Mariana Silva do Nascimento
A medicina popular é um campo de conhecimento de cura caracterizado pelos saberes locais e populares não formais, geralmente passados de geração em geração por meio da tradição oral. Este campo de conhecimento é indissociável do uso de plantas e ervas, a fitoterapia, e da imagem dos curandeiros, especialistas na vivência com a natureza e no saber em escutar o mundo natural, ou seja, são eles os “médicos” que colocam em prática as tradições de cura. Apesar de ser uma prática muitas vezes associada ao passado, ela ainda sobrevive no dia a dia das comunidades, principalmente naquelas interioranas, nas quais os laços comunitários devido às menores proporções costumam ser mais preservados, bem como a tradição oral.
O zoólogo Johann Baptist von Spix e o botânico Carl Friedrich Martius realizaram entre os anos de 1817 e 1820 uma viagem pelo Brasil cuja finalidade era a realização de uma expedição científica. Deste modo, os dois estudiosos contribuíram fortemente para a diversas áreas de conhecimento sobre o Brasil, dentre elas, acerca das doenças, especialmente pela formação anterior de Martius em medicina, este é um tópico recorrente em suas descrições. Ele preocupa-se não somente em enumerar as enfermidades dos locais visitados, mas também em descrever a forma como um povo escasso em médicos diplomados é capaz de curá-las. Em sua viagem à província de São Paulo, destaca-se o seguinte trecho:
“Igualmente o sertanejo é notável pelo conhecimento perfeito das plantas medicinais de sua terra; sobretudo as mulheres, entre os habitantes desta província, têm fama de grande proficiência na prática da medicina. Em quase todas as casas, uma ou outra exerce as funções de curandeira, que não lhe são disputadas por nenhum médico, nem cirurgião […] O espírito humano, neste domínio das pesquisas, serve-se por toda parte dos indícios da natureza, e, pelos característicos físicos dos objetos, pelo aroma, pela cor, pela semelhança de certas formas com as partes do corpo humano, etc., tira conclusões por analogia sobre as virtudes íntimas dos primeiros e sua atuação como remédio. […] o encarnado vivo uma relação com o sangue, nos amarelos, relação com a bílis e o fígado; ele atribui ao vermelhão do urupê (Boletus sanguineus), que aparece de repente nas árvores podres e muitas vezes só dura um mês, virtude especial para estancar hemorragias uterinas, encontrou na madeira amarela da butua (Abuta rufescens) um indício para sua eficácia nas doenças do fígado […]” (SPIX; MARTIUS. Viagem pelo Brasil (1817-1920). Brasília: Senado Federal, 2017, v. 1. p. 205-207)
No excerto em questão, Martius destaca elementos centrais do funcionamento da medicina popular paulista presenciada por ele. Primeiramente, vê-se a indissociabilidade entre a figura do curandeiro, ou melhor, da curandeira, e da prática dos conhecimentos naturais.
Observa-se a sutileza necessária para perceber o funcionamento do mundo natural em suas formas, cores e aromas, e a sua associação com o corpo humano a fim de aplicar uma certa lógica na arte de
curar – algo que certamente surpreende o estudioso europeu, visto que o contato com a natureza em sua terra natal era muito mais sistemático do que o visto na terra colonizada. Em segundo plano, é possível ainda relacionar a fitoterapia popular às relações de gênero, uma vez que Martius destaca o papel especialmente das mulheres no trabalho de cuidado realizado pelas curandeiras, são elas que curam as pessoas e são elas que detém a tradição geracional.
A medicina popular é, afinal, uma íntima relação entre o humano e o natural, e os naturalistas Spix e Martius bem destacam esse elemento em sua obra, apesar de por vezes subestimarem o saber popular.
Referências:
DIDONE, Daniela Machado Gonzaga Ferreira. Saúde, alimentação e medicamentos
na província de São Paulo: o olhar de Spix, Martius e Auguste de Saint-Hilaire
no início do século XIX. 2007. Dissertação (Mestrado em História Social) –
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, University of São Paulo, São
Paulo, 2007. doi:10.11606/D.8.2007.tde-04032008-110054. Acesso em: 2024-05-01.
FLORA Brasiliensis. [S. l.], 2005. Disponível em:
https://florabrasiliensis.cria.org.br/index. Acesso em: 16 de junho de 2024.
FRANÇA, I. S. X. DE. Medicina popular: benefícios e malefícios das plantas
medicinais. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 61, n. 2, p. 201–208, mar. 2008.
SPIX; MARTIUS. Viagem pelo Brasil (1817-1920). Livro Segundo – Capítulo III:
Viagem do Rio de Janeiro à cidade de São Paulo. Brasília: Senado Federal, 2017, v.1, p. 137-169.
Imagem(ns):
Abuta rufescens. Butua. Gravura presente em “Flora Brasiliensis”. Vol. 13, parte 1, pp. 174-176, tab. 39.


