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Rastreabilidade sob pressão: os desafios da sustentabilidade nas commodities brasileiras

Dados da Rede Simex revela,que 62% da extração madeireira na Amazônia não é autorizada (Foto: Raphael Alves/AFP via Getty Images)

Avanço do desmatamento e da exploração ilegal expõe fragilidades no controle de origem de commodities com carne bovina, madeira e soja; pesquisadores desenvolvem técnicas para comprovar a origem geográfica de commodities e fortalecer a sustentabilidade

Importante liderança indígena do povo Yanomami do Brasil, Davi Kopenawa, ao lado do antropólogo francês Bruce Albert, inicia o livro A Queda do Céu com um alerta sobre o desequilíbrio entre as ações da humanidade e a natureza, reforçando que a preservação das florestas não é apenas uma questão ambiental, mas um compromisso com a sustentabilidade da vida no planeta e o equilíbrio ecológico.

Esse desafio de conciliar desenvolvimento e preservação ambiental também se reflete nos sistemas produtivos, especialmente na agropecuária e no setor florestal, que enfrentam desafios ambientais na busca por práticas mais sustentáveis, sobretudo para reduzir impactos na terra.

Pilar da economia brasileira, o setor agropecuário desempenha um papel estratégico ao abastecer o mercado interno e impulsionar as exportações, o que levanta o debate da necessidade de avançar na integração entre produção, conservação ambiental e soluções climáticas, para preservar os ecossistemas e um clima global estável.

Nesse contexto, a rastreabilidade surge como uma importante ferramenta para fortalecer práticas sustentáveis e assegurar a origem de commodities brasileiras, como carne bovina, madeira e soja, pesquisadas por cientistas do RastreIA.

Com o avanço das discussões climáticas globais, o Brasil ganhou destaque no cenário internacional, passando a ser visto como um país importante para o pensamento de uma economia mais sustentável. Em discussões impulsionadas por eventos como a COP30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), realizada em 2025, em Belém/Pará, o país tem apostado em estratégias para liderar iniciativas ligadas à chamada economia verde, um modelo de desenvolvimento sustentável que busca equilibrar o avanço econômico e a conservação ambiental.

Nesse sentido, pesquisa divulgada pela Rede Simex revelou que 62% da extração madeireira na Amazônia não é autorizada. O estudo mapeou a extração de madeira por meio de imagens de satélite, no período de agosto de 2023 a julho de 2024, cruzando dados oficiais dos órgãos ambientais.

 De acordo com o analista ambiental do Laboratório de Produtos Florestais (LPF) do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), Alexandre Gontijo, para compreender a relação da produção de madeira com o desmatamento, é preciso considerar a própria história do país.

“O Brasil, desde a sua origem enquanto Estado-nação, tem como principal motor econômico a produção agrícola. Passou por um período de industrialização, mas hoje segue sendo um produtor de commodities agrícolas, principalmente de soja e carne. Isso é diretamente relacionado à substituição da paisagem, no caso das florestas, por monoculturas e pasto”, explica Gontijo, em entrevista ao RastreIA.

Gontijo, que trabalha com anatomia de madeiras tropicais para o desenvolvimento de ferramentas e técnicas de identificação e rastreabilidade, também ressalta que o avanço do desmatamento da floresta amazônica, associado à exploração ilegal da madeira, tem se dado com o crescimento de imóveis rurais, “que muitas vezes estão relacionados a processos de grilagem de terra, sendo terras públicas onde há uma fraude envolvendo a documentação daquele local”, completa.

 Ainda segundo dados da Rede Simex, 44% dessa exploração ilegal acontece em áreas protegidas, como territórios indígenas, assentamentos rurais e em áreas de conservação. Para o pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), Dr. Sérgio Raposo, um ponto fundamental nesse debate é a especulação imobiliária. “Algo que liga essas commodities [carne bovina, madeira e soja] à questão de sustentabilidade é o desmatamento. Especialmente porque a pecuária é usada como forma de ocupação de áreas desmatadas ilegais e podem ser seguidas pela produção de soja ou madeira”, reforça.

Estima-se que apenas 20% da madeira de ipê, uma das mais visadas pelo desmatamento ilegal, não está relacionada a atividades de exploração ilegal. Esse percentual reflete uma necessidade urgente de debater não somente ações coordenadas para combater a degradação e o desmatamento das florestas, mas também os desafios socioambientais da produção de produtos de principais commodities brasileiras, como carne bovina, madeira e soja.

Diante desse cenário, pesquisadores do RastreIA também têm trabalhado com técnicas científicas para comprovar a origem de produtos derivados dessas commodities, contribuindo com ferramentas para o combate ao desmatamento e falsificações.

Rastreabilidade científica como caminho para a sustentabilidade

Conhecer a origem do que consumimos nem sempre faz parte das preocupações cotidianas. No entanto, para a ciência, essa informação é fundamental para monitorar os impactos ambientais resultantes da forma como alimentos e produtos florestais são produzidos.

Em entrevista ao RastreIA, a pesquisadora Dra. Gabriela Bielefeld Nardotto do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB), destaca que, ao rastrear a procedência de produtos como carne, madeira e soja, é possível verificar se foram realizadas práticas sustentáveis no momento de produção.

Para a pesquisadora, a rastreabilidade é a determinação de origem geográfica que permite identificar a conservação do ecossistema. “A rastreabilidade tem que estar vinculada com a questão da conservação do ecossistema e da biodiversidade. Porque quando estamos falando de rastreabilidade, não sabemos de onde aquele material que estamos trabalhando veio. Então, primeiro, é preciso determinar que origem é essa, para saber de onde está vindo”, explica Nardotto.

De acordo com a pesquisadora, a rastreabilidade não é somente a determinação de origem, é reconstruir a história do ciclo de vida do animal, por exemplo, com informações sobre o lugar e em que condições foi criado.

“A rastreabilidade da madeira é feita no sentido de vínculo com a documentação de origem de onde ela foi retirada, não é durante o ciclo de vida dela, como no caso do animal.  Então tem que ter o manejo florestal, saber onde ela está, porque, quando começa o carregamento, vai para quilômetros de distância, mas ela foi tirada em outra região”, esclarece.

Amostras de madeira para análise (Foto: RastreIA)

Para o transporte e armazenamento de produtos florestais de espécies nativas, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) exige o Documento de Origem Florestal (DOF), licença para comprovar a procedência legal da madeira. Contudo, fraudes a essa documentação são frequentes e não garantem a veracidade das informações declaradas.

Alexandre Gontijo (LPF) destaca que a madeira é o produto florestal mais explorado no Brasil, que tem a maior biodiversidade de espécies de madeira do mundo, o que dificulta o controle por parte de órgãos de fiscalização. Muitas delas estão ameaçadas de extinção devido a explorações ilegais.

“Esse documento vai descrever qual é a espécie e o local, e acompanha aquela madeira ao longo de toda a sua cadeia de transformação até o consumidor final. Porém, esses sistemas são, na prática, papel ou digitais. E isso é fraudável”, esclarece Gontijo.

Segundo a Rede Simex, 62% da exploração madeireira na região amazônica é feita de maneira ilegal, um número preocupante, segundo Gontijo, pois, além de financiar outros crimes ambientais, como o desmatamento, representa a fragilidade do mercado brasileiro, que segue padrões menos rigorosos que o mercado internacional.

“É muito comum dois tipos de fraudes: a exploração de uma espécie dizendo que ela é outra espécie, ou seja, uma fraude taxonômica. E a outra, que talvez seja até mais relevante atualmente, é a de origem”, completa o pesquisador.

Para contornar essa situação, pesquisadores têm investido na rastreabilidade como uma forma segura de garantir a origem desses produtos, por meio de análises dos seus elementos químicos. “Não é possível você adulterar a composição química da madeira para fraudar a sua origem. Então a rastreabilidade é uma ferramenta de fiscalização e de certificação de origem infraudável”, esclarece Gontijo.

Nesse sentido, cientistas do RastreIA têm utilizado a “impressão digital” química da madeira para identificação de seu perfil multielementar, assim como da carne bovina e da soja, o que permite desenvolver ferramentas capazes de identificar a sua origem e apoiar ações de fiscalização e controle.

Rastros de elementos químicos ajudam no combate ao desmatamento

Determinados elementos químicos presentes na madeira, assim como na carne bovina e na soja, sofrem influência direta das características específicas de cada região, segundo a pesquisadora Dra. Teresa Cristina Pastore, que trabalha com química da madeira no Laboratório de Produtos Florestais (LBF).

Para ela, a importância da rastreabilidade de origem da madeira é evitar que uma espécie seja esgotada da natureza, protegendo, dessa forma, a biodiversidade, e uma gestão sustentável dos recursos da natureza.

Pesquisadores do RastreIA têm trabalhado na determinação da origem geográfica também da madeira, assim como da carne bovina e soja (Foto: RastreIA)

“Para que as próximas gerações tenham o que a gente tem hoje, é necessário cuidar das nossas florestas, e o começo de tudo isso é a identificação correta de cada espécie que está em risco de extinção. Esses métodos que a gente tenta desenvolver e contribuir com a sociedade são muito valorosos, porque vai permitir que você use com racionalidade o nosso bem público, que são as nossas florestas”, destaca Pastore

Pastore tem trabalhado também com a técnica de espectroscopia de infravermelho próximo (NIR), que utiliza radiação eletromagnética para analisar amostras de madeira. “Quando a madeira é transportada, é muito difícil de ser identificada. Ela tem que ser identificada por botânicos ou anatomistas de madeira, por conta que ela está desprovida de qualquer elemento botânico que auxilie na identificação. E o infravermelho, em relação às outras técnicas, vai a campo e sai do laboratório”, explica.

Embora não seja de um método químico, a técnica permite prever a origem das amostras em tempo real, ao comparar, por meio de modelos estatísticos programados no equipamento, as probabilidades associadas ao material analisado.

Técnica do infravermelho próximo tem sido utilizada como ferramenta de rastreabilidade, ao fazer a leitura em tempo real do material analisado (Foto: Rastreia)

“Para a certeza de que aquele resultado é verídico, utilizamos um máximo de amostras possíveis, cerca de, no mínimo, 20 amostras de indivíduos diferentes, tanto de madeira cultivada quanto de madeira nativa”, ressaltam Pastore.

“O ser vivo é o que come”

O avanço da degradação florestal e das mudanças climáticas passaram a afetar não apenas a paisagem, os ciclos da natureza e o solo, mas também a composição química de produtos como carne bovina e soja, evidenciando como o desequilíbrio dos ecossistemas impacta diretamente nas cadeias produtivas.

Dessa forma, a alimentação do gado influencia na sustentabilidade da produção, segundo o pesquisador Dr. Sério Raposo (Embrapa), sobretudo o que o animal come e a água que bebe, por exemplo, o que será a “assinatura” da origem geográfica do produto final. “Há uma frase que “o ser vivo é o que come”, portanto, a nutrição deixa assinaturas. A alimentação impacta à medida que determina, em grande parte, a eficiência da produção”, conclui Raposo.

Ao revelar a origem de produtos como madeira, carne bovina e soja, a ciência amplia as possibilidades de fiscalização e mostra que rastrear essas cadeias produtivas também é uma forma de proteger florestas e promover sustentabilidade. Nesse processo, práticas de manejo adequadas são fundamentais para garantir a conservação ambiental, segundo a pesquisadora Dra. Gabriela Bielefeld Nardotto (UnB). “O manejo florestal adequado, tanto para a madeira, gado ou soja, é o carimbo da sustentabilidade”, enfatiza.

O RastreIA é financiado pela FAPESP por meio do Projeto Temático “Transparência nas cadeias produtivas brasileiras de commodities agrícolas de exportação: Estudo holístico de marcadores elementares e isotópicos” (Processo: 22/12732-5).

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