Mandioca

Julia Rampazzo Cavalcanti

A mandioca, também conhecida como aipi, aipim, castelinha, macaxeira, mandioca-doce, mandioca-mansa, maniveira, pão-de-pobre e uapi, é uma planta tropical sul americana de raiz tuberosa, pertencente à família das Euphorbiaceae. Seu nome científico é Manihot esculenta. É uma espécie arbustiva, lenhosa e perene, a qual pode atingir alturas variáveis. A mandioca apresenta raízes grossas e palminérveas que se inserem no caule em disposição alterna espiralada, com caule ereto e flores pequenas, geralmente verde-amareladas ou vermelhas, dispostas em inflorescências. A cultura da mandioca é amplamente distribuída em todo o território brasileiro, sendo uma das plantas mais importantes para a agricultura de subsistência e para a economia do país. A planta adapta-se bem ao clima quente e úmido e a solos não encharcados, sendo mais apropriados os solos arenosos, férteis, profundos e permeáveis. A mandioca é cultivada principalmente por suas raízes tuberosas, sua parte comestível mais conhecida e valorizada. Estas raízes são ricas em amido e podem ser consumidas de diversas formas (cozidas, assadas, fritas etc), além de serem processadas em farinhas e bebidas fermentadas. As folhas e ramas, apesar de menos populares, também são comestíveis e são utilizadas como verduras e alimentos para animais em diversas culturas, além de atuarem como matéria-prima para a fabricação de álcool e derivados (LAROUSSE, 1995).

Relação com o material estudado: A cultura da mandioca foi relatada em diferentes localidades ao longo do livro Viagem pelo Brasil. Spix e Martius a documentaram extensivamente, cobrindo tópicos variados do alimento, dentre eles cultivo e variedades, uso e processamento, papel fundamental na alimentação das populações indígenas e coloniais e papel econômico.

No cultivo da espécie Manihot esculenta, as manivas de mandioca começam a germinar após quatorze dias. E em um período de dezoito a vinte e dois meses as raízes atingem o seu desenvolvimento máximo, com cuidados para eliminar botões e controlar seu crescimento vertical (SPIX; MARTIUS, 2017, p. 126, v. 1). De acordo com a narrativa, as muitas variedades da espécie podem ser classificadas em duas categorias principais com base no teor de toxicidade [ácido cianídrico1] presente nas raízes: a mandioca brava e a mandioca mansa. A mandioca brava possui níveis elevados de ácido cianídrico, o que a torna tóxica para o consumo direto sem o processamento adequado para remover seu suco tóxico. Já a mandioca mansa tem um teor muito baixo de ácido cianídrico, tornando-a segura para o consumo após cozimento simples. O método de processamento tradicional foi detalhadamente descrito por Spix e Martius em seus relatos sobre a região Nordeste:

 

“Com a raíz de ambas espécies, prepara-se a água fornecida pelos tubérculos ralados e
espremidos, deixando-a decantar em grandes cubas de madeira, onde se deposita o pó.
Este é logo lavado em diversas águas, expostos ao sol para secar e, finalmente, passado
no forno”. (SPIX; MARTIUS, 2017, p. 405, v. 2)

Os viajantes relatam que o processo de raspagem, trituração, prensagem, retirada do líquido venenoso – da mandioca brava – e a secagem ao sol bastante comum no Nordeste. Nessas regiões, especialmente nos estados da Bahia, Pernambuco e Alagoas, a mandioca brava é amplamente cultivada e processada para a produção de farinha, utilizando técnicas tradicionais transmitidas de geração em geração.

Além desse método, os autores também descrevem a produção do tucupi – líquido amarelo extraído da mandioca brava – durante sua estada em terras paraenses:

“Um cesto cilíndrico (tipiti) de duas toesas de comprimento, cheio de mandioca ralada
e, em sua parte inferior, carregado com uma pedra, pende de uma das travessas da
choça. Deste modo simples, o suco venenoso das raízes frescas é espremido e cai num
recipiente. Esse suco engrossado ao fogo é misturado com pimenta (capsicum), seca,
produz o tucupi, tempo usual de todos os pratos de carne, da qual os paraenses fazem
tão constante uso como os indianos da soja.” (SPIX; MARTIUS, 2017, p. 106-107, v. 3)

O método típico das populações indígenas locais ilustra o uso diverso da espécie. Conforme os relatos, a mandioca doce possuía protagonismo no território amazônico. A variedade era extensivamente cultivada e, conforme observado, assumia um papel alimentar e também um papel ritual.

A mandioca foi então relatada por Spix e Martius ao viajarem da província de Minas Gerais a São Paulo. Nessas províncias a presença da mandioca era também comum. O alimento manifestava-se em suas duas categorias e era cultivado pelos pequenos agricultores da região. Encaixava-se na dinâmica colonial como um artigo da agricultura de subsistência, atuando como fonte crucial de calorias.

O material estudado permite-nos compreender a presença inegável da espécie Manihot esculenta. Ela invade pouco a pouco, expande com facilidade. Surge nos relatos como alimento, de forma simples e complexo, transforma-se em destilado e depois reaparece como um elemento, em um complexidade que não é possível compreender em um artigo. Nas regiões Norte e Nordeste é elemento cultural – intrínseca ao ritual – e em direção ao sul, na dieta colonial surge diversas vezes durante os relatos ao lado do feijão, café e milho, evidenciando sua presença inegável no cotidiano da população brasileira.

BIBLIOGRAFIA

ENCICLOPÉDIA Larousse Cultural. São Paulo: Nova Cultural, 1995.
NUNES, José Luis da Silva. Características da mandioca. Disponível em:
https://www.agrolink.com.br/culturas/mandioca/informacoes-da-cultura/informacoes-gerais/caracteristicas-da-mandioca_438403.html. Acesso em: 22 jun. 2024.


SANTANA, Diôgo Anderson Fonseca. Avaliação de adaptabilidade de variedades de mandioca
cultivadas no município de Mari-PB.


SPIX, Johann Baptist von; MARTIUS, Carl Friedrich Philipp von. Viagem pelo Brasil
(1817-1820). v. 1. Tradução de Lúcia Furquim Lahmeyer. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2017.


SPIX, Johann Baptist von; MARTIUS, Carl Friedrich Philipp von. Viagem pelo Brasil
(1817-1820). v. 2. Tradução de Lúcia Furquim Lahmeyer. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2017.


SPIX, Johann Baptist von; MARTIUS, Carl Friedrich Philipp von. Viagem pelo Brasil
(1817-1820). v. 3. Tradução de Lúcia Furquim Lahmeyer. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2017

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