Processo de Catarina Luís
Edição modernizada
Arquivo gerado pela ferramenta eDictor
 |
|
 |
+
A os nove dias do mês de fevereiro de mil e quinhentos oitenta e nove anos, em Coimbra, na casa do despacho da Santa Inquisição, estando aí o senhor Inquisidor Luís Gonçalves de Ribafria, em audiência da tarde, mandou vir perante si uma mulher que foi trazida presa do aljube de Braga a este cárcere, onde ora está. E, sendo presente para em tudo dizer verdade, lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos, em que pôs sua mão e sob cargo dele prometeu dizê-la. E lhe foi feito pergunta: como havia nome, de que idade era, donde natural e ao presente morador. E per ela foi dito que se chamava Catarina Luís, cristã-velha de idade de trinta anos, pouco mais ou menos, natural de Sapiãos, três léguas de Chaves, e morador em Sanguinhedo, casada com Brás Dias, cristão-velho, ferreiro. E logo foi admoestada, com muita caridade, que confesasse nesta mesa suas culpas na verdade
para |
 |
+
para se com ela poder usar de misericórdia. E, per dizer que ela não tinha culpas que confessar nesta mesa, foi outra vez admoestada e mandada a seu cárcere. E assinei aqui per ela com o senhor Inquisidor. André Vaz Fróis, o escrevi.
André Vaz Fróis Luís Gonçalves de Ribafria |
 |
+
A uto que o senhor Inquisidor Luís Gonçalves de Ribafria mandou fazer do falecimento de Catarina Luís, cristã-velha de Sanguinhedo, termo da vila de Montalegre, presa no cárcere deste Santo Ofício.
A os dezoito dias do mês de fevereiro de mil quinhentos oitenta e nove anos, em Coimbra, na casa do despacho da Santa Inquisição, estando aí o senhor Inquisidor Luís Gonçalves de Ribafria em audiência de pola manhã, per ele foi dito que, hoje pola manhã, estando ele ainda em casa, lhe mandou dizer (às sete horas) Pero Teixeira, alcaide do cárcere, per Manoel Rodrigues, homem do meirinho desta Inquisição, que, abrindo ele, alcaide, a porta do aposento onde estava Catarina Luís, a achara morta na cama, e que, na dita casa, achara, a um canto dela, a brasa de o carvão que nela tinha, e que devia morrer afogada com o fumo. E logo o dito senhor Inquisidor foi ao cárcere desta Inquisição à sexta casa do cárcere de cima, do corredor de diante, onde a dita Catarina Luís estava presa, |
 |
+
indo com ele André Vaz, notário desta Inquisição, e eu, notário, e o doutor Antônio Sebastião, médico desta casa, e o dito Pero Teixeira, alcaide do cárcere, e Jorge Francisco, guarda. E vimos que a dita Catarina Luís jazia morta na cama, e à entrada da casa, em um canto dela, a mão esquerda estava no ladrilho da casa, mais de a metade de meo saco de carvão, o mais dele todo abrasado; e o dito médico viu a dita Catarina Luís e disse (feito exame) estar morta, e assim a vimos todos e disso demos nossa fé. E que devia de ser causa de sua morte o fumo, per ficar com a porta fechada e janela, como se confirma que ela, por se aquentar, devia acender aquele carvão que ali tinha, e isto é o que pareceu a todos. E o médico disse que a deixasse estar assi até à tarde, e assi o mandou o senhor Inquisidor de que tudo fiz este termo, que o senhor Inquisidor assinou, e dos sobre ditos Simão Lopes, o escrevi. Simão Lopes
Luís Gonçalves de Ribafria doutor Antônio Sebastião André Vaz Fróis Teixeira |
 |
+ Em o mesmo dia em audiência da tarde, antre as duas e as três horas, mandou o senhor Inquisidor a mim, notário, que fosse com o doutor Antônio Sebastião, médico, ver a dita defunta, ao que satisfizemos e a vimos morta, já amortalhada, com o rosto descoberto. E o dito médico disse que a podiam enterrar, e o senhor Inquisidor mandou que fosse enterrada, de que fiz este termo que assinei com o senhor Inquisidor e o dito médico e com o alcaide Pero Teixeira. Simão Lopes, o escrevi. Simão Lopes
Luís Gonçalves de Ribafria doutor Antônio Sebastião Pero Teixeira
E, feitos e assinados os ditos termos acima e atrás escritos, o senhor Inquisidor mandou vir perante si Pero Teixeira, alcaide do cárcere deste Santo Ofício. E, sendo presente para em tudo dizer verdade, lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos, |
 |
+
em que ele pôs sua mão e sob carrego dele prometeu dizê-la. E, sendo perguntado, declarou que sexta-feira à noite, que forão dezessete dias deste mês de fevereiro de oitenta e nove, ele declarante deu candeia a Catarina Luís, conteúda nestes autos, que estava na sexta casa do cárcere de cima, do corredor de diante (a qual foi metida na dita casa quando veio, que foi aos três dias do dito mês) e lhe fechou a porta e janela do dito aposento, como se costuma fazer a todos os presos, leixando-a sã e bem disposta, sem nenhuma queixa de doente, nem na teve nem mostrou depois de estar presa, nem mostrou paixão alguma. E depois de dar lume aos presos, ficando Jorge Francisco, guarda, no cárcere, se foi ele alcaide cear, e depois tornou ao cárcere às nove horas, e andou nele vigiando-o das onze horas da noite que se recolheu, no qual tempo passou algumas vezes pola porta do dito aposento onde estava a dita Catarina Luís, e viu que estava tudo quieto, e não sentiu dentro no dito aposento cousa alguma, mas antes tudo quieto. E, pola menhã e amanhe |
 |
+
cendo, o guarda Jorge Francisco que certo que dormia lhe abriu a janela, como fez aos mais presos, segundo se costuma fazer, e ele dito alcaide se foi ao cárcere antre as seis e as sete, e abrindo as portas aos presos, como se costuma, para as prover do que lhe fosse necessário, abriu também a porta do aposento da dita Catarina Luís, onde estava só, dizendo-lhe: "Deus vos dê bons dias", como diz a todos, e, per lhe ela não responder, lhe perguntou se dormia, e vendo que ela lhe não falava, chamou o dito Jorge Francisco, guarda, e abrindo a grade entrarão ambos dentro, e acharam a dita presa na cama antre a roupa, deitada de bruços de costa e estendida com o braço dereito per cima da cabeça, e toda coberta, somente de meas pernas para baixo estava descoberta, e estava morta. E em um canto da dita casa estava um pouco de carvão no ladrilho dela, abrasado, e lhe parece a ele alcaide que, per quanto a noite era fria, a dita Catarina Luís lhe pôs o fogo, e acendeu com a candeia que lhe foi dada, para se aquentar, e deixando aceso se deitara na cama, e que dormindo se afogaria com o grande |
 |
+
fumo que do dito lume procedera, per estar a porta e janela fechada. E não sabe nem sentiu outra cousa que houvesse da morte da dita presa, e que logo então mandou recado a ele, senhor Inquisidor, per Manuel Rodrigues, homem do meirinho, que andava no cárcere ajudando Jorge Francisco per estar mal disposto, e per o outro guarda estar doente em sua casa, e ele dito alcaide foi também dar conta do que passava a ele, senhor Inquisidor, a sua casa antes das oito horas. E assinou aqui com o senhor Inquisidor. Simão Lopes, o escrevi.
Luís Gonçalves de Ribafria Pero Teixeira
E logo o senhor Inquisidor mandou vir perante si Jorge Francisco, guarda do cárcere. E, sendo presente para em tudo dizer verdade, lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos, em que ele pôs sua mão e sob carrego dele prometeu dizê-la. E, sendo-lhe mandado que declarasse o que sabia acerca da morte de Catarina Luís, disse que sexta-feira, que forão dezassete dias do mês presente de fevereiro
deste |
 |
+
deste presente ano de oitenta e nove, ele declarante veio de sua casa de cear às [**] horas, e depois, em anoitecendo, fechou as janelas às presas, como se costuma, tendo já todas candeias, e todas estavam quietas, sem haver reboliço algum em nenhuma das ditas casas, e a dita Catarina Luís estava também no seu aposento quieta, e ele a via cada dia sã e bem disposta, e comia muito bem tudo o que lhe davam. E ele recolheu no seu aposento, que tem ao cárcere de baixo, às nove horas, pouco mais ou menos, e o alcaide ficou vigiando o cárcere até perto das onze horas, que se foi para sua casa. E ele declarante se alevantou à meia-noite e saiu fora do seu aposento, e escutou se via alguma cousa, e não ouviu nada, mas antes sentiu que tudo estava quieto, e se tornou a recolher per andar mal disposto. E pela manhã, às cinco horas, se ergueu para ver se ouvia alguma cousa, e não ouviu nada, e às seis se foi abrir as janelas dos aposentos das mulheres, e abriu a janela da sexta casa, onde estava a dita Catarina Luís, e sentiu que tudo estava quieto. E o alcaide Pero Teixeira veio abrir os presos depois das seis horas, e abrindo |
 |
+
a porta do aposento da dita Catarina Luís, per lhe ela não falar, chamou o dito alcaide a ele declarante e abriu a grade. E ambos entraram dentro e viram a cama onde ela jazia, e a acharam morta, deitada de bruços antre a roupa, coberta, somente tinha mea perna descoberta, e acharam no canto da dita cela, no ladrilho, um pouco de carvão que ali ficara dentre as pessoas que ali tinham estado, que tinham fogareiro, aceso todo e abrasado, e lhe parece que a causa da morte da dita Catarina Luís seria o fumo que o dito fogo faria, per não ter per onde sair, e que ela acenderia o dito carvão com a candeia que lhe foi dada à noite com algum pedaço de vassoura das que tinha no aposento, para se aquentar per fazer frio. E assinou aqui com o senhor Inquisidor. Simão Lopes, notário apostólico, o escrevi.
Jorge Francisco Luís Gonçalves de Ribafria |
 |
+
E logo o senhor Inquisidor mandou vir perante si Pero Álvares, cristão-novo de Vinhais, preso no cárcere deste Santo Ofício, o qual está na oitava casa do cárcere de baixo, do corredor de diante. E, sendo presente pera em tudo dizer verdade, lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos, ele pôs sua mão e sob carrego dele em que prometeu dizê-la. E, sendo perguntado se sabia ele que pessoas estavam na casa que fica sobre a sua, do corredor de cima, e se nela ou em outras ouvia falar, disse que ele não sabia as pessoas que estavam em cima, na casa que ficava sobre o seu aposento, mas que à noite de sexta-feira para o sábado, de uma hora para as três, depois de meia-noite, ouviu ele gemer uma mulher, segundo lhe pareceu, no cárcere de cima, no corredor de diante, mas não atinou em que casa, e qual gemia e gritava, mas que ele lhe não entendeu o que ela dizia, nem sabe quem era nem o porquê gemia e gritava, e o mesmo ouviu seu companheiro, Gonçalo Pires. E mais não disse. E assinou aqui com o senhor Inquisidor. Simão Lopes, o escrevi. Pero Álvares
Luís Gonçalves de Ribafria |
 |
+ E Ana Mendes, cristã-nova de Vinhais, presa no cárcere deste Santo Ofício, que está na quinta casa do cárcere de cima, do corredor de diante, a qual o senhor Inquisidor mandou vir perante si. E, sendo presente para em tudo dizer verdade, lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos, em que ela pôs a mão e sob carrego dele prometeu dizê-la. E, sendo perguntada, disse que na sexta casa do cárcere de cima, do corredor de diante, que é a que está pegada com o aposento onde ela está, estava uma mulher que ela não conhecia, e à noite de sexta-feira para o sábado, próximo passado, que foram dezoito dias deste mês, antre as duas e as três horas, depois da meia-noite, ouviu ela declarante e suas companheiras que são Guiomar Serivam, mulher de Antônio Rodrigues, e Maria Álvares e Justa de Leão, gritar a dita presa, uma mulher, a qual chamava per Jesus, vozes mui altas, e isto per espaço quase de uma hora, o que não sabe quem era nem em que casa estava, senão sábado
pola |
 |
+
pola manhã, que o alcaide chamou a ela declarante e às companheiras para a irem amortalhar. E ela amortalhou a dita defunta que estava na sexta casa com as companheiras, e nenhuma delas a conheceu, e então lhe pareceu que aquela era a mulher que de noite gritara, e que ela não sabe de que a dita mulher morreu, e lhe viu todo o corpo e suas companheiras sem nele lhe acharem mágoa alguma. E assinei per ela com o senhor Inquisidor. Simão Lopes, o escrevi. E declarou que, à dita noite, sentiu ela e suas companheiras andar o alcaide rodeando e vigiando o cárcere das dez para as onze horas. Simão Lopes, o escrevi.
Luís Gonçalves de Ribafria Simão Lopes |
|