Diego Miguel Mendes Silva
A papeira, também conhecida popularmente como Caxumba, é uma infecção viral aguda e contagiosa, de baixa letalidade e alta morbidade, aparecendo de forma endêmica ou surtos. Sua causalidade decorre do vírus da família Paramyxoviridae, do gênero Paramixovírus. A papeira pode acometer qualquer tecido nervoso e glandular do corpo humano, sendo mais frequente nas glândulas parótidas, responsáveis pela produção de saliva, ou nas glândulas submandibulares e sublinguais, localizadas próximas ao ouvido. A transmissão ocorre por via aérea, através do contato direto com a saliva de pessoas infectadas, ou por contato indireto pela dispersão de gotículas. Embora menos frequente, a transmissão indireta pode acontecer ao tocar objetos e/ou utensílios contaminados com as secreções do nariz e/ou boca. O período de incubação, ou seja, o tempo até o surgimento dos sintomas, é de 12 a 25 dias. A transmissibilidade da doença começa entre 6 e 7 dias antes das manifestações clínicas e continua até 9 dias após o aparecimento dos sintomas. Dentro os sintomas, o mais comum e principal da papeira é o aumento das glândulas salivares, geralmente acompanhado de febre. No entanto, aproximadamente 30% das infecções podem não mostrar aumento evidente dessas glândulas (BRASIL, 2024).
A papeira foi relatada por Spix e Martius ao viajarem do Rio de Janeiro à cidade de São Paulo, especialmente quando passaram pela região do Vale do Paraíba. Eles relataram que os habitantes dessa região possuíam um alto grau de inchaços endêmicos localizados na glândula tireoide. Os inchaços tomavam conta de todo o pescoço e afetavam principalmente a maioria das pessoas de cor que, na percepção dos autores, já não eram agradáveis e, por conta do inchaço, possuíam aparências ainda mais horríveis.
Relatam que, no país, o bócio era visto mais como um embelezamento do que uma deformação e que, em muitas ocasiões, as mulheres enfeitavam o bócio com correntes de ouro e prata, exibindo-se com cachimbos ou fusos na mão, fiando algodão, sentadas na frente de suas casas (SPIX; MARTIUS, 2017, p.161).
De acordo com os relatos, a papeira atingia especialmente os negros, mulatos e mamelucos que formavam a maoria da população. Entre as pessoas brancas, as mulheres eram as que mais sofriam. Os viajantes explicam que a doença, assim como na maior parte dos países, não se desenvolve em regiões altas, frias e ventiladas, contrariamente ao que acontece no vale profundo do Paraíba, que frequentemente está coberto por nevoeiros densos. Graças às serras do sul e do norte que bloqueiam a saída das exalações, a neblina que é formada acima dos rios e brejos é a mesma que cai novamente à noite, na espacialidade do vale (ibid., p. 163).
Outras possíveis causas da doença são citadas pelos autores. Dentre elas estão: o calor intenso; a utilização e consumo de água turva, morna e impura de rios; casas com pouca higiene, ventilação e alta umidade; o consumo de fubá grosseiro que é mais nutritivo, mas mais indigesto; o alto consumo de toucinho; e os excessos sexuais. Em relação a esse último fator, os viajantes apontam que “assim como no Rio de Janeiro, a causa conjunta da sarcocele e da hidrocele, e igualmente a do bócio, embora não se veja aqui o triste espetáculo do cretinismo, que na Europa anda de par com o bócio endêmico, nota-se, entretanto, no aspecto das pessoas atacadas pela doença em alto grau, não só moleza e falta de energia, características do cretino, mas também verdadeira estupidez” (ibid., p. 163).
Para tratar a doença, era preparado um cataplasma (mistura/pasta) quente de abóbora que era aplicado externamente na pele, enquanto que internamente os pacientes bebiam água que foi deixada em contato com uma massa feita de casas de cupins trituradas por alguns dias. A utilização dessas casas de cupins para o tratamento da doença deve-se ao fato de que, para a construção de suas casas, que possuem entorno de 5 a 6 pés, os insetos utilizam uma substância viscosa que funcionaria como cimento, acreditando-se que essa substância possuía propriedades curativas contra o bócio. Além disso, os autores relatam que se acreditava que o ácido fórmico, substância encontrada nesses insetos e em outros, tinha efeitos benéficos, auxiliando no fortalecimento do sistema nervoso e linfático dos pacientes (ibid., p. 163). Paralelamente a isso, os viajantes relatam e traçam uma relação entre alguns costumes africanos, em que os negros utilizavam substâncias viscosas como, por exemplo, a goma arábica, que era usada para o tratamento do bócio, haja visto que o problema se tratava de uma questão de nutrição (ibid., p. 163).
Referências utilizadas:
BRASIL. Ministério da Saúde. Caxumba. [Brasília]: Ministério da Saúde, 2024. Disponível
em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/c/caxumba. Acesso em: 9
de junho de 2024.
SPIX, Johann Baptist von; MARTIUS, Karl Friedrich Philipp von. Eine mameluca aus der
Provinz St. Paulo; Eine cafusa aus der Provinz St. Paulo. 1823-1831. Disponível em:
https://bdlb.bn.gov.br/acervo/handle/20.500.12156.3/33680. Acesso em: 09 de junho
de 2024.
SPIX, Johann Baptist von; MARTIUS, Karl Friedrich Philipp von. Viagem pelo Brasil
(1817-1820). Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2017.


