O segundo dia do Circuito de Aves abordou o universo da fauna marinha. A primeira palestra da noite foi conduzida pela médica-veterinária Gabriela Bezerra, graduada pela FMU (Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas), com experiência internacional da SANCCOB (Southern African Foundation for the Conservation of Coastal Birds) e atual integrante da equipe veterinária do Instituto Albatroz, através do Projeto de monitoramento de Praias das Bacias de Campos e Espírito Santo (PMP-BC/ES).

A palestra teve como tema “Abordagem clínica e os protocolos terapêuticos aplicados à reabilitação de pinguins-de-Magalhães” (Spheniscus magellanicus). Com base em sua experiência no atendimento e manejo desses animais, Bezerra traçou um panorama completo, desde a biologia da espécie até as etapas finais da soltura, destacando os desafios enfrentados pelas equipes durante a temporada de encalhes.
Principais Características
Os pinguins são aves marinhas não voadoras, distribuídas exclusivamente no hemisfério Sul e reconhecidas como importantes sentinelas da saúde ambiental. Entre as 18 espécies conhecidas, o pinguim-de-Magalhães é o que com maior frequência chega ao litoral brasileiro, muitas vezes debilitado após longas migrações influenciadas por correntes oceânicas, variações ambientais, escassez alimentar e impactos antrópicos. A palestrante ressaltou ainda que se trata de uma espécie gregária, característica que modula tanto seu comportamento quanto a forma como deve ser manejada em ambiente de reabilitação.
Triagem
Ao abordar a chegada dos animais, Gabriela destacou a importância de uma avaliação clínica minuciosa. A triagem inclui a verificação da coloração das mucosas, a busca por lesões, a avaliação do estado nutricional e neurológico. As alterações mais comuns observadas em pinguins encalhados estão frequentemente atribuídas à Síndrome do Pinguim Encalhado. Entre as manifestações mais recorrentes estão hipotermia, desidratação, lesões cutâneas, parasitismo, perda de peso acentuada e alterações de plumagem que comprometem a impermeabilização (fator essencial para sua sobrevivência no mar). Esses sinais refletem o desgaste extremo sofrido pelos animais durante a migração, tornando o início do tratamento um momento crítico.
Manejo Nutricional
Outro ponto central foi o manejo nutricional, que exige precisão tanto na composição quanto na quantidade oferecida. Gabriela explicou que as dietas variam conforme o objetivo terapêutico: cerca de 15% do peso corporal para manutenção e 20% quando o foco é a recuperação energética ou ganho de peso. Ademais, é de extrema importância avaliar rigorosamente a qualidade do pescado utilizado. Como os peixes são fornecidos congelados, a tiaminase — enzima que degrada vitamina B1 — torna-se inativa, o que exige suplementação rotineira de tiamina para prevenir deficiências nutricionais que podem comprometer o sistema neurológico dos pinguins.
Reabilitação
À medida que evoluem clinicamente, os animais passam para a fase ativa de reabilitação. Técnicas como o uso de banhos controlados e sessões de natação forçada estimulam o preening, comportamento natural de manutenção da plumagem. Esse processo é fundamental para restaurar a impermeabilidade das penas, condição indispensável para o retorno ao ambiente marinho. Durante esta etapa, a equipe também monitora comportamento, mobilidade, resposta ao manejo e capacidade de termorregulação, buscando garantir que os animais recuperem plenamente suas funções naturais.
Necropsias
Por fim, Gabriela Bezerra destacou a importância da necropsia mesmo em centros de reabilitação. Compreender as causas de óbito, identificar padrões clínicos e avaliar falhas de manejo ou impactos ambientais permite aprimorar continuamente os protocolos de atendimento e aumentar o sucesso das solturas futuras.
A reabilitação de pinguins-de-Magalhães exige conhecimento técnico, sensibilidade clínica e uma estrutura integrada capaz de atender desde os cuidados mais básicos até as etapas avançadas de recondicionamento. Sua palestra marcou o segundo dia do circuito ao oferecer um olhar amplo, preciso e atualizado sobre o manejo dessa espécie emblemática, reforçando o compromisso das equipes de fauna com conservação e bem-estar animal.