COMO CITAR:

STURZENEKER, Mariana Lourenço. Edições: Processo Inquisitorial de Catarina Luís. 2024. Disponível em: https://sites.usp.br/nefandas/edicoes/clarafernandes/.

STURZENEKER, Mariana Lourenço. “e declarou que ela não tinha senão natura de mulher”: edição digital e análise paleográfica de dois processos inquisitoriais portugueses de sodomia homoerótica feminina do século XVI. 2024. Dissertação (Mestrado em Filologia e Língua Portuguesa) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2024. doi:10.11606/D.8.2024.tde-05022025-155947.

Edições

Edição diplomática

Catarina Luís: Edição Diplomática

Processo de Catarina Luís
Edição diplomática
Arquivo gerado pela ferramenta eDictor


[ capa ]

[margem_sup [corroído Caterinaluis] [símbolo +
]
[corroído xpaã uelha
]
sessoes
]

1589

[margem_sup [símbolo +
]
]

[sobrescrito paseComElapoder] vsar
deMiã E [subscrito p] dizerque Ela naõ
tinha culpas confesar nesta mesa
foi outraues amoestadaE Man
dada
aseuCarçereE asinei aqui
[subscrito pEla] comosnor̃ [sobrescrito Jnqor] Andrevazfrois
oEsCreui

[assinatura Andre vaz frois
] [assinatura [rasurado luisglz̃] deRibafria

[margem_sup [símbolo +
]
]

[borrado Jndo] [borrado comelle] Andreuaz [sobrescrito notro] [corroído destaJnqcao
]
[borrado Eeunotro] Eo doutor Antonjo sebastiaõ
medico desta casa, eo ditto [sobrescrito Po] [sobrescrito Teixra
]
alcaide do carçere E [sobrescrito Jorgefrco] guarda
Evimos aditta [sobrescrito Cna] lois Jazia morta
nacama, Eaentrada da casa emhũcãto
della amaõ esquerda estaua no ladrilho
dacasa mais de ametade demeo saco
decaruaõ omais delle todo a brasado; Eoditto
Medico ujo aditta [sobrescrito Cna] lois Edisse
[entrelinha (feito exame)] estar
morta eassiauimos todos
[entrelinha Edisso demos nossa fe] e deuja
deser causa de sua morte ofumo [subscrito pficar
]
aporta fechada eJanella, como [conjectura seconfrima
]
ella porse aquentar deuia [rasurado aCender
]
aquellecaruaõ q̑alitinha, eisto heoq̑
pareçeo atodos, eomedico disse adeixase
estar assi ate atarde eassiomãdou
osnor̃ [sobrescrito Jnquor] deq̑tudofiz este termo
q̑osnor̃ [sobrescrito Jnquor] assinou edossobredittos
simaõ lopz̃ oescreuj ./.
[assinatura simaõlopz̃
]

[assinatura luisglz̃ deRibafria] [assinatura dor̃ [sobrescrito Anto] sebastiaõ
] [assinatura Andre vaaz frois] [assinatura [sobrescrito tixra ]

[margem_sup [símbolo +
]
Emomesmo dia [rasurado emaudiã] [rasurado datarde] antreasduas
Eastresoras mãdou osor [borrado Jnquor] amj̃ [sobrescrito notro] q̑fosse
odoutor Antonjo sebastiaõ medico ueraditta
defunta, ao q̑satis fizemos eauimos morta Ja
amortalhada como Rosto descuberto eo ditto Medico
disse apodiaõ enterrar eosnor̃ [sobrescrito Jnquor] mãdou
q̑fosse enterrada deq̑fiz este termo assinej
Comosnor̃ [sobrescrito Jnquor] eoditto medico ecõ oalcaide
Pero [sobrescrito Teixra] simaõlopz̃ oescreuj
] [assinatura Simaõlopz̃
]

[assinatura luis glz̃ [rasurado deRibafria]] [assinatura dor̃ [sobrescrito Anto] Sebastiaõ
] [assinatura [sobrescrito po] teixeira
]

Efeitos Eassinados osdittos termos acima E
atras escritos osnor̃ [sobrescrito Jnquor] mãdouuirperantesi
[sobrescrito Po] Teixeira alcade docarçere deste santooffo
Esendo presente pera emtudo dizeruerdade
lhefoi dado Juramento dos santos Euãgelhos

[margem_sup [símbolo +
]
]

[borrado emq̑] [borrado elle] [borrado pos] [borrado sua] maõ Esob carrego delle
[subscrito pmeteo] dizella, E sendopergũtado,decla-
rou
, sestafeira anoite q̑foraõ desesete
dias destemes [sobrescrito defeuro] de oitentaEnoue
elle declarante deucandea a [sobrescrito Cna] lois cõteuda
nestesautos estaua nasestacasado
carçere deçima do corredor dediante( aqual
foimetidanaditta casa quãdoueo q̑foiaos
tres dias do dittomes , ) elhe fechouaporta
eJanella do ditto aponsento comosecostuma
fazer atodos os [rasurado presos] leixandoa saã
Ebemdesposta sem nenhuã queixade
doente nẽ nateue nẽ mostrou depois de
estar presa nem mostrou paixaõ alguã,
Edepois de dar lume aospresos ficando
Jorge [sobrescrito frco] guarda no carçere se foi [conjectura ellealcaide
]
cear edepois tornou aocarçere asnoueoras
Eandou nelle uĩgiandoo [rasurado to] das
onze oras da noite q̑se Reco lheo, noqual
tempo pasou alguas̃ uezes [subscrito pollaptadoditto
]
aponsente onde estaua aditta [sobrescrito Cna] lois euyo
estaua tudo quieto, Enaõsentjo dentro
noditto aponsento cousa alguã, masãtes
tudo quieto, epolla menhaã eamanhe

[margem_sup [símbolo +
]
]

cendo oguarda [borrado Jorge] [sobrescrito frco] [borrado] [borrado certo] [borrado que] [borrado dor
mia]
lhe abrio [borrado aJanella] [borrado como] [borrado fez] [borrado aos] [borrado mais
]
presos segũdo se costuma fazer eelleditto
alcaide sefoiao carçere antreas seis Eas
sete eabrĩdo as [subscrito ptas] aospresos comosecostu-
ma
pera asprouer doq̑lhe fosse neçessarjo
abriu tambem [subscrito apta] doaponsento daditta
[sobrescrito Cnalois,] onde estaua soo, dizendolhe: deos
uos dee bõs dias / comodiz atodos, [subscrito ep] lhe ella
naõ Respõ der, lhe pergũtou , se dormja,Euẽdo
ella lhe naõ falaua chamouodittoJorge
[sobrescrito frco] guarda Eabrindo agrade entraraõãbos
dentro, Eacharaõ aditta [subscrito psa] nacama ãtre
aRoupa, deitada debruços decostaEestendida
obraço dereito percima dacabeça Etoda
cuberta somẽte de measpernasperabaixo estaua
descuberta, eestaua morta, Eem cãto daditta
casa estaua pouco de caruaõ no ladrilho
della abrazado, elhepareçe aelle alcaide [subscrito q̑p-
]
quãto anoite era fria aditta [sobrescrito Cna] lois lhe
pos ofogo Eacendeo acãdea lhefoi
dada pera seaquẽtar, Edeixã do acesso se dei-
tara
na cama eq̑ dormĩdo se afogaria cõogrãde

[margem_sup [símbolo+
]

[borrado fumo] [borrado] [borrado do] [borrado ditto] [borrado lume] [rasurado proçedera] [corroído pestar
]
[borrado aptaEJanella] fechada, Enaõ sabenẽ
sentio outra cousa ouuesse damorte
daditta presa, eq̑loguo entaõ mãdou
Recado aelle sor̃ [sobrescrito Jnquor] [subscrito p] manoel Roiz̃
homẽ do [sobrescrito mro] q̑andaua nocarcereajũdado
Jorge [sobrescrito frco] pestar mal desposto, [subscrito epooutro
]
guarda estar doente emsuacasa,eelle
ditto a lcaide foi tanbem dar cõtado-
q̑passaua aelle snor̃ [sobrescrito Jnquor] asuacasa
antes das oito oras, eassinouaqui
osnor̃ [sobrescrito Jnquor] simaõlopz̃ oescreuj

[assinatura luis glz̃ deRibafria] [assinatura [sobrescrito poteixa
]
]

Eloguo osnor̃ [sobrescrito Jnquor] mãdou uir perãte
si Jorge [sobrescrito frco] guarda do carçereEsendo
presente peraemtudo dizer uerdade
lhe foi dado [sobrescrito Juramto] dossãtosEuãgelhos
emq̑elle pos sua maõ Esob carrego delle
[subscrito p me teo] dizella, Esendolhe mãdado
declarase oq̑ sabia acerca damorte de
Caterina lois, disse , sestafeira q̑foraõ
desasete dias domes [rasurado presente] [sobrescrito defeuro
]

[reclame deste]

[margem_sup [símbolo +
]
]

destepresente ãno de [borrado oitentaEnoue] [borrado elledeclarãte
]
ueo desua casa deçear as [**] oras, edepois em anoite-
cendo
fechou as Janellas aspresas comosecostu-
ma
tendo Jatodascandeas, etodasestauaõ quietas
Semauer Rebolico a lgũ em nenhuã das dittas
casas, eaditta [sobrescrito Cna] lois estaua tambem noseu
aponsento quieta, eelle auja cadadia saã ebem
desposta Ecomia [sobrescrito mto] bem tudo oq̑lhedauaõ, E
elle Reco lheo no seu aponsento tẽ aocarçere
debaixo as noueoras poucomais oumenos, eoalcai-
de
ficou uigiando ocarcere atee perto dasõze
oras sefoi perasuacasa, eelle declarãte se
aleuãtou amea noite esajo fora doseuaponsẽto
eescutou seuja a lguã cousa, Enaõouujonada
mas antes sentjo q̑tudo estauaquieto, ese
tornou aRecolher [subscrito pamdarmaldesposto,Epllã
]
manhaã ascinquo oras se ergueo perauer
seouuia alguãcousa, enaõ ouujonada, Eas
seis sefoiabrir as Janellas dos aponsentos
das molheres, eabrjo aJanella dasextacasa
onde estaua aditta [sobrescrito Cna] lois Esentjo q̑tudo
estaua quieto,/ eo alcaide [sobrescrito Po] Teixeira ueo
abrir os [subscrito psos] depois das seis oras, eabrĩdo

[margem_sup [símbolo +
]
]

[borrado aporta] [borrado doaponsento] daditta [corroído Cna] lois
[subscrito p] [borrado lheella] naõ falar, chamou oditto
alcaide aelle declarante Eabrjo
agrade Eam bosentraraõ dentro
E [conjectura firaõ] acama õde ellajazia Eaacharaõ
morta deitada [conjectura debruços] antreaRoupa
cuberta somẽte tinha meapernades
cuberta ,
Ea charaõ nocãto daditta
cela noladrilho, poucodecaruaõ
alli ficara [sobrescrito demtreaspas] allitinhaõ
estado q̑tinhaõ fugareiro, açessotodo
eabrasado, elhepareçe acausada
morte da ditta caterinalois seriaofumo
oditto fogo faria [subscrito p] naõter [subscrito põde
]
sair eq̑ ella acenderia oditto caruaõ
cõacãdea lhefoidadaanoite cõalgũ
pedaco de vasoura dasq̑tinhanoaponsẽto
perase aquẽtar [subscrito p] fazer frio; ea ssinou
aquicomosnor [sobrescrito Jnquor] simaõlopz̃
[sobrescrito notro] apostolico oescreuj/

[assinatura Jor ge [sobrescrito ffrco
]
] [assinatura luisglz̃ deRibafria

[margem_sup [símbolo +
]
]

Eloguo osnor̃ [conjectura Jnquor] [conjectura mandou] [borrado uir] [borrado perãtesi] [sobrescrito Po
]
aluz̃ xpaõ nouo [conjectura devinhais] preso no carçere
deste santo [sobrescrito offo] oqual estaa naoitauacasa
docarçere debaixo docorredor dediãte,Esẽdo
presente peraem [conjectura tudo] dizer [conjectura uerdade] lhefoi
dado [sobrescrito Juramto] dos santos Euãgelhos elle
possuamaõ Esob [conjectura carrego] delle emq̑ prometeo dizella
Esendo pergũtado sesabiaelle pesoas estauaõ
na casa ficãsobre asua do corredrodeçima,
esenella ouemoutras ouuia falar; Disse elle
naõsabia aspesoas estauaõemcima nacasa
ficaua sobreoseu aponsento, masq̑ anoite de
sestafeira peraosabbado dehuã ora pera as tres
depois demea noite ouuioelle [conjectura gemerhuãmolher
]
segũdolhe pareçeo nocarçere decima no corredor
dediante mas naõ [conjectura atinou] emq̑casa, equal ge-
mia
egritaua mas elle lhenaõ intẽdeo oq̑ella
dizia, nẽ sabe quẽ era nẽ [subscrito opq̑] gemia Egrita-
ua ,
eo mesmo ouujo [sobrescrito seucompanhro] [sobrescrito Gco] pires
Emais naõ dise Eassinou aqui [sobrescrito cõosnor̃Jnquor
]
simaõ lopz̃ oescreuj /
[assinatura [sobrescrito poalluz
]
]

[assinatura luis glz̃ deRibafria

[margem_sup [símbolo +]]

[borrado &] [borrado Ana] [conjectura Mendes] xpaã noua de [conjectura vinhais
]
[conjectura presa] nocarçere [sobrescrito destesantooffo] q̑estaa
naquĩta casa [conjectura docarçere] deçima do corredor
dediante aqual osnor̃ [sobrescrito Jnquor] mãdou
uir perantesi [subscrito esendopresentepa
]
emtudo dizer uerdade lhefoidado
[sobrescrito Juramto] dossantos Euangelhos emq̑ella
posamaõ Esob carrego delle [subscrito pmeteo
]
dizella; Esendo pergũtada disseq̑
nasexta casa do carçere decima docorre-
dor
dediante he aq̑ estaa pegadacõ
oaponsento õdeella estaa, estaua huãmolher
ella naõ conhecia , eanoite [sobrescrito desestafra
]
perao sabbado proximo passadoq̑foraõ
[corroído dezoitodias] destemes, amtreas duas
eastresoras depois dameanoite ouujo
ella declarante Esuas [sobrescrito cõpanhras] q̑saõ
guiomar [conjectura seriuã] molherde [sobrescrito AntoRoiz̃
]
E Maria aluz̃ [conjectura EJustade] Liaõ, gritar
[tachado aditta] [tachado presa] huã molher aqualcha-
maua
[subscrito p] Jesus uozes mui altas eisto [subscrito pespaço
]
quasidehũ ora, oq̑ naõsabe q̑uẽ era
[corroído nẽemq̑] [corroído casa] estaua, senaõ sabado

[reclame polla

[margem_sup [símbolo +
]
]

pollamanhaã [borrado q̑oalcaide] [borrado chamouaella
]
declarante Eas [sobrescrito companhras] [borrado pera] [borrado a] [borrado Jrẽamor-
talhar]
eella amortalhou aditta defũtaq̑estaua
nasexta casa as cõpanheiras, Enenhuã
dellas aconheçeo, eentaõ lhe pareçeo aquella
eraamolher denoite gritara; eq̑ ella
naõ sabe deq̑ aditta molher morreo, elheujo
todo ocorpo Esuas [sobrescrito copanhras] sem nelle lheacharẽ
magoa alguã, eassinej [subscrito p] ella cõosnor̃
[sobrescrito Jnquor] simaõlopz̃ oescreuj edeclarou a
ditta noite sentjo ellaesuas [sobrescrito cõpanhrasandar
]
oalcaide Rodeando Euigiãdo ocarçere das
des peraas onze oras simaõlopz̃ oescreuj

[assinatura luisglz̃ deRibafria] [assinatura Simaõlopz̃]

Edição semidiplomática

Catarina Luís: Edição Semidiplomática

Processo de Catarina Luís
Edição semidiplomática
Arquivo gerado pela ferramenta eDictor


Caterina luis +
cristãuelha
sessoes

1589

+

A
os noue dias do mes de feuereiro
de mil E quinhentos Oitenta E
noue annos Em Coimbra na casa do
despacho da santa Jnquisicam Estando ahi o
senhor Jnquisidor Luis gonçalvez de Ribafria Em audiencia
da tarde mandou uir perante si
huma molher que foi trazida presa do aliube
de Braga a Este carcere onde ora Estaa
E sendo presente pera Em tudo dizer uerdade lhe foi
dado iuramento dos santos
Euangelhos Em que pos sua maõ E sob Cargo
dele permeteo dizela// E lhe foi feito pergunta
como auia nome de que idade
Era donde natural E ao presente morador
E per Ela foi dito que se chamaua Caterina Luis
cristãuelha de idade de trinta annos
pouco mais ou menos natural de sapeaõs
tres legoas de chaues E morador Em sanguinhedo
casada com Bras dias cristaõuelho
fereiro E logo foi amoestada com muita
Charidade que Confesase nesta
mesa suas culpas na uerdade

pera

+

pera se Com Ela poder vsar
de Misericordia E per dizer que Ela naõ
tinha culpas que confesar nesta mesa
foi outra ues amoestada E Mandada
a seu Carçere E asinei aqui
per Ela com o senhor Jnquisidor Andre vaz frois
o EsCreui

Andre vaz frois
luis gonçalvez de Ribafria

+

A
uto que o senhor Jnquisidor luĩs gonçalvez de Ribafria
mandou fazer do falecimento
de Caterina Luis cristãuelha de sanguinhedo
termo da villa de monteallegre
presa no carçere deste santo
officio/.

A
os dezoito dias do mes de feuereiro de mil quinhentos
oitenta E noue ãnos em Coimbra
na casa do despacho da santa Jnquisiçaõ
estando ahi o senhor Jnquisidor Luĩs gonçalvez de Ribafria
em audiencia de polla manhaã, per elle foi
ditto que oje polla manhaã estando elle ajnda
em casa lhe mandou dizer, (as sete oras)
Pero teixeira alcaide do carçere per Manoel
Rodriguez homem do meirinho desta Jnquisiçaõ que abrindo
elle alcaide a porta do aposento onde estaua Caterina
luis a achara morta na cama, e que na ditta casa
achara a hum canto della a brasa de o caruaõ que nella
tinha, e que deuja morrer afogada com o fumo, e logo
o ditto senhor Jnquisidor foi ao carcere desta Jnquisicam
a sexta casa do carçere de cima do corredor de
diante, onde a ditta Caterina lois estaua presa

+

Jndo com elle Andre uaz notario desta Jnquisicao
E eu notario E o doutor Antonjo sebastiaõ
medico desta casa, e o ditto Pero Teixeira
alcaide do carçere E Jorge francisco guarda
E vimos que a ditta Caterina lois Jazia morta
na cama, E a entrada da casa em hum canto
della a maõ esquerda estaua no ladrilho
da casa mais de a metade de meo saco
de caruaõ o mais delle todo abrasado; E o ditto
Medico ujo a ditta Caterina lois E disse
(feito exame) estar
morta e assi a uimos todos
E disso demos nossa fe e que deuja
de ser causa de sua morte o fumo per ficar
com a porta fechada e Janella, como se confrima
que ella por se aquentar deuia aCender
aquelle caruaõ que ali tinha, e isto he o que
pareçeo a todos, e o medico disse que a deixase
estar assi ate a tarde e assi o mandou
o senhor Jnquisidor de que tudo fiz este termo
que o senhor Jnquisidor assinou e dos sobre dittos
simaõ lopez o escreuj./.
simaõ lopez

luis gonçalvez de Ribafria doutor Antonjo sebastiaõ
Andre vaaz frois teixeira

+
Em o mesmo dia em audiencia da tarde antre as duas
E as tres oras mandou o senhor Jnquisidor a mjm notario que fosse
com o doutor Antonjo sebastiaõ medico uer a ditta
defunta, ao que satisfizemos e a uimos morta Ja
amortalhada com o Rosto descuberto e o ditto Medico
disse que a podiaõ enterrar e o senhor Jnquisidor mandou
que fosse enterrada de que fiz este termo que assinej
Com o senhor Jnquisidor e o ditto medico e com o alcaide
Pero Teixeira simaõ lopez o escreuj
Simaõ lopez

luis gonçalvez de Ribafria doutor Antonjo Sebastiaõ
pero teixeira

E feitos E assinados os dittos termos acima E
atras escritos o senhor Jnquisidor mandou uir perante si
Pero Teixeira alcade do carçere deste santo officio
E sendo presente pera em tudo dizer uerdade
lhe foi dado Juramento dos santos Euangelhos

+

em que elle pos sua maõ E sob carrego delle
permeteo dizella, E sendo perguntado, declarou
, que sestafeira a noite que foraõ desesete
dias deste mes de feuereiro de oitenta E noue
elle declarante deu candea a Caterina lois conteuda
nestes autos que estaua na sesta casa do
carçere de çima do corredor de diante (a qual
foi metida na ditta casa quando ueo que foi aos
tres dias do ditto mes,) e lhe fechou a porta
e Janella do ditto aponsento como se costuma
fazer a todos os presos leixandoa saã
E bem desposta sem nenhuma queixa de
doente nem na teue nem mostrou depois de
estar presa nem mostrou paixaõ alguma,
E depois de dar lume aos presos ficando
Jorge francisco guarda no carçere se foi elle alcaide
cear e depois tornou ao carçere as noue oras
E andou nelle uĩgiandoo to das
onze oras da noite que se Recolheo, no qual
tempo pasou algumas uezes polla perta do ditto
aponsente onde estaua a ditta Caterina lois e uyo
que estaua tudo quieto, E naõ sentjo dentro
no ditto aponsento cousa alguma, mas antes
tudo quieto, e polla menhaã e amanhe

+

cendo o guarda Jorge francisco que certo que dormia
lhe abrio a Janella como fez aos mais
presos segundo se costuma fazer e elle ditto
alcaide se foi ao carçere antre as seis E as
sete e abrindo as pertas aos presos como se costuma
pera as prouer do que lhe fosse neçessarjo
abriu tambem a perta do aponsento da ditta
Caterina lois, onde estaua soo, dizendolhe: deos
uos dee bons dias/ como diz a todos, e per lhe ella
naõ Responder, lhe perguntou , se dormja, E uendo
que ella lhe naõ falaua chamou o ditto Jorge
francisco guarda E abrindo a grade entraraõ ambos
dentro, E acharaõ a ditta persa na cama antre
a Roupa, deitada de bruços de costa E estendida
com o braço dereito per cima da cabeça E toda
cuberta somente de meas pernas pera baixo estaua
descuberta, e estaua morta, E em hum canto da ditta
casa estaua hum pouco de caruaõ no ladrilho
della abrazado, e lhe pareçe a elle alcaide que per
quanto a noite era fria a ditta Caterina lois lhe
pos o fogo E acendeo com a candea que lhe foi
dada pera se aquentar, E deixando acesso se deitara
na cama e que dormindo se afogaria com o grande

+

fumo que do ditto lume proçedera per estar
a perta E Janella fechada, E naõ sabe nem
sentio outra cousa que ouuesse da morte
da ditta presa, e que loguo entaõ mandou
Recado a elle senhor Jnquisidor per manoel Rodriguez
homem do meirinho que andaua no carcere ajudando
Jorge francisco per estar mal desposto, e per o outro
guarda estar doente em sua casa, e elle
ditto alcaide foi tanbem dar conta do
que passaua a elle senhor Jnquisidor a sua casa
antes das oito oras, e assinou aqui
com o senhor Jnquisidor simaõ lopez o escreuj

luis gonçalvez de Ribafria pero teixeira

E loguo o senhor Jnquisidor mandou uir perante
si Jorge francisco guarda do carçere E sendo
presente pera em tudo dizer uerdade
lhe foi dado Juramento dos santos Euangelhos
em que elle pos sua maõ E sob carrego delle
permeteo dizella, E sendolhe mandado que
declarase o que sabia acerca da morte de
Caterina lois, disse , que sestafeira que foraõ
desasete dias do mes presente de feuereiro

deste

+

deste presente ãno de oitenta E noue elle declarante
ueo de sua casa de çear as [**] oras, e depois em anoitecendo
fechou as Janellas as presas como se costuma
tendo Ja todas candeas, e todas estauaõ quietas
Sem auer Rebolico algum em nenhuma das dittas
casas, e a ditta Caterina lois estaua tambem no seu
aponsento quieta, e elle a uja cada dia saã e bem
desposta E comia muito bem tudo o que lhe dauaõ, E
elle Recolheo no seu aponsento que tem ao carçere
de baixo as noue oras pouco mais ou menos, e o alcaide
ficou uigiando o carcere atee perto das onze
oras que se foi pera sua casa, e elle declarante se
aleuantou a meanoite e sajo fora do seu aponsento
e escutou se uja alguma cousa, E naõ ouujo nada
mas antes sentjo que tudo estaua quieto, e se
tornou a Recolher per amdar mal desposto, E pella
manhaã as cinquo oras se ergueo pera uer
se ouuia alguma cousa, e naõ ouujo nada, E as
seis se foi abrir as Janellas dos aponsentos
das molheres, e abrjo a Janella da sexta casa
onde estaua a ditta Caterina lois E sentjo que tudo
estaua quieto,/ e o alcaide Pero Teixeira ueo
abrir os persos depois das seis oras, e abrindo

+

a porta do aponsento da ditta Caterina lois
per lhe ella naõ falar, chamou o ditto
alcaide a elle declarante E abrjo
a grade E ambos entraraõ dentro
E firaõ a cama onde ella jazia E a acharaõ
morta deitada de bruços antre a Roupa
cuberta somente tinha mea perna descuberta,
E acharaõ no canto da ditta
cela no ladrilho, hum pouco de caruaõ
que alli ficara demtre as pessoas que alli tinhaõ
estado que tinhaõ fugareiro, açesso todo
e abrasado, e lhe pareçe que a causa da
morte da ditta caterina lois seria o fumo
que o ditto fogo faria per naõ ter per onde
sair e que ella acenderia o ditto caruaõ
com a candea que lhe foi dada a noite com algum
pedaco de vasoura das que tinha no aponsento
pera se aquentar per fazer frio; e assinou
aqui com o senhor Jnquisidor simaõ lopez
notario apostolico o escreuj/

Jorge ffrancisco
Luis gonçalvez de Ribafria

+

E loguo o senhor Jnquisidor mandou uir perante si Pero
aluarez cristaõnouo de vinhais preso no carçere
deste santo officio o qual estaa na oitaua casa
do carçere de baixo do corredor de diante, E sendo
presente pera em tudo dizer uerdade lhe foi
dado Juramento dos santos Euangelhos elle
pos sua maõ E sob carrego delle em que prometeo dizella
E sendo perguntado se sabia elle que pesoas estauaõ
na casa que ficã sobre a sua do corredro de çima,
e se nella ou em outras ouuia falar; Disse que elle
naõ sabia as pesoas que estauaõ em cima na casa que
ficaua sobre o seu aponsento, mas que a noite de
sestafeira pera o sabbado de huma ora pera as tres
depois de meanoite ouuio elle gemer huma molher
segundo lhe pareçeo no carçere de cima no corredor
de diante mas naõ atinou em que casa, e qual gemia
e gritaua mas que elle lhe naõ intendeo o que ella
dizia, nem sabe quem era nem o perque gemia E gritaua,
e o mesmo ouujo seu companheiro Goncalo pires
E mais naõ dise E assinou aqui com o senhor Jnquisidor
simaõ lopez o escreuj/
pero alluarez

luis gonçalvez de Ribafria

+

e Ana Mendes cristãnoua de vinhais
presa no carçere deste santo officio que estaa
na quinta casa do carçere de çima do corredor
de diante a qual o senhor Jnquisidor mandou
uir perante si e sendo presente pera
em tudo dizer uerdade lhe foi dado
Juramento dos santos Euangelhos em que ella
pos a maõ E sob carrego delle permeteo
dizella; E sendo perguntada disse que
na sexta casa do carçere de cima do corredor
de diante que he a que estaa pegada com
o aponsento onde ella estaa, estaua huma molher
que ella naõ conhecia, e a noite de sestafeira
pera o sabbado proximo passado que foraõ
dezoito dias deste mes, amtre as duas
e as tres oras depois da meanoite ouujo
ella declarante E suas companheiras que saõ
guiomar seriuam molher de Antonjo Rodriguez
E Maria aluarez E Justa de Liaõ, gritar
a ditta presa huma molher a qual chamaua
per Jesus uozes mui altas e isto per espaço
quasi de hum ora, o que naõ sabe quem era
nem em que casa estaua, senaõ sabado

polla

+

polla manhaã que o alcaide chamou a ella
declarante E as companheiras pera a Jrem amortalhar
e ella amortalhou a ditta defunta que estaua
na sexta casa com as companheiras, E nenhuma
dellas a conheçeo, e entaõ lhe pareçeo que aquella
era a molher que de noite gritara; e que ella
naõ sabe de que a ditta molher morreo, e lhe ujo
todo o corpo E suas copanheiras sem nelle lhe acharem
magoa alguma, e assinej per ella com o senhor
Jnquisidor simaõ lopez o escreuj e declarou que a
ditta noite sentjo ella e suas companheiras andar
o alcaide Rodeando E uigiando o carçere das
des pera as onze oras simaõ lopez o escreuj

Luis gonçalvez de Ribafria Simaõ lopez

Edição modernizada

Catarina Luís: Edição Modernizada

Processo de Catarina Luís
Edição modernizada
Arquivo gerado pela ferramenta eDictor


+

para se com ela poder usar
de misericórdia. E, per dizer que ela não
tinha culpas que confessar nesta mesa,
foi outra vez admoestada e mandada
a seu cárcere. E assinei aqui
per ela com o senhor Inquisidor. André Vaz Fróis,
o escrevi.

André Vaz Fróis
Luís Gonçalves de Ribafria

+

indo com ele André Vaz, notário desta Inquisição,
e eu, notário, e o doutor Antônio Sebastião,
médico desta casa, e o dito Pero Teixeira,
alcaide do cárcere, e Jorge Francisco, guarda.
E vimos que a dita Catarina Luís jazia morta
na cama, e à entrada da casa, em um canto
dela, a mão esquerda estava no ladrilho
da casa, mais de a metade de meo saco
de carvão, o mais dele todo abrasado; e o dito
médico viu a dita Catarina Luís e disse
(feito exame) estar
morta, e assim a vimos todos
e disso demos nossa fé. E que devia
de ser causa de sua morte o fumo, per ficar
com a porta fechada e janela, como se confirma
que ela, por se aquentar, devia acender
aquele carvão que ali tinha, e isto é o que
pareceu a todos. E o médico disse que a deixasse
estar assi até à tarde, e assi o mandou
o senhor Inquisidor de que tudo fiz este termo,
que o senhor Inquisidor assinou, e dos sobre ditos
Simão Lopes, o escrevi.
Simão Lopes

Luís Gonçalves de Ribafria doutor Antônio Sebastião
André Vaz Fróis Teixeira

+
Em o mesmo dia em audiência da tarde, antre as duas
e as três horas, mandou o senhor Inquisidor a mim, notário, que fosse
com o doutor Antônio Sebastião, médico, ver a dita
defunta, ao que satisfizemos e a vimos morta,
amortalhada, com o rosto descoberto. E o dito médico
disse que a podiam enterrar, e o senhor Inquisidor mandou
que fosse enterrada, de que fiz este termo que assinei
com o senhor Inquisidor e o dito médico e com o alcaide
Pero Teixeira. Simão Lopes, o escrevi.
Simão Lopes

Luís Gonçalves de Ribafria doutor Antônio Sebastião
Pero Teixeira

E, feitos e assinados os ditos termos acima e
atrás escritos, o senhor Inquisidor mandou vir perante si
Pero Teixeira, alcaide do cárcere deste Santo Ofício.
E, sendo presente para em tudo dizer verdade,
lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos,

+

em que ele pôs sua mão e sob carrego dele
prometeu dizê-la. E, sendo perguntado, declarou
que sexta-feira à noite, que forão dezessete
dias deste mês de fevereiro de oitenta e nove,
ele declarante deu candeia a Catarina Luís, conteúda
nestes autos, que estava na sexta casa do
cárcere de cima, do corredor de diante (a qual
foi metida na dita casa quando veio, que foi aos
três dias do dito mês) e lhe fechou a porta
e janela do dito aposento, como se costuma
fazer a todos os presos, leixando-a
e bem disposta, sem nenhuma queixa de
doente, nem na teve nem mostrou depois de
estar presa, nem mostrou paixão alguma.
E depois de dar lume aos presos, ficando
Jorge Francisco, guarda, no cárcere, se foi ele alcaide
cear, e depois tornou ao cárcere às nove horas,
e andou nele vigiando-o das
onze horas da noite que se recolheu, no qual
tempo passou algumas vezes pola porta do dito
aposento onde estava a dita Catarina Luís, e viu
que estava tudo quieto, e não sentiu dentro
no dito aposento cousa alguma, mas antes
tudo quieto. E, pola menhã e amanhe

+

cendo, o guarda Jorge Francisco que certo que dormia
lhe abriu a janela, como fez aos mais
presos, segundo se costuma fazer, e ele dito
alcaide se foi ao cárcere antre as seis e as
sete, e abrindo as portas aos presos, como se costuma,
para as prover do que lhe fosse necessário,
abriu também a porta do aposento da dita
Catarina Luís, onde estava , dizendo-lhe: "Deus
vos bons dias", como diz a todos, e, per lhe ela
não responder, lhe perguntou se dormia, e vendo
que ela lhe não falava, chamou o dito Jorge
Francisco, guarda, e abrindo a grade entrarão ambos
dentro, e acharam a dita presa na cama antre
a roupa, deitada de bruços de costa e estendida
com o braço dereito per cima da cabeça, e toda
coberta, somente de meas pernas para baixo estava
descoberta, e estava morta. E em um canto da dita
casa estava um pouco de carvão no ladrilho
dela, abrasado, e lhe parece a ele alcaide que, per
quanto a noite era fria, a dita Catarina Luís lhe
pôs o fogo, e acendeu com a candeia que lhe foi
dada, para se aquentar, e deixando aceso se deitara
na cama, e que dormindo se afogaria com o grande

+

fumo que do dito lume procedera, per estar
a porta e janela fechada. E não sabe nem
sentiu outra cousa que houvesse da morte
da dita presa, e que logo então mandou
recado a ele, senhor Inquisidor, per Manuel Rodrigues,
homem do meirinho, que andava no cárcere ajudando
Jorge Francisco per estar mal disposto, e per o outro
guarda estar doente em sua casa, e ele
dito alcaide foi também dar conta do
que passava a ele, senhor Inquisidor, a sua casa
antes das oito horas. E assinou aqui
com o senhor Inquisidor. Simão Lopes, o escrevi.

Luís Gonçalves de Ribafria Pero Teixeira

E logo o senhor Inquisidor mandou vir perante
si Jorge Francisco, guarda do cárcere. E, sendo
presente para em tudo dizer verdade,
lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos,
em que ele pôs sua mão e sob carrego dele
prometeu dizê-la. E, sendo-lhe mandado que
declarasse o que sabia acerca da morte de
Catarina Luís, disse que sexta-feira, que forão
dezassete dias do mês presente de fevereiro

deste

+

deste presente ano de oitenta e nove, ele declarante
veio de sua casa de cear às [**] horas, e depois, em anoitecendo,
fechou as janelas às presas, como se costuma,
tendo já todas candeias, e todas estavam quietas,
sem haver reboliço algum em nenhuma das ditas
casas, e a dita Catarina Luís estava também no seu
aposento quieta, e ele a via cada dia e bem
disposta, e comia muito bem tudo o que lhe davam. E
ele recolheu no seu aposento, que tem ao cárcere
de baixo, às nove horas, pouco mais ou menos, e o alcaide
ficou vigiando o cárcere até perto das onze
horas, que se foi para sua casa. E ele declarante se
alevantou à meia-noite e saiu fora do seu aposento,
e escutou se via alguma cousa, e não ouviu nada,
mas antes sentiu que tudo estava quieto, e se
tornou a recolher per andar mal disposto. E pela
manhã, às cinco horas, se ergueu para ver
se ouvia alguma cousa, e não ouviu nada, e às
seis se foi abrir as janelas dos aposentos
das mulheres, e abriu a janela da sexta casa,
onde estava a dita Catarina Luís, e sentiu que tudo
estava quieto. E o alcaide Pero Teixeira veio
abrir os presos depois das seis horas, e abrindo

+

a porta do aposento da dita Catarina Luís,
per lhe ela não falar, chamou o dito
alcaide a ele declarante e abriu
a grade. E ambos entraram dentro
e viram a cama onde ela jazia, e a acharam
morta, deitada de bruços antre a roupa,
coberta, somente tinha mea perna descoberta,
e acharam no canto da dita
cela, no ladrilho, um pouco de carvão
que ali ficara dentre as pessoas que ali tinham
estado, que tinham fogareiro, aceso todo
e abrasado, e lhe parece que a causa da
morte da dita Catarina Luís seria o fumo
que o dito fogo faria, per não ter per onde
sair, e que ela acenderia o dito carvão
com a candeia que lhe foi dada à noite com algum
pedaço de vassoura das que tinha no aposento,
para se aquentar per fazer frio. E assinou
aqui com o senhor Inquisidor. Simão Lopes,
notário apostólico, o escrevi.

Jorge Francisco
Luís Gonçalves de Ribafria

+

E logo o senhor Inquisidor mandou vir perante si Pero
Álvares, cristão-novo de Vinhais, preso no cárcere
deste Santo Ofício, o qual está na oitava casa
do cárcere de baixo, do corredor de diante. E, sendo
presente pera em tudo dizer verdade, lhe foi
dado juramento dos Santos Evangelhos, ele
pôs sua mão e sob carrego dele em que prometeu dizê-la.
E, sendo perguntado se sabia ele que pessoas estavam
na casa que fica sobre a sua, do corredor de cima,
e se nela ou em outras ouvia falar, disse que ele
não sabia as pessoas que estavam em cima, na casa que
ficava sobre o seu aposento, mas que à noite de
sexta-feira para o sábado, de uma hora para as três,
depois de meia-noite, ouviu ele gemer uma mulher,
segundo lhe pareceu, no cárcere de cima, no corredor
de diante, mas não atinou em que casa, e qual gemia
e gritava, mas que ele lhe não entendeu o que ela
dizia, nem sabe quem era nem o porquê gemia e gritava,
e o mesmo ouviu seu companheiro, Gonçalo Pires.
E mais não disse. E assinou aqui com o senhor Inquisidor.
Simão Lopes, o escrevi.
Pero Álvares

Luís Gonçalves de Ribafria

+

E Ana Mendes, cristã-nova de Vinhais,
presa no cárcere deste Santo Ofício, que está
na quinta casa do cárcere de cima, do corredor
de diante, a qual o senhor Inquisidor mandou
vir perante si. E, sendo presente para
em tudo dizer verdade, lhe foi dado
juramento dos Santos Evangelhos, em que ela
pôs a mão e sob carrego dele prometeu
dizê-la. E, sendo perguntada, disse que
na sexta casa do cárcere de cima, do corredor
de diante, que é a que está pegada com
o aposento onde ela está, estava uma mulher
que ela não conhecia, e à noite de sexta-feira
para o sábado, próximo passado, que foram
dezoito dias deste mês, antre as duas
e as três horas, depois da meia-noite, ouviu
ela declarante e suas companheiras que são
Guiomar Serivam, mulher de Antônio Rodrigues,
e Maria Álvares e Justa de Leão, gritar
a dita presa, uma mulher, a qual chamava
per Jesus, vozes mui altas, e isto per espaço
quase de uma hora, o que não sabe quem era
nem em que casa estava, senão sábado

pola

+

pola manhã, que o alcaide chamou a ela
declarante e às companheiras para a irem amortalhar.
E ela amortalhou a dita defunta que estava
na sexta casa com as companheiras, e nenhuma
delas a conheceu, e então lhe pareceu que aquela
era a mulher que de noite gritara, e que ela
não sabe de que a dita mulher morreu, e lhe viu
todo o corpo e suas companheiras sem nele lhe acharem
mágoa alguma. E assinei per ela com o senhor
Inquisidor. Simão Lopes, o escrevi. E declarou que, à
dita noite, sentiu ela e suas companheiras andar
o alcaide rodeando e vigiando o cárcere das
dez para as onze horas. Simão Lopes, o escrevi.

Luís Gonçalves de Ribafria Simão Lopes