A primeira articulação que gerou o NEPAIDS surgiu de uma iniciativa do então pró-reitor Prof. Ruy Laurenti (FSP), convocando uma reunião de professores da USP que trabalhavam com o tema da Aids, que mal se conheciam, com o Dr. Norman Hearst do Center for Aids Prevention Studies (CAPS) da Universidade Califórnia – San Francisco. Inspirados pela experiência do CAPS, Cássia Buchalla (FSP), Vera Paiva (IPUSP), Paulo Lotufo (FMUSP/HC), Ângelo Piovesan (ECA), Jorge Beloqui e Jacques Bouchara (IME), lideraram o esforço de estabelecer uma rede na USP.
Sua primeira iniciativa foi a organização e divulgação de um seminário, realizado em outubro de 1991 que, pela primeira vez, abordava a Aids para além do campo da ciência básica, da epidemiologia de risco ou da clínica médica. O “I Encontro: Aids – repercussões psicossociais[1]” foi realizado no campus da Universidade de São Paulo/Butantã, com a participação de cerca de 500 profissionais e ativistas que apresentaram experiências práticas de intervenção em várias frentes da resposta à epidemia brasileira de Aids, com reflexões conceituais e metodológicas. A organização desse seminário foi responsabilidade do Departamento de Psicologia Social USP e da Equipe de Saúde Mental do Centro de Referência e Treinamento Aids da Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo. Resultou na publicação de um livro, em 1992, que teve três edições esgotadas: “Em tempos de Aids”, Paiva, V. (organização); São Paulo: Summus, 1992.
O “II Encontro: Aids – repercussões psicossociais” foi realizado em 1994, no mesmo formato do anterior. Nos anos seguintes passamos a participar de modo estruturado em seminários que, então, se multiplicaram no campo da prevenção. Atuamos, por exemplo, como coorganizadores de seminários que já pensavam a Aids como sindemia, como o Seminário “Criança e Aids[2]”. Em 1998 colaboramos com o I Seminário Direitos Reprodutivos, Exclusão Social e Aids realizado nos dias 15 e 16 de janeiro, no Centro Universitário Maria Antônia/USP em parceria com o Instituto de Saúde – SES/SP, o Instituto de Medicina Social – UERJ, REDE SAÚDE Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos, GIV – Grupo de Incentivo à Vida; com apoio de Fundação MacArthur e GLAMS (México) (1998).
Desde 1992, organizações não governamentais já desenvolviam projetos de educação sexual e prevenção da Aids em São Paulo. A Associação para Prevenção e Tratamento da Aids (APTA), por exemplo, ONG fundada em 1992 por profissionais das áreas de Saúde, Educação, Artes e Relações Públicas, desenvolvia programas de educação preventiva junto a vários grupos. Em 1997, a APTA inicia a organização do EDUCAIDS, seminários anuais onde a prevenção era o tema central. O Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual (GTPOS) nesse mesmo período dedicava-se à construção de cursos de formação, produção de material didático e metodologia de avaliação do programa de Orientação Sexual (que hoje chamamos de educação sexual) para jovens e educadores.
Integrando esse movimento, um projeto de pesquisa e prevenção coordenado pela Profa. Vera Paiva, com apoio da Fundação MacArthur, implementou oficinas de sexo seguro em escolas públicas, noturnas e diurnas, atingindo centenas de estudantes em 3 regiões da cidade de São Paulo. A descrição do processo e deste projeto nomeia o livro Fazendo Arte com Camisinha publicado pela Edit. Summus[3].
Testávamos um modo mais lúdico, incorporando o prazer à prevenção do HIV/Aids e o lema “Viva a Vida”, adotado pelo movimento de pessoas afetadas pela pandemia e vivendo com Aids. O Festival “Fazendo Arte com Camisinha”, realizado no campus do Butantã USP, marcando a semana de luta contra a Aids no dia 29 de novembro de 1992, teve enorme repercussão, mudando a direção sobre como implementar a prevenção da infecção pelo HIV.
Esse festival, registrado em vídeo[4], representou um ponto de inflexão na abordagem de campanhas, na cobertura dos meios de comunicação sobre Aids e prevenção, no modo de incentivar o uso do preservativo associando-o ao “fazer arte”, ao prazer. O evento incluiu um show musical (com a presença de centenas de pessoas e dezenas de artistas), uma gincana, obras de arte sendo feita em ateliês da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP) e concurso que premiou “as melhores obras de arte”, que deveriam usar uma camisinha. Os participantes concorreram com “arte culinária”, “música”, “danças”, “poesia”, “literatura” e artes plásticas (especialmente desenhos, pintura, escultura, etc.). Os melhores trabalhos do concurso estiveram em exposição, até 20 de dezembro de 1992, no Museu de Arte Contemporânea.
Em 1999, o Projeto FIQUE VIVO! chamou a atenção para a vulnerabilidade da juventude encarcerada e que vive “do risco em risco”. Coordenado por Camila Peres, em parceria com a Secretaria Estadual da Saúde e NEPAIDS, caminha na mesma direção de projetos como o Fazendo Arte com Camisinha junto aos jovens internos na FEBEM. Realiza um grande evento, com show de música, dança, teatro e exposição de painéis grafitados, no Teatro da Escola Oficina da FEBEM, tendo como um dos principais resultados o CD educativo “Dos manos de cá para os manos de lá[5]”, produzido pelos jovens. Recebeu o prêmio do concurso: “Gestão Pública e Cidadania”. Premiado pela Fundação Ford e Fundação Getúlio Vargas para projetos inovadores na área de promoção da cidadania.
Ainda em 1999, o Projeto Juventude Interativa: Cidadania contra o Racismo, coordenado por Rosangela Malachias, visou formar jovens negros como agentes multiplicadores na prevenção às DST/Aids e ao uso de drogas. Celebrando o mês da Consciência Negra, antecipou a mobilização em torno do Dia Mundial de Luta contra a Aids, por meio de diversas atividades culturais gratuitas como vídeos, exposições, debates e oficinas de street dance, capoeira, dança afro, poesia e artes plásticas na Estação Ciência. Rosangela Malachias é mestre em Comunicação Social, pesquisadora do NEPAIDS/USP e bolsista da Fundação MacArthur. Apoio: Fundação MacArthur.
De 1993 a 2003, a organização do NEPAIDS permaneceu dinâmica, mantendo diversas comissões e atividades que incluíam ensino, pesquisa e extensão universitária. Produzimos e disseminamos publicações artesanais com tiragem de até 1.000 exemplares como Cadernos, Folhetos, Livretos. Apoiamos e contribuímos para a produção de Cartilhas dedicadas à prevenção nas escolas (para estudantes e professores), distribuídos aos milhares pela Secretaria da Saúde, como a cartilha “Fala Garoto, Fala Garota[6]”.
Organizamos o “Prêmio Theodoro Pluciennik” (1998-2001) para pessoas que se destacavam na luta contra a Aids. O prêmio era resultado de fundos arrecadados em jantares beneficentes (realizados no restaurante SPOT, no restaurante Leopoldo, cuja organização e hostess foi de Marília Gabriela ou com a arrecadação e entrega na apresentação da peça de teatro “E aí Comeu?”). Profissionais ou grupos da área de saúde eram premiados por atividades junto a doentes de Aids ou portadores do vírus, que resultassem em melhora da sua qualidade de vida. O Prêmio era entregue em cerimônia no dia 1º de dezembro, Dia Internacional de Luta contra a Aids e o ganhador tinha seu trabalho divulgado. Os recursos do prêmio deveriam ser usados para a disseminação dessa experiência, para que fosse inspiração para outras pessoas. O prêmio é detalhado no livro “Vidas Solidárias”.
Dr. Theodoro Pluciennik
Formado em Medicina em 1971, pela USP, Theodoro Pluciennik tornou-se psiquiatra e psicodramatista. Foi um dos pioneiros em Organizações Não-Governamentais no movimento gay e de luta contra a Aids, sendo um dos fundadores e presidente do GAPA, onde coordenou o primeiro grupo de visitação domiciliar a pacientes de Aids.
Em 1987, fez parte do grupo de profissionais que constituía o primeiro Centro de Referência e Treinamento de Aids do Brasil, em São Paulo, organizando o serviço de saúde mental que coordenou por quatro anos. Durante este período, planejou, organizou e realizou treinamentos em todo o Brasil.
Foi membro-fundador do Núcleo de Estudos para a Prevenção da Aids da USP (NEPAIDS) e autor de capítulo no livro “Em tempos de Aids”.
Sempre otimista, bem-humorado e colaborador, tornou-se referência para vários profissionais. Era alegre, tratava a vida com leveza; doou muito de seu tempo, energia e criatividade ao atendimento psicológico dos portadores de HIV/Aids, porque acreditava que esse trabalho poderia aliviar o sofrimento e melhorar a qualidade de vida dessas pessoas.
Theodoro morreu em 1995, deixando saudades.
A vocação para o ensino e a pesquisa em prevenção estabilizou o modo do NEPAIDS funcionar e articular no campo da resposta à Aids.
Desde o final dos anos 1990, aproveitando oportunidades oferecidas por fundações internacionais (especialmente a Fogarty, a World Aids Foundation, a Ford Foundation e a MacArthur Foundation) investimos na capacitação de pesquisadores. Defendemos a disseminação dos resultados dos estudos para o público em geral, em primeiro lugar para os participantes das pesquisas.
Na tradição inaugurada pela resposta à Aids, buscamos ativamente incluir entre os “alunos” dos cursos de formação em prevenção e nos de metodologia de pesquisa, membros de ONG e organizações da sociedade civil, profissionais de saúde, educação e assistência social, pessoas vivendo com HIV, além de alunos e professores universitários.
Vários cursos de formação em metodologia de pesquisa seguiram até a aprendizagem sobre como publicar artigos científicos e resultaram em 5 suplementos ou dossiês de revistas no campo.
A experiência de construir parceria entre profissionais de saúde, ONGs e pesquisadores universitários para pensar pesquisas relevantes para a resposta à Aids, foi discutida em artigo para a Revista Aids “Building partnerships to respond to HIV/Aids: non-governmental organizations and universities”, Paiva V, Ayres JRCM, Buchalla CM. Hearst, N. AIDS v. 16, n. dezembro, p. S76-S82, 2002.
Sobre essa experiência, Richard Parker comentou introduzindo o primeiro dos suplementos que resultou desse processo, como se lê no quadro abaixo:
“Os artigos deste número especial são produtos de um experimento único voltado para o confronto de vários dilemas: (1) construção da avaliação como prática emancipadora mais do que apenas uma imposição (em geral externa) das agências financiadores; (2) colocação dos instrumentos da ciências sociais (e seu conhecimento sobre a vulnerabilidade social, da construção social do gênero e da sexualidade e das possibilidades de libertação pedagógica) para sustentar o desenvolvimento de trabalhos de prevenção do HIV/Aids; e (3) formação de um novo profissional, tanto para a academia quanto para a comunidade, que seja capaz de avançar na prática da prevenção e do cuidado como um exercício integrado de solidariedade que deve fazer parte da estrutura da prática da saúde coletiva. (…) Enquanto muitos “treinamentos” (pelo menos no campo da Aids) têm sido limitados a cursos rápidos sem um adequado seguimento ou continuidade depois de seu término, o modelo adotado pelos trabalhos deste suplemento, pelo contrário, estendeu-se por várias fases, da familiarização inicial com a teoria da pesquisa e do método até a concepção do projeto, sua realização por meio de várias formas de parcerias (entre pesquisadores e ativistas da comunidade ou entre investigadores mais experientes ou também entre seniores e os mais jovens), passando por coleta de dados, análise e processo de redação. Este ponto foi absolutamente crucial. (…). Buscar a qualidade nesse processo deve merecer a atenção de todos nós que lutamos com os desafios de orientar e formar uma nova geração de pesquisadores e profissionais capazes de confrontar a epidemia de Aids no Brasil e no mundo. (…) A falta de profissionais com formação e base institucional para essas tarefas configurou-se, então, como um dos desafios centrais da prevenção. A partir de 1994, algumas fundações internacionais, sob influência da Conferência Internacional de População e Desenvolvimento da ONU, ajudaram a mudar o cenário da segunda década, assumindo definitivamente a perspectiva de promoção da saúde sexual e reprodutiva e incluindo o HIV e a Aids em seu campo de financiamento. Essas agências centraram importantes esforços no aprimoramento das iniciativas de prevenção. Contudo, ainda nesse caso o apoio para acompanhamento e avaliação sistemática dessas iniciativas mostrou-se insuficiente. Algumas dessas agências, como Ford Foundation, MacArthur Foundation e Family Health International, para nomear as que tiveram interfaces com os projetos do Núcleo de Estudos de Prevenção da Aids (Nepaids), logo identificaram a falta de recursos para sistematização e disseminação das experiências entre os agentes de prevenção no Brasil. Essas entidades passaram, por isso, a privilegiar, em seu patrocínio, algumas experiências de treinamento em pesquisa, especialmente pesquisas avaliativas. Richard Parker Capacitando profissionais e ativistas para avaliar projetos de prevenção do HIV e de Aids. Rev. Saúde Pública 36 (4 suppl) • Ago 2002. Richard Parker Capacitando profissionais e ativistas para avaliar projetos de prevenção do HIV e de Aids.
Mais dois suplementos (RSP 2002; 36 (4 supl.) e RSP 2007; 41 (2 supl.) foram organizados dessa forma. Essa experiência era relevante e movida pela necessidade de acompanhamento e avaliação sistemática de práticas de prevenção, articuladas a um Sistema Único de Saúde em construção, cuja experiência e processos escapavam à dominante literatura norte-americana e europeia.
Desde então, outros suplementos e dossiês foram organizados por instituições parceiras do NEPAIDS e publicados em revistas relevantes para o campo da saúde, informando ou expressando o debate deste campo, registrando nossa resposta à Aids, analisando e buscando sua “transferibilidade” – digno de nota RSP 2006; 40 (supl.) e JAIDS 2011; 57 (supl. 3); Interface (Botucatu) [online]. 2020, vol.24.
Na 1a década de existência, as pesquisas articuladas pelo NEPAIDS foram implementadas junto a muitos segmentos: jogadores juniores de futebol, motoristas de ônibus e caminhão, pessoas vivendo em comunidades empobrecidas (favelas, cortiços e nas periferias mais pobres), com pessoas encarceradas, em situação de rua, internos da FEBEM, estudantes, trabalhadores/as do sexo, quilombolas, caiçaras, entre outros. Pesquisas formativas junto a cada segmento informavam ações de prevenção e sua avaliação.
Abordamos também adultos e crianças vivendo com HIV e Aids, investindo em pesquisas e ações em temas como a adesão à medicação anti-HIV e seu direito à sexualidade, conjugalidade e paternidade/maternidade. Pensando sempre na integralidade, estimulamos o trabalho de equipes multidisciplinares para implementar práticas de adesão à medicação anti-HIV (assim que ficou disponível), apoiando suas decisões e direitos à sexualidade e vida familiar, focalizando diferentes segmentos de pessoas vivendo com HIV: mulheres[7]; crianças e adolescentes; pessoas na 3ª idade; e homens que fazem sexo com mulheres [8].
Os resultados podem ser lidos em artigos publicados em revistas bem avaliadas nas disciplinas da saúde, ciências sociais e humanas, assim como livros e capítulos de livros, cartilhas e folhetos, listados nos CV LATTES dos pesquisadores.
[1] I Encontro: AIDS – repercussões psicossociais.
[2] Livro – Criança e AIDS: NEPAIDS, disponível para download.
[3] Livro – Fazendo Arte com Camisinha, editora Summus, disponível para compra.
[4] Festival Fazendo Arte com Camisinha.
[5] CD Educativo “Dos manos de cá para os manos de lá”.
[6] Livro – Fala Garota, Fala Garoto: NEPAIDS, disponível para download.
[7] Livro – Mulheres e AIDS: ambiguidades e contradições: NEPAIDS, disponível para download.
[8] Livro – Homens que fazem sexo com mulheres: NEPAIDS, disponível para download.
