Um dos conceitos centrais para a orientação da crítica e a orientação das ações sociais tendo em vista a emancipação é a liberdade. Dentre as inúmeras figuras da liberdade que compõem o quadro tenso de normas e expectativas próprio a nossas sociedades, é certo afirmar que a liberdade pensada como autonomia coloca-se para nós como dispositivo hegemônico. Autonomia construída a partir de um modelo jurídico vinculado a capacidade de auto-legislação, de dar para si mesmo sua própria lei. No entanto, seria o caso de lembrar que tal concepção de autonomia é atualmente objeto extenso de crítica. Críticas essas que se procuram sublinhar as reversões da autonomia em autodominarão do sujeito, em dominação da natureza e subordinação dos sujeitos a estruturas de disciplina social visando um conceito maturação. Em todos esses casos, a pretensa identidade imediata entre ipse e nomos presente na noção moderna de autonomia é coloca em questão.
Tal crítica nos coloca uma tarefa politicamente relevante referente a procura em reconstruir um conceito social de liberdade capaz de evitar sua interversão em seu contrário, a saber, em formas não problematizadas de dominação e servidão. Tal tarefa mostra-se ainda mais urgente se levarmos em conta como a consolidação global do neoliberalismo autoritário parte da elevação da liberdade a condição de operador insurrecional, mas reenquadrando a autonomia o auto-pertencimento que ela implica em formas específicas de auto-propriedade (self ownership). Com isso a batalha em torno do sentido social da noção de liberdade se torna um eixo fundamental de lutas sociais.
Nesse contexto, seria o caso de insistir como a autonomia sempre conheceu uma dupla matriz que, embora possa parecer convergente, é em vários aspectos diametralmente oposta ema em relação a outra. A primeira é a matriz moral da autonomia e ela se expressa claramente na concepção de liberdade como uma forma específica de auto-legislação, de constituição de um “si próprio” resultante de dicotomias estritas entre vontade livre e desejos patológicos. A segunda é uma matriz estética da autonomia. Por mais que ela pareça para alguns vinculada a estratégias de auto-referencialidade (Greenberg, Fried), é possível defender que a matriz estética da autonomia não está vinculada a uma forma de legislação, mas a uma forma de abertura a alteridade, de integração de forças que não aparecem inicialmente como faculdades. Podemos nos perguntar se esse paradigma estético não deveria ser recuperado em um momento no qual a praxis social procura reorientar processos emancipatórios, eliminando as dimensões de dominação e violência presentes em nossos ideais normativos, assim como criticar os impasses sociais atuais baseados na sobrevalorização da propriedade e da individualidade pelo regime neoliberal.
Nesse sentido, o grupo procura reconstruir o problema do horizonte regulador da emancipação social a partir da recuperação da matriz estética da autonomia e da liberdade. Para tanto este grupo de pesquisa procura: (1) discutir a maneira com que tradições da teoria crítica procuraram reorientar o conceito de liberdade como autonomia, recuperando dimensões fundamentais da experiência estética como modelo de reconstrução dos processos de emancipação social; (2) evidenciar a atualidade de tais estratégias tendo em vista o horizonte de ascensão de .formas políticas autoritarias que se servem do discurso da liberdade como fundamento de suas dinâmicas de legitimação (3) levantar modelos críticos produzidos no interior de experiências estéticas contemporâneas no cone sul que possam evidenciar formas renovadas de autonomia e liberdade.
Instituições participantes:
Instituição principal no Brasil: USP
Instituição principal estrangeira: UNL
Instituição associada no Brasil: Universidade Estadual Paulista Júlio de
Mesquita Filho – Campus São José do Rio Preto
Instituição associada estrangeira: UNC
Coordenadores
Coordenador brasilero: Dr. Vladimir Safatle / USP
Coordenadora estrangeira: Dra. María Verónica Galfione / UNL
Professores participantes
Larissa Drigo Agostinho / UeRP
Esteban A. Juárez / UNC
Guilherme Teixeira Wisnik / USP
Ricardo Nascimento Fabbrini / USP
Eugenia Roldan / UNC