Produção de Documentário Científico – Trajetória dialógica do processo educomunicativo

A imagem retrata um momento da turma experimental do curso Educom e Clima, composta por oscursistas/pesquisadores, durante uma atividade no SESC Consolação. O grupo está reunido em um corredor iluminado, onde se prepara para uma entrevista com o professor Dr. Ismar de Oliveira Soares, que está sentado em uma cadeira, aguardando o início da gravação. No centro da cena, Rachel Hidalgo segura um caderno e esta auxiliando a organização da entrevista, enquanto os demais escutam atentamente e interagem. Um tripé com uma câmera está posicionado à frente do professor, indicando que a atividade faz parte da produção de um documentário educomunicativo sobre o percurso do curso. O ambiente tem um tom colaborativo e reflexivo, com os participantes demonstrando envolvimento no processo de registro e análise da experiência educacional.
Entrevista com o Professor Ismar de Oliveira Soares para o documentário educomunicativo. SESC Consolação, março de 2025.

Rachel Hidalgo

 Quando os conteúdos e dinâmicas da formação-pesquisante “Precisamos falar sobre emergência climática”, do projeto Educom & Clima, estavam sendo preparados, tivemos a seguinte ideia: por que não aproveitar o momento para realizar uma intervenção educomunicativa que possa registrar o processo – facilitando a divulgação científica em momento posterior – e, ao mesmo tempo, nos gerar dados para maior compreensão do desenvolvimento das estratégias que serão desenvolvidas no contexto do curso?

 Afinal, veja bem o cenário: por meio de um processo seletivo, colocado para a rede pública municipal de São Paulo, conseguimos reunir cerca de trinta e cinco educadores/as engajados/as no tema da emergência climática, com possibilidade de estarem juntos/as, presencialmente, por três horas, uma vez por semana, com o objetivo de refletir e criar novas estratégias para uma abordagem qualificada sobre o assunto. Estes/as profissionais já possuem envolvimento prévio com Educação Ambiental e/ou com Educomunicação, ainda que em medidas diferentes, por meio da realização de projetos em suas unidades escolares. E, ainda, estão em 12, das 13 Diretorias Regionais de Educação (DRE) da cidade, o que significa contemplar a grande maioria dos territórios políticos de educação paulistanos

 Fator importante: a formação conta com a colaboração de pesquisadores/as associados/as dos mais variados temas, entre educação, comunicação e clima e seus diálogos entre si e entre outros campos de conhecimento. E um/a dos/as coordenadores/as do projeto é o pesquisador Ismar de Oliveira Soares (ao lado da pesquisadora Thaís Brianezi) – o mesmo que coordenou a histórica pesquisa científica que marcou o início de discussões a respeito da Educomunicação no ambiente acadêmico, no Brasil. Ismar esteve presente na maioria dos encontros até agora, inclusive, foi quem cedeu a primeira entrevista feita pela turma. Outro ponto fundamental: o processo FAPESP, sob o qual estamos trabalhando, oferece uma reserva técnica financeira, o que permite a locação de bons equipamentos para o trabalho.

 Com todo este espaço e elementos congregados – e com tantos/as educomunicadores/as juntos/as – seria uma pena não ir em frente com uma ideia transversalizada como a que foi, então, proposta: vamos criar uma produção audiovisual, em formato de documentário científico, para colocar a nós mesmos/as na posição de público-produtor/pesquisador e público-pesquisado? Isto é, vamos gravar o nosso dia a dia, com a colaboração ativa dos/as 35 educadores/as, para depois nos ver, rever e repensar as estratégias criadas, conseguindo observar, inclusive, a trajetória de seus desenvolvimentos? O objetivo seria, assim, montar um discurso audiovisual coletivo, que sintetizasse o processo, tornando possível a generalização da experiência científica para educadores/as de outras partes do Brasil. 

 Neste momento, seria injusto não reconhecer o espaço democrático e corajoso que é aberto pelos/as coordenadores/as do projeto, professores/as Ismar de Oliveira Soares e Thaís Brianezi. E todo o apoio oferecido pela equipe no desenvolvimento da ideia. Além disso, reconhecer a participação de todos/as que se inscreveram em um curso sem saber que seriam gravados/as a todo momento; e que, além disso, precisariam também se ocupar em realizar gravações, e depois da proposta apresentada, se mantiveram engajados/as em se desafiar.

Início da primeira proposta 

 Enfim, um método de produção foi escrito e, desde o primeiro dia de formação, no dia 7 de fevereiro de 2025, compartilhado com a turma. Desde o início, foi pensado para ser responsivo. Afinal, trata-se de uma proposta educomunicativa e que, por isso, precisava ser aberta, participativa, maleável e que pudesse se adaptar às demandas do contexto. E, como é natural em estreias, as propostas ficaram brilhando nos slides enquanto os/as facilitadores/as do projeto, e a turma, esperavam para ver, na prática, como tudo se desdobraria. É comum ter dúvidas sobre o percurso antes de começar a trilhar o caminho. 

 Depois de três encontros de ambientação, em que tivemos aproximações com termos, métodos, narrativas e outros no entorno da Educomunicação e da Educação Ambiental Climática; e, também, da turma se apresentar, se conhecer, contar um pouco de suas experiências individuais; instalamos o processo de produção audiovisual de cinema documentário.

 O primeiro dia, 28 de fevereiro de 2025, foi de exposição e experimentação: abordamos a criação e o desenvolvimento da via de expressão cinematográfica; o poder de atração (de convencimento e de venda de produtos, serviços e ideias) que os instrumentos audiovisuais possuem; um resumo dessa potência localizada na história mundial, como os casos do cinema a serviço da propaganda nazista e de grandes indústrias, como a de Hollywood; e também realizamos dinâmicas para experimentar sensações, ao vivo, com o uso de ASMR e outros. Ao final, a turma, dividida em dois grupos, criou dois produtos audiovisuais de distintos eixos de produção: uma entrevista (com Ismar) e um depoimento coletivo (entre eles/as mesmos/as). 

 Do ponto de vista de quem facilita um processo, isto é, dos/as pesquisadores/as do projeto e, especialmente, de quem escreve este texto, no presente momento, tudo pareceu muito bem encaixado, com uma falha aqui e outra ali, como é natural de todo o trabalho que é feito com pessoas. No entanto, quando o espaço “específico” e reservado para a execução do documentário encerrou naquele encontro – e a partir do seguinte, já tínhamos outros temas igualmente importantes para discutir –  a transversalidade do processo começou a apresentar problemas. 

Principais pontos negativos observados

1 – Processo voluntário: a captação de imagens, entrevistas e depoimentos foi proposta de maneira voluntária,  isso significa que as câmeras ficavam à disposição da turma para que as pessoas, no momento em que quisessem, gravassem ou criassem situações para gravar. Entretanto, não separamos mais momentos específicos para isso (tempo hábil dentro do encontro) e essa missão parecia “atrapalhar” a atenção que todos/as queriam prestar às outras exposições e dinâmicas do curso, como a do encontro seguinte, sobre Racismo Ambiental, paradigma do Bem Viver, Ecoansiedade e outros.

2 – Trabalho com adversidades: como é natural de todo/a pesquisador/a e toda experiência com seres humanos/as, não se pode imaginar que as coisas vão ocorrer como se espera. O que se pode considerar é que, das duas, uma: ou as coisas serão fantásticas, as pessoas vão se engajar muito mais do que imaginado e vamos, juntos/as, construir coisas ainda mais incríveis do que o planejado, superando todas as expectativas; ou ninguém vai se sentir muito entusiasmado/a, afinal realizar duas coisas ao mesmo tempo é complicado e alguma interferência mais impositiva será necessária para que o processo não seja colocado de lado. 

3 – Medidas interventivas: se as coisas não caminham “sozinhas”, de forma coletiva e dinâmica, como realizar uma intervenção sem tomar a “direção” de um processo que deve ser, em essência, não hierarquizado? Aqui, cabe um certo tipo de conhecimento que todo/a educador/a-facilitador/a precisa ter para manter a “peteca no ar”; aquele que se constroi nas relações entre as pessoas que estão em convivência e que acaba ficando mais próximo da amizade e da cumplicidade; um método que requer confiança no elo que é formado no dia a dia, a cada bom dia ou troca de histórias breves no momento do café. Em outras palavras: quem faz contato visual é o convocado/a a apoiar. Sem contar que o público é formado por pessoas com sentido de solidariedade, o que facilita a comunicação e os desafios que surgem em meio aos processos. E assim, com convites distribuídos para fazer as captações em meio às atividades, ao menos naquele momento, o problema havia sido parcialmente resolvido. 

4- Produção Audiovisual – Cinema: o tópico anterior conclui com “parcialmente resolvido” porque: 1. os/as que foram convocados/as toparam a ajudar; e 2. Não estavam esperando por isso e, diante da surpresa, não chegaram a preparar qualquer tipo de captação criativa, somente realizando um registro do que estava ocorrendo no momento. 

5- Sobrecarga: mais uma vez, a questão do tempo – o que torna evidente a necessidade de redesenhar o método. Aqueles/as que superaram o trabalho do registro e resolveram convocar outros/as colegas para o trabalho, pedindo que comentassem os temas discutidos diante da câmera,  acabaram saindo da sala (onde o ambiente estava mais silencioso e não interferia na atividade do momento). A iniciativa, apesar de muito positiva e de gerar resultados interessantes para o filme, faz com que, ao menos, dois/duas integrantes perdessem momentos da exposição que ocorria paralelamente ao momento da gravação. 

Principais pontos positivos observados

1 – Somente duas, das oito ou dez, pessoas convocadas para o apoio com a mediação da câmera apresentaram recusa. E isso não é nenhum problema, afinal, nem todo mundo se sente à vontade com um equipamento nas mãos.   

2- Todos/as da turma, sem exceção até o momento, sentiram o ímpeto de fazer comentários a respeito das atividades diante do equipamento de registro sempre que solicitados/as. Isso nos mostra o engajamento e o interesse no desenvolvimento da pesquisa coletiva. 

3- Muitos/as já apresentaram dúvidas em relação a como o documentário está sendo produzido, até o momento, de forma mais “livre” – o que, certamente, chama a atenção de quem, de fato, está interessado/a e preocupado/a com as atividades que lhe são propostas. 

 E poderíamos elencar outros pontos positivos já observados aqui, mas este texto procura focar nos próximos passos daqui em diante. E o que temos para anunciar é que o método de produção do documentário está flutuante

 Primeiro porque não é preciso ter qualquer sensação de obrigação, isto é, de que um filme precisa ser feito. Afinal, honestamente, e por experiência no mercado de trabalho da produção audiovisual, um filme poderá ser feito de qualquer jeito. O problema maior (aqueles problemas que a gente gosta) é que não queremos fazer qualquer filme. 

 Quem já acompanhou, mesmo que de forma breve, o campo teórico da Educomunicação a partir da produção audiovisual, sabe que fazer um filme é muito fácil perto da ideia de fazer um filme educomunicativo que, por outro, está muito longe de ser algo simples! E isso porque a produção fílmica em termos tradicionais foca em um ponto, que é a qualidade do produto final; enquanto a produção educomunicativa, que também deseja um bom resultado, apesar disso, tem enfoque em outro ponto: o desenvolvimento do processo. 

 A palavra “processo” está para a Educomunicação – independente do veículo de expressão escolhido – assim como o Bochecha está para o Claudinho, na bela música da dupla de funk dos anos 90, “Sou eu assim sem você” (regravada, anos depois, por Adriana Calcanhoto). E, com isso, queremos dizer que uma coisa não pode ser sem a outra. É claro que reunimos, neste projeto, boas condições técnicas e intelectuais para conquistar um bom produto no final do nosso processo – o que nem sempre é uma realidade nos projetos educomunicativos com este tipo de expressão. No entanto, se ao assistir a este filme, tempos depois, os/as envolvidos/as não forem provocados/as por sensações de lembranças afetivas, busca genuína por soluções para a nossa sociedade, no que diz respeito à abordagem da emergência climática, e aprendizagem mútua, então não teremos alcançado êxito. 

 Para construir, assim, um processo complexo, é preciso lançar mão desse privilégio que está diante de nós, neste momento: um ecossistema tão vivo e tão diverso que, certamente, vai encontrar um caminho coletivo para uma frutífera manifestação do fenômeno da educomunicação. Dito isto, vamos colocar a nossa curiosidade científica para jogo? O campo de intervenção social da Educomunicação nos convoca para este desafio. 

 E a proposta da semana, que visualizamos como possibilidade interessante ao processo, é uma espécie de reprodução do programa “Roda Viva”, que vai solicitar aos/as mais engajados/as um pouquinho de tempo a mais ao final do encontro (14-03). Se você está lendo este texto, significa que já passou por esta dinâmica e, na próxima semana, vamos contar, a partir da reflexão dialogada, como foi para nós também. E na plataforma, como estabelecemos em nossa rotina, vão encontrar atividades que ajudam a compor o processo. 

 Um grande abraço! Seguimos!

 

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