Por Milena Megre e Octávio Henrique de Oliveira
Neste mês, o Brasil sediará a 17a Cúpula do BRICS. O país já presidiu o bloco anteriormente em 2010, na 2a Cúpula dos BRICS, em Brasília, seguido do ano de 2014, em Fortaleza — quando estabeleceu o NDB (Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS), e em 2019, novamente em Brasília. Neste ano, o Brasil concluirá sua quarta presidência do bloco nos dias 6 e 7 de Julho, no Rio de Janeiro, onde sediou o G20 no ano passado.
A agenda internacional brasileira: G20, BRICS, Mercosul e COP30
Diferentemente de presidências anteriores no BRICS, desta vez o Brasil optou por uma agenda mais compacta, em que a presidência do bloco teve duração de seis meses, ao invés de um ano. Isso se deve ao fato de o Brasil sediar outras duas grandes presidências — a COP30, em Belém, que ocorrerá em novembro, e o Mercosul, cuja liderança foi assumida nesta semana, na quarta-feira, dia 3 de julho.
Além destas presidências, o país já havia exercido em 2024 a presidência do G20, acumulando uma série de responsabilidades diplomáticas de alto nível. Esse contexto torna a presidência do BRICS particularmente estratégica para garantir continuidade e coerência entre os fóruns globais liderados pelo Brasil.
Entre tensões e ausências: desafios internos e externos do bloco
O BRICS vem sendo acompanhado por uma onda crescente de expectativas desde a presidência sul-africana em 2023, quando houve o anúncio da primeira grande expansão do bloco e adesão de novos membros. Seguida pela Cúpula de Kazan, durante a presidência russa de 2024, quando foi anunciado não apenas a expansão, mas a criação de uma nova categoria de membros — os países parceiros. Portanto, a presidência brasileira vem seguida de uma série alta de expectativas com relação ao andamento do bloco e consolidação de questões chave que vêm sendo desenvolvidas.
Entretanto, em meio a esta grande onda de expectativas, a presidência brasileira do BRICS vem acompanhada de um cenário geopolítico internacional instável, sobretudo pelo atual conflito no Leste Europeu envolvendo a Rússia, e a instabilidade no Oriente Médio envolvendo o Irã e países vizinhos, como o Egito.
Essas tensões, apesar de externas ao bloco em si, estão tendo um impacto direto nessa Cúpula. A principal sendo a ausência de quatro líderes importantes para o bloco, que normalmente recebe os Presidentes e Primeiros-ministros de seus respectivos países.
1. Vladimir Putin, Presidente da Federação Russa
A ausência do presidente russo já era prevista para esta Cúpula, assim como acontecera durante a presidência sul-africana de 2023 e o G20 em 2024 no Brasil, uma vez que possui um mandado de prisão pelo Tribunal Internacional Penal de Haia, acusado pelo Ocidente por Crimes de Guerra.
2. Xi Jinping, Presidente da China
Tem sido a ausência considerada a mais impactante. O presidente chinês havia visitado o Brasil em novembro de 2024, sua segunda visita ao país. Algumas hipóteses foram levantadas por diferentes fontes para a explicar a ausência chinesa na cúpula deste ano, a primeira desde o estabelecimento do bloco. Entretanto, o governo chinês explicou que a ausência se deve por questões de conflito de agenda, e que a Cúpula contará com a alta representação do primeiro-ministro chinês, Li Qiang.
Hipóteses em relação aos motivos da ausência do líder chinês divergem. O South China Morning Post sugere que o fato de Xi Jinping ter se encontrado com Lula em duas oportunidades em menos de um ano — na cúpula do G20 e na Visita de Estado em novembro do ano passado, e no Fórum China-CELAC em Pequim, em maio deste ano — motivaram sua ausência de alguma forma. Ao mesmo tempo, o Brasil, oficialmente convidado a integrar a Iniciativa de Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative, ou BRI) desde 2018 no segundo Fórum China-CELAC, até agora não aderiu à iniciativa, desejando não se comprometer politicamente com os Estados Unidos.
Além disso, outros dois líderes também estarão ausentes:
3. Abdel Fattah al-Sisi, Presidente do Egito
4. Masoud Pezeshkian, Presidente do Irã
Ambos informaram que não iriam comparecer devido ao conflito com Israel e a pela possibilidade de uma negociação de cessar-fogo, visando estabilizar a segurança regional do Oriente Médio e Norte da África.
Diante desse cenário, analistas também sugerem que a presença do Presidente Lula e Narendra Modi, Primeiro-Ministro da Índia, no último encontro do G7 — o qual também contou com a presença de Volodymyr Zelensky, Presidente da Ucrânia — poderia ter causado desconforto dentro do bloco.
Entretanto, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, será recebido por Lula em uma visita bilateral que será realizada após a cúpula, no dia 8 de julho, segundo fontes do Itamaraty. Os dois líderes se encontraram quatro vezes sob o atual mandato de Lula.
No total, dos dez países membros plenos do BRICS — Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Indonésia, e Emirados Árabes Unidos — quatro não enviaram sua representação mais alta, sendo esta de Presidente ou Primeiro(a) Ministro(a).
A ideia de que a Cúpula se “esvaziou”, ou ainda, que ela representa uma derrota para a diplomacia brasileira, oculta o impasse geopolítico no Oriente Médio às vésperas da Cúpula, a contínua política de isolamento da Rússia, e as questões domésticas e internacionais que a China enfrenta sob um contínuo cenário geopolítico de crise global.
Prioridades da presidência brasileira
Contudo, mesmo considerando este cenário de acontecimentos externos ao BRICS, a presidência brasileira do BRICS em 2025 representa uma oportunidade estratégica para consolidar e fortalecer o bloco no cenário global. As prioridades definidas pela presidência brasileira incluem:
1. Cooperação global em saúde
2. Revolução industrial
3. Mudança climática
4. Inteligência artificial
5. Paz e segurança
A Inteligência Artificial se tornou prioridade crescente nas últimas cúpulas do BRICS e também do G20. Com o surgimento da Deepseek e a queda da bolsa de Nova Iorque em Janeiro, e a crescente noção da importância da inteligência artificial e dos Data Centers, como no caso da visita de Haddad aos EUA em maio de 2025 anunciando o interesse em atrair R$ 2 trilhões em investimentos para data centers no Brasil, a temática se tornou prioridade para o bloco. A presidência Brasileira espera tratar da regulação da Inteligência Artificial, uma de suas prioridades nesta agenda.
A segunda prioridade que se destaca é a questão da Paz e Segurança em meio à Guerra entre Israel e Irã. Enquanto membro dos BRICS e do NDB, o Irã possui, para todos os efeitos, uma centralidade para a Cúpula de 2025 semelhante à que a Rússia tomou desde a Cúpula de 2022. Desta forma, o bloco se encontra novamente dividido com relação a forma de tratar coletivamente o conflito.
Por fim, mas igualmente importante, eixo de Mudanças Climáticas. A presidência brasileira deve atuar para auxiliar os países membros do BRICS e alinhar o posicionamento do bloco nas negociações climáticas, aproveitando a convergência com a COP30. Considerando que o governo brasileiro dividiu sua atenção entre o BRICS no primeiro semestre e a COP30 no segundo, é essencial maximizar o tempo disponível para estruturar um posicionamento coeso do bloco. Dado que muitos membros do BRICS dependem economicamente de combustíveis fósseis, deve-se estruturar uma estratégia focada na cooperação para a transição energética justa e inclusiva, e no financiamento climático. O BRICS pode coordenar uma pressão conjunta para que os países do Norte Global honrem seus compromissos de financiamento e apoio tecnológico à descarbonização dos países do Sul Global.
O que o Brasil precisa consolidar
Porém, mais do que inovar com novas iniciativas, entendemos que o papel do Brasil deve ser o de estruturar e finalizar o trabalho iniciado pelas presidências anteriores. Desde a Cúpula de Joanesburgo em 2023, que marcou a primeira onda de expansão do BRICS, diversas questões permanecem indefinidas e foram ampliadas com a segunda onda de expansão em Kazan em 2024.
Desta forma, é crucial que o Brasil foque em amarrar essas pontas soltas e garantir que a ampliação do bloco ocorra de maneira organizada e transparente. Nesse sentido, dois pilares devem guiar as resoluções da Cúpula no Rio de Janeiro: reestruturação interna e reforma da governança global.
1. Reestruturação Interna
Um dos pontos bastante importantes é definir o quanto o bloco quer se institucionalizar. Um exemplo para refletir é a definição do status da Arábia Saudita. O país foi convidado a aderir ao BRICS em 2023, mas até o momento não formalizou sua aceitação, isso se dá pela ausência de qualquer pronunciamento formal do governo saudita — que em Kazan negou ser membro pleno — e de não haver um pronunciamento formal oficializando o aceite do país nos veículos de comunicação dos Ministérios de Relações Exteriores. Apesar disso, o BRICS, por possuir uma política de engajamento flexível a não membros, permitiu que a Arábia Saudita participasse de determinados eventos e espaços de diálogo, mesmo sem status oficial de membro pleno. A Cúpula de Kazan, em 2024, ilustrou esse cenário ao reunir quase 40 países — muitos dos quais não são membros formais, mas demonstram interesse em aproximar-se do BRICS. Esta conduta reflete uma forma de permitir que países interessados e favoráveis ao BRICS se aproximem do bloco.
Esse movimento é particularmente importante considerando que há uma percepção nítida de que países que manifestam interesse em se juntar ao bloco sofrem pressões políticas e econômicas de potências globais, como foi o caso das ameaças de taxação por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump no início deste ano. Isso leva muitos países a permanecerem em uma posição difícil em relação a uma decisão formal de adesão, uma vez que são economias em desenvolvimento e que ainda se vêem em uma posição vulnerável com algum nível de dependência de potências ocidentais.
Contudo, é preciso que essas diretrizes do quanto o bloco quer se institucionalizar e delimitar novas medidas estejam claras, não somente para os membros do bloco, mas para a comunidade internacional como um todo, para que a credibilidade do grupo se mantenha firme.
Outro ponto importante na consolidação da estrutura do grupo é a definição de critérios claros tanto sobre o processo de adesão de membros, quanto de estabelecer parâmetros para compreender a diferença nos papéis de países membros plenos e parceiros, visando esclarecer direitos, deveres e etapas para a ascensão formal ao bloco. Estabelecer de maneira formal estes critérios permite uma previsibilidade operacional do bloco e maior estabilidade de longo prazo ao grupo. Porém, é importante tomar cuidado para não cair em uma dinâmica de hierarquização dentro do grupo, uma vez que o BRICS estabelece que todos os membros possuem direitos iguais e devem ser tratados em mesmo pé de igualdade, respeitando a soberania de cada nação e a ideia de não interferência e não imposição.
Por fim, é crucial revisar como se dará o sistema de rotatividade das presidências do BRICS diante da adesão de novos membros, adaptando-o à nova composição ampliada de países, permitindo previsibilidade para organizarmos as agendas do bloco e dos países sede. Com os 5 membros originários, a rotatividade das pessoas dicas seguia a ordem dos países baseado no acrônimo “BRICS”. Para o futuro, há expectativas de que as futuras presidências sigam por ordem alfabética de todos os países membros plenos, de A à Z, pelo nome dos países em inglês, porém esta medida ainda pende confirmações para ser consolidada.
2. Reforma da Governança Global
Nesse quesito, o Brasil deve priorizar a reforma da governança financeira global e o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB). Dentre as expectativas da Presidência Brasileira dos BRICS, os grupos de trabalho do bloco destacaram a necessidade de maior presença e atuação do Novo Banco de Desenvolvimento presidido pela Ex-Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, na provisão de infraestrutura para os membros do bloco.
É essencial aprimorar a capacidade do banco de financiar projetos estratégicos, aumentar sua relevância para os países do Sul Global e reforçar sua autonomia operacional. Paralelamente, o Brasil deve seguir defendendo a reforma das instituições que ainda operam no sistema de Bretton Woods, ampliando a participação dos países do Sul Global nos organismos multilaterais. Essa agenda já foi destacada pelo presidente Lula na 79ª Assembleia Geral da ONU em 2024, onde reforçou a necessidade de uma governança internacional mais justa, igualitária, equitativa e representativa. A presidência brasileira do BRICS deve dar continuidade a essa defesa e buscar avanços concretos nessa direção.
Igualmente importante é a questão de transações em moedas locais. Enquanto as discussões sobre uma “moeda do BRICS” permanecem em andamento, uma ação imediata e urgente para avançar no comércio intra-BRICS é que o bloco maximize suas transações comerciais entre paises BRICS usando as moedas locais, como por exemplo, nas comercializações entre Brasil e China, fazermos as transações direto do Real para o Yuan chinês, sem perpassar pela conversão para o dólar.
Conclusão
Em resumo, a Cúpula do BRICS no Rio de Janeiro tem potencial para marcar um momento de consolidação do grupo não somente em sua nova configuração ampliada, mas diante de um cenário internacional que está testemunhando a transição para um mundo verdadeiramente multipolar. Há uma grande oportunidade para que o encontro avance em pontos-chave, como as comercializações intra-BRICS usando moedas locais, a definição clara de critérios para adesão de novos membros, bem como a diferenciação entre membros plenos e parceiros, e a revisão do sistema de rotatividade, adaptando a dinâmica do grupo ao contexto atual.
Também se espera que a presidência brasileira consiga conduzir os debates em torno de temas estratégicos, como inteligência artificial, paz e segurança e a preparação conjunta para a COP30, de forma a fortalecer a posição do BRICS nos grandes debates globais. A clareza e a consistência das decisões que saírem desta Cúpula serão decisivas para mostrar o grau de articulação política do grupo e estabelecer diretrizes objetivas diante da nova dinâmica em um cenário internacional cada vez mais multipolar e justo para a maioria do Sul global.
