Religião em Sorocaba

Iara Marinho Ribeiro

As expressões religiosas na cidade de Sorocaba, interior de São Paulo, são diversas mas com uma indiscutível maioria de católicos, o que se mantém desde seus primeiros momentos de ocupação. Isso, devido a caracterização das primeiras ocupações locais, colonos empobrecidos, miscigenados convertidos, figuras religiosas, entre muitos não brancos convertidos de passagem pelo local. Qualquer outra expressão religiosa não católica não se apresenta tanto na memória escrita da cidade, ao menos não explicitamente, isso por razões socioculturais do processo de onde se produz essas memórias. Assim a religião em Sorocaba, através das práticas religiosas como festas, festividades, eventos, hábitos cotidianos, relações; e através de elementos materiais que demarcam o catolicismo no local, como igrejas, conventos e por fim somado a presença de figuras religiosas acabam por convergir a representação da religiosidade enquanto um elemento central para o processo civilizatório no espaço. O que ocorre mesmo em sua negativa: a ausência de uma firmeza disciplinar da religião demarcando a existência das representações da religiosidade em Sorocaba. Com isso, me refiro à religião em Sorocaba, podendo se definir enquanto o elemento central de indicador e instrumento do processo civilizatório, se representando através de hábitos, edificações e práticas; como a Igreja Nossa Senhora da Ponte, ou a Festa Nossa Senhora Aparecida, que se projeta até os dias atuais.

Auguste de Saint Hilaire, viajante passa por Sorocaba em dezembro de 1819, e como em todos os seus locais de passagem faz registros preciosos acerca das considerações socioculturais locais, tendo a religião como um dos aspectos centrais que mais discute – mesmo que não explicitamente enquanto foco principal – em suas contribuições. Em Sorocaba não é diferente, o autor traz elementos da representação religiosa local ao mencionar igrejas, suas condições materiais, práticas religiosas, aspectos culturais e como isso reverbera em no momento civilizatório da população local:

“[…] a outra, quasi quadrada, diante da igreja paroquial, igreja consagrada a Nossa Senhora da
Ponte, edificada em ponto que domina considerável parte da cidade. Êsse templo é vasto, mas
acha-se em péssimo estado de conversação (1820). […] Além dessa igreja, outra existe, menor,
dedicada a Santo Antônio. O mosteiro ou convento dos beneditinos, ao qual já me referí, está
situado na parte mais elevada da cidade e não tem de notável senão a bela vista que do mesmo
se descortina. Quando alí estive, habitava-o um religioso apenas e , em 1838, continuava a ser a
residência de de só um monge. […]
Existe em Sorocaba um estabelecimento de religiosas reclusas, […]. A igreja do convento é
aberta a todos os fiéis; mas nenhuma das janelas da casa das reclusas dá para o exterior. Numa
região em que os casamentos são pouco comuns e onde a libertinagem frequentemente impera,
não se pode negar que instituições da espécie sejam de grande utilidade, […]”, p. 250.

Imagens:

Na primeira imagem, criação de Hercule Florence, em nanquim e grafite sobre papel, Pode-se observar uma vista panorâmica da cidade de Sorocaba, como leva o nome: Vista de Sorocaba. Onde ainda pode-se conferir a escolha pela centralização da igreja no cenário, reverberando a centralidade que sugere Saint Hilaire em seu relato.

Hercule Florence
Vue de Sorocaba, prise de l’E.N.E. [Vista de Sorocaba, tomada de E.N.E.], sem data
Grafite e nanquim sobre papel, 16,3 x 29,3 cm
Instituto Moreira Salles/ Coleção Cyrillo Hércules Florence

 

Por Miguelzinho Dutra, de 1841, há a Festa do Divino. Embora não seja uma representação de
uma festividade localizada em Sorocaba, traz elementos das práticas culturais referidas, e mais
uma vez da centralidade da religião para formação social. Nesse sentido, no que diz respeito aos
espaços de socialização e como pode representar a clara diversidade coesa em elementos de uma
única expressão religiosa.

Miguelzinho Dutra Festa do Divino Espírito Santo, 1841 Aquarela sobre papel, 24 x 35 cm Museu Republicano Convenção de Itu – Museu Paulista da Universidade de São Paulo

Referências:

DUTRA, Miguelzinho. Festa do Divino Espírito Santo, 1841. Aquarela sobre papel, 24 x 35 cm. Museu Republicano Convenção de Itu – Museu Paulista da Universidade de São Paulo. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Festa_do_Divino_Esp%C3%ADrito_Santo,_Museu_Republicano_Conven%C3%A7%C3%A3o_de_Itu_(MR241).jpg. Acesso em 12 nov. 2024.

FLORENCE, Hercule. Vue de Sorocaba, prise de l’E.N.E. [Vista de Sorocaba, tomada de E.N.E.], sem data. Grafite e nanquim sobre papel, 16,3 x 29,3 cm. Instituto Moreira Salles/ Coleção Cyrillo Hércules Florence. Disponível em: https://acervos.ims.com.br/portals/#/detailpage/4294990665. Acesso em 12 nov. 2024.

SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem à Província de São Paulo e resumo das viagens ao Brasil, Província Cisplatina e missões do Paraguai. Trad. Rubens Borba de Morais. São Paulo: Livraria Martins, 1940. p. 213-214. Disponível em: https://bibliotecadigital.seade.gov.br/view/singlepage/index.php?pubcod=10014119&. Acesso em 12 nov. 2024.

 

 

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