Artigo de opinião: Argentina e Irã nos BRICS

ARGENTINA E IRÃ NOS BRICS

Por Ester Pereira dos Santos e Evandro Andaku

Em meio ao debate sobre blocos de poder, intensificados pela guerra da Rússia contra a Ucrânia, justificada por aquela pela expansão da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), eis que se noticia, em menos de seis meses, as candidaturas de Argentina e Irã a integrarem a associação dos países emergentes. Apesar de parecer repentina, tanto Argentina como Irã fazem parte de um grupo de países convidados para a 14ª Reunião dos BRICS, ocorrida em 24 de junho de 2022. Entre os convidados, o encontro do agrupamento político-econômico contou com a presença de representantes de outros 11 países, a saber, Argélia, Camboja, Cazaquistão, Egito, Etiópia, Fiji, Indonésia, Malásia, Senegal, Tailândia e Uzbequistão [1].

O Irã se absteve na votação da resolução que condenou a invasão russa na Assembleia Geral das Nações Unidas, da mesma forma que a China, a Índia e a África do Sul. A Argentina, como o Brasil, votou pela aprovação da resolução condenatória. A localização geográfica de ambos os países no continente americano pode ser uma explicação plausível, além dos tratados e convenções com o país do norte e com a União Europeia. Ou seja, pela existência de outros blocos também a que fazem parte. Mas tanto quanto o Brasil, que participou e liderou ao longo da história movimentos de países de não alinhamento automático, também a Argentina sempre teve uma política externa de relativa autonomia e independência.

A adesão desses dois países ao BRICS não deve ser percebida como de somenos importância, portanto, não apenas do que se acrescenta ao grupo em termos de dados quantitativos (e não é pouco) como também em virtude dos significados regionais e mundiais estratégicos e por um relevante simbolismo. A adesão do 2º maior país no Atlântico Sul em posição de destaque e do talvez mais emblemático país do Oriente Médio se revela um passo importante do bloco no equilíbrio do poder mundial, se mostrando como um protagonista ainda mais forte.

Enquanto dado quantitativo, os dois países vêm acrescentar mais 1,67 % da população mundial ao bloco. São mais de 129 milhões de pessoas. Se fossem um só país, somadas as populações de Irã (83.992,95) e Argentina (45.376,76), seria o 10º país mais populoso do mundo. Esse acréscimo faria a população do bloco avançar de 41% para quase 43% da população mundial. Assim, em apenas 5 países, ou 7 do conjunto total de nações, se concentram quase a metade da população mundial, hoje estimada pelo Banco Mundial (2020) em 7.76 bilhões [2]. A China tem uma população de 1.410.929.360, Brasil 212.559.410, Rússia 144.104.080, Índia 1.380.004,390 e África do Sul 59.308,690. Deve-se lembrar que outros países, embora não tenham ainda oficialmente feito o pedido, já manifestaram intenção de aderir ao Brics.

A Argentina é o segundo maior país da América do Sul em extensão territorial, tem um índice de desenvolvimento humano mais alto (46º) que qualquer outro do bloco, um produto interno bruto de 491.49 bilhões e renda per capita de US$ 10.729, próximo das rendas de China (US$ 12.556) e Rússia (US$ 12.172) e acima de Índia (US$ 2.277), Brasil (US$ 6.814) e África do Sul (US$ 5.655).

O Irã acrescenta ao Brics um produto interno bruto de 231.55 bilhões e renda per capita de US$ 2.756. Uma renda bem abaixo dos demais integrantes. O simbolismo do território iraniano é patente e salta aos olhos de quem observa sua posição estratégica, em meio ao Oriente Médio, ligando o Mar Cáspio ao Golfo Pérsico e Mar da Arábia, se estendendo da Turquia (eterna candidata a integrar a União Europeia e a um estreito de distância) ao Paquistão. Segunda maior país da região (18º do mundo) e berço da civilização persa.

No que tange o histórico de relações da Argentina com o “bloco” norte-americano, podemos afirmar que nunca foram solidamente boas. A Argentina sempre se pautou por uma “diversidade de fontes de dependência.” [3]. Desde a Segunda Guerra em que a Argentina se postou neutra, passando pelo emblemático comportamento norte-americano nas Guerras da Malvinas – que podemos caracterizar como “dúbio” para dizer o mínimo – a adesão da Argentina ao bloco tem o claro significado de “fechar” o Atlântico Sul.

A Argentina, como outros países da América do Sul, representa a expansão dos investimentos estrangeiros chineses nesta região. Os interesses do governo chinês em matéria prima, e mercado para seus produtos manufaturados são conquistados por meio da ajuda externa e investimentos estrangeiros à iniciativa público-privada de diversos países latino-americanos, incluindo a Argentina [4][5]. Ainda que as relações entre Argentina e China tenham aumentado nas últimas duas décadas, os Estados Unidos ainda é um dos principais parceiros comerciais, motivo pela qual o governo chinês tem empregado esforços para ascender nas prioridades de política externa e comercial argentinas.

O Irã possui a segunda maior reserva de gás do mundo [6], e a quarta maior reserva de petróleo [7], contudo, suas relações com o Ocidente se deterioraram no final da década de 1970, quando o Ayatolla Ruhollah Khomeini instaurou a República do Irã por meio da ideologia islâmica contida na Shia. Khomeini substituiu a monarquia secular de Muhammad Raza Pahlavi, então Shah do Império do Irã, tendo como um dos motivos as subversões culturais causadas pela interação entre Irã e Estados Unidos. Desde então, a relação entre Irã e Estados Unidos ruiu, o primeiro sendo apontado como patrocinador de grupos terroristas e uma ameaça ao Ocidente por desenvolver tecnologia nuclear. Ao longo das décadas, o Irã sofreu inúmeras sanções econômicas dos Estados Unidos e União Europeia, que tinham como objetivo forçar o governo iraniano a obedecer às normas impostas pelo Ocidente às tecnologias nucleares do país.

Para o Irã, pertencer ao agrupamento BRICS seria uma forma de lançar luz às questões econômicas e regionais que assolam o país. Além disso, ao se tornar um membro do BRICS, o Irã também se tornaria parte de um mercado emergente com poder crescente nas relações geopolíticas e geoeconômicas mundiais. Em contrapartida, o Irã pode contribuir com as discussões energéticas abordadas pelo agrupamento, além de colaborar com o projeto da Nova Rota da Seda, uma vez que poderia ligar a China à Rússia por meio do International North South Transport Corridor (INSTC), evitando o Canal de Suez, sujeito à desequilíbrios de poder regionais [8].

Tanto Argentina quanto Irã se enquadram em economias emergentes, são ricos em recursos e buscam alternativas às instituições Bretton Woods criadas pelos Estados Unidos. Guardam, assim, ressonâncias recíprocas com os demais países do bloco, devendo produzir resultados positivos tanto ao bloco como aos dois países. Inegável também que a presença desses países no BRICS, em especial do Irã, acentua o caráter de oposição aos demais blocos e países do Ocidente, na medida em que o desenvolvimento da tecnologia nuclear foi objeto de recente desgaste nas relações diplomáticas com os Estados Unidos e países europeus, e a sua adesão beneficia sobretudo a Rússia e a China – que tem mantido exercícios militares tensos na região asiática.

A adesão Argentina se torna uma manobra geoestratégica para o BRICS, por expandir suas conexões no continente americano que é alvo de planos chineses para expansão da Rota da Seda. Ligar a América às regiões da África – pelo Oceano Atlântico – e Ásia – pelo Pacífico, seria de suma importância para estreitar os laços comerciais entre as regiões, além de diminuir custos de transporte e aumentar a infraestrutura de portos, linhas férreas e ferrovias. A expansão do BRICS será um processo benéfico para as economias em desenvolvimento. Quanto às economias desenvolvidas, bem, é tempo para que passem a enxergar as necessidades dos demais países como dignas de atenção, cuidado e investimento.

REFERÊNCIAS
[1] Informação concedida pela Press Information Bureau do Governo da Índia. Acesso em 12/07/2021.
[2] Todos os dados apresentados foram obtidos junto ao site do Banco Mundial e se referem ao ano de 2020. Embora alguns países já tenham dados referentes a 2021, utilizamos o mesmo ano base para todos. Disponível em https://www.worldbank.org/en/home. Acesso em 02/07/2022.
[3] EYKEN, Pedro Von. Uma propuesta racional de las relaciones con Estados Unidos. Academia. Disponível em: https://www.academia.edu/24666093/Argentina_United_States_rational_approach_for_a_good_relationship. Acesso em 30/06/2022.
[4] FENG, YI; ZENG, Qingjie Bob. Economic relations and the public image of China in Latin America: a cross-country time-series analysis. Economic and Political Studies, [S. l.], 2021. Acesso em 12/07/2022.
[5] EICHENAUER, Vera Z.; FUCHS, Andreas; BRÜCKNERD, Lutz. The effects of trade, aid, and investment on China’s image in Latin America. Journal of Comparative Economics, [S.l.], v. 49, n. 22, p. 483–498, 2020. Acesso em 12/07/2022
[6] Reservas de gás natural iranianas. Acesso em 12/07/2022.
[7] Reservas de petróleo do Irã. Acesso em 12/07/2022.
[8] DEVONSHIRE-ELLIS, Chris. The Suez Canal Alternative: The International North-South Transportation Corridor, 13/08/2021. Silk Road Briefing. Acesso em 12/07/2022.

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