vez mais integrada a infraestruturas digitais interoperáveis ​​que circulam através de fronteiras. Decisões sobre os locais de nascimento, vida e morte de um artista, por exemplo, tornam-se altamente visíveis e politicamente carregadas em ambientes online. A demanda por dados estruturados e legíveis por máquinas intensifica ainda mais a tensão entre nuances históricas e categorias padronizadas.

Este artigo argumenta que a catalogação deve ser reconcebida como uma tarefa acadêmica e ética central, em vez de uma reflexão técnica posterior. Ao destacar as biografias intrincadas de artistas do Leste Europeu, explora como a catalogação digital pode reconhecer identidades complexas e, ao mesmo tempo, permitir a interoperabilidade. A catalogação, proponho, é um local de negociação epistêmica: ela determina como as identidades dos artistas são representadas, lembradas e conectadas tanto em arquivos quanto em redes digitais.

O longo exílio da historiadora da arte Hanna Levy-Deinhard: impactos em uma experiência de pesquisa

Dia 12 de Novembro de 2026 às 14H

Palestrante: Daniela Kern

A historiadora da arte judia e alemã Hanna Levy-Deinhard (1912-1984) viveu no exílio durante a maior parte de sua vida. Foram ao todo mais de cinquenta anos longe de sua terra natal, Osnabrück, na Alemanha. Ela deixou a Alemanha em 1933, em função da legislação imposta pelos nazistas, hostil aos judeus. No exílio, viveu em Paris, Rio de Janeiro, Nova York, Haifa, Basel, e por muito tempo, como deixa entrever em sua correspondência, espalhada hoje por vários países, enfrentou desafios materiais (como prover a subsistência sendo historiadora da arte exilada) e acadêmicos (como, em meio à pesada carga de aulas ministradas, encontrar tempo para a pesquisa em história da arte). Considerando esse cenário, me proponho aqui a refletir especificamente sobre as dificuldades impostas pelo exílio para a reconstituição dos arquivos de Hanna Levy-Deinhard. Pesquisando a produção intelectual de Hanna Levy-Deinhard há uma década, e sendo parte de uma geração de pesquisadores que têm se debruçado, no Brasil (como Adriana Nakamuta e Jens Baumgarten) e na Alemanha (como Irene Below), sobre o legado de Hanna Levy-Deinhard, procuro pensar tanto no caráter internacional e fragmentado dos documentos e produções que Hanna Levy-Deinhard nos deixou quanto nas possibilidades trazidas pelos avanços tecnológicos para a pesquisa sobre seu pensamento, a exemplo da digitalização de vasto número de periódicos, hoje disponibilizados online, pela Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, no Brasil.

Workshop: Mapeando Artistas: as Plataformas Digitais como Ferramentas de Network

Dia 11 de Novembro de 2026 das 15:30H as 17:30H.

Palestrante: Tania Sulzbacher

ARTISTAS MIGRANTES NO
BRASIL NO SÉCULO XX

DIA 12

NOVEMBRO

3º Dia

Obra de Fayga Ostrower: Visualizando a solidariedade racial e os direitos das mulheres migrantes no Brasil

Dia 12 de Novembro de 2026 às 9H

Palestrante: Adele Nelson

Esta apresentação examina três momentos cruciais na produção de Fayga Ostrower (1920-2001), uma judia polonesa refugiada no Brasil, e demonstra que Ostrower desempenhou um papel fundamental na determinação do valor e do significado da gravura no Brasil e em outros lugares durante o início da Guerra Fria. Por meio de um estudo aprofundado da edição, exposição, fabricação, iconografia e titulação de suas primeiras ilustrações e trabalhos de estudantes de meados da década de 1940 e principais gravuras em relevo, bem como de seus escritos e automodelagem fotográfica, do final da década de 1940 até o final da década de 1950, demonstro como Ostrower definiu publicamente sua prática artística por meio do trabalho, especificamente o trabalho de mães e lavadeiras, em suas obras realistas, e da experimentação de cores, em suas obras abstratas. Considero como ela destaca trabalhadoras e cuidadoras multirraciais e empobrecidas, especialmente mães negras, em suas gravuras realistas sociais e reconstruo seus complexos processos técnicos em suas obras abstratas.

Argumento que seus primeiros trabalhos articulam uma solidariedade interétnica entre sua própria experiência como refugiada judia do Leste Europeu e a de comunidades marginalizadas no contexto do policiamento de expressões étnicas no Brasil de meados do século XX. Na década de 1950, ela resistiu ao seu recrutamento para genealogias machistas da história da arte moderna brasileira e internacional, prevalentes na crítica de arte da época. Revelo sua contribuição para a diferenciação da gravura brasileira de belas artes não apenas das práticas artesanais e populares, mas também das práticas abstratas de William Stanley Hayter e Johnny Friedlaender na ambiciosa exposição de gravuras na Bienal de Veneza em 1958.

Abstrações líricas entre o norte e os trópicos: Frans Krajcberg, Fayga Ostrower e Yolanda Mohalyi

Dia 12 de Novembro de 2026 às 10:30H

Palestrante: Ana Cândida de Avelar Fernandes

Escultoras migrantes do Leste Europeu: intersecções entre gênero e nacionalidade.

Dia 12 de Novembro de 2026 às 14H

Palestrante: Marina Cerchiaro

Do biorromantismo à arte concreta: Kázmér Fejér e as conexões entre o abstracionismo no Brasil e na Europa Central

Dia 12 de Novembro de 2026 às 15H

Palestrante: Heloísa Espada

O artista húngaro Kázmer Fejér (Pécs, 1923 – Setúbal, 1989) é conhecido por sua participação no movimento de arte concreta no Brasil como membro do grupo Ruptura, fundado em São Paulo, em 1952. Imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, enquanto vivia em Budapeste, Fejér participou do Grupo de Artistas Abstratos reunido naquela cidade sob a liderança do crítico húngaro Ernö Kállai. De 1946 a 1948, atuou como secretário do grupo, publicou textos teóricos e colaborou na organização de duas exposições de arte abstrata.

Com base na análise de fontes primárias depositadas em arquivos brasileiros e húngaros, abordo a relação das pinturas de Fejér com o conceito de biorromantismo, teoria desenvolvida por Kállai que orientou amplamente a produção de arte abstrata na Hungria no pós-guerra. Apresento as circunstâncias políticas que levaram Fejér a deixar seu país, em 1948, para viver em Montevidéu e depois se estabelecer em São Paulo, no ano seguinte. Em 1951, o artista participou da 1ª Bienal de São Paulo com uma pintura intimamente ligada às teorias de Kállai. Pouco depois, passou a desenvolver uma série de peças tridimensionais compostas por placas geométricas de vidro e plexiglas transparente.

A pesquisa relaciona o desenvolvimento da arte concreta no Brasil ao surgimento de associações artísticas que apoiaram o abstracionismo na Europa Central no pós-guerra. A trajetória de Fejér desafia a narrativa historiográfica de que a arte concreta de São Paulo foi impulsionada exclusivamente por um pensamento matemático rigoroso de um viés racionalista, oferecendo novas perspectivas para os estudos na área.

Apresentação do projeto digital: Artistas do Leste Europeu e Austria no Brasil: Contribuição da Arte Imigrante, 1918-1989

Dia 12 de Novembro de 2026 às 16:30H

Palestrante:

Palestrantes convidadas

Localização

Av. Pedro Álvares Cabral, 1301
Vila Mariana, São Paulo — SP,
04094-0