Nota ProMuSPP – Covid-19
NOTA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM MUDANÇA SOCIAL E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA – ProMuSPP/ EACH – USP
COVID-19 é uma pandemia sem precedentes na história recente e traz inúmeros desafios para as múltiplas dimensões que compõem o mosaico de nossas existências individuais e coletivas, tais como a Saúde, a Economia, a Política, a Educação, a Seguridade Social, o Ambiente, as Políticas Públicas, a Habitação, o Saneamento, a Cultura e todas as demais que poderíamos aqui simbolicamente nominar.
Como pesquisadoras/es do campo da Mudança Social e da Participação Política, sabemos da importância das Ciências, de uma maneira geral, e das Ciências Humanas e Sociais, em particular, para a compreensão da pandemia. Conhecemos as referências e os instrumentos que elas podem nos indicar para enfrentá-la, e a ela sobreviver. Sabemos o quão relevante é considerar, em um momento como este, os números de infectados e de mortos, os medicamentos e os hospitais. Mas também sabemos, e temos por dever de ofício apontar, que este cenário está visceralmente ligado às pessoas, suas comunidades, seus grupos, instituições e seus arranjos sociais, que buscam, oferecem e demandam respostas que muitas vezes se distanciam das abstrações dos números epidemiológicos, pois a pandemia global se concretiza nas realidades e diversidades locais, em suas particularidades socioculturais. E este é um imbricamento micro e macro analítico que não podemos ignorar, e que passa pela análise de categorias analíticas tão caras às ciências que produzimos, como, por exemplo classe social, etnia, gênero, geração e nacionalidade. O vírus pode até atingir todas as pessoas, mas a vulnerabilidade, a dor e até mesmo a letalidade, são diferentes e agudamente afetadas pela desigualdade e pela injustiça social.
No caso da Universidade de São Paulo, tanto na graduação como na pós-graduação temos observado esse impacto diferenciado na comunidade, particularmente nessa obsessão de continuidade que impôs um ensino remoto e improvisado, no lugar dos cursos presenciais que havíamos planejado. Com isso, parte da Universidade até se deu conta das diferenças de classe aqui existentes. Mas reduziu essa percepção a um problema técnico de acesso a computadores, redes e chips. Sem dúvida, tais preocupações são fundamentais, mas insuficientes diante de um olhar ampliado para a pandemia, que deveria não só considerar as condições de desigualdade com que ela nos confronta, mas considerar também a profunda alteração que produziu nos modos de vida e na sua organização cotidiana.
Há impacto econômico, social, relacional, político, subjetivo no período de isolamento e no assombro trazido pela pandemia, mas em última instância o que a pandemia faz é agudizar uma vida já comprometida por relações e condições desiguais produzidas pela sociedade, que desde antes da pandemia disseminava as perversidades de uma necropolítica para amplos setores dessa sociedade.
No caso da USP, direcionados pelo lema de uma campanha — “A USP não pode parar” –semelhante àquelas que, diga-se de passagem, já fracassaram em inúmeros lugares, impomos uma falsa normalidade a milhares de discentes, funcionárias/os, ignorando as pessoas que, por diferentes condições (econômicas, sociais, familiares, emocionais, habitacionais etc.), não conseguem e/ou não podem segui-la.
Ações que podem contribuir para o enfrentamento da COVID-19 e para o cuidado com as pessoas são fundamentais. Desconsiderar, porém, o emblemático momento histórico e existencial que vivemos é abraçar uma negação que forja uma normalidade inexistente.
Neste cenário, as desigualdades que atingem a vida, atingem a morte também. A Universidade tão preocupada em “mostrar serviço” atende pontualmente uma ou outra demanda (como no caso do CRUSP, ou no caso dos chips para estudantes) mas não tem nem uma visão integral, nem antecipatória do contexto de crise.
A USP apoiará as pessoas que adoecerem? E como lidará com as que morrerem? Qual é o comitê de crise que abordará as questões sociais, subjetivas e materiais atreladas ao adoecimento e à morte? Ou ao medo vivido pela comunidade? E à dor vivida pela comunidade?
Não existe hoje na Universidade um suporte financeiro para as famílias das/os que morrem. É o que nos mostrou a experiência do nosso colega funcionário da EACH, cuja família, sem posses não recebeu nenhum apoio institucional para o sepultamento. Novamente a USP fica diante da sua desigualdade, professores tem possibilidade de auxílio funerário, funcionários não. E as/os estudantes e suas famílias, ao que tem direito?
Tal desigualdade também é observada no modo como as/os funcionárias/os terceirizadas/os são tratadas/os.
Amparar emocionalmente e materialmente todas as pessoas que integram sua comunidade é dever de nossa instituição.
Se tudo é difícil e desafiador, temos que aprender e algo deve ser pensado neste momento de crise. Pensamos que um comitê de crise mais plural, com sindicatos e representação estudantil, bem como a criação de um fundo para auxiliar as famílias dos mortos, é algo fundamental para a construção de caminhos diante da pandemia. Estamos apenas no início de uma longa caminhada.
Achille Mbembe num belíssimo texto no qual faz uma análise da pandemia comenta:
Antes deste vírus, a humanidade já estava ameaçada de asfixia. Se tiver de haver guerra, deverá ser, em consequência, não contra um vírus em particular, mas contra tudo o que condena a grande maioria da humanidade à paragem prematura de respiração, tudo o que ataca fundamentalmente as vias respiratórias, tudo o que, na longa duração do capitalismo, confinou segmentos inteiros de populações e raças inteiras a uma respiração difícil, ofegante, a uma vida pesada. Mas para daí sair é preciso ainda compreender a respiração, para lá de aspectos puramente biológicos, como aquilo que nos é comum e que, por definição, escapa a qualquer cálculo. Falamos, assim, de um direito universal de respiração (Mbembe,2020).
Antes da COVID-19 o capitalismo, nas suas mais variadas formas de manifestação (que de leste a oeste assenhoraram-se do planeta), já asfixiava os direitos humanos, e o que temos neste momento é a interpelação sobre a própria capacidade de permanecermos respirando, com ou sem respiradores.
Enquanto respiramos, convidamos toda a comunidade a refletir sobre a necessidade de cuidado integral com dignidade e honra para aqueles que diante da tragédia não respiram mais e não podem estar aqui conosco.
Neste momento, estas são as discussões que para nós importam. Se vamos ou não cumprir os programas de curso, que pensávamos em dar antes da suspensão das aulas e nos conscientizarmos da situação com que essa pandemia nos defrontou, isso pode esperar.