Jose Victor da Silva
Tags:mula; caminhos; deslocamentos; enfermidades; Johann Jakob von Tschudi.
Trata-se de mamífero híbrido (resultado do cruzamento de duas espécies diferentes), o qual tem origem a partir do cruzamento do burro com a égua ou burra com o cavalo. Destaca-se que, geralmente, esses animais são estéreis em razão do número irregular de cromossomos, resultado justamente do hibridismo. A dificuldade de explorar novos territórios não se limitava às águas, diante das histórias sobre os monstros que assombravam os mares. Os exploradores, ao aportar no “Brasil”, deparavam-se com um vasto território desconhecido. Nesse sentido, o uso de mulas passou a ser a principal solução para o deslocamento das pessoas e objetos necessários às viagens no continente. “Sobre o lombo dos resistentes burros e mulas, foram transportados alimentos, mercadorias diversas e, até mesmo, armas e munições” (Teixeira, s.d., s.p.) ou até pianos. Destacam-se as passagens do livro Viagem às províncias do Rio de Janeiro e S. Paulo de Johann Jakob von Tschudi (1818-1889):
As estradas que existem são péssimas, deficientes: em lugar de vias transitáveis, depara mos apenas com picadas e carreiros para mulas (grifo nosso) (p. 29).
[…]
Depois de uma viagem de 28 horas, entramos, domingo às 5 da tarde, no porto de Santos. No dia seguinte, comprei uma boa mula de sela, aluguei as bestas de carga que me eram necessárias, e deixei, terça-feira, dia 24 de julho, a cidade portuária, em companhia do major Von Sukow (grifo nosso) (p. 120);
Apesar do vigor pelo qual esses animais são conhecidos, muitos padeceram em razão das longas viagens realizadas e dos maus tratos aos quais eram submetidos.
Nessas viagens acidentadas os fazendeiros perdiam sempre muitos escravos e mulas, já por causa das febres palustres, já dos caminhos intransitáveis em épocas de chuva (grifo nosso) (p. 108).
[…]
Os nossos pretos esqueceram durante a viagem o velho rifão “de vagar se vai ao longe” e, segundo presumo, por quererem assistir ainda aos festejos domingueiros na cidade, obrigavam os animais a um passo acelerado. Em conseqüência disto os muares ficaram completamente exaustos em pouco tempo, e muito antes de termos atingido nosso destino. Fomos obrigados, pois, a continuar muito lentamente, porque as bestas já iam caindo pela estrada. Os pretos, impacientes e irritados com esse vagar, maltratavam com chicotes e longas varas os pobres animais, procurando assim apressar a marcha. Mas não conseguiram mais que piorar a situação, pois as mulas tombavam a cada passo, ou deitavam-se simplesmente no caminho, e somente as minhas enérgicas advertências salvaram as pobres bestas das costumeiras brutalidades dos negros (grifo nosso) (p. 19).
Além disso, diante das enfermidades que atingiam tais animais, cuidados extremamente rústicos eram aplicados, de forma a tentar salvar o animal e, por consequência, a viagem a ser realizada. Destaca-se a surpresa de Tschudi em uma dessas ocasiões:
Meu hospedeiro me surpreendeu uma bela manhã com a notícia de que minha rica mula se encontrava gravemente enferma, sem poder levantar-se.
[…]
De noite, a muito custo, levamos o pobre animal à casa do dito ferreiro. Este, depois de haver auscultado minuciosamente a mula, confessou que o caso era grave, mas não sem remédio. Sangrou lhe uma veia e despejou pelo corpo álcool muito forte, ao qual ateou fogo em diversos lugares. O álcool ardeu naturalmente com viva chama azulada, enquanto o animal se contorcia de dores. Depois de alguns instantes, o ferreiro apagou as chamas com um cobertor e mandou que fizessem o animal se movimentar durante uma hora. Este heróico método foi coroado do mais amplo êxito. No dia seguinte a mula estava boa, comia bem e nunca mais sofreu de mal nenhum (grifo nosso) (p. 126-127).
À vista disso, fica evidente a importância da mula para a exploração e desenvolvimento do território nacional. Os exploradores foram audaciosos e aventureiros ao adentrar por lugares até então desconhecidos, mas só pela força de locomoção das mulas que conseguiram êxito. Muitas riquezas foram encontradas, mas sua exploração, transporte e exportação só foram possíveis graças às mulas, que, em seu lombo, carregaram desde o açúcar até o ouro. Foi sobre o dorso firme desses animais que a história do Brasil foi construída e se transportaram os frutos da terra.
Cabe mencionar, por fim, a presença da mula em um dos momentos mais importantes do país, qual seja, a Proclamação de Independência. Apesar da retratação do momento muitas vezes ser alterada para tornar o momento mais importante e nobre, é certo que Dom Pedro “não montava um cavalo castanho-escuro, mas sim uma ‘besta baia gateada’” – ou seja, uma mula amarelo-avermelhada (burros e mulas eram o meio de transporte habitual para subir a Serra do Mar)”. (Imagem, s.d.).
Imagens:


Referências :
Imagem e realidade. Folha de S. Paulo – seção Brasil 500, [s.d.]. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fol/brasil500/500_26.htm. Acesso em: 7 jun. 2025.
Igreja da Ordem Terceira do Carmo. Disponível em: https://garoahistorica.blogspot.com/2014/12/igreja-da-ordem-terceira-do-carmo.html . Acesso em: 14 jun. de 2025.
São Bernardo na década de 1820. Disponível em: https://www.saobernardo.sp.gov.br/web/cultura/sao-bernardo-na-decada-de-1820. Acesso em: 14 jun. de 2025.
TEIXEIRA, Silvana. Muares: animais resistentes, inteligentes, de fácil manejo e vida longa. Cursos a Distância CPT. S.d. Disponível em: https://www.cpt.com.br/cursos-criacaodecavalos/artigos/muares-animais-de-carga-resistentes-inteligentes-de-facil-manejo-e-vida-longa. Acesso em: 7 jun. 2025.
TSCHUDI, Johann Jakob von. Viagem às províncias do Rio de Janeiro e S. Paulo. São Paulo: Martins, [1953]. [Trecho do capítulo “Visita às colônias de parceria da província de São Paulo”]


